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terça-feira, abril 08, 2008

O novo aspecto

Muitos leitores me têm escrito a pedir uma foto autografada de uma das minhas cadelas ou de ambas. Sou muito renitente nisto das fotos. Faço questão de manter o maior low profile da blogosfera em língua portuguesa, rechaçando qualquer avanço sobre a minha vida privada e a das minha cadelas. Metam-se nas vossas vidas, meus senhores. Estou cansadinha de vos avisar que nada do que aqui se escreve é auto-biográfico. Enfim, vocês é que sabem. Querem andar iludidos, iludam-se.
Bem, avançando: apenas porque não pretendo dar a impressão de ser criatura pouco sociável, e apenas por isso, resolvi, no momento em que senti um premente desejo de mudança quanto ao aspecto d'O Mundo Perfeito, postar um banner com a foto da Morena. É verdade, é a minha Morena, a minha Morenita, namorados não tem, ninguém acredita, numa das viagens que recentemente fizemos ao Peru, na senda dos extraterrestres de Shirley Maclaine, os quais aí mantêm uma base, algures sob o lago Titicaca. Descobri que o Mundo Perfeito sou eu, a minha Morena, os Andes, o Lago Titicaca, meia dúzia de aliens soterrados e nem o sopro de vivalma num raio de 300 quilómetros.

quarta-feira, março 26, 2008

Três anos em contramão

É verdade que sempre senti o apelo dos atalhos, dos caminhos enviesados, cheios de buracos, lama, mas a minha mãe nunca me deixou iniciá-los por serem perigosos. A minha mãe ou a materialização dos medos que me transmitiu. A pedagogia do medo é uma tradição lusitana.
Se não fosse estupidamente fiel, podia ter-lhe mentido, mas, em alternativa, acatei a responsabilidade. De todas as vezes que pensei, ah, apetecia-me tanto ir por ali, à cautela, fui por acolá. E errei. Quer dizer, acertei, e assegurei, mas errei.

Estou segura de que alguém, um dia, me há-de pedir contas do que não fiz, e eu hei-de dizer, não fui eu, foi o meu signo, e a minha mãe. Por mim, tinha-me atirado à asneira de braços escancarados. É natural e humano que me defenda, sabendo, contudo, que não tenho razão, que as escolhas foram minhas.
Este blogue começou torto e assim se tem mantido. Que enorme caminho enviesado, a maior parte das vezes, percorrido em contramão. Faz hoje três anos. E como sempre, em datas de aniversário assim tão pessoais, nunca me ocorre nada para dizer.

domingo, março 09, 2008

Linguagens seculares e blogues

As linguagens seculares estão em declínio. Penso que o fenómeno reflecte, inapelavelmente, o tempo pouco rigoroso que atravessamos e atravessaremos. As linguagens seculares carregam o peso da erudição, de um discurso nem sempre fácil, reclamando concentração, e os tempos são outros: o leitor procura, na literatura, como no resto, o fácil e o rápido, conclusão a que chego sem censura: também estou cansada de certos discursos seculares, os quais, frequentemente, pouco me dizem. Os blogues têm sabido responder a esta procura, com texto curto, inteligente e satírico, cuja leitura não exige acurada atenção. Por outro lado, usando as linguagens não textuais, como a "caderneta de cromos", ou seja o fotoblogue, e a praga do You Tube. O You Tube fala pelo bloguista. Exige-lhe menos trabalho, e satisfaz por igual o leitor, confrontando-o com informação nova e inesperada. A questão da autoria é alheia ao leitor do blogue. Não lhe interessa quem produziu o que lê ou vê, mas a emoção produzida.

Este é o estado das linguagens seculares, e é assim porque o mundo mudou, nós mudámos, a cultura mudou. Deseja-se interacção, imediatismo e intensidade. A ficção tem dificuldade em superar a intensidade da vida real. O carácter excessivo da vida real colide com o pudor da ficção. Como ficcionar a realidade sem a tornar inverosímil, sem a transformar numa novela das 7? A ficção perdeu pathos. A grande literatura perdeu pathos. Os leitores emocionam-se com o big brother, por excelência a novela da vida real, e é nesse aspecto que o blogue de quotidiano, diarístico, confessional, entra, e funciona. O blogue torna-se uma espécie de big brother que o autor manipula a gosto, seleccionando as imagens do seu real que quer passar. E passando-as, escolhe a música de fundo com que pretende que sejam visionadas. A vantagem do blogue no qual se insere O Mundo Perfeito, e o seu sucesso, está neste equilíbrio inconfessado, nunca verdadeiramente declarado, entre o real e o ficcional. Por vezes não interessa nada ao leitor que aquele poste seja a realidade. Por vezes, só consegue lê-lo como autobiografia em estado puro. Para mim, enquanto bloguista, tanto faz. O texto postado é para o leitor aquilo que o leitor precisar de ler nele. Nisto, o blogue revela uma plasticidade insuperável, e é um meio de comunicação absolutamente surpreendente.

A actual tendência para a uma literatura rápida, curta, confessional, regista visível crescimento a nível editorial. Não me lembro de as livrarias exibirem tantas novidades editoriais na área do memorialismo, do texto biográfico e autobiográfico bem como irónico, auto-irónico. Os leitores procuram a confissão, o documento: mais uma vez, o pathos da vida real que tão bem serve o blogue-diário.
N' O Mundo Perfeito, por exemplo, os leitores preferem as aventuras pseudo-verídicas da Isabela, operária suburbana, solteirona, com excesso de peso, uma mãe, duas cadelas, que trabalha numa fábrica de parafusos, e evidencia uma certa má relação com os homens e o sexo. A Isabela tem um passado de vivências exóticas e intensas, sonha um futuro qualquer que há-de vir, e narra as aventuras da sua vida solitária e social, os amores e desamores, traumas, medos, caprichos, incoerências, revelando uma humanidade tão chã quanto nobre, com a qual o leitor vulgar se pode identificar. "A Isabela é perfeita, mas a Isabela não é perfeita. A Isabela é como eu ou a Isabela é tudo o que desprezo. Amo-a. Odeio-a." Escreva a Isabela bloguista o que escrever, o que até poderá ser a fórmula química da vacina contra a sida, e os leitores não recusarão ler e comentar, mas o que vende, o que aqui se procura, é a personalidade amorosa, mas brutal, contraditória, radical, teimosa, idealista, bastante romântica e vagamente fora de moda e contracultura da Isabela, que se pode amar e odiar livremente, a quem podemos deixar declarações de amor ou insultos, coisa que não podemos fazer relativamente à Clara Ferreira Alves ou outras "personagens" pelas quais sentimos igual paixão. As linguagens seculares pouco entram neste insuperável trânsito de pathos. Desprezam o confessionalismo, olham-no tão de lado quanto possível, mesmo que se declare contaminado.

Isto seria o que eventualmente teria dito sobre o tema "O modo como as linguagens seculares (que aprendemos sem ter em conta a rede) se moldam, hoje em dia, à rede e mais concretamente aos blogues", caso esta conversa tivesse ocorrido na Casa Fernando Pessoa, no passado dia 6. Como não aconteceu, deixo aqui a minha participação. Para a próxima, por favor, convidem-me a participar via net, e assim posso vir logo para casa vestir o pijama e meter-me debaixo do aquecedor enquanto vejo o telejornal.



Até tinha feito este esquema das ideias principais, à hora do almoço. Usei-o agora para escrever este texto.

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Pobrezinhos, mas honestos refilões


Às leitoras e leitores de O Mundo Perfeito, os menos frequentes, os fanáticos da 17 entradas diárias, inclusive os que cá vêm só para dar e levar com o pau de marmeleiro, desejo um ano de 2008 cheio de profícuas lutas.
Resmunguem, refilem, falem alto, gritem, respondam, provoquem, saiam à rua, e saiam juntos, de preferência, mas não se deixem amarrotar pela sociedade global nem pelos invisíveis poderes do consumo. Acima de tudo, pensem o mundo e ajam nele de acordo com uma moral pessoal.
Aproveitem para rir com gosto e dar valor a pequenos gestos e coisas que só aparentemente não têm nenhum. O mundo perfeito é simples.

segunda-feira, setembro 17, 2007

É só isto



Cinco últimas aves passaram em bando perto da minha janela, eram sete e tal da tarde, voando para Nordeste um voo atrasado.


domingo, março 26, 2006

Texto de aniversário

Quando eu e o CB criámos o blogue isto devia ser uma espécie de guerra de sexos. Eu propus, mas a ideia do título, e o perfil temático, foram inteiramente suas. Já não me lembro como combinámos as coisas, mas isto deveria ser ele a cascar nas mulheres, e eu, nos homens. Lembro-me, sim, perfeitamente, que ele acrescentou algo como, “não estou a ver bem o que podes tu ter de mal a dizer sobre os homens; penso que será difícil”. Por acaso, na altura, embora a ideia me tenha agradado, pensei que estava lixada. No início escrevia muito por reacção às barbaridades ideológicas do CB. Detestava o que ele dizia, e tudo o que queria era destruí-lo no texto seguinte. Depois, oh depois, saltou-me a verborreia adormecida, e foi sem dó nem piedade. Tenho-lhes chamado de tudo. E sem arrependimentos, com a certeza que só digo a verdade, a verdadinha, e valha-lhes Deus. A realidade ajuda-me muito. Continuo a achar que os homens são o mundo perfeito, desde que não nos venham sujar a casa, desde que não tenhamos de os aturar a falar uns com os outros, no nosso sofá, sobre árbitros, cantos, penalties, faltas, cilindradas, turbo-diesel, aplicações financeiras, negociatas, coisas desses género. Os homens são maravilhosos e adoro fazer-lhes muitas coisinhas, como se fossem ursinhos de peluche, mas a verdade deve ser dita: não é possível aturá-los muito tempo, porque são monótonos, desenxabidos, mentirosos ou dissimulados, incapazes de mudar, e infiéis, infiéis, infiéis, infiéis, oh, meu Deus como são infiéis, os cabrões! São execráveis. Isto é científico, não admite refutação.

Hoje, O Mundo Perfeito...











Fotografias de Rui Luís

...faz um ano. Tentaremos produzir uma edição especial a partir do final da tarde. Não sabemos o quê, ainda. Logo se verá.

sexta-feira, março 10, 2006

Ajuda, precisa-se!

Andamos em busca de uma imagem para o topo do novo layout. Foto, pintura, desenho. Convém ser larga, para que não seja necessário esticá-la. Pode ser um fragmento de algo maior.
Convinha que remetesse para uma ideia de um mundo perfeito, não de um "ferpeito mundo". Queria mulheres e homens. Só homens não. Seria muito aborrecido. Pode excluir a figura humana.

Pensei em pedir ajuda. Agradecia muito que me enviassem as vossas sugestões de topos para omundoperfeito@gmail.com.
Prazo: para ontem.
O(A) emissário(a) da imagem escolhida ganhará um prémio muito bom.

Em obras


Continuamos a mudar o mundo, para o tornar perfeito.

quinta-feira, março 09, 2006

Cortar, queimar, matar


Ontem, foi Dia Internacional da Mulher, e eu senti um desejo gritante de mudança. E, então, mudei. Apaguei irrecuperavelmente o anterior modelo do blogue.
Há meses que andava a pedir ajuda para mudar. Não veio a tempo. Nunca chegou.
Portanto, tirei aquela mariquice da Criação do Mundo, que um fulano qualquer, do qual já nem resta uma falangeta, pintou nos tectos da sexta capela, e aderi aos modelitos do blogger.
Ou seja, rapei o cabelo. Hoje, podem mesmo passar a mão pelo meu crânio lisinho. Sentem-no? Parecem as perninhas no dia em que as levo à Tatiana para a depilação com cera fria, e ela lhes aplica creme hidratante.
E depois, o cabelo cresce. Crescerá mais bonito, mais louro, mais ondeado. O meu cabelo, de todas as vezes que o rapei, cresceu melhor.
Para se recomeçar, é preciso cortar, queimar, matar. Assim. Na minha terra, seja ela qual for, porque eu não sei onde é a minha terra, é assim. Corta-se, queima-se, mata-se. Depois é possível voltar a nascer,
Apesar de tudo, vamos escrevendo. Os mortos também comunicam. Dizem que é uma fase de transição.

(Caros Alma Mahler e Carlos Barroso, espero que consigam sobreviver a este meu corte pela madrugada! Peço imensa desculpa pela arbitrariedade desta decisão, que não foi ponderada na última reunião do nosso Conselho de Edição, a qual realizamos todos os Sábados, pelas 9 da manhã, no café do senhor Arnaldo! Podem sempre sujeitar-me a um inquérito interno. Mas, sei lá, essas coisas demoram sempre tanto tempo!)


Alma Thomas, Red Rose Cantata, 1973

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Mundão perfeito

Fotografia de Pedro Stephen


São Paulo: the japanese Marilyn


A internet não é um terreno mais pantanoso que o restantes; torna mais perceptível o pântano.
O site meter regista, como todos sabem, pormenores relativamente aos visitantes que nos chegam. Dos dados disponibilizados, interessam-me os seguintes: de onde vêm e que textos consultam?
A maior parte dos nossos visitantes provém do litoral centro e norte, inclusive do Norte profundo, e dos grandes aglomerados urbanos, Lisboa, Porto, Aveiro, Coimbra e Leiria.
A Sul, este blog é lido em três distritos, apenas, Setúbal, Évora e Faro. Não é surpreendente, mas permite aferir dados relacionados com a distribuição da riqueza, a densidade populacional, a constituição da pirâmide etária desses aglomerados populacionais e o respectivo acesso aos meios de comunicação.
Os nossos leitores são, maioritariamente, portugueses e brasileiros, com alguns pontos fiéis no resto da Europa, quase sempre da mesma proveniência: Reino Unido, Espanha, França, Bélgica e Alemanha. Em África, alcançamos Angola e Moçambique, mas pouco, com visitantes igualmente fixos. Somos lidos praticamente em todos os países da América Latina, mas com poucas entradas. O Brasil é a honrosa excepção. Mas o Brasil é o Brasil! Tem Zanzerê, tem Ordisi, teve aí outro minino Pedro, que Luís espantou...
Retomando: cerca de metade das visitas de O Mundo Perfeito chega-nos através de pesquisas em diversos motores de busca, sobretudo em língua portuguesa e castelhana. Os textos mais lidos devem o seu sucesso ao Google.
Intitulam-se, pela respectiva ordem de interesse, revelada em percentagem de entradas diárias, “As putas do meu país”, “A cona das pretas” e “Nus”. O primeiro não é sobre putas, o segundo não é sobre conas; quanto ao terceiro, é precisamente sobre nus.
E o que se pesquisa? É isso que ainda me espanta. Não devia, mas, de vez em quando, calha-me. Hoje, por exemplo, até onde consegui seguir a pista, registámos visitas no trilho dos seguintes temas – aqui segue, e peço mil desculpas se magoar a susceptibilidade daqueles leitores provenientes de assembleias de voto onde um macho ainda é um macho e, uma fêmea, apenas uma gaja montável, mas os meus propósitos são meramente científicos: completamente nua, farolins, receita caseira para a celulite, sexo, fotos de homens lindos, Inês Pedrosa, esporas gostosas gay, mulheres que pagam tudo, mamas bem embaladas, pomada Halibut, vestidos Fátima Lopes, Portas Largas Lisboa, tempos de lazer, o mundo e a água, pretos nus, de borla lojas utilidades, adelgaçante coxas.
Hoje não foi mau. Mas temos outros dias igualmente bons, em que aqui se chega através de expressões como putas idosas, putas grávidas, qualquer outra combinação com o substantivo ali usado, e, igualmente, cona (de) preta, cona peluda e ou qualquer outra variante deste segundo. Poemas de amor, celulite, adelgaçantes, cremes e pomadas, sobretudo os cremezinhos hidratantes masculinos, são temáticas também muito procuradas.
Também via Google, há cerca de um ano, e num outro blog que mantive, chegou-me um tópico de pesquisa que penso não vir a esquecer tão cedo. O meu texto versava a produção industrial de carne, realidade praticamente ignorada, bruta e embrutecedora. Hei-de cá trazê-lo.
O tema da referida busca era “porcos a levar porrada”, mas percebi que, naquele caso, nada tinha a ver com suínos!
Realmente, a minha virtude falha muito... Tenho passado a vida a pô-la à prova! Mas como resiste, a grande cabra!
Quanto ao mundo, o resto do mundo, cá dentro ou aí fora, é, eu sei, tão perfeito!

terça-feira, novembro 22, 2005

Faça-se a Luz

Uma mulher, um homem – disparidade em confronto paradoxal, ansiando ligar-se rasteiramente numa mesma paz, num mesmo nome: claridade cega, energia pura.

sábado, setembro 17, 2005

O buço das feministas

Estou aqui entretida a pintar umas flores brilhantes nas unhas dos pés, a seguir vou rapar os pelos das pernas e das axilas, depois tenho de pôr uma máscara hidratante de jojoba na pele da cara, bem como uma outra, para cabelos, que costumo usar sempre a seguir ao verão, para que os ondados fios de ouro se mantenham reluzentes.
Antes de me deitar tenho ainda de passar o creme de mãos, pelas mãos; o dos pés, pelos pés e o da cara, pela cara.
Isto, como compreendem, embora tenha de se fazer, rouba muito tempo à postagem e ao pensamento, porque só para acertar as pétalas na unha do pé...
Resumindo, hoje, a bem da work in progress art que faz de mim a Vénus Citereia que alguns de vós conhecem, não tenho tempo nenhum para me dedicar às minhas causas habituais, mas, felizmente, tenho quem me ajude, e isso alegra-me mais que a máscara de jojoba: aqui.

terça-feira, agosto 16, 2005

Não esperes tanto de mim!

No mundo perfeito nunca nada está completo. Tudo se repete sem fim: fazer a cama, lavar o corpo, cozinhar, comer, falar, beijar. Precisamos de todos os nossos dias para aperfeiçoar a incompletude perfeita, não nos basta apenas um, memorável.
O que disto se aprende, com os anos, não deverá chegar cedo demais. A experiência pede os dias e noites que se sucedem em risos e cansaços. Assim, o mundo pode ser perfeito, porque vimo-lo enganar-se e acertar, e entre os dois pratos encontrámos proporção.
Tudo se destrói ou é levado por mão intencional ou inocente. É uma calamidade, afirmamos. Mas, todos os dias, alguém repõe o telhado arrastado pelos ventos, ergue a casa arrasada pelas cheias, repara a bicicleta abandonada num vago desde as últimas férias; e a cada Inverno semeamos os amores-perfeitos que secam no Verão e podamos as roseiras que explodem em Abril.
Algo se perde. É preciso. O velho muro erodido, coberto de silvas, fetos, hera, esse não se reconstrói. Esse não seria possível.
Mas, até isso que se perde, precisava ser perdido.

segunda-feira, julho 18, 2005

Originalidade da cópia

Copiar é uma arte por si só.
Uma boa cópia recria, acrescenta.
O Mundo Perfeito ainda não tem modelo, por isso, muitas vezes, andamos à deriva.

quinta-feira, julho 14, 2005

O valor da experiência

No mundo perfeito não aprendemos com a experiência. Usamos os sentidos como se tivéssemos acabado de os descobrir: uma árvore é sempre a primeira árvore, o odor de uns alperces é o primeiro odor dos alperces, tropeçamos na calçada como se nunca, antes, tivéssemos caminhado sobre pedra, e o amor, nosso conterrâneo, principia como se não o conhecêssemos de lugar algum.
No mundo perfeito, acreditamos nas histórias que nos contam, como uma criança acredita no papão. Porque as palavras ouvidas são as primeiras palavras, e os outros são prolongamentos do eu: o que desejamos encontrar.
No mundo perfeito rimos, choramos, não choramos, sorrimos, rimos, choramos; e, quando morremos, sabemos que rimos e chorámos, e vivemos os estados intermédios.
Nesse momento, talvez se compreenda. Ou talvez não haja grande coisa para compreender.
No mundo perfeito tudo pode recomeçar a partir de um sonho destruído, porque o mundo perfeito não tem orgulho, nem medo, nem sequer pensamento, para que não fiquemos “doente dos olhos”.
É possível viver noutros mundos. Para alguns de nós, basta o mundo perfeito.

quinta-feira, junho 30, 2005


Foto - Henk Braam, Agra, Índia

No início, quando caminhávamos nus, éramos nada, possuíamos nada, e não havíamos provado o fruto da árvore do bem do mal, o mundo era perfeito.

domingo, junho 19, 2005

Da perfeição do mundo


Foto de Henk Braam - A Mother and her Children in Colaba, India

Já não me lembro por que chamámos a isto O Mundo Perfeito. Sei que passo o tempo preocupada com o enquadramento dos textos no que julgo seja um certo ideal de mundo perfeito ou de um mundo que, embora não o seja, possa vir a tornar-se, ou que não é e jamais será.

O mundo perfeito não existe. Contudo, alguns de nós esforçam-se; enfrentam essa "imperfeição" a cada minuto de respiração, riem no dia seguinte àquele em que choram; caem ao Domingo, mas levantam-se à segunda; escolhem deambular pelo risco de atravessar o outro, acreditando, confiando nele, nunca aprendendo com a experiência. Como se não conhecessem essa possibilidade. Esses, que choram e perdem e ganham poucas vezes, julgam-se frágeis, à beira dos abismos de desequilíbrio, mas ter ânimo para recomeçar das cinzas, sorrir, atirar-se de cabeça as vezes que forem precisas... que aves do Paraíso!

Pelo que tenho ouvido a propósito dos outros mundos que me descrevem, e me garantem existir!, mantenho sérias dúvidas que possam ser melhores do que este. Apesar de tudo, apesar da cacetada nossa de cada dia, é deste que gosto!

Há uns tempos fiz kundalini ioga durante um período longo. Dei-me bem com aquilo. Andava calma, até pensei abdicar dos prazeres da carne. Fez-me bem. Mas o mestre estragou tudo no dia em que veio com a ideia que lhe parecia ser tempo de passar a um estádio mais avançado: o ioga ascensional. Não achei piada. É que, vamos lá ver, não me quero chatear, se puder fazer muito por mim e pelos outros, faço-o com gosto - mas quem é que disse que eu queria ascender? E ascender para quê, para onde?
O mestre, para aí umas três vezes, ainda me fez estar estendida no chão de mosaico, 45 minutos - e eu a pagar... Disse, "agora concentre-se na perna esquerda e no som" - pôs a tocar um cd com relaxantes ondas a marulhar, águas do rio a correr para a foz, e foi dar uma massagem terapêutica a outro cliente.
Ponto um, aquela calma enervava-me. Ponto dois, o barulho de água dava-me uma vontade irreprimível de urinar. Ponto três, tentava concentrar-me na perna, mas pensamentos intrusos levavam-me para caminhos ínvios: que roupa vestir no dia seguinte, o trabalho que me esperava em casa...
Segundo o mestre, não estou preparada: tenho de concordar. Que chatice, não posso ascender! Que ande, então, por aqui a fazer asneira e a remediá-la; a ser usada, umas vezes; hipócrita, outras.
Se houver contas a ajustar, ajusto-as no fim, não me venham é tirar o copo de Borba e as fatiazinhas de queijo de Azeitão!

quarta-feira, junho 01, 2005

Natureza do instante


Foto de Alain Azambuja

Claro que o amor ideal existe.
Claro que existe o homem perfeito, bem com a mulher que sempre se sonhou.
Não é claro que existam para todos. Não é certo que compareçam, simultâneos, na conjuntura de espaço/tempo em que deveriam encontrar-se. E mesmo que compareçam, não é certo que as circunstâncias permitam esse encontro.
Mas se o homem e a mulher, perfeitos, que se sonharam, transportando nas mãos abertas o amor ideal, couberem sem circunstâncias adversas no fragmento de espaço/tempo que os unirá, ter-se-á, nesse momento, pergunto eu, criado o mundo perfeito?

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...