Mostrar mensagens com a etiqueta Verão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Verão. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, julho 26, 2007

Vida (os ninhos do Verão)


Salvo dúzias de passarinhos caídos, assustados, recém-saídos dos ninhos, batendo num primeiro voo contra os absurdos vidros das lojas e casas. Recolho-os tão leves, miúdos, macios e mornos; os coraçõezinhos batem tão aflitos na palma da minha mão ao devolvê-los aos segundos voos que mal sabem voar.


quarta-feira, julho 04, 2007

Querem a brasa a arder


Ouço queixarem-se do Verão.
Para mim, estamos no Verão.

Parece-me que se confunde calor ardente e Verão; e que se gosta de sofrer - é isso.
Estão desejosos dos 40º. De não poder andar lá fora ao sol, de reclamarem que não se pode dormir em casa nem na rua, nem respirar, e que já não há água nas barragens, e mais os fogos.
Ninguém quer um verãozinho ameno como no norte da Europa. Um verãozinho doce e sossegado.

Para daqui a poucos anos, as mudanças climáticas anunciam o clima do Norte de África a bater-nos à porta. Haverá, então, um grande, longo, mortal Verão para todos.

terça-feira, agosto 01, 2006

As solidões de Agosto

Foto de E.Fergeinst, 1955

Para começar.
Conheço a solidão dos citadinos de Agosto. O nada interessa de Agosto. O estar calado, o dormir até tarde, indiferenciando o dia e a noite de Agosto.
O vazio de ruas onde homens e mulheres respiram próximos e longínquos, sem se interpelarem, sem vontade, pensando, “a tua solidão é igual à minha”. Sem desgosto.
Os outros partiram para solidões colectivas do estio, mas não os citadinos de Agosto, de livros sérios, e cadeiras a mais na mesa da esplanada; uma bica já bebida, um copo com restos de espuma, uma lata tombada de Ice Tea Gree. Cínicos. Sarcásticos em excesso. Narcísicos.
Os cafés habituais vazios. Os museus e cinemas como um faroeste. Fechado. De férias. Voltamos a 1 de Setembro.
Alguns velhos pela tarde. Mulheres nas padarias, logo de manhã. As impensáveis praias apinhadas.
As solidões de Agosto são mais sós. Eu sei. Eu sei. Reconheço a solidão dos citadinos de Agosto. Conheço, é isso; conheço, sim.

Para começar. Esperar Setembro: comprar os primeiros cadernos e lápis, apreciar os solitários colectivos que chegam bronzeados e cansados, com fotografias ridículas e histórias ainda mais deprimentes; mas nunca os solitários citadinos de Agosto, vitoriosos de nada.
Em Agosto, dormir.


sexta-feira, julho 28, 2006

Uma fada na cozinha, eu disse fada...

No Inverno, como não azedam, vou-me desenrascando com as sopas: um panelão de 4 dias em 4 dias, e almoço no refeitório do emprego.
Leitinho com café, com cevada, com cereais; uns pêros, umas bananas... passa-se.

Chegado o Verão quem é que aguenta as sopas? O caldo muito quente pelo gorgomilo abaixo, uns calores que chegam das vísceras...
Não se pode.
Adapto, então, os meus dotes culinários à época, e não quero deixar de partilhar convosco tanta sabedoria pantagruélica.
Por exemplo, almoço: quartos de tomate cru com umas pedrinhas de sal, e quadrados de queijo fresco. Tudo misturado numa gamela.

Jantar: bocadinhos de maçã com casca, todos cortadinhos, com iogurte de qualquer coisa. Tudo misturado numa gamela.
Almoço: lata de feijão frade com atum migado mais cebola e salsa. Na gamela.
Jantar: ovos mexidos com queijo, acompanhados de melão e cenoura, tudo cortadinho e misturado numa gamela lateral.
Exemplo de prato já muito complicado, que não sei se estará ao vosso alcance: põe-se ao lume um panelão com cebola, alho francês e montes de limões inteiros, com pele, tudo cortado aos bocados, ajunta-se-lhe um frango todo partidinho, sal, um bocado de água e azeite, tapa-se e deixa-se estufar até cheirar a estufado.
Feito, dá para misturar com tudo: frango estufado à limão com arroz e passas mais alface; com massa e coentros, temperado de azeite; desfiado com pepino e queijo flamengo, mais uns fiapos de pêssego de roer.
E pronto, faz-se o Verão até voltar ao ramerame da sopa.

Este poste deve-se à Joana Rita que me disse que para arranjar marido tinha de escrever sobre os meus dotes culinários, pelo que estou a apostar tudo nisto.

sábado, julho 15, 2006

Julho


Sarah Lamb

Jarros de barro cheios de limonada muito fresca, logo de manhã, com polpa da fruta ainda trincável, turvando a água; e rodelas inteiras do fruto, e outras aos quartos, mais as cascas, e folhinhas de menta esfregadas primeiro entre as mãos. E duas, só duas colheres de acúcar. Gelo moído, gelo partido, cubos de gelo.

quinta-feira, julho 13, 2006

Bendita terra

Sheludyakov, Still Life with water-melon, 2002

Comprei um melão gordo.
Cravei-lhe a lâmina até ao coração; rasguei-o de alto a baixo, até ouvir ploc, e alargou-se, aliviado. Respirou fundo, mostrou-se. Estava parido para a minha sede; tínhamos fome.

A fruta tinha carne tenra e escorria água.
Cheirou-me à vida fechada no útero. Uma baforada de sol e humidade; o ar fresco da manhã, quando ainda não saímos, ou ao fim de tarde, quando tudo se queimou já, mas a terra arrefece e respira.
Cheirou-me ao que está vivo e assim permanece, cravadas lâminas nos corações.
Cortei a fatia e abocanhei-a pelo meio, atravessando o verde, o amarelo e o laranja claro, sujando a cara de água doce, como uma criança; e soube-me a canela e a gengibre; a mel polvilhado duns poucos grãos de pimenta e meio olho de cravinho. Baunilha, um ínfimo, diluído na água do ribeiro. Portanto, também hortelã e erva fresca como nota de fundo.
Água, ar, noite, dia, mãos, pés. Excremento seco e terra. Saboreei tudo ao mesmo tempo, com os olhos fechados.

Depois tive sono.
Eram catorze horas.
Dormi a sesta e sonhei com rosas vermelhas e brancas que recolhia do chão a medo. Algumas estavam desfolhadas e as mulheres tinham-nas pisado; eu temia as mulheres.
Não sonhei com melões, e preferia.
Isto foi hoje.

segunda-feira, maio 29, 2006

Esperei todo o dia pela noite

Os dias varados pelos ruídos da rua: buzinas que chamam alguém, insultam alguém; ambulâncias que levam mais um; os que sobem e descem, infelizes; as crianças que gritam por nada, dentro e fora de casa, do carro, do café, da escola; os gritos de todos ao mesmo tempo, em todo o lado, a mil quilómetros de distância; os cães que ladram enervados; o chiar dos travões no alcatrão; as motas sem escape que explodem a cada arranque; a capa de açúcar do gelado que ouço quebrar-se contra os dentes de uma jovem namorada, na esplanada; as garrafas de cerveja partidas e os gritos altos do subúrbio, como num espancamento; o suor excitado, sem explicação; a ânsia, a ânsia de qualquer coisa ainda inteira, qualquer coisa um bocado melhor.
Poder entardecer em casa esperando o silêncio da noite alta. Muito oxigenado, o silêncio, flutuando na noite quieta.

quarta-feira, abril 12, 2006

Vista alegre

O ramo de flores mais alegre que já tive foi o que acabei de compor com malmequeres selvagens, brancos e amarelos, que colhi no baldio em frente, e coloquei, ralos, numa jarra baratucha de louça azul.
Não pretende ser nada, nem sequer um ramo de flores. É o mais simples. É perfeito.

quarta-feira, julho 27, 2005

O que se acalma

O céu fica negro, ao fim da tarde, e sabe bem regressar a casa.
As paredes arrefecem subitamente, e consigo, de novo, respirar, sossegar, adormecer guardada no morno da tua pele .
Nas abertas do aguaceiro forma-se um ligeiro vapor sobre os telhados. Tudo, tudo se evapora. O cansaço dos dias seguidos em que o alcatrão derreteu sob os meus passos e o ar me sufocou de odores opacos, evapora-se.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...