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terça-feira, janeiro 27, 2009

Tenho um pó aos Portugueses

Foto: Koudelka, 1976

Marcelo Rebelo de Sousa, opinou, a propósito do caso Sócrates/Freeport, que o Primeiro-Ministro saía chamuscado de todas estas suspeições.
Eu tenho muito mau feitio. Embora seja uma santa duma mulher, tenho um feitio que não desejo a ninguém, e o meu feitio está aqui a dizer-me que nesta altura do campeonato governativo, Sócrates não está chamuscado, porque o homem já se transformou numa pira funerária das que se ateiam para queimar corpos, na Índia. Nunca um Primeiro-Ministro tinha acumulado tanta acusação de corrupção, nas suas diversas vertentes, como este cidadão aparentemente exemplar, barbeado e lavadinho. E continua por aí em pé, auto-elogiando-se com veemência, algo que sabe fazer na perfeição. Noutro país da Europa...
Ocorre-me dizer que em Portugal não se chega a cargo nenhum sem cunha, sem amiguismo, sem uma palavrinha, sem um telefonema, e que Sócrates é apenas um entre muitos. A grande corrupção, no nosso país, e a pequena, são uma filosofia de vida como acreditar no Senhor e casar na Igreja, porque assim fizeram os nossos pais. Arranja-se sempre qualquer coisinha para alguém: uns cargos, uns terrenos em área protegida. Tudo é possível e a gente sabe que é assim. A voz do povo sabe-o.
Por exemplo, ocorre-me perguntar, para onde foram os boys e girls que trabalharam no anterior ministério de Maria de Belém, que se não me engano era para a igualdade? Estão no desemprego? Não?! Arranjaram cargos em empresas públicas e privadas?! Como?! Candidataram-se, entre outros?! Abriram concursos internos e externos e concorreram ao abrigo da Lei?! Foram publicitados os referidos concursos?! E caso estejam todos empregados, já agora gostaria de saber como são avaliados, que eu desde a polémica avaliação dos professores passei a ter muito interesse sobre a avaliação de todos os funcionários necessários ao Estado: como são avaliados os senhores deputados, funcionários de ministérios, funcionários judiciais, polícias, militares, médicos e enfermeiros, assistentes sociais, funcionários da segurança social, bombeiros assalariados e por aí adiante? Tenho aquilo a que se poderá chamar uma curiosidade mórbida.
Hoje, na Antena 1, num fórum que dá pela hora de almoço, meia dúzia de portugueses fiéis à cobardia, diziam ao repórter encarregado pela emissão, "deixem o senhor Sócrates governar; já é tão difícil governar uma casa quanto mais um país!" "O senhor Sócrates é que sabe, e o que ele está a fazer, mesmo que não concorde com algumas políticas, é para nosso bem! Porque se ele lá está é porque sabe o que está a fazer".
Santa ignorância provinciana, com todo o respeito pela província. Fiquei com a impressão que aos portugueses não interessa muito quem está no governo, o que interessa é que os faça sofrer, que lhes tire tudo, começando pela dignidade. E claro que compreendo, ao escutar a vox pop, como foi possível manter a ditadura, e como seria possível instaurar agora outra. Os portugueses querem-no. E eu, sinceramente, tenho pena que não se possa partir o país em dois e deixar com Sócrates os que são de Sócrates, de preferência todos concentradinhos na praça de touros do Campo Pequeno... para se resolver, finalmente, de uma vez por todas, o problema da robotização.
Não sei como é que fui nascer portuguesa. É karma pesado. Eu que tenho um pó à cobardia geral, à dos portugueses em particular, à sua pequenez, pequenininha, muito inha. Eu que lhes tenho um pó que nem sei como poderei enfrentá-los amanhã na rua. Os cabrõezinhos pequenininhos. Todos.

domingo, janeiro 04, 2009

Reclamação I

O Museu das Comunicações, em Lisboa, encontra-se aberto ao Sábado, mas com a loja fechada, e não existindo funcionários disponíveis para cumprir os serviços mínimos, nomeadamente vender o catálogo da exposição temporária.
Ontem, um amigo estrangeiro que visitou a exposição "Caligrafias", e pretendia adquirir o referido catálogo, por motivos relacionados com estudo, regressou ao país de origem com as mãos a abanar. Já nem me preocupa a imagem de Portugal para quem nos visita. Trata-se de uma questão utilitária: aos organizadores da exposição não interessa vender um catálogo que deve custar bom dinheiro?

quarta-feira, novembro 12, 2008

Não vivemos em democracia


A democracia não funciona. É grave termos chegado ao século XXI com um sistema governativo que continua a não saber representar aqueles que o elegem, e que permite que pelas falhas mal vigiadas da sua tessitura penetre toda a espécie de aldrabões e caciques. O que se passou a semana transacta no parlamento da região autónoma da Madeira é a prova de que a democracia é um sistema frágil, facilmente usurpado pela autocracia. Numa democracia genuína, Alberto João Jardim e os seus partidários nunca teriam permanecido tanto tempo no governo. Numa democracia genuína não seria possível eleger como deputado um individuo chamado José Manuel Coelho, que até possui uma bandeira do partido nazi para chamar aos outros... nazis. Numa democracia que repressentasse efectivamente a voz do povo, e os seus anseios, um ministério teria obrigatoriamente de rever uma política na qual não se revêm 80 por cento dos seus funcionários. Uma ministra da Educação cega aos protestos da quase totalidade dos funcionários do seu ministério não destoaria no governo do Dr. Salazar, se vivêssemos nesse tempo e contexto, e nesse caso não estranharíamos. É que nessa altura não tínhamos uma democracia. Ou tínhamos? Sinceramente, tenho cada mais dificuldades em perceber a diferença. É por isso que me parece que a democracia não está a funcionar.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Troco 10 milhões de portugueses

A quem interessar, declaro-me disponível para colaborar em acções que visem a entrada ilegal, nesta choldra, de imigrantes de qualquer nacionalidade, vindos de choldras piores, por via marítima, aérea ou terrestre. Desloco-me em viatura própria. Preferência em horário pós-laboral ou fins-de-semana. Levo cobertores, roupa em segunda mão, farinha Nestum e bilhetes de identidade falsificados. Não estou a brincar.


terça-feira, dezembro 11, 2007

Penélope de Natal

Todas as varandas do meu bairro se enchem de estrelas ou espirais ou Pais Natais luminosos made in China, mais gambiarras em tubo, tudo pisca-piscando nervosamente. Dispõem-nas sem planeamento algum: caoticamente enroladas, ou muito esticadas, ou simplesmente caídas como moribundas lombrigas enforcadas, perdoe-se-me a imagem. A ideia é ostentar, perdoe-se-me o verbo, umas luzes exteriores exactamente iguais às que os outros têm. Porquê? Porque os outros têm. Qual o objectivo? Os outros terem. Que necessidade pretendem satisfazer? Ter como os outros.
Penso nisto, e em tantas outras coisas, e chego à mesma conclusão de sempre: podia ser tudo tão mais fácil se cá andasse apenas por ver andar os outros, como qualquer pessoa normal, e me sentisse sumamente feliz enrolando lombrigas luminosas no estendal da roupa.


sexta-feira, julho 20, 2007

Paulinho agradeceu submarinos a Nossa Senhora de Fátima

(Roubei-a num blogue muito giro, cheio de montagens deste género. Não me lembro do nome do blogue nem dos bloggers. Espero que estes não se chateiem comigo. Já tenho isto guardado há uns tempos, esperando uma oportunidadezinha.)



Não sei quê da negociata de uns submarinos, por valores altíssimos, serve para beneficiar um partido ao qual pertence o ex-ministro da Defesa... Milhão e não sei quanto de euros numa agência do BES, gota-a-gota, periodicamente... pagamentos chorudos, coincidentes com a entrada de fundos... o homem está a reflectir... os outros estavam agarrados ao poder... ele é um mãos largas... Quer dizer, os meus impostos serviram para financiar o CDS-PP. Como é que um de país de corruptos mafiosos, todos em fila, entretidos num comboizinho que chega ali abaixo a Corroios, pode medrar? Isto não se arranja; isto não se arranja.

quinta-feira, abril 05, 2007

Yo no hablo portugués, pero mismo que hablasse...

Noventa cêntimos é o preço de um jornal diário português, num dia útil. Em Espanha, o El País, ou o El Mundo, custam, de segunda a sexta, um euro cada.
O Diário de Notícias vendido em Espanha custa dois euros, mas pelo El País comprado em Portugal damos 1,35 cêntimos.
O salário mínimo português foi este ano fixado nos 416 euros; em Espanha são 526; em Espanha, é baixo, todos concordam, para não falar nos jornais, caríssimos!

quinta-feira, março 22, 2007

Portugal: fase anal



Vivemos anestesiados pelo futebol, pela humilhação laboral, pelas exigências de filhos cuja auto-eleição enquanto reis e rainhas tolerámos até à remediação impossível, e, em última instância, pelo ansiolítico nosso de cada dia; com frequência, assisto à congregação dos três aspectos na mesma filial - e tenho pena.

A anestesia permite-nos sobreviver a períodos dolorosos, mas o entorpecimento embarga a consciência, logo, a vida plena. Por este motivo, a anestesia sempre agradou muito aos poderes que não pretendem ser contestados. Em Portugal temos muito disso.
Anteontem, assisti, pela televisão, ao momento de interpelação ao primeiro-ministro da deputada Heloísa Apolónio, dos Verdes. Sócrates ignorava o discurso da deputada, minha representante naquela Assembleia, olhando para o tecto, realizando exercícios para descontrair o pescoço, e conversando com os colegas de carteira. Se Sócrates fosse aluno da escola pública, talvez levasse recadinho para casa, na caderneta, se a tivesse trazido na mochila. Um poder que não ouve nem quer ouvir os representantes da população que governa, que se limita ao frete de estar presente para cumprir a Lei, não está interessado senão em beneficiar-se, e aos seus afilhados, e bem merece participação disciplinar, seguida de suspensão, até decidir mudar as atitudes, as quais, como se sabe, têm hoje grande peso na avaliação. Heloísa Apolónio falava exactamente sobre afilhados do governo, os quais auferem salários mensais de 4500 contos pagos pelo contribuinte que ganha 80.
A vida em Portugal é dura. Não conseguimos manter a esperança, e mantê-la conta muito. Quando há esperança consegue-se um sorriso, mesmo que o salário seja curto; há vontade de agir, de prosseguir. Quem perdeu a esperança alheia-se. Não há novidade nisto. Para quem perdeu a esperança é indiferente que se corra para a esquerda ou para a direita.
A falta de esperança inibe-nos, prostra-nos a um pessimismo existencial. A quem perdeu a esperança resta-lhe viver "todas as experiências", "cada dia como se fosse o último", "um dia de cada vez", e só esse dia, nada mais. Resta-lhe oscilar entre o estímulo sensorial de alguma dor auto-mutiladora e o prazer imediato do consumo e do sexo, grande anestésico - afinal estou vivo, afinal sinto. Para os desesperançados, as manifestações são chatas, as vigílias também, bem como a defesa argumentativa de valores, de pontos de vista. Que valores?! Tudo isso exige confronto, desconforto. É neste ponto que nos encontramos: se perdemos a esperança, vivamos sensorialmente o que perdemos em ideia e espírito, porque ainda estamos vivos, e, quanto a isso, nada a fazer; se já ninguém nos pode valer, nem a sociedade nem Deus nem o sonho, façamos piercings, tatuemo-nos, realizemos essa espécie de auto-mutilação consentida, que dói tanto, mas sabe e fica tão bem, que assinala em nós uma diferença visível. Não pertencemos ao rebanho. Algo nos marca para sempre, e não muda, não nos abandona, que bom! Finalmente, a eternidade, uma certeza!




Se perdemos a esperança, gozemos o dia e forniquemos criativamente. Fornicar é viver. Melhor, a fornicação é uma arte! Nunca antes ouvi, tão amiúde, enunciados deste teor. Todas as semanas leio na Maria conselhos sobre a arte do fornicanço. A Maria é uma publicação destinada à classe média e baixa menos escolarizada, e eu sei que sou a única pessoa com mais de nove anos de escolaridade que assume o prazer desta leitura. Mas, caramba, a Maria liga-me ao mundo! A Maria, o café, a esplanada, as salas de espera, a publicidade e a TV Cabo. Acompanhar a involução da Maria ao longo das últimas três décadas merece estudo sério. A Maria reflecte a mundividência dos leitores, e, ao fazê-lo, também a reforça. Eu não usaria nenhuma outra publicação para compreender a cultura portuguesa.
Eu e a minha prima afastada, tentando compreender tais fenómenos de massificação sexual, passámos uma noite recente na maior risota, tentando simular, sobre o tapete da sala, a posição do carrinho de mão, que tínhamos acabado de ver num programa de um canal espanhol, sobre o Kama Sutra, esse outro grande best seller editorial. Não tivemos sucesso. Chegámos à conclusão que para mimar o carrinho de mão teremos de concluir, antes, uma licenciatura em Educação Física! É mesmo precisa muita arte! Assim não dá!
No passado Domingo, a Cidália, de O Sexo e a Cidália, dedicou a sua crónica, na NS, ao sexo anal, intitulando-a O Túnel, e defendendo que quem faz a lei somos nós, e, já agora, quase todas são para infringir. No Diário de Notícias, os classificados da secção Relax são agora ilustrados com fotos coloridas de rabos femininos diversos. Na FNAC, os expositores dedicados à literatura erótica acumulam livros escritos por prostitutas com blogue. Jovens razoavelmente educadas, que, compreensivelmente, não estão para se levantar às sete da manhã, e ser mal pagas, montando negócio por conta própria, em casa, e descrevendo, on line, as suas experiências com os clientes. Não escrevem mal de todo, e, uma das autoras, Paula Lee, pede aos clientes o favor de a deixarem ir teclando no portátil enquanto a sodomizam. É também especialista no uso de cinto com dildo, com o qual os penetra. Declara ao Público de 26 de Fevereiro, Muitas vezes eles querem com força e eu acabo por os magoar a sério. Não tenho culpa. Eu não sou um homem e aquilo não fica propriamente duro... (...) Mas em nenhum destes casos o cliente se tornou violento. Não que se tornem menos másculos por estarem a ser penetrados. "De início, eu pensava que eram efeminados, gays. (...) Mas não. Comportam-se como homens. Às vezes lá soltam um gritinho efeminado. Mas é raro."




No tempo em que vivemos, a enorme procura de estimulação e anestesiamento sexual, sensações fundentes, simultâneas, e a consequente oferta de serviços modernizados, nos quais o cliente não se sente um criminoso, muito pelo contrário, porque a prostituta afirma fazê-lo para seu prazer e ganho pessoal, gerou um fenómeno de branqueamento do que constitui a natureza da prostituição. A prostituição tornou-se, assim, uma actividade como qualquer outra: as prostitutas não temem dar a cara em jornais e badanas de livros, não se imaginam noutro ramo de actividades, e afirmam ter muito prazer. A prostituição, afinal, é bestial!
Sexo é a palavra que regista mais buscas no Google. Tornou-se uma palavra poderosa, capaz de vender tudo, e gerar capital. A publicidade explora o filão dos preconceitos e medos sexuais para promover seja o que for. A título de exemplo, o texto mais visitado deste blogue chama-se A cona das pretas, e, infelizmente para quem o procura via Google, às dezenas, todos os dias, versa comportamentos sociais de uma certa classe de ex-colonos. Deve ser frustrante encontrar título tão estimulante para assunto tão enfadonho.
A justiça e a liberdade podem falhar-nos, mas o sexo é certo. No sexo há libertação, e a sua prática realiza a justiça do gozo que precede a negação. O culto da sexualidade, acima do respeito por valores humanistas, encontra justificação na satisfação de que se tornou única e potencial fonte. Os valores humanistas são-nos esmagados na cara todos os dias. Entre solidariedade ou sexo a escolha acaba por não ser muito difícil.



A sexualidade é efectivamente poderosa, porque nos liga uns aos outros, nos forma e completa, porque sabe bem, mas o marketing do sexo alternativo, acrobático, do sexo lazer, mostra-no-lo como princípio de fim de todas as compensações. Se nada pode compensar-nos tão satisfatoriamente, como poderemos esperar que alguém sinta motivacão para o envolvimento em causas sociais ou políticas?
O sexo endeusado pode corporizar um acto de mutilação e castigo. Deus dá, mas Deus castiga/tira. Considero que a actual apetência por práticas de estimulação anal revela uma tendência social auto-mutiladora, com paralelo no fenómeno das tatuagens, piercings, anorexia, bulimia e obesidade mórbida. Damos as boas vindas ao prazer máximo, ao que se confunde na dor. Aprendemos a gostar da dor, porque o prazer não nos basta. Não temos nada, não somos nada, queremos tudo. Consequentemente, comportamentos sado-masoquistas de carácter sexual, e outros, generalizados, têm vindo a ser legitimados socialmente - lembro o cartaz da Moda Lisboa, que aqui postei há cerca de uma semana, a propósito da revista Dif.
A sexualidade aproxima-se vertiginosamente da escatologia, e um culto tão intenso de uma ideologia baseada na escatologia e na escarificação revela um niilismo incompatível com a defesa de ideais que transcendam o direito a uma sobrevalorização da existência física e dos seus atributos. O corpo é todo o espírito. O corpo é tudo.
É por isto que as revoltas "morrem na praia ... não se propagam como as ondas", como escrevia, ontem, Isabel Victor na caixa de comentários do texto anterior. É porque perdemos a esperança, porque queremos tanto morrer, porém, o corpo mantém-nos ainda tão presos à vida.



segunda-feira, março 12, 2007

Pintura de fumeiro

Concerto de amadores, 1882

Há uns oito anos, uma mulher-a-dias ciosa das funções lavou-me com água e Ajax Lavanda um quadro a óleo, original, obra que adquiri a um amigo pintor. A tela tinha uns pretos baços, e pareceu-lhe sujidade; compreendi e calei-me. A limpeza está em primeiro lugar, e a obra ainda cá anda, até ver.
Talvez a memória amordaçada deste episódio me tenha cruzado as conexões entre neurónios, no domingo, quando senti o impulso de perguntar aos vigilantes como poderia arranjar um balde cheio de água a ferver, com lixívia e detergente, e mais uma escova boa para desencascar cera do soalho. Eu, sim, desejei esfregar das telas a camada de sujo amarelento, castanhoso que lhes rouba o brilho, o contraste, a cor, como se tivessem sido pintadas ao fumeiro.
Aconteceu-me enquanto percorria a exposição comemorativa do centésimo quinquagésimo aniversário do nascimento de Columbano Bordalo Pinheiro, no Museu do Chiado, em Lisboa. Percebo agora bem melhor a reacção dos pintores da geração do Orpheu, os quais deverão ter sentido a mesma agonia no confronto com tanta pintura histórica, tanto retrato, tanto castanho, tão escassa iluminação a vela de pavio curto, tanta tenebra sem moral.

Nunca gostei de Columbano, mas faça-se-lhe, apesar de tudo, alguma justiça: reconheço o domínio excelente da técnica figurativa, próxima de uma forma realista, tanto no desenho como na pintura. Mas custa-me tolerar, num artista da geração de Eça, o conformismo decorativo, o nada mais a acrescentar senão uma visão sem erro ou uma ilustração histórica encomendada. Custam-me os retratos em série de misóginos de perfil, todos do mesmo tamanho, da mesma cor. Custa-me a artezinha de academia, que não inova, porque não questiona nem se indigna. Custa-me que um dos maiores pintores portugueses - a expressão não é minha - , seja pouco mais que um extraordinário decorador de paredes. A técnica é fundamental, mas a técnica, e isso nos dirá qualquer iniciado de pacotilha, não chega.

Apesar de tudo, encontro na cortina amarelenta tão característica da pintura de Columbano, nessa grande ausência de brilho e cor que a embrulha, uma magistral interpretação simbólica da natureza sombria da nação a que pertenço. Uma nação de homens e mulheres tristonhos, fraquinhos, calados, decentezinhos, debitando rimas que não entende nem ama, como o Eusebiozinho de Os Maias, essa caricatura do que ainda hoje somos, do que sempre fomos. Isso, muito sem querer, creio eu, está em todas as telas deste artistazinho cujo único amor foi a pintura - a frase também não é minha.
Eu cá mantenho o péssimo hábito de, por regra, alimentar certa desconfiança relativamente àqueles cujo único amor humano tenha sido qualquer outra coisa que não o amor, mesmo mutável, transitório, incompleto e imperfeito.


Antero de Quental por Columbano Bordalo Pinheiro

Nunca tinha visto o original deste retrato, e não podia imaginar que a tonalidade óssea da testa de Antero, que surge nas reproduções, não existisse, de facto. No original, Antero é todo amarelento. O contraste claro-escuro, que aqui visualizamos entre parte superior do rosto e restante superfície do quadro, não corresponde às tonalidades da obra original.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...