A Spanair declarou que o avião que na passada semana se despenhou no aeroporto de Madrid não apresentava problemas técnicos, tendo sido alvo de inspecção há oito meses. Com os aviões não sei, mas os automóveis, que para maior sossego, mesmo que ilusório, circulam com as rodas no chão, costumam ir à revisão de seis em seis meses, e há sempre qualquer coisa a precisar de substituição. São as velas, o filtro de óleo, a junta do carter, se é que isso existe...
Andei pela primeira vez de avião em 1971. Andar de avião, nessa época, era uma festa: mandávamos fazer roupa nova, íamos ao cabeleiro, às vezes até pintávamos a cara e as unhas, os amigos e conhecidos iam despedir-se de nós ao aeroporto, e a viagem compensava. As hospedeiras tratavam-nos com luxo, havia presentes para as crianças, sacos da companhia aérea para os adultos, rebuçados, bebidas e refeições gratuitas, e não me lembro de serem catering de terceira classe. Ao viajar de avião gozava-se a própria viagem. Ao longo dos anos 70 e 80 terei feito cerca de 40 viagens, todas internacionais de longo curso, em diversas companhias aéreas do mundo civilizado ou selvagem e nunca me ocorreu que um avião pudesse cair. Sim, podia acontecer, eventualmente, mas era coisa tão rara, e não haveria de ser comigo lá dentro! Por uma questão de lógica, partia do princípio que uma viagem de avião era algo bem preparado e que alguém velava para que tudo corresse muito bem, porque não se brinca com a vida de centenas de pessoas.
Um avião metia respeito. Era uma máquina grande e poderosa, e os pilotos, os deuses que a comandavam. Lembro-me de haver uma varanda no aeroporto da Portela de onde víamos os aparelhos levantar voo e aterrar. Quando entrava num avião, tinha a impressão, e creio não estar errada, que muita gente tinha andado de volta dele, verificando-o milimetricamente, preparando-o por dentro e por fora para a viagem a realizar. Hoje não. Hoje, os aviões nos quais viajo são uma espécie de autocarros de carreira. Tenho vindo a ganhar algum medo de me meter lá dentro. Passo a explicar.
Por questões relacionadas com a crise e etc., viajo quase só nas companhias de baixo custo, aquelas em que para se arranjar espaço para ler um tablóide é necessário dobrá-lo em quatro, nomeadamente a Easy Jet e a Vueling. Selecciono quase sempre voos a partir da hora de almoço, porque eu, de manhã, é mais caminha. Ora, o que verifico é que os aparelhos chegam ao destino A às 12:37 e partem para o destino B às 13:15. Chegando a B às 16:30, voltam a levantar voo para A ou para C às 17:22. Aterram em a A ou C às 19:45, de onde voltam a partir para B ou D às 20:38, e, sinceramente, pergunto-me, até um bocado a medo, quando parará o aparelho. A acumulação de viagens é tal, que se entrar num voo em Lisboa às 19:00, o que me acontece com frequência, encontro nos porta-revistas da minha fila, situados nas costas dos assentos da frente,e em grande confusão, periódicos de diversas origens. De vez em quando tenho a sorte de apanhar o El País e o The Guardian, por exemplo, mais uma qualquer revista francesa. Entretanto habituei-me a deixar os meus jornais e revistas portugueses para benefício dos passageiros seguintes. Tal abundância de periódicos, que ninguém se dá ao trabalho de recolher entre viagens, atesta a quantidade de viagens que o aparelho fez, e o cansaço da própria tripulação. Quer-me parecer que esta filosofia dos voos em série, e sem descanso da máquina, não garante grande segurança, mas o tempo o confirmará. Infelizmente, não sem tragédia.
Andei pela primeira vez de avião em 1971. Andar de avião, nessa época, era uma festa: mandávamos fazer roupa nova, íamos ao cabeleiro, às vezes até pintávamos a cara e as unhas, os amigos e conhecidos iam despedir-se de nós ao aeroporto, e a viagem compensava. As hospedeiras tratavam-nos com luxo, havia presentes para as crianças, sacos da companhia aérea para os adultos, rebuçados, bebidas e refeições gratuitas, e não me lembro de serem catering de terceira classe. Ao viajar de avião gozava-se a própria viagem. Ao longo dos anos 70 e 80 terei feito cerca de 40 viagens, todas internacionais de longo curso, em diversas companhias aéreas do mundo civilizado ou selvagem e nunca me ocorreu que um avião pudesse cair. Sim, podia acontecer, eventualmente, mas era coisa tão rara, e não haveria de ser comigo lá dentro! Por uma questão de lógica, partia do princípio que uma viagem de avião era algo bem preparado e que alguém velava para que tudo corresse muito bem, porque não se brinca com a vida de centenas de pessoas.
Um avião metia respeito. Era uma máquina grande e poderosa, e os pilotos, os deuses que a comandavam. Lembro-me de haver uma varanda no aeroporto da Portela de onde víamos os aparelhos levantar voo e aterrar. Quando entrava num avião, tinha a impressão, e creio não estar errada, que muita gente tinha andado de volta dele, verificando-o milimetricamente, preparando-o por dentro e por fora para a viagem a realizar. Hoje não. Hoje, os aviões nos quais viajo são uma espécie de autocarros de carreira. Tenho vindo a ganhar algum medo de me meter lá dentro. Passo a explicar.
Por questões relacionadas com a crise e etc., viajo quase só nas companhias de baixo custo, aquelas em que para se arranjar espaço para ler um tablóide é necessário dobrá-lo em quatro, nomeadamente a Easy Jet e a Vueling. Selecciono quase sempre voos a partir da hora de almoço, porque eu, de manhã, é mais caminha. Ora, o que verifico é que os aparelhos chegam ao destino A às 12:37 e partem para o destino B às 13:15. Chegando a B às 16:30, voltam a levantar voo para A ou para C às 17:22. Aterram em a A ou C às 19:45, de onde voltam a partir para B ou D às 20:38, e, sinceramente, pergunto-me, até um bocado a medo, quando parará o aparelho. A acumulação de viagens é tal, que se entrar num voo em Lisboa às 19:00, o que me acontece com frequência, encontro nos porta-revistas da minha fila, situados nas costas dos assentos da frente,e em grande confusão, periódicos de diversas origens. De vez em quando tenho a sorte de apanhar o El País e o The Guardian, por exemplo, mais uma qualquer revista francesa. Entretanto habituei-me a deixar os meus jornais e revistas portugueses para benefício dos passageiros seguintes. Tal abundância de periódicos, que ninguém se dá ao trabalho de recolher entre viagens, atesta a quantidade de viagens que o aparelho fez, e o cansaço da própria tripulação. Quer-me parecer que esta filosofia dos voos em série, e sem descanso da máquina, não garante grande segurança, mas o tempo o confirmará. Infelizmente, não sem tragédia.