Faz hoje exactamente 28 anos, eu era adolescente e passava férias em S. Martinho do Porto. Nesse dia regressei da praia antes dos outros, para assistir, na tv, aos Morangos com Açúcar da época: uma série francesa sobre um grupo de adolescentes envolvidos em aventuras pouco próprias para a idade, e uns com os outros. Comportavam-se como se fossem adultos e não devessem explicações a ninguém, e isso fascinava-me. Não guardei o nome do programa, mas quem, como eu, ainda se lembre dos sensuais dentinhos separados do Art Sullivan há-de recordar-se disto; na minha memória paira a encantadora visão, muito desfocada, é certo, de certas personagens masculinas de cabelos compridos, bué de cool, sensíveis, inteligentes e lindos de morrer! E homens, inclusive amostras dos mesmos, cool, sensíveis, inteligentes e lindos de morrer, uma mulher jamais esquece, por muitos anos que viva; por mais tenra que tenha sido a idade da experiência: grava-se-nos na moleirinha para sempre.
Não houve série, nesse dia. Liguei o aparelho e a notícia de última hora anunciava a morte súbita de Elvis Presley.
O homem ainda era importante nos setenta. Estava envelhecido, gasto de sedativos e anfetaminas, de álcool e drogas, mas continuava a cantar com sentimento, quase tanto como o Marco Paulo.
Gosto do Elvis, confesso. Ao último acorde do Always on my mind exclamo sempre, "Ah, fadista!" Leva-me às lágrimas.
Estou a vê-lo no palco, todo de branco, calças à boca de sino, a gola levantada e tesa de brilhantes, ligeiramente dobrado, em carantonhas sofridas, escorrendo suor, espremendo o microfone, gemendo qualquer coisa que, independentemente do que ouçamos, pode ser traduzida como, "Priscila, por que me deixaste? Não percebes que a culpa desta miséria é exclusivamente tua? Por que não aceitaste, de bom grado, que te pusesse os cornos várias vezes ao dia, e te oferecesse violentas cenas de ciúmes por causa do leiteiro? Para mais, não toleraste que passasse anos drogado e bêbado, e te ignorasse totalmente, e que, para além do ressonar, nada de notável fizesse na cama. Priscila, se morrer, e tenho-me esforçado tanto para isso, a culpa é toda tua, e a América em peso vai responsabilizar-te por não teres voltado para mim, para que, em nome do amor, faça de ti capacho, a todas as horas. "
O Elvis gostava da Priscila? Vejamos: comprou-a, aos pais, quando exercia o seu servicinho militar, na Alemanha. A miúda tinha 15 anos, viu-a num café em Berlim, achou-a a coisinha mais fofa do mundo (não usei "coisa" por que me faltasse vocabulário, sublinhe-se!), convidou-a para um copo, e, dois meses depois, estava a negociar com os progenitores os termos de uma coabitação, nos States, cuja aparência de virgindade para a menina e de celibato para o mariola - que por motivos profissionais e de fornicação gratuita, adiou o casamento por mais de uma década - obrigava a cláusulas rígidas.
Elvis adorava Priscila, todos sabemos: tanto que lhe tramou a vida, mas isso era normal nos 50 e 60, e nos 70, e em 2005, se calhar. Elvis era um esforçado filho-da-puta, herdeiro dos piores vícios de toda uma linha, não extinta, de cego, egoísta poder patriarcal. Um cobarde disfarçado. Nada a que não estejamos habituados. Cruzo-me com eles todos os dias. Não teve a culpa, era o pensamento do tempo, não é assim que justificamos hoje as atrocidades do passado?
Apesar de tudo, escuto Always on my mind e suspendo actividades; quero lá saber se é pura lamechice, se é mentira, se é chantagem emocional de macho justamente largado. Claro que é tudo isso e mais que isso! O homem chagou o juízo à rapariga, que não precisava dele para se fazer à vida, como finalmente fez, com sucesso.
Elvis era insuportável. Mas cantava Always on my mind e, nós, felizmente, não sabíamos inglês ou, se sabíamos, ignorávamos a letra, e ouvíamos apenas a voz cheia, a que chamávamos, quente, pegajosa, enquanto dançávamos slows apertados. E as vozes quentes, pegajosas, são promessas de sexo, por isso paramos a escutá-las. Repetimo-las, queremos dançar, apertadas, as músicas que verbalizam.
Por algum motivo guardei na memória os gestos que realizei no dia de hoje, há 28 anos.
E, afinal, no peito dos filhos-da-puta também bate um coração!
Não é o meu arranjo preferido nem a sua melhor interpretação do tema, mas é a voz do Elvis, e o que se conseguiu arranjar. Gosto sobretudo de uma outra versão, em voz já pastosa.