Estou sempre a pensar no valor dos objectos, que é completamente aleatório, e não depende em absoluto do seu valor de custo.
Ultimamente deitei fora uma série de objectos que eventualmente teriam algum valor de troca, mas de que apenas pensava ver-me livre. Poupei outros que julgo não terem valor algum, mas que considero serem marcos dos quais não posso separar-me por agora. Destaco um de sândalo trabalhado que poderá servir como capa de esferográfica, se é que isto existe, e que trouxe da Índia quando lá estive há muitos anos. Não me lembro onde o comprei. Em tempos teve um bico e uma carga e escreveu. Agora é só um objecto que me evoca a Índia, sobretudo o desejo de voltar a esse continente. Tenho objectos da minha infância. Por exemplo, o valor do pisa-papéis que foi do meu pai, quando era menina, e que aqui está, é impossível de calcular para mim.
Quanto à bomboneira vermelha, da fábrica Raul da Bernarda, que a minha mãe levou para África no enxoval, que regressou nos contentores dos retornados, e que agora me serve de porta-lápis, é possível quantificar o seu valor, para mim?
Outro exemplo: quando o meu pai morreu, a minha mãe apareceu na capela mortuária com uma pequena estátua de Nossa Senhora de Fátima em plástico pintado, mostrou-ma às escondidas, e disse-me, ele tinha por Ela uma fé muito grande, era a sua madrinha, e devia ir com ele, vê lá se lha escondes no corpo. Deixou-ma nas nãos, e eu olhei para a pobre figurinha barata pensando que não valia a pena dizer-lhe que aquilo era apenas um objecto. Há situações em que mais vale deixarmo-nos ir na onda. Era verdade, o meu pai tinha uma fé enorme na santa; fora sua madrinha de baptismo e para a minha mãe era importante que aquele objecto o acompanhasse. Acerquei-me do caixão e num movimento muito rápido e sem testemunhas, que os rituais supersticiosos envergonham a morte católica, abri uma das mãozorras mortas do meu pai, não sei qual, e tentei fechá-la de novo sobre a Nossa Senhorazinha de faces doces. Não se fechou como eu queria. Apertei-a, tentando moldá-la com a minha, mas não se fechou. Ficou semi-fechada com a Nossa Senhora lassa no seu interior. Lembro-me das mãos inertes do meu pai, muito brancas e frias, mas ainda não enrijecidas. A santa lá foi para baixo de terra escondida no ninho da carne do meu pai, e por lá foi ficando, meia dúzia de anos, por entre a carne putrefacta do meu pai, os ossos descarnados do meu pai. Ainda lá estaria no dia em que lhe levantaram os restos mortais e a terão deitado para o lixo, descolorida, juntamente com a prótese da anca, o ferro no joelho, os restos do fato de boa fazenda, os sapatos e atacadores, e aquelas matérias que pertenceram aos defuntos, os fizeram, e contudo os vermes rejeitaram e não se consideram suficientemente dignas para ocupar espaço nas gavetas de ossadas.
A Nossa Senhora era um objecto sem valor. Tenho a certeza que o meu pai não foi para a morte mais protegido porque a levou fechada na mão. Contudo, foi para nós um acto importante, que de alguma forma nos alivou relativamente à desprotecção que aquele homem sofria agora que não lhe podíamos valer. Se já lá não estávamos nós, estivesse ao menos ao santa na qual ele cria. Um bocado de plástico que os coveiros deitaram para ao lixo, enquanto praguejavam contra a quantidade de objectos que as pessoas metem nos caixões, não perecebendo que nenhum ouro do mundo podia substituir aquela Senhora de plástico.