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domingo, abril 16, 2006

Cristo não foi imaculado

É possível que Cristo tenha sido negro, gay, caloteiro, gozão, que não lavasse as mãos, tivesse pé-de-atleta e cheirasse mal dos sovacos. Não sei e não me interessa.
A história pode reescrever a sua biografia e isso interessará aos historiadores, aos leigos, à história. Não aos cristãos não católicos, como eu.
O último santo que conheci dava-me aulas de tai-chi, chegava sempre atrasado, faltava sem avisar e esquecia-se de nos passar recibo. Não espero que os santos sejam perfeitos nem que façam milagres, mas que tenham o poder de fazer os outros ver o milagre. De resto, os santos são homens e mulheres, vão à casa-de-banho, e, se não limparem a cera dos ouvidos, terão cera nos ouvidos.
Não me interessa se Cristo foi filho de Deus, se transformou pedras em pão, ressuscitou Lázaro, caminhou sobre placas de gelo, não sobre as águas. Os Evangelhos mais recentes foram escritos no ano 60 da nossa era. É provável que não tenham saído da pena de quem testemunhou a vida de Cristo. Que tenham sido acrescentados de histórias, de folclore.
Cristo transformou-se num símbolo, numa ideologia, numa proposta de ética, e a sua mensagem principal, que nenhum evangelho omite, é verdadeiramente ecuménica, universal, transversal a todas as religiões, de todos os profetas: o amor gratuito; o poder de criação e transformação do amor; o amor como única via para chegar ao outro, sobretudo ao inimigo; o amor na humilde oferta da outra face.
A iconografia da cruz transcende o sacrifício de Cristo, ideia que a Igreja Católica promove – porque vive da exploração do sofrimento de Jesus nos seus últimos dias, e constrói-se a partir dessa adoração ao cordeiro de Deus, sacrificado em nome de todos, e que não podemos ofender. A iconografia da cruz é o que ela significa; é o que se carrega até à morte; mas é também a intercepção, num determinado ponto central, simultaneamente centrífugo e centrípeto de dois elementos, de duas linhas rectas, dois cursos. Não sei o que é isso, esse centro. Sei que importa.
Ser cristão significa apenas isto: identificação com a mensagem de Cristo. Um ateu ou um agnóstico serão cristãos se fizerem do amor ao outro, da ética do amor, uma filosofia de vida. Não importa saber se existe Deus, quem é, onde está. Não interessa se não somos perfeitos, imaculados. Cristo também não foi.
Somos cristãos se acreditarmos que é possível ressuscitar após uma morte violenta. Se calhar, até já nos aconteceu. Ser cristão é recomeçar; tal como ser hindu, budista, adventista do sétimo sétimo dia.
A possibilidade de recomeçar é o mundo perfeito. É isso que se celebra na Páscoa. O recomeço.



Foto de Margaret Bourke-White, Mahatma Ghandi

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