Quando digo que no Inverno as manhãs são geladas, e anoitece cedo, não me refiro à meteorologia.
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quinta-feira, dezembro 18, 2008
terça-feira, dezembro 16, 2008
Atada com correntes de um ferro muito resistente
No restaurante chinês, entre uma massa chau-min com gambas:
Mãe - A coisa está má, não está?!
Isabela - Está
Mãe - É o Sócrates. Ele é terrível.
Mãe - A coisa está má, não está?!
Isabela - Está
Mãe - É o Sócrates. Ele é terrível.
Isabela - É o Sócrates e a vida, de forma geral.
M. - Tens de aguentar.
I. (com lágrimas nos olhos) - Não aguento. Estou farta. Não aguento mesmo. A vida é muito triste.
M. - Então e os outros?! Pensas que para os outros é melhor?!
I. (engolindo as lágrimas) -A tristeza dos outros não me alegra.
M. - Mas a vida é assim, filha.
I. (a serena choradeira em curso) - Só queria largar tudo, arranjar trabalho em Moçambique, numa multinacional, ganhar bem para pôr cá dinheiro, vir a Portugal de seis em seis meses, pedir à Marília que tomasse conta de ti...
M. - Não. Não podes.
I. - Não posso porquê?
M. - Ela não vinha tomar conta de mim.
I. - Vinha, vinha, se eu lhe pedisse e pagasse.
M.- Moçambique já não é o que era. Pensas uma coisa e é outra. Agora há lá muitos assaltos. Olha, a tua madrinha que veio de lá há pouco tempo...
I. - A minha madrinha é uma racista, que queria continuar a tratar os pretos como os tratava no tempo do colonialismo, esperas que ela diga o quê?!
M. (silêncio...) Mas tens as cadelas.
I. - Levava as cadelas.
M. - Não podes.
I. - Mas porquê, mãe, porquê?
M. - Eu ia sentir muito a tua falta.
(Silêncio.)
I. - Então, a D. Lucinda já foi operada às cataratas?
sexta-feira, dezembro 12, 2008
Os dias
Os amigos escrevem-me, afirmando que se não actualizo o blogue com tanta frequência, isso quererá dizer que ando cheia de trabalho. Não é mentira, mas já andei, antes, com igual quantidade de obrigações, e escrevia mais.
A verdade é que a realidade me deprime e chega uma altura em que não sei sobre que escrever sem custos para a minha paz interior.
Não chega falar das dioxinas na carne de porco, é preciso chamar a atenção para a industrialização da morte de animais, em fábricas onde são tratados como meras peças de carne desde o momento do nascimento até à indigna morte. E isso faz-me sofrer. É preciso coragem para abordar o assunto.
Não basta falar das faltas dos deputados que elegemos para que nos representassem no parlamento. Seria necessário questionar de novo a democracia, o que se pensa ser este sistema e o que se faz dele. E isso faz-me sofrer.
Abordar a questão da luta dos professores por uma avaliação diferente seria fastidioso de extenso, e far-me-ia sofrer.
Deixei de acreditar no julgamento Casa Pia, embora conceda à juíza as melhores das intenções. O caso BPN não me interessa nem o do Banco Privado. Assuntos de bancos, sinceramente, só se for para levantamentos de dinheiro, e sem comissão, o que já nem na CGD é possível. Também me dava jeito que o meu banco me mandasse depressa o cartão de débito que substituirá o desmagnetizado, bem como o cartão de crédito com nova validade, porque, sinceramente, nestas condições está a ser difícil fazer as compras de Natal. Depois dizem que o consumo baixou!
Não tenho nada para dizer sobre os homens nem sobre as mulheres. Passam por mim, quase não existem. Os vizinhos de baixo, que não conheço, colocaram-me na caixa do correio um bilhete onde escreveram, sem erros, se perdeu um lençol, está cá em casa. Não perdi.
Basicamente, a única coisa que tenho para dizer é que tenho reparado muito que as actrizes e apresentadoras de tv com mais de 40 anos estão todas grávidas à porfia, e que o cancro agora também dá imensa capa nas revistas do coração, o que muito me espanta. Hoje de manhã fui à rua com as cadelas e verifiquei que a chuva vinha muito gelada. Em alguns lugares deve estar nevar. Eu já vi nevar uma vez. É bonito.
A verdade é que a realidade me deprime e chega uma altura em que não sei sobre que escrever sem custos para a minha paz interior.
Não chega falar das dioxinas na carne de porco, é preciso chamar a atenção para a industrialização da morte de animais, em fábricas onde são tratados como meras peças de carne desde o momento do nascimento até à indigna morte. E isso faz-me sofrer. É preciso coragem para abordar o assunto.
Não basta falar das faltas dos deputados que elegemos para que nos representassem no parlamento. Seria necessário questionar de novo a democracia, o que se pensa ser este sistema e o que se faz dele. E isso faz-me sofrer.
Abordar a questão da luta dos professores por uma avaliação diferente seria fastidioso de extenso, e far-me-ia sofrer.
Deixei de acreditar no julgamento Casa Pia, embora conceda à juíza as melhores das intenções. O caso BPN não me interessa nem o do Banco Privado. Assuntos de bancos, sinceramente, só se for para levantamentos de dinheiro, e sem comissão, o que já nem na CGD é possível. Também me dava jeito que o meu banco me mandasse depressa o cartão de débito que substituirá o desmagnetizado, bem como o cartão de crédito com nova validade, porque, sinceramente, nestas condições está a ser difícil fazer as compras de Natal. Depois dizem que o consumo baixou!
Não tenho nada para dizer sobre os homens nem sobre as mulheres. Passam por mim, quase não existem. Os vizinhos de baixo, que não conheço, colocaram-me na caixa do correio um bilhete onde escreveram, sem erros, se perdeu um lençol, está cá em casa. Não perdi.
Basicamente, a única coisa que tenho para dizer é que tenho reparado muito que as actrizes e apresentadoras de tv com mais de 40 anos estão todas grávidas à porfia, e que o cancro agora também dá imensa capa nas revistas do coração, o que muito me espanta. Hoje de manhã fui à rua com as cadelas e verifiquei que a chuva vinha muito gelada. Em alguns lugares deve estar nevar. Eu já vi nevar uma vez. É bonito.
quinta-feira, outubro 16, 2008
O preço do frango
No supermercado onde normalmente me abasteço, a carne de frango está a 1,75 euros. Se descontarmos ao preço final os custos de abate e transporte, concluímos que a vida de um frango valerá cerca de 50 cêntimos, ou seja, o preço da bica.
Os humanos dão grande valor às suas vidas, que consideram sem preço, mas se a maior parte das vidas humanas fosse taxável segundo valores realistas, com critérios assentes, por exemplo, na bondade das acções e dos sentimentos ou na capacidade produtiva, facilmente se perceberia que a existência do senhor Luís vale menos que a de uma barata de cozinha. É que não existe mal numa barata de cozinha, enquanto que no senhor Luís...
Desconheço o momento primevo da história da humanidade e do pensamento em que se atribuiu preço a contado à vida não-humana, mas foi um erro; toda a filosofia sobre comércio de animais está errada, e nós vivemos e compactuamos, convictamente, com um mundo profundamente errado.
A utilidade dos animais não reside na possibilidade de se tornarem alimento, como diz o Senhor no Velho Testamento. Os animais não racionais partilham a vida na terra com outros animais, entre os quais estamos nós. Se a racionalidade nos tivesse tornado realmente inteligentes, não os chacinávamos para manter a vida. Porque nenhuma vida consciente se pode manter inteira e limpa baseada na iniquidade. Ter perdido a inocência carrega-nos de uma responsabilidade maior relativamente ao mundo e aos seres que nele habitam. É uma responsabilidade que nos cabe só a nós e que não depende do livre arbítrio. É uma obrigação: aos humanos cabe proteger os seres mais fracos, e não explorá-los, dizimá-los.
No que respeita ao valor da vida, há um ponto em que os ateus e os crentes concordam: tenha ela sido um acaso ou resultado de uma intenção divina, a sua essência contém uma inexplicável "dimensão superior" que pode ser sentida, nomeadamente, através do normal desejo de manter uma vida longa e saudável. Esta "dimensão superior" é comum aos seres humanos e não humanos. É por isso que a vida de um frango não é menos importante que a de uma pessoa, por muito que a marquem a 1,75 euros.
quarta-feira, outubro 01, 2008
As mulheres-cão
Rara fotografia de La Goulue já velha, alcoólica e desamparada
Louise Weber, La Goulue, nasceu judia, perto de Paris, na segunda metade do século XIX. Foi bailarina de cancan, e estrela maior do Moulin Rouge. Tornou-se famosa pelos seus dotes de bailarina; conseguia arrebatar os chapéus dos admiradores elevando a perna até à altura das suas cabeças, enquanto deixava ver os culotes cheios de rendas. Posou nua. Posou para Toulouse-Lautrec e amigos.
Morreu em 1929, alcoólica, indigente. No final, vendia amendoins, cigarros e fósforos numa esquina perto do Moulin Rouge. Ninguém a reconhecia como antiga rainha do cancan. Os seus últimos e únicos amigos terão sido os seus animais.
Morreu em 1929, alcoólica, indigente. No final, vendia amendoins, cigarros e fósforos numa esquina perto do Moulin Rouge. Ninguém a reconhecia como antiga rainha do cancan. Os seus últimos e únicos amigos terão sido os seus animais.
quarta-feira, agosto 13, 2008
A tarde
Ao final de tarde, o sol projecta-se lasso contra o casario a oriente, branco, ocre e pardo; o estuário do Tejo perfeitamente azul, como nos outros dias, assim à distância, e as copas dos pinheiros mansos destacando-se bem verdes, segundo as regras do cenário perfeito.
Há silêncio pela casa toda, embora ouça o vento abanar os estores, os espanta-espíritos, a folga da porta.
Os pombos continuam a pousar no telhado dos prédios vizinhos, agora à sombra, e uma das minhas canas de bambu tem novos rebentos.
Tudo o que existe à minha volta está vivo e em paz.
Há silêncio pela casa toda, embora ouça o vento abanar os estores, os espanta-espíritos, a folga da porta.
Os pombos continuam a pousar no telhado dos prédios vizinhos, agora à sombra, e uma das minhas canas de bambu tem novos rebentos.
Tudo o que existe à minha volta está vivo e em paz.
quinta-feira, agosto 07, 2008
Casos da vida - Dany e Vanessa
Sinais exteriores de riqueza
Não têm emprego e pagam a renda da casa de seis em seis meses, só quando a mãe dela vem de visita, limpa a casa e deixa o frigorífico com comida para uma semana, em taparueres da loja dos chineses. O rendimento social de insersão mal lhes dá para carregar o telemóvel com valor suficiente para o envio de mensagens, onde se lê, liga-me que não tenho saldo. Cravam cigarros à malta do café, mas não consomem, apenas se sentam na mesa alheia. Às vezes pagam-lhes uma bica. A malta. À noite, encostam-se ao muro da praça emborcando Sagres choca, que compram no supermercado às garrafas de litro. Podem não ter um Ferrari, nem uns tenis de 200 euros, nem sequer um euro e noventa para o bilhete de autocarro para a Costa, mas têm um pit-bull de orelhas cortadas, de ar feroz, coleira de picos, trela curta. E um pit-bull... um pit-bull mete respeito.
sexta-feira, agosto 01, 2008
Grávida
Está na moda na blogosfera, e eu queria muito, muito, escrever postes descrevendo a minha deliciosa barriga grávida. Usar palavras como parir, e expressöes como placenta descaída, tenho pano na cara, sinto o crianço dar pontapés, tenho contracções, o puto está atrasado, ou então, chegou adiantado, o malandro.
Escrever sobre a amamentação, reclamando o peso das mamas como odres, os mamilos gretados, a criança chuchando que nem um bezerro e mijando como um burro. E as noites sem dormir, os babetes babados de tudo, os biberons desinfectados, as idas ao centro de saúde, o teste do pezinho... Não esquecendo os hábitos alimentares da criança, eventualmente mais crescida, já comeu dois ovos kinder, e agora, vejam bem, não quer a sopa, a culpa é da avó que lhe dá tudo o que pede. Não pode comer batatas fritas. Coisinhas assim. Ah, o que eu me regalaria se tivesse um baby blogue.
Mas cada um veio ao mundo para a sua missão concreta, a mim calha-me escrever sobre os bifes de cebolada que estão ao lume, mais a lista de compras da minha mãe, e as cadelas que daqui a pouco querem ir à rua, e se não forem, mijam no tapete, e que não me lembre de fazer reclamações.
Escrever sobre a amamentação, reclamando o peso das mamas como odres, os mamilos gretados, a criança chuchando que nem um bezerro e mijando como um burro. E as noites sem dormir, os babetes babados de tudo, os biberons desinfectados, as idas ao centro de saúde, o teste do pezinho... Não esquecendo os hábitos alimentares da criança, eventualmente mais crescida, já comeu dois ovos kinder, e agora, vejam bem, não quer a sopa, a culpa é da avó que lhe dá tudo o que pede. Não pode comer batatas fritas. Coisinhas assim. Ah, o que eu me regalaria se tivesse um baby blogue.
Mas cada um veio ao mundo para a sua missão concreta, a mim calha-me escrever sobre os bifes de cebolada que estão ao lume, mais a lista de compras da minha mãe, e as cadelas que daqui a pouco querem ir à rua, e se não forem, mijam no tapete, e que não me lembre de fazer reclamações.
domingo, julho 27, 2008
Casos da vida - Andreia
A vida é que está difícil, por isso dorme com os amigos e eles pagam-lhe. E os amigos dos amigos. E os amigos dos amigos dos amigos. Até uns que vieram agora de férias da Alemanha, luso-descendentes.
Andreia arranjou este esquema para evitar ser prostituta.
sábado, julho 12, 2008
A esperança
Tive tanta esperança aqui. Tive tanta esperança naquele lugar além; naquela estrada, tive uma esperança quase total, uma fé toda absurda. Neste banco, neste jardim, nesta praia, ali naquele primeiro-andar ao Feijó, na camioneta para Setúbal, e numa casa velha a caminho de Cantanhede, e mais acolá, naquela lavra de arroz quase maduro.
Os anos passam muito depressa, e, resistindo-lhes, tenho tido muita esperança em todos os lugares, de manhã, à tarde e à noite, porque um dia me disseram que a esperança é a última a morrer. Com sorte, eu morro na segunda, e a esperança na terça, sem que nunca nos tenhamos encontrado.
Os anos passam muito depressa, e, resistindo-lhes, tenho tido muita esperança em todos os lugares, de manhã, à tarde e à noite, porque um dia me disseram que a esperança é a última a morrer. Com sorte, eu morro na segunda, e a esperança na terça, sem que nunca nos tenhamos encontrado.
quinta-feira, julho 10, 2008
Extrema solidão
Não gostamos dos homossexuais porque são homossexuais, e as suas práticas são contra naturam. Não gostamos dos pretos porque são pretos e cheiram a catinga. Não gostamos dos imigrantes porque são imigrantes e nos roubam trabalho. Não gostamos dos brasileiros porque são brasileiros e vivem às três famílias no mesmo apartamento e fazem muito barulho. Não gostamos dos gordos, porque são gordos, e não controlam o que comem. Não gostamos dos magros, porque são magros e nós também gostaríamos de ser. Não gostamos dos baixinhos porque são baixinhos e ainda por cima não há nada que os faça ficar altos. Não gostamos dos altos, porque são altos e o que daríamos por mais cinco centímetros! Não gostamos dos mal vestidos porque são mal vestidos, e isso os categoriza como pobres e de mau gosto. Não gostamos dos peludos, porque são peludos, e os pêlos são feios. Não gostamos de mulheres a ocupar cargos de responsabilidade porque são mulheres e têm aquele andicape de engravidar e ter de faltar ao trabalho. Não gostamos de reciclar, porque reciclar é chato e não conseguimos aprender a que cor corresponde cada embalagem. Não gostamos nem de cães nem de gatos, porque são animais e cheiram mal e deitam pêlo e têm doenças. Não pensamos no sofrimento dos animais que comemos porque são animais para comer e não podemos desenvolver afectos por gado. Não gostamos de nos deitar na relva porque a relva está plantada na terra e a terra tem bichos. Não gostamos de andar descalços porque o chão é porco e sujamos os pés. Não gostamos de quem passa por nós na rua, porque ocupa o nosso espaço, e é gente feia, nós somos bem melhores. Não gostamos dos ricos porque são ricos e têm mais do que nós. Não gostamos dos pobres porque são pobres e têm menos que nós. Não gostamos dos nossos vizinhos porque são nossos vizinhos e levam vidas que não percebemos. Não gostamos das nossas famílias porque são nossas famílias e tinham a obrigação se lembrarem mais de nós ou de nos convidarem para isto e aquilo. Não gostamos dos nossos pais porque são nossos pais e estão velhos e chatos e dão trabalho e já viveram a vida deles. Não gostamos dos nossos colegas porque são apenas colegas e não se pode confiar neles para nada.
Não gostamos de viver, mas enquanto vivermos vamos pôr em prática a nossa equação de ódios, que não nos interessa compreender. Não gostamos de compreender apenas porque não gostamos de compreender. De resto, somos muito abertos e não temos nada contra ninguém.
Não gostamos de viver, mas enquanto vivermos vamos pôr em prática a nossa equação de ódios, que não nos interessa compreender. Não gostamos de compreender apenas porque não gostamos de compreender. De resto, somos muito abertos e não temos nada contra ninguém.
segunda-feira, junho 23, 2008
Como se não fosse preta
Para o Carlos Narciso
Já disse à minha filha, tem cuidado, que o teu marido é homem, e, como se não bastasse, preto, por isso, se vais lá para Cabo Verde ter com ele, tem cuidado; qualquer dia estás metida na cozinha a fazer petiscos para ele e para os amigos, enquanto vêem bola e bebem que nem esponjas. Já lhe deixei o sermão. Oh, há lá homem que seja diferente.... não é por ele ser meu genro que há-de ser melhor que os outros.
Quem fala é a D. Ilda, uma vizinha que estimo muito, cabo-verdiana retinta. Foi ela que recolheu o Tejo quando teve esgana. Andava para aí aos tombos e foi ela que o levou para o veterinário, e o curou, e todos ajudámos a pagar, nós os vizinhos amigos. O Tejo ficou melhor que antes de ter esgana. Já não treme nem nada, e coisa alguma pega com ele. Cura santa!
Gosto muito da D. Ilda, que com outras vizinhas, a D. Mara, a D. Lucinda, e a Flávia, que já morreu, mas que anda por aí, enforma uma comissão informal de protecção dos cães e gatos abandonados que aparecem cá no bairro, ou que cá vêm abandonar.
No nosso bairro somos pobres e feios. Porcos, não, nem maus. Achamos que entre nós e a bicharada há pouca diferença. Identificamo-nos com esses mamíferos quase tão rafeiros como nós, quase tão abandonados, perdidos, esfomeados, sedentos, carentes como nós. Também sou da "comissão", mas na reserva. Não pertenço às operacionais de rua, como ela, porque o meu coração não aguenta, sabendo elas que podem contar comigo e com a minha mãe. Numa casa ou na outra, podem chamar-nos para a guerra a qualquer altura.
Dentro de uma semana a D. Ilda viaja. Vai de férias. Vai pela primeira vez a Cabo Verde após 40 anos de ausência. Primeiro vai ela, depois, a filha. À vez, por causa dos cães. E conta-me, Isabelinha, vim de lá com 12 anos. Fiz aqui uma escala de meses, antes de ir para Itália. A minha mãe estava a servir em Itália, e eu fiquei em Lisboa, em casa de uma prima, à espera da carta de chamada da minha mãe, à espera de transporte, de autorizações, que antes do 25 de Abril era assim... mas eu não ia para Itália para servir, ia para ser a filha da minha mãe, e a minha prima, Isabelinha, veja isto, a minha prima, filha da irmã da minha mãe, pegou em mim e pôs-me a servir na Almirante Reis. O que eu chorei. Passava na casa da patroa toda a semana, e chorava. Uma negra sozinha em Lisboa, Isabelinha, imagina o que isto seja? O que se sofria? Punham-me a lavar roupa no tanque da varanda, com a água gelada; os meus dedos gretaram-se, sangraram-se de frieiras, uma coisa que eu nunca tinha visto, frieiras, alguma vez teve?! Era eu a lavar a roupa e ela a manchar-se de sangue, meu Deus, se me lembro disto... A minha prima vendeu-me como escrava para uma casa... Depois a minha mãe não conseguia falar comigo quando telefonava ao Domingo, e a minha prima desculpava-se que eu não estava em casa, arranjava mentiras para não dizer que me tinha posto a servir. Quando tinha 16 anos arranjei um namorado, o meu falecido marido, o pai dos meus filhos, que não tive outro, engravidei, e olhe, fugi com ele.
Mas agora vai lá à sua terra, D. Ilda, está contente, não está?! E tem muitas memórias na sua cabeça, não tem? Coisas de que se lembra muito?
Sim, tenho, mas são tudo coisas de há 40 anos, coisas velhas que já não existem; agora vou ver como se fosse pela primeira vez, como se não tivesse nascido lá, como se, olhe, como se não fosse preta.
Quem fala é a D. Ilda, uma vizinha que estimo muito, cabo-verdiana retinta. Foi ela que recolheu o Tejo quando teve esgana. Andava para aí aos tombos e foi ela que o levou para o veterinário, e o curou, e todos ajudámos a pagar, nós os vizinhos amigos. O Tejo ficou melhor que antes de ter esgana. Já não treme nem nada, e coisa alguma pega com ele. Cura santa!
Gosto muito da D. Ilda, que com outras vizinhas, a D. Mara, a D. Lucinda, e a Flávia, que já morreu, mas que anda por aí, enforma uma comissão informal de protecção dos cães e gatos abandonados que aparecem cá no bairro, ou que cá vêm abandonar.
No nosso bairro somos pobres e feios. Porcos, não, nem maus. Achamos que entre nós e a bicharada há pouca diferença. Identificamo-nos com esses mamíferos quase tão rafeiros como nós, quase tão abandonados, perdidos, esfomeados, sedentos, carentes como nós. Também sou da "comissão", mas na reserva. Não pertenço às operacionais de rua, como ela, porque o meu coração não aguenta, sabendo elas que podem contar comigo e com a minha mãe. Numa casa ou na outra, podem chamar-nos para a guerra a qualquer altura.
Dentro de uma semana a D. Ilda viaja. Vai de férias. Vai pela primeira vez a Cabo Verde após 40 anos de ausência. Primeiro vai ela, depois, a filha. À vez, por causa dos cães. E conta-me, Isabelinha, vim de lá com 12 anos. Fiz aqui uma escala de meses, antes de ir para Itália. A minha mãe estava a servir em Itália, e eu fiquei em Lisboa, em casa de uma prima, à espera da carta de chamada da minha mãe, à espera de transporte, de autorizações, que antes do 25 de Abril era assim... mas eu não ia para Itália para servir, ia para ser a filha da minha mãe, e a minha prima, Isabelinha, veja isto, a minha prima, filha da irmã da minha mãe, pegou em mim e pôs-me a servir na Almirante Reis. O que eu chorei. Passava na casa da patroa toda a semana, e chorava. Uma negra sozinha em Lisboa, Isabelinha, imagina o que isto seja? O que se sofria? Punham-me a lavar roupa no tanque da varanda, com a água gelada; os meus dedos gretaram-se, sangraram-se de frieiras, uma coisa que eu nunca tinha visto, frieiras, alguma vez teve?! Era eu a lavar a roupa e ela a manchar-se de sangue, meu Deus, se me lembro disto... A minha prima vendeu-me como escrava para uma casa... Depois a minha mãe não conseguia falar comigo quando telefonava ao Domingo, e a minha prima desculpava-se que eu não estava em casa, arranjava mentiras para não dizer que me tinha posto a servir. Quando tinha 16 anos arranjei um namorado, o meu falecido marido, o pai dos meus filhos, que não tive outro, engravidei, e olhe, fugi com ele.
Mas agora vai lá à sua terra, D. Ilda, está contente, não está?! E tem muitas memórias na sua cabeça, não tem? Coisas de que se lembra muito?
Sim, tenho, mas são tudo coisas de há 40 anos, coisas velhas que já não existem; agora vou ver como se fosse pela primeira vez, como se não tivesse nascido lá, como se, olhe, como se não fosse preta.
quarta-feira, abril 23, 2008
O mundo perdido
O mundo está a ser atravessado por triliões de quilómetros de estradas transitáveis e intransitáveis, e triliões de quilómetros de chão livre, sem estradas ou caminhos, porque o mundo é grande como um planeta selvagem, mas ninguém está plantado no mundo. Estão todos a trabalhar em fábricas de embalagens de plástico e escritórios de import-export, enquanto o mundo floresce e murcha, floresce e murcha.
sábado, março 29, 2008
A casa dele
Não o incomodo. Não lhe dou trabalho. Fica tudo como estava antes de eu entrar. A sua vida igualzinha, sem tirar nem pôr. É assim todos os dias desde que arranjei a chave da sua casa. Custou-me muito, mas consegui, por mor de antigas cunhas e muito seguras. Quando estou cansada e vazia, e se ele não está, entro em silêncio, sento-me num sofá, e perco-me a contemplar os pormenores da mobília, a folhear os livros de família e os diários em gavetas. Como se ele estivesse na capa deste livro; as suas mãos terão folheado este livro; aperto-o contra o peito, com ternura; beijo-lhe a capa; cheiro-a de olhos muito fechados. Ele há-de estar ali. Remexo-me no sofá. Não o incomodo. Não perturbo uma leve aragem do seu dia. Tudo igual ao que era antes de eu ter nascido. Mas o seu corpo senta-se neste sofá. A sua roupa. Deve ter o seu cheiro. Se fosse uma cadela poderia cheirá-lo nesta coberta; que pena não ser uma cadela. Nascer, morrer, ter um dono. Percorro toda a casa, até a arrecadação, sobretudo as coisas velhas. O quarto onde dorme acompanhado, onde faz amor com a mulher que ama. Os seus ténis velhos. Um casaco castanho. A camisa de dormir com que a mulher cobre os seios que ele adora. E tanta dignidade. O quarto das crianças, que cheira tão bem, tão a novo. Que casa tão bonita, tão leve, despretensiosa. Que bem que se está na sua casa, que rescende a amor, sol e flores vivas. Saio recomposta. Suspiro como se tivesse calcorreado quilómetros e precisasse descansar. Ele está bem; que bom, saber que está bem, que é feliz, que poderia ser feliz, que é o único a sentir-se morto lá dentro.
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Reposição 1
Ando sem tempo para alimentar o blogue. Podia ir enchendo com You Tubes, mas, sendo mulher piedosa, resolvi fazer a reposição de alguns textos já publicados, cuja recepção não me satisfez nem um bocadinho. Começa agora.
Dilema da carne
É paradoxal termos sido oferecidos de uma vida de carne para que possamos escolher viver sem ela.
Dilema da carne
É paradoxal termos sido oferecidos de uma vida de carne para que possamos escolher viver sem ela.
sexta-feira, janeiro 11, 2008
Quero-te tanto
Hoje li um poema de amor. Comecei a ler um poema de amor. Trazia a onda salpicada de marulho e sal, o relâmpago quase a rebentar, uma espécie de beijo roubado contra o muro do parque, uma vertigem, um abaixamento da tensão arterial, repentino, oportuno, e, num segundo, esse ápice, e não mais, atravessou-me a estúpida lembrança de me ter esquecido tão ignobilmente do amor.
quarta-feira, dezembro 19, 2007
Somos muito bons
O privilégio de uma extraordinária lucidez paga-se caro. Quanto mais humano mais desumano.
Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa
quarta-feira, dezembro 12, 2007
Comédia dos dias
O fogo e a neve dos tempos da nossa vida convertem-se, com os anos, em meia dúzia de anedotas irresistíveis para contar ao serão. É a maior vantagem que tiramos de um longo passado: podermos rir-nos dele.
segunda-feira, novembro 12, 2007
Aos 44
Creio que é capaz de ter o seu interesse saber de onde viemos e para onde vamos. Mas, útil, seria perceber com exactidão o que fazemos aqui. E, tendo-o percebido, por volta dos 40 anos, quando se percebe por volta dos 40 anos, agir consequentemente.
sábado, novembro 10, 2007
Salvação
Abrir as janelas. Sol, outra vez. Céu limpo. Luz. Dois navios no Tejo. Barcos à vela, uma dúzia. O pombo continua atrás da pomba, no telhado do prédio em frente. Lá em baixo, pessoas carregam pacotes e crianças. Silêncio.
Aquecer o leite e meter-lhe café. Doce de ameixa no pãozinho. Não lavar a louça de ontem. Não fazer a cama. De vez em quando um traquinar reconfortante na cozinha do apartamento ao lado; alguém está vivo, como eu; de resto, silêncio.
As manhãs de Sábado.
Aquecer o leite e meter-lhe café. Doce de ameixa no pãozinho. Não lavar a louça de ontem. Não fazer a cama. De vez em quando um traquinar reconfortante na cozinha do apartamento ao lado; alguém está vivo, como eu; de resto, silêncio.
As manhãs de Sábado.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...