Às vezes perguntam-me o que lia eu quando era pequena e ficam à espera que eu diga Cervantes, Urbano Tavares Rodrigues, José Rodrigues Miguéis, Alves Redol, mas eu respondo que lia fotonovelas Corin Tellado e livros do Tio Patinhas, da Mónica, do Cebolinha, do Riquinho, do Mandrake, do Tarzan, do Super-Homem, e mais romances de faca e alguidar da Sarah Beirão. Claro que também li os autores lá de cima, mas não tem piada nenhuma enumerá-los. O que tem piada são as fotonovelas Corin Tellado, com as quais eu aprendi que se dizia, "Amo-te como nunca amei ninguém", e que os homens se iam embora com outras, e as mulheres ficavam a amá-los para sempre; e, quando regressavam, elas perdoavam-lhes tudo, enquanto eles as abraçavam e lhes diziam, "tu, sim, és a mulher da minha vida!" Acho que as expressões "possuir-te", "seres minha", também as aprendi nessa altura, embora não fizesse grande ideia do significado. Eu achava que o mundo dos adultos era mesmo assim, e não diferia muito. Já me estava a preparar para dizer "amo-te como nunca amei ninguém". Grande escola! Mas não resultou, não resultou.
Lembro o assunto porque li hoje que a autora das novelas Corin Tellado morreu, e, caramba, não consigo ignorar o que eu gostava de ler aquilo, emprestado, aos molhos.
Lembro o assunto porque li hoje que a autora das novelas Corin Tellado morreu, e, caramba, não consigo ignorar o que eu gostava de ler aquilo, emprestado, aos molhos.