Mostrar mensagens com a etiqueta António Ramos Rosa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Ramos Rosa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, setembro 05, 2005

"Com toda a vida às avessas a arder"

A nossa memória guarda, para sempre, certos momentos, e esquece outros, e nunca saberemos explicar porquê!
Há 20 anos, para aí, assisti a uma conversa pública, sobre poesia, na qual participava o poeta António Ramos Rosa. Tenho ideia que era por ali às Amoreiras; não me lembro se os prédios do Taveira já existiam.
O meu acompanhante segredou-me, já sentados, que o poeta estava gravemente doente e, provavelmente, já não se aguentaria muito. Talvez aquela fosse a última vez que o ouvíamos. Aquilo impressionou-me, pelo que o escutei com muito atenção; a voz e o aspecto eram frágeis, sim, mas aquele homem que quebrava, magro, branco, cabisbaixo era o enorme António Ramos Rosa.
O António tem-se aguentado. Tem a tal bolsa do Estado, não é? Deve ter as suas dores amargas, ver zero mesmo com óculos, tremer-lhe a mão quando escreve, mas cá anda.
E escreve. Que é o que me interessa.

O António, reza a história, ou então percebi mal, teve três profissões simultâneas: era poeta, empregado de escritório e infeliz. Bem, poeta não é uma profissão, ressalve-se!
Um dia fartou-se do deve e haver, não compareceu ao trabalho, deixou a contabilidade ao pó, e nunca mais regressou à Companhia Limitada. Ficou em casa a dormir, a escrever, a olhar pela janela. Ele lá saberá.
Não sei se isso fez dele um homem feliz – não parece – mas, pelo menos, não se vendeu ao dinheiro da estagnação e da mediocridade.
Eu, a isto, chamo coragem: não designar como “ganhar a vida” aquilo que não passa da sua vil hipoteca, com rodas dentadas nas quais vamos girando, girando até secar.
Que se ganhe a vida construindo para os outros, criando, dando, mas, preferivelmente, que nos construamos, também, por acréscimo!
A minha prima afastada, mesmo sendo das filosofias puras, diz-me que isso são sonhos, que não acontece a ninguém, que trabalho é trabalho.
Mas repara, Joana Rita, esse não é o exemplo do Ramos Rosa; nem do Alberto, que deixou a cátedra de Linguística, para poder fazer bonecos de madeira na carpintaria do mestre Roíz. Nem da Amparo, que largou 300 mocas/12 horas semanais para observar aves, a binóculo, no estuário do Tejo!

Juro que só queria contar a história do Ramos Rosa. Alonguei-me.
Às vezes doem-nos os ossos, porque os dentes da roda são de metal afiado; e o que seria de nós sem uma bengala?


António Ramos Rosa, Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...