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quarta-feira, agosto 16, 2006

Depois cospe-se

Confesso: nunca li Gunter Grass.
Gosto muito do nome, soa-me bem o u com trema seguido do érre duro, mas os títulos, os títulos...
O Linguado?! Quem é que chama a uma obra O Linguado?!, ainda se fosse O Beijo Francês...
A Ratazana?! Tenho uma teoria: é óbvio que GG nunca quis ser lido, ou ter-lhe-ia chamado "Como Água Para Chocolate" ou "Morreste-me", qualquer coisa que a gente gostasse de dizer ao empregado da FNAC. Sim, porque não me estou a imaginar chegar junto do assistente ou da assistenta e perguntar-lhe, "Olhe, faz favor, tem A Ratazana?"
Depois, claro, tenho outras, que tenho sempre muitas - teorias:
- como é fácil julgar de fora a clareza, o brilho imaculado da moral alheia!; como é fácil decidir, aqui, a partir do nosso trono de justiça e tolerância do politicamente correcto, quando é que teria sido o tempo certo para os outros, segundo nós, claro, admitirem e confessarem os seus pecados (por exemplo, "pronto, olhem, muito obrigado por este prémio Nobel, e tal, e já agora queria aproveitar esta solene ocasião para revelar ao mundo que eu, tal como a maioria dos alemães, naquela época, nos inscrevemos nas estruturas do partido, ou com ele simpatizámos, por dois motivos prosaicos: precisávamos de sobreviver sob o mínimo de suspeita e levámos uma lavagem ao cérebro que não vos passa pela moleirinha!; e pronto, xau, se não se importam mandem vir a limusina que preciso de ir para o hotel!"); como é fácil tudo!
Porque nós não somos mulheres e homens reais, nem filhos e netos de mulheres e homens que viveram no mundo, fizeram o mundo, que são a história. Somos todos perfeitos.
Nós, claro, "nunca enrolámos os pés nos tapetes de hotel", "nunca sofremos o piscar de olhos de um moço de fretes". Fomos, somos, sempre, perfeitos em tudo.
Acha-se, portanto, que um homem pôde andar décadas a escrever, autenticamente, sobre a necessidade de a Alemanha enfrentar o passado nazi sem que esse seja um fantasma pessoal?! Andava a fingir. Décadas a fingir, a mentir? Se o homem dizia que tinha de se enfrentar o passado algumas razões teria.
Conheço uma série de alemães. Nunca consegui arrancar-lhes uma palavra sobre a história da Alemanha durante a época nazi. Não sabem ou não falam. Tem 30, 40 anos. Não falam. No entanto, sabem, remotamente, que, sim, parece que um tio, irmão da mãe, era nazi a sério, dos que carregavam nos botões da cãmara de gás, nos campos. Mas são coisas de que não têm muita certeza... talvez...
Ninguém sabe o que é carregar culpas, carregar, carregar? Ninguém aqui sabe o que é viver com uma espinha na garganta e não ser capaz de cuspi-la, porque não se é capaz, até é que é, ponto final? E cospe-se.
São todos tão perfeitinhos, todos de vidro tão inquebrável?
E censuram-me tanto que venha para aqui expor a minha vida privada. Que sabem lá se verdade, ou até que ponto é verdade? E se for? Oh, que horror, confessar a psicanalista, o passado colonial, que me masturbo às segundas, quartas e sextas, que a semana passada se me deslocou o diu, e os maridos das outras - caraças... os que nunca montei... isso é que me custa, a fama sem o proveito...
Somos todos tão imaculados, não é?!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...