Acabei há umas semanas de ler A Estrada, de Cormac McCarthy. O livro foi-me recomendado pelo amigo a quem há muitos anos dei a ler O País das Últimas Coisas.
Disse-me ele, no Paul Auster ainda encontras alguma coisa, ainda há alguma coisa, embora seja igualmente um cenário do fim do mundo, mas em A Estrada não há nada, Isabela, não há nada.
E isto, não haver nada, somado ao meu prazer sobre narrativas do apocalipse ou de ficção científica, convenceu-me. Comprei o livro, li-o, e arrumei-o na minha cabeça.
A literatura actual tem dificuldade em construir-se sem entrar na filosofia ou na história. A narrativa, o que não acontece com a poesia, vive a maior crise que lhe conheço. Como continuar a escrever algo diferente sobre os mesmos temas? Cormac McCarthy consegue. A Estrada é um livro sobre o fim dos tempos, quando as árvores morreram, e os pássaros, todos os animais que Deus criou, e também Deus, e os homens que nele acreditaram, e os que não. É sobre todo esse horror, esse cenário verosímil e cruel, de uma crueldade que nunca poderemos totalmente imaginar sem viver; mas graças a uma das suas duas únicas personagens, um menino nascido após fim do mundo, que nunca o conheceu tal como nós o vemos, A Estrada está apta a mostrar-nos que a inocência de uma criança incorrupta, a sua verdade, e vontade, não pode ser substituída. A criança saberá que o mundo é cruel, sempre cruel, que é preciso escolher viver ou morrer, sem hesitação, que existe o bem e o mal, o certo e o errado, e que esta escolha muitas vezes se torna relativa - é preciso. A criança sabe que os maus nunca serão bons; que uma maçã oferecida não lhe será devolvida, contudo, não perde o desejo de oferecer esse fruto, porque é o que está certo. E é este o segredo de A Estrada. Essa capacidade para dar, quando já não há que dar, e contudo, ainda está lá esse gene oportunista, ou esse vírus bendito. No meio da vileza, oferecer.
É costume fazerem-me perguntas sobre a natureza do ser humano, e eu respondo sempre da mesma forma muito simples, como se estivesse a explicar isto a criancinhas: as pessoas são más, aprenderam a ser más, serão más. Não há pessoas boazinhas, só boazinhas. Há é pessoas más que conseguem ser boazinhas, e pessoas boazinhas que podem ser más. Mas uma criança que tenha tido a sorte de ser amada, mesmo que esse amor tenho sido recebido no meio da revolução, da maior tempestade, uma criança amada é incorruptível, e saberá sempre distinguir a verdade, a bondade, o bem. Este é o verdadeiro menino selvagem. Uma espécie de Cristo. Desculpem ter dito uma espécie para não ofender. Eu queria dizer, Cristo.
Disse-me ele, no Paul Auster ainda encontras alguma coisa, ainda há alguma coisa, embora seja igualmente um cenário do fim do mundo, mas em A Estrada não há nada, Isabela, não há nada.
E isto, não haver nada, somado ao meu prazer sobre narrativas do apocalipse ou de ficção científica, convenceu-me. Comprei o livro, li-o, e arrumei-o na minha cabeça.
A literatura actual tem dificuldade em construir-se sem entrar na filosofia ou na história. A narrativa, o que não acontece com a poesia, vive a maior crise que lhe conheço. Como continuar a escrever algo diferente sobre os mesmos temas? Cormac McCarthy consegue. A Estrada é um livro sobre o fim dos tempos, quando as árvores morreram, e os pássaros, todos os animais que Deus criou, e também Deus, e os homens que nele acreditaram, e os que não. É sobre todo esse horror, esse cenário verosímil e cruel, de uma crueldade que nunca poderemos totalmente imaginar sem viver; mas graças a uma das suas duas únicas personagens, um menino nascido após fim do mundo, que nunca o conheceu tal como nós o vemos, A Estrada está apta a mostrar-nos que a inocência de uma criança incorrupta, a sua verdade, e vontade, não pode ser substituída. A criança saberá que o mundo é cruel, sempre cruel, que é preciso escolher viver ou morrer, sem hesitação, que existe o bem e o mal, o certo e o errado, e que esta escolha muitas vezes se torna relativa - é preciso. A criança sabe que os maus nunca serão bons; que uma maçã oferecida não lhe será devolvida, contudo, não perde o desejo de oferecer esse fruto, porque é o que está certo. E é este o segredo de A Estrada. Essa capacidade para dar, quando já não há que dar, e contudo, ainda está lá esse gene oportunista, ou esse vírus bendito. No meio da vileza, oferecer.
É costume fazerem-me perguntas sobre a natureza do ser humano, e eu respondo sempre da mesma forma muito simples, como se estivesse a explicar isto a criancinhas: as pessoas são más, aprenderam a ser más, serão más. Não há pessoas boazinhas, só boazinhas. Há é pessoas más que conseguem ser boazinhas, e pessoas boazinhas que podem ser más. Mas uma criança que tenha tido a sorte de ser amada, mesmo que esse amor tenho sido recebido no meio da revolução, da maior tempestade, uma criança amada é incorruptível, e saberá sempre distinguir a verdade, a bondade, o bem. Este é o verdadeiro menino selvagem. Uma espécie de Cristo. Desculpem ter dito uma espécie para não ofender. Eu queria dizer, Cristo.