No café, um homem bastante jovem dizia, o Barraca Abana ganhou, não te dizia?!, agora é ver os pretos entrarem todos pela Europa acima. O companheiro de cerveja respondeu-lhe, não, estás parvo, querias que o outro ganhasse?! Nem pó!
E se o primeiro tem razão e os pretos entram mesmo pela Europa acima, e nós podemos descer livremente África abaixo, não seria tão bom?! Não seria tão bom sermos livres sem fronteiras, sem raças, com acesso a todas as oportunidades?! Com Obama, não tenho apenas muitas esperanças para a América, mas para o mundo. É preciso dotar os EUA de um serviço de saúde publico e decente. É necessário garantir o acesso à educação para todos. É sobretudo necessário diminuir a riqueza dos muito ricos e redistribui-la. A riqueza excessiva e os consumos associados são um insulto para a humanidade em geral. Corrompem. Criam cancros. A excessiva riqueza de uns implica a excessiva pobreza de outros, e é absolutamente necessário equilibrar esta balança. Isto implicará uma grande mudança, portanto um grande sofrimento. É preciso ter esta ideia presente: não há mudança sem um grande sofrimento.
Acredito que Obama poderá tornar-se uma tendência, como os ténis de marca, mas o seu oposto. Talvez o mundo inteiro se torne um pouco mais humano. Não escutam o sofrimento do mundo?! Eu escuto-o todos os dias. Aflige-me. Não me deixa adormecer. Nenhuma beleza, e o mundo é belo, pode eliminar o som de fundo, constante, do sofrimento que o atinge.
Alimento muita esperança de que os EUA, e a sua enorme influência ao nível dos comportamentos, olhem verdadeiramente para a geografia humana africana e não, como até agora, para os interesses económicos que advêm da enorme riqueza deste continente. Angola não é importante porque tem diamantes e petróleo, mas porque tem angolanos. Um melhor nível de vida em África trará a diminuição de conflitos armados, tornará a escravidão obsoleta. Tudo o que for possível fazer em África se fará pelo mundo.
Obama tem a enorme vantagem de ter tido contrariedades. Identifico-me muito com este homem que não veio de uma família burguesa bem colocada, que não tem nome de família: um pai precocemente falecido, uma mãe ausente; foi criado pela avó; trabalhou na área dos direitos humanos e do apoio às comunidades desfavorecidas. Meu Deus, é lá possível não apostar tudo nas ideias deste homem?! Na influência que poderá ter no mundo inteiro?! Acredito que ele ouve o sofrimento do mundo. Acredito nisto, tal como acreditei há nove meses atrás que ele seria o próximo presidente dos EUA.