Se fosse escritora e me pedissem para escrever um livro da minha vida actual, teria de lhe juntar muita peripécia. Como não sou, posso ir deitar-me cedo, que amanhã entro na fábrica às 8 e depois despego às 5, e no outro dia igual, e no outro dia igual, e no outro dia igual.
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segunda-feira, fevereiro 02, 2009
sexta-feira, dezembro 12, 2008
Os dias
Os amigos escrevem-me, afirmando que se não actualizo o blogue com tanta frequência, isso quererá dizer que ando cheia de trabalho. Não é mentira, mas já andei, antes, com igual quantidade de obrigações, e escrevia mais.
A verdade é que a realidade me deprime e chega uma altura em que não sei sobre que escrever sem custos para a minha paz interior.
Não chega falar das dioxinas na carne de porco, é preciso chamar a atenção para a industrialização da morte de animais, em fábricas onde são tratados como meras peças de carne desde o momento do nascimento até à indigna morte. E isso faz-me sofrer. É preciso coragem para abordar o assunto.
Não basta falar das faltas dos deputados que elegemos para que nos representassem no parlamento. Seria necessário questionar de novo a democracia, o que se pensa ser este sistema e o que se faz dele. E isso faz-me sofrer.
Abordar a questão da luta dos professores por uma avaliação diferente seria fastidioso de extenso, e far-me-ia sofrer.
Deixei de acreditar no julgamento Casa Pia, embora conceda à juíza as melhores das intenções. O caso BPN não me interessa nem o do Banco Privado. Assuntos de bancos, sinceramente, só se for para levantamentos de dinheiro, e sem comissão, o que já nem na CGD é possível. Também me dava jeito que o meu banco me mandasse depressa o cartão de débito que substituirá o desmagnetizado, bem como o cartão de crédito com nova validade, porque, sinceramente, nestas condições está a ser difícil fazer as compras de Natal. Depois dizem que o consumo baixou!
Não tenho nada para dizer sobre os homens nem sobre as mulheres. Passam por mim, quase não existem. Os vizinhos de baixo, que não conheço, colocaram-me na caixa do correio um bilhete onde escreveram, sem erros, se perdeu um lençol, está cá em casa. Não perdi.
Basicamente, a única coisa que tenho para dizer é que tenho reparado muito que as actrizes e apresentadoras de tv com mais de 40 anos estão todas grávidas à porfia, e que o cancro agora também dá imensa capa nas revistas do coração, o que muito me espanta. Hoje de manhã fui à rua com as cadelas e verifiquei que a chuva vinha muito gelada. Em alguns lugares deve estar nevar. Eu já vi nevar uma vez. É bonito.
A verdade é que a realidade me deprime e chega uma altura em que não sei sobre que escrever sem custos para a minha paz interior.
Não chega falar das dioxinas na carne de porco, é preciso chamar a atenção para a industrialização da morte de animais, em fábricas onde são tratados como meras peças de carne desde o momento do nascimento até à indigna morte. E isso faz-me sofrer. É preciso coragem para abordar o assunto.
Não basta falar das faltas dos deputados que elegemos para que nos representassem no parlamento. Seria necessário questionar de novo a democracia, o que se pensa ser este sistema e o que se faz dele. E isso faz-me sofrer.
Abordar a questão da luta dos professores por uma avaliação diferente seria fastidioso de extenso, e far-me-ia sofrer.
Deixei de acreditar no julgamento Casa Pia, embora conceda à juíza as melhores das intenções. O caso BPN não me interessa nem o do Banco Privado. Assuntos de bancos, sinceramente, só se for para levantamentos de dinheiro, e sem comissão, o que já nem na CGD é possível. Também me dava jeito que o meu banco me mandasse depressa o cartão de débito que substituirá o desmagnetizado, bem como o cartão de crédito com nova validade, porque, sinceramente, nestas condições está a ser difícil fazer as compras de Natal. Depois dizem que o consumo baixou!
Não tenho nada para dizer sobre os homens nem sobre as mulheres. Passam por mim, quase não existem. Os vizinhos de baixo, que não conheço, colocaram-me na caixa do correio um bilhete onde escreveram, sem erros, se perdeu um lençol, está cá em casa. Não perdi.
Basicamente, a única coisa que tenho para dizer é que tenho reparado muito que as actrizes e apresentadoras de tv com mais de 40 anos estão todas grávidas à porfia, e que o cancro agora também dá imensa capa nas revistas do coração, o que muito me espanta. Hoje de manhã fui à rua com as cadelas e verifiquei que a chuva vinha muito gelada. Em alguns lugares deve estar nevar. Eu já vi nevar uma vez. É bonito.
sexta-feira, julho 11, 2008
Os campeões
No autocarro entre o Fogueteiro e o Casal do Marco.
Dois rapazes nos seus 18, sentados nos últimos bancos. Um baixote, de óculos antiquados, fora de moda: pobre. Parece um sapo a rir-se. Julga-se feio. Acho-lhe alguma piada. Outro mais alto, alourado falso, suado, calças rasgadas, um certo ar de sujo: pobre. Julga-se bonito. Não tem piada alguma. O que se julga feio presta reverência ao que se julga bonito. Está tudo claramente esmiuçado na linguagem corporal que estabelecem.
Numa paragem entram duas meninas dos seus 15 anos. Asseadinhas, arranjadinhas. Pobres. As duas muito bonitas, mas uma delas percebe-se que veio do Leste da Europa. Um louro branco, pele muito clara, olhos azuis, formato de rosto quadrado. Linda e diferente demais para os nossos padrões de beleza morena.
Os rapazes no último banco do autocarro começam a remexer-se; risinhos; ouço pouco; vejo mais. O que parece um sapo contente vai do lado da janela e provoca o colega. Diz-lhe algo do género, gostavas, não gostavas? O outro ri-se, quase boçal, afirmativo. O sapo não tem coragem, acha que para si não seria possível manjar tão rico, mas provoca o amigo, achas que conseguias? E o outro, oh, pá..., oh, pá..., e a sua expressão facial não engana; o que ele lhe responde é que, pá, aquilo marchava tudo. Mas ambos sabem que é demasiada areia para qualquer das camionetas.
O sapo distrai-se das miúdas, olha através da janela e começa a cantarolar um tema dos Queen: we are the champions... mas não sabe o resto da letra. O outro, o bonitão que não é bonito, sabe. Percebo que é uma música com cuja letra se identificam. O bonitão que não é bonito continua, and we will fight till the end... O outro entusiasma-se, repete, and we will fight till the end, mas calam-se, ambos, após o breve coro. Não sabem mais.
Olho-os de novo, porque o que vejo não me chega. O que significará para eles lutar até ao fim? Sentir-se-ão campeões de quê? Qual será a sua luta?
Dois rapazes nos seus 18, sentados nos últimos bancos. Um baixote, de óculos antiquados, fora de moda: pobre. Parece um sapo a rir-se. Julga-se feio. Acho-lhe alguma piada. Outro mais alto, alourado falso, suado, calças rasgadas, um certo ar de sujo: pobre. Julga-se bonito. Não tem piada alguma. O que se julga feio presta reverência ao que se julga bonito. Está tudo claramente esmiuçado na linguagem corporal que estabelecem.
Numa paragem entram duas meninas dos seus 15 anos. Asseadinhas, arranjadinhas. Pobres. As duas muito bonitas, mas uma delas percebe-se que veio do Leste da Europa. Um louro branco, pele muito clara, olhos azuis, formato de rosto quadrado. Linda e diferente demais para os nossos padrões de beleza morena.
Os rapazes no último banco do autocarro começam a remexer-se; risinhos; ouço pouco; vejo mais. O que parece um sapo contente vai do lado da janela e provoca o colega. Diz-lhe algo do género, gostavas, não gostavas? O outro ri-se, quase boçal, afirmativo. O sapo não tem coragem, acha que para si não seria possível manjar tão rico, mas provoca o amigo, achas que conseguias? E o outro, oh, pá..., oh, pá..., e a sua expressão facial não engana; o que ele lhe responde é que, pá, aquilo marchava tudo. Mas ambos sabem que é demasiada areia para qualquer das camionetas.
O sapo distrai-se das miúdas, olha através da janela e começa a cantarolar um tema dos Queen: we are the champions... mas não sabe o resto da letra. O outro, o bonitão que não é bonito, sabe. Percebo que é uma música com cuja letra se identificam. O bonitão que não é bonito continua, and we will fight till the end... O outro entusiasma-se, repete, and we will fight till the end, mas calam-se, ambos, após o breve coro. Não sabem mais.
Olho-os de novo, porque o que vejo não me chega. O que significará para eles lutar até ao fim? Sentir-se-ão campeões de quê? Qual será a sua luta?
quinta-feira, junho 26, 2008
História sem moral I
O passageiro que está sentado à minha frente, de costas para mim, viaja no Metropolitano de superfície em Almada, entre a estação do Pragal e a da Cova da Piedade. Um rapaz muito negro, usando dois piercings sobre a sobrancelha esquerda, e dois anéis na mão do mesmo lado. Tudo ouro pesado, do amarelo, do bom, com um certo ar de velho, contrastando com a pele escuríssima, ligeiramente baça. A abundância de ouro, e a forma como sobressai, atraiu a minha atenção. Uns 17 anitos. 15h30. Calor. Fala ao telemóvel.
Querida, estou a ligar-te, quero só falar contigo um bocadinho. Estou aqui. Aqui no metro. E tu? Não percebo. Não estou a perceber. Diz. Nessa loja de roupa? Mas posso falar contigo, amor? Só quero falar agora contigo, amor. Só faltam três dias... Mas, olha, tens de dizer aos teus pais que não dormes em casa. Não dá, não dá. Isso não é assim. Casamento de preto não é igual ao casamento dos brancos. Toda a gente vai beber e dançar a noite toda. Não, não. Nem penses; os meus pais não vão querer vir antes das oito da manhã. Depois dormes em minha casa. Tá bem, amor, não esquece, tá? Olha, agora vou sair. Depois ligo, amor.
Saiu. Pude vê-lo melhor. Um formidável negro com traços do rosto perfeitos, simétricos. Bonito. Usava calças de ganga descaídas no rabo, mostrando totalmente os boxers cinzentos que tapavam as nádegas.
quarta-feira, junho 25, 2008
Como eles falam das mulheres
Vinham entrando no café a falar de mulheres. Dois homens. Um deles, jovem, alto, de cabelo ondulado, pele clara. O outro, de 40 e tal, 50, envelhecido, cabelo branco, crespo, pele escura, baixo. Ambos vestidos com roupa de trabalho num dia feriado. Oficina. Biscates em obras. Uma ou outra.
Conversavam e discordavam. O mais velho parecia defender uma mulher que o mais novo rejeitava. E argumentava, a Liliana não! Perante a negação, o mais novo impede-lhe o andamento, encostando a mão ao seu peito, o braço esticado, indignado, quase perdendo a estribeiras, a Liliana não?!, a Liliana não?!, só a Liliana foram duas vezes, ali no escritório, lá em cima, que ela me assediou... uma vez ia eu nas escadas, agarrou-se a mim, parecia maluca, a querer beijar-me, a querer beijar-me... Eu é que tive de a afastar e dizer-lhe, eh-la-oh, que é isso?!, tás maluca ó quê?!, senão...
Depois reparou em mim, o mais novo, ou melhor, percebeu a minha indisfarçável atenção, e continuou em voz mais baixa, mas ainda audível, e já viste as pernas da gaja, já viste a maneira como a gaja anda? Aquilo é gado batido.
Conversavam e discordavam. O mais velho parecia defender uma mulher que o mais novo rejeitava. E argumentava, a Liliana não! Perante a negação, o mais novo impede-lhe o andamento, encostando a mão ao seu peito, o braço esticado, indignado, quase perdendo a estribeiras, a Liliana não?!, a Liliana não?!, só a Liliana foram duas vezes, ali no escritório, lá em cima, que ela me assediou... uma vez ia eu nas escadas, agarrou-se a mim, parecia maluca, a querer beijar-me, a querer beijar-me... Eu é que tive de a afastar e dizer-lhe, eh-la-oh, que é isso?!, tás maluca ó quê?!, senão...
Depois reparou em mim, o mais novo, ou melhor, percebeu a minha indisfarçável atenção, e continuou em voz mais baixa, mas ainda audível, e já viste as pernas da gaja, já viste a maneira como a gaja anda? Aquilo é gado batido.
segunda-feira, junho 23, 2008
Como se não fosse preta
Para o Carlos Narciso
Já disse à minha filha, tem cuidado, que o teu marido é homem, e, como se não bastasse, preto, por isso, se vais lá para Cabo Verde ter com ele, tem cuidado; qualquer dia estás metida na cozinha a fazer petiscos para ele e para os amigos, enquanto vêem bola e bebem que nem esponjas. Já lhe deixei o sermão. Oh, há lá homem que seja diferente.... não é por ele ser meu genro que há-de ser melhor que os outros.
Quem fala é a D. Ilda, uma vizinha que estimo muito, cabo-verdiana retinta. Foi ela que recolheu o Tejo quando teve esgana. Andava para aí aos tombos e foi ela que o levou para o veterinário, e o curou, e todos ajudámos a pagar, nós os vizinhos amigos. O Tejo ficou melhor que antes de ter esgana. Já não treme nem nada, e coisa alguma pega com ele. Cura santa!
Gosto muito da D. Ilda, que com outras vizinhas, a D. Mara, a D. Lucinda, e a Flávia, que já morreu, mas que anda por aí, enforma uma comissão informal de protecção dos cães e gatos abandonados que aparecem cá no bairro, ou que cá vêm abandonar.
No nosso bairro somos pobres e feios. Porcos, não, nem maus. Achamos que entre nós e a bicharada há pouca diferença. Identificamo-nos com esses mamíferos quase tão rafeiros como nós, quase tão abandonados, perdidos, esfomeados, sedentos, carentes como nós. Também sou da "comissão", mas na reserva. Não pertenço às operacionais de rua, como ela, porque o meu coração não aguenta, sabendo elas que podem contar comigo e com a minha mãe. Numa casa ou na outra, podem chamar-nos para a guerra a qualquer altura.
Dentro de uma semana a D. Ilda viaja. Vai de férias. Vai pela primeira vez a Cabo Verde após 40 anos de ausência. Primeiro vai ela, depois, a filha. À vez, por causa dos cães. E conta-me, Isabelinha, vim de lá com 12 anos. Fiz aqui uma escala de meses, antes de ir para Itália. A minha mãe estava a servir em Itália, e eu fiquei em Lisboa, em casa de uma prima, à espera da carta de chamada da minha mãe, à espera de transporte, de autorizações, que antes do 25 de Abril era assim... mas eu não ia para Itália para servir, ia para ser a filha da minha mãe, e a minha prima, Isabelinha, veja isto, a minha prima, filha da irmã da minha mãe, pegou em mim e pôs-me a servir na Almirante Reis. O que eu chorei. Passava na casa da patroa toda a semana, e chorava. Uma negra sozinha em Lisboa, Isabelinha, imagina o que isto seja? O que se sofria? Punham-me a lavar roupa no tanque da varanda, com a água gelada; os meus dedos gretaram-se, sangraram-se de frieiras, uma coisa que eu nunca tinha visto, frieiras, alguma vez teve?! Era eu a lavar a roupa e ela a manchar-se de sangue, meu Deus, se me lembro disto... A minha prima vendeu-me como escrava para uma casa... Depois a minha mãe não conseguia falar comigo quando telefonava ao Domingo, e a minha prima desculpava-se que eu não estava em casa, arranjava mentiras para não dizer que me tinha posto a servir. Quando tinha 16 anos arranjei um namorado, o meu falecido marido, o pai dos meus filhos, que não tive outro, engravidei, e olhe, fugi com ele.
Mas agora vai lá à sua terra, D. Ilda, está contente, não está?! E tem muitas memórias na sua cabeça, não tem? Coisas de que se lembra muito?
Sim, tenho, mas são tudo coisas de há 40 anos, coisas velhas que já não existem; agora vou ver como se fosse pela primeira vez, como se não tivesse nascido lá, como se, olhe, como se não fosse preta.
Quem fala é a D. Ilda, uma vizinha que estimo muito, cabo-verdiana retinta. Foi ela que recolheu o Tejo quando teve esgana. Andava para aí aos tombos e foi ela que o levou para o veterinário, e o curou, e todos ajudámos a pagar, nós os vizinhos amigos. O Tejo ficou melhor que antes de ter esgana. Já não treme nem nada, e coisa alguma pega com ele. Cura santa!
Gosto muito da D. Ilda, que com outras vizinhas, a D. Mara, a D. Lucinda, e a Flávia, que já morreu, mas que anda por aí, enforma uma comissão informal de protecção dos cães e gatos abandonados que aparecem cá no bairro, ou que cá vêm abandonar.
No nosso bairro somos pobres e feios. Porcos, não, nem maus. Achamos que entre nós e a bicharada há pouca diferença. Identificamo-nos com esses mamíferos quase tão rafeiros como nós, quase tão abandonados, perdidos, esfomeados, sedentos, carentes como nós. Também sou da "comissão", mas na reserva. Não pertenço às operacionais de rua, como ela, porque o meu coração não aguenta, sabendo elas que podem contar comigo e com a minha mãe. Numa casa ou na outra, podem chamar-nos para a guerra a qualquer altura.
Dentro de uma semana a D. Ilda viaja. Vai de férias. Vai pela primeira vez a Cabo Verde após 40 anos de ausência. Primeiro vai ela, depois, a filha. À vez, por causa dos cães. E conta-me, Isabelinha, vim de lá com 12 anos. Fiz aqui uma escala de meses, antes de ir para Itália. A minha mãe estava a servir em Itália, e eu fiquei em Lisboa, em casa de uma prima, à espera da carta de chamada da minha mãe, à espera de transporte, de autorizações, que antes do 25 de Abril era assim... mas eu não ia para Itália para servir, ia para ser a filha da minha mãe, e a minha prima, Isabelinha, veja isto, a minha prima, filha da irmã da minha mãe, pegou em mim e pôs-me a servir na Almirante Reis. O que eu chorei. Passava na casa da patroa toda a semana, e chorava. Uma negra sozinha em Lisboa, Isabelinha, imagina o que isto seja? O que se sofria? Punham-me a lavar roupa no tanque da varanda, com a água gelada; os meus dedos gretaram-se, sangraram-se de frieiras, uma coisa que eu nunca tinha visto, frieiras, alguma vez teve?! Era eu a lavar a roupa e ela a manchar-se de sangue, meu Deus, se me lembro disto... A minha prima vendeu-me como escrava para uma casa... Depois a minha mãe não conseguia falar comigo quando telefonava ao Domingo, e a minha prima desculpava-se que eu não estava em casa, arranjava mentiras para não dizer que me tinha posto a servir. Quando tinha 16 anos arranjei um namorado, o meu falecido marido, o pai dos meus filhos, que não tive outro, engravidei, e olhe, fugi com ele.
Mas agora vai lá à sua terra, D. Ilda, está contente, não está?! E tem muitas memórias na sua cabeça, não tem? Coisas de que se lembra muito?
Sim, tenho, mas são tudo coisas de há 40 anos, coisas velhas que já não existem; agora vou ver como se fosse pela primeira vez, como se não tivesse nascido lá, como se, olhe, como se não fosse preta.
quarta-feira, abril 02, 2008
Da vontade
Dois miúdos de catorze anos, mais coisa menos coisa, sentados no muro da escola do meu bairro, enquanto a Morena e a Micas fazem xixi contra a jante muito cara de um carro muito caro.
Primeiro - Viste a gaja?! Tá boa!
Segundo - Eh, pá!
Primeiro (gesticulando como se sopesasse duas melancias carnudas, reboludas, uma em cada mão) - E viste o rabo da gaja, hein?! Viste aquilo?!
Segundo (emitindo uma espécie de assobio, mas com mais cuspe) - Eh, pá! Mesmo boa, boa, boa!
Primeiro - Quem é a gaja?
Segundo - Acho ké a mãe do Rúben.
Primeiro - A mãe do Ruben?!
(silêncio meditativo)
Primeiro (mais baixo, como se falasse sozinho) - Era na mesma.
Primeiro - Viste a gaja?! Tá boa!
Segundo - Eh, pá!
Primeiro (gesticulando como se sopesasse duas melancias carnudas, reboludas, uma em cada mão) - E viste o rabo da gaja, hein?! Viste aquilo?!
Segundo (emitindo uma espécie de assobio, mas com mais cuspe) - Eh, pá! Mesmo boa, boa, boa!
Primeiro - Quem é a gaja?
Segundo - Acho ké a mãe do Rúben.
Primeiro - A mãe do Ruben?!
(silêncio meditativo)
Primeiro (mais baixo, como se falasse sozinho) - Era na mesma.
terça-feira, janeiro 08, 2008
A vida antes do saco de plástico
Até aos anos 70, meados de 80
Íamos a pé à mercearia do bairro, ao sábado. Levávamos sacos de pano ou oleado e uma lista de géneros. Às vezes havia bicha. As outras mulheres entretinham-se conversando sobre a vida, os filhos, os maridos, as vizinhas, enquanto a dona Maria ia debitando o avio, "um pacote de açúcar, um pacote de cotovelinho, uma garrafa de azeite, esse não, dê-me do Galo; uma lata de salsichas das grandes, uma lata de atum Bom Petisco, não tem Bom Petisco?!, quando é que vem? então levo p'ra semana; um pacote de café de cevada, uma garrafa de vinho branco, qualquer uma que é para o marido; um pacote pequeno de caldos Knorr, um pacote de rebuçados do Dr. Bayard, esparguete, tem do Nacional?..."
Regressávamos carregadas com o avio da semana. A mercearia era suficientemente perto e familiar para lá darmos um pulinho quando faltava algo, de repente. Batíamos no vidro da porta, ou íamos chamar o proprietário a casa, "oh, senhor António, desculpe lá, mas preciso tanto de um pacotinho de erva doce para as castanhas. Venda-me um, se faz favor."
Se íamos à praça levávamos os mesmos sacos de pano ou oleado. Se aí nos deslocávamos de improviso, ou nos esquecíamos dos sacos, era necessário comprar um de plástico, ou dois; os vendedores penduravam-nos nas bancas e vendiam-nos a cinco escudos a peça. Gastar dinheiro num saco plástico, dos bons, que guardávamos religiosamente, era um drama. Evitava-se bastante.
Ideias importante a reter:
1. Aviávamo-nos todos as semanas, e os avios eram pequenos, consentâneos com o que podíamos transportar nos sacos das compras.
2. Já existiam supermercados, como o Jumbo, no Centro Sul, onde se ia muito de vez em quando, mas não se tinha dada a explosão de hipermercados, a qual veio rebentar com o comércio tradicional. O consumo por atacado implicou a necessidade de sacos por atacado.
3. O lixo era depositado directamente do balde doméstico para o contentor. A campanha dos sacos surgiu posteriormente, dando utilidade aos que se traziam dos hipermercados.
Era outra vida. Impor limites ao uso de sacos de plástico implica, de alguma forma, voltar a um estilo de vida passado. Por mim, no que respeita às mercerias de bairro, venha ele. O pior são os contentores do lixo.
Regressávamos carregadas com o avio da semana. A mercearia era suficientemente perto e familiar para lá darmos um pulinho quando faltava algo, de repente. Batíamos no vidro da porta, ou íamos chamar o proprietário a casa, "oh, senhor António, desculpe lá, mas preciso tanto de um pacotinho de erva doce para as castanhas. Venda-me um, se faz favor."
Se íamos à praça levávamos os mesmos sacos de pano ou oleado. Se aí nos deslocávamos de improviso, ou nos esquecíamos dos sacos, era necessário comprar um de plástico, ou dois; os vendedores penduravam-nos nas bancas e vendiam-nos a cinco escudos a peça. Gastar dinheiro num saco plástico, dos bons, que guardávamos religiosamente, era um drama. Evitava-se bastante.
Ideias importante a reter:
1. Aviávamo-nos todos as semanas, e os avios eram pequenos, consentâneos com o que podíamos transportar nos sacos das compras.
2. Já existiam supermercados, como o Jumbo, no Centro Sul, onde se ia muito de vez em quando, mas não se tinha dada a explosão de hipermercados, a qual veio rebentar com o comércio tradicional. O consumo por atacado implicou a necessidade de sacos por atacado.
3. O lixo era depositado directamente do balde doméstico para o contentor. A campanha dos sacos surgiu posteriormente, dando utilidade aos que se traziam dos hipermercados.
Era outra vida. Impor limites ao uso de sacos de plástico implica, de alguma forma, voltar a um estilo de vida passado. Por mim, no que respeita às mercerias de bairro, venha ele. O pior são os contentores do lixo.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...