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terça-feira, março 07, 2017

O novo mundo

Thomas Beatie


O que perturba o meu olhar nas imagens do homem-grávido? A extrema beleza do seu rosto, encimando um corpo de homem muito redondo e grávido; as cicatrizes visíveis no lado esquerdo da barriga e sob as mamas; o tamanho da barriga ampliado pela ausência das mesmas. A gravidez que me foi vedada.

A natureza é caprichosa. Tem o seu feitiozinho. Permite que um útero atrofiado pela testosterona possa hospedar um feto, e bem, e pari-lo. No entanto, mulheres jovens submetem-se a violentos tratamentos hormonais e não conseguem manter os embriões nelas colocados através da fertilização in vitro, e mulheres de todas as idades, com aparelhos reprodutores aparentemente normais, não conseguem reproduzir-se através da abençoada fornicação regular.

Thomas Beatie inseminou-se caseiramente com esperma encomendado via net, mais a ajuda da esposa, e o sucesso está à vista. Venham cá dizer-me que Deus Nosso Senhor está contra as mudanças de sexo. É evidente que se está nas tintas! Eu nem imagino o que é que a Igreja Católica fez com este caso! Excomungou a mãe, que também é pai, porque transgrediu as leis divinas ao mudar de sexo? Parece-me lógico. Mas terá, igualmente, de o abençoar pelo milagre da maternidade. Todas as mães são iguais para a benção do Senhor! Enfim, tudo isto me comove tremendamente.

Já todos percebemos que não somos livres. O fascismo rodeia-nos, transcendendo a esfera política. O social é fascista. Andamos todos a toque do que os outros decidiram, não sabendo quem, nem porquê, pelo que a liberdade individual é mais difícil de alcançar que sete medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos. Construímos toda a nossa vida sobre estes princípios segundo os quais se espera que vivamos, porque é assim, é assim que é, e não se discute.

Eu, muito sinceramente, para ser livre necessitava que a minha mãe, os meus amigos, os meus colegas de trabalho e os meus vizinhos me deixassem. E, simplesmente, não deixam. Tenho a obrigação de corresponder ao que esperam de mim. A uma ideia de mim. Há regras. Tenho de me pentear (não penteio), não rir alto (rio como me apetece), fazer afirmações inteligentes e sérias (adoro dizer disparates), não saltar dos eixos (não consigo manter-me neles por mais de 6 horas seguidas). De alguma forma, defraudo sempre as expectativas de alguém.

As pessoas têm sempre a sua opiniãozinha sobre a vida alheia. Por exemplo, à D. Vitória, vizinha da minha mãe, incomoda-a bastante que eu tenha agora duas amolgadelas no carro. No meu carro. As minhas amolgadelas. E isto são coisas vulgares. Imagino se me desse para aparecer lá no prédio com um namorado negro ou uma namorada branca ou, meu Deus, se dentro dos limites do que é a minha esfera de liberdade individual, eu tivesse compreendido, a certa altura, que tinha de mudar de sexo biológico. Haveria uma certa lutazinha a travar!





A vida dos outros constitui sempre uma grande história. Casamentos, divórcios, nascimentos, tudo bem desde que dentro das regras. O que as transcende é pecado, aberração, doença ou não parece bem. Nunca se trata apenas da nossa vida, assunto que nos cabe só a nós, e que não interferindo no percurso dos outros, se encontra dentro do chamado limite das liberdades individuais. Dou um exemplo: é-me permitido realizar operações plásticas e mudar completamente o meu aspecto. Posso aumentar as mamas, diminuir o rabo, transformar o nariz, tirar a papada, aumentar a testa, diminuir as orelhas, esticar a barriga, subir as bochechas, pálpebras e sobrancelhas, aumentar os lábios, delinear a cintura, arrancar verrugas, repuxar os olhos à chinesa, tirar os joanetes, enfim, escortanhar-me toda. Tenho essa liberdade. É um direito que me assiste. Agora o que não me assiste nada é querer mudar de sexo. Trata-se igualmente do meu corpo e da minha mente, mas se pretendo mudar de sexo, é certo que partirão do princípio de que padeço de uma patologia mental gravíssima e mo proibirão. Em Portugal, e em muitos países, é assim. Sou culpada antes de ser inocente. Tenho de ser o que os outros acham que devo ser. É por isso que não somos livres. Na verdade, uns mais, outros menos, nunca somos só o que desejaríamos ser.

A mim basta-me que alguém se sinta um homem ou uma mulher para que o seja. Quem sou eu para duvidar do que sentem profundamente os outros relativamente à sua identidade de género ou sexual? Quem sou eu para impor a outros uma experiência humana que os repugna, que não lhes pertence?





Os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos são mutáveis e aleatórios. Dependem da época, cultura e estádio socio-político do sistema no qual vivemos. Um transsexual grávido é motivo de grande perturbação social, hoje, mas daqui a umas décadas nada obstará a que homens como Thomas Beatie se candidatem a barrigas de aluguer. Nos anos 60, uma mãe solteira era uma pária social. As raparigas que engravidavam iam parir longe, dando os filhos a criar a amas. Isto, se tivessem de seu. Caso contrário, havia sempre a roda dos enjeitados.

Agrada-me a desorientação dos momentos de convulsão social, os conflitos de identidade pessoal, cultural, política, religiosa. Predomina um sentimento de perda, de insegurança; é necessário prover às necessidades de sobrevivência básicas; tudo corre num turbilhão e parece que o mundo se perdeu. É o Apocalipse. É de facto o Apocalipse, porque algo morre, enquanto algo nasce. São alturas propícias à alteração de convenções, de visões do mundo. Ao longo da história da humanidade, sucedem-se épocas de mudança que implicaram uma grande violência. Foram momentos de progresso mesmo quando se basearam em algo indiscutivelmente mau. As cinzas dessa morte fertilizaram a germinação de novos filhos. Há um processo de água e fogo encadeados, que se apagam e ateiam sucessivamente, se infectam e purificam, e constituem um contínuo de progresso.

O caso dos transsexuais grávidos - nos EUA, agora em Espanha, interessa-me muito. Constitui uma revolução na forma de encarar a família e a procriação, porque permite separá-las. Aliás, a taxa de natalidade do mundo ocidental precisa desesperadamente desta separação. Interessa-me que o transsexual americano nestas imagens, e que já se encontra grávido do segundo filho, seja a mãe biológica da criança que pariu, bem como seu pai afectivo. Interessa-me que a criança não tenha qualquer ADN da mãe afectiva, e que não se faça a menor ideia sobre quem é o pai biológico. Estes acontecimentos põem-me perante a realidade de uma cultura em mudança, e de relacionamentos que se baseiam em verdadeiros laços afectivos, os quais transcendem os antigos laços de sangue, tão inseguros quanto estes.




O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...