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segunda-feira, dezembro 08, 2008

O valor de uma Nossa Senhora de Fátima



Estou sempre a pensar no valor dos objectos, que é completamente aleatório, e não depende em absoluto do seu valor de custo.

Ultimamente deitei fora uma série de objectos que eventualmente teriam algum valor de troca, mas de que apenas pensava ver-me livre. Poupei outros que julgo não terem valor algum, mas que considero serem marcos dos quais não posso separar-me por agora. Destaco um de sândalo trabalhado que poderá servir como capa de esferográfica, se é que isto existe, e que trouxe da Índia quando lá estive há muitos anos. Não me lembro onde o comprei. Em tempos teve um bico e uma carga e escreveu. Agora é só um objecto que me evoca a Índia, sobretudo o desejo de voltar a esse continente. Tenho objectos da minha infância. Por exemplo, o valor do pisa-papéis que foi do meu pai, quando era menina, e que aqui está, é impossível de calcular para mim.

Quanto à bomboneira vermelha, da fábrica Raul da Bernarda, que a minha mãe levou para África no enxoval, que regressou nos contentores dos retornados, e que agora me serve de porta-lápis, é possível quantificar o seu valor, para mim?


Outro exemplo: quando o meu pai morreu, a minha mãe apareceu na capela mortuária com uma pequena estátua de Nossa Senhora de Fátima em plástico pintado, mostrou-ma às escondidas, e disse-me, ele tinha por Ela uma fé muito grande, era a sua madrinha, e devia ir com ele, vê lá se lha escondes no corpo. Deixou-ma nas nãos, e eu olhei para a pobre figurinha barata pensando que não valia a pena dizer-lhe que aquilo era apenas um objecto. Há situações em que mais vale deixarmo-nos ir na onda. Era verdade, o meu pai tinha uma fé enorme na santa; fora sua madrinha de baptismo e para a minha mãe era importante que aquele objecto o acompanhasse. Acerquei-me do caixão e num movimento muito rápido e sem testemunhas, que os rituais supersticiosos envergonham a morte católica, abri uma das mãozorras mortas do meu pai, não sei qual, e tentei fechá-la de novo sobre a Nossa Senhorazinha de faces doces. Não se fechou como eu queria. Apertei-a, tentando moldá-la com a minha, mas não se fechou. Ficou semi-fechada com a Nossa Senhora lassa no seu interior. Lembro-me das mãos inertes do meu pai, muito brancas e frias, mas ainda não enrijecidas. A santa lá foi para baixo de terra escondida no ninho da carne do meu pai, e por lá foi ficando, meia dúzia de anos, por entre a carne putrefacta do meu pai, os ossos descarnados do meu pai. Ainda lá estaria no dia em que lhe levantaram os restos mortais e a terão deitado para o lixo, descolorida, juntamente com a prótese da anca, o ferro no joelho, os restos do fato de boa fazenda, os sapatos e atacadores, e aquelas matérias que pertenceram aos defuntos, os fizeram, e contudo os vermes rejeitaram e não se consideram suficientemente dignas para ocupar espaço nas gavetas de ossadas.

A Nossa Senhora era um objecto sem valor. Tenho a certeza que o meu pai não foi para a morte mais protegido porque a levou fechada na mão. Contudo, foi para nós um acto importante, que de alguma forma nos alivou relativamente à desprotecção que aquele homem sofria agora que não lhe podíamos valer. Se já lá não estávamos nós, estivesse ao menos ao santa na qual ele cria. Um bocado de plástico que os coveiros deitaram para ao lixo, enquanto praguejavam contra a quantidade de objectos que as pessoas metem nos caixões, não perecebendo que nenhum ouro do mundo podia substituir aquela Senhora de plástico.

terça-feira, janeiro 01, 2008

A vida sem grande moral

No passado dia de Natal, o Cardeal-Patriarca de Lisboa manifestou preocupação com o facto de a Igreja Católica ter dificuldade em atrair jovens. Exceptuando os escuteiros, não é fácil descortinar alguém com menos de 60 anos nos bancos das igrejas. Poderá a Igreja ser totalmente responsabilizada pela indiferença e afastamento dos seu fiéis naturais?
Vejamos, qual de nós não consegue enumerar mentalmente, em poucos segundos, meia dúzia de assuntos de alguma forma relacionados com a sexualidade ou o estatuto social das mulheres e de alguns grupos, relativamente aos quais a Igreja se mantém incompreensivelmente intolerante, afastando jovens e adultos? A haver renovação, seria de melhorar nestas esferas, embora admita não estar à espera que a Igreja abdique dos princípios nos quais se funda quanto à sua essência teológica, mas que, ao menos, se revele capaz de incluir e cuidar quem a procura, sem olhar a outra causa que a própria busca.




Por outro lado, as tomadas de posição da Igreja podem garantir o necessário contrapeso à confusão ideológica que assalta cada vida em particular. De uma Igreja espera-se, precisamente, que reflicta sobre os tempos e fenómenos que atravessa, e que, confrontando-os com a filosofia religiosa defendida, exponha eventuais consequências de um conjunto de crenças, elegendo-as ou rejeitando-as, e estabelecendo uma ética. Obviamente, não lhe cabe o papel de agradar, nem o de acompanhar as modas do tempo sem as meditar. Se alguma coisa louvo às Igrejas é exactamente a teimosia com que se mantêm fiéis a um conjunto de princípios quando todos se preparam para abandonar o velho barco, substituindo-o por um recente modelo em fibra de vidro, mais leve, porque, aparentemente, mais fácil de manobrar.

Escrever Deus com minúscula

Que responsabilidade detém a Igreja no que respeita ao facto de maior parte dos adolescentes escrever o vocábulo Deus com letra minúscula, revelando desconhecer o valor próprio e simbólico do termo?! O que isto significa, muito literalmente, é que a maior parte deles não recebeu formação religiosa de qualquer natureza, equação na qual entra a família.
As famílias de hoje, seja qual for a forma que revistam, não consideraram necessário fornecer às crianças os utensílios necessários para pensar a cultura na qual se movem, tendo excluído do processo educativo o ensino organizado dos fundamentos de uma moral cristã, ou de qualquer moral teológica. E eis o dilema: substituiram-na por que outra visão do mundo? Não tendo oferecido nada em troca, como olhar o mundo construtivamente sem a habilitação de uma moral? Como fazer para tomar decisões sobre a adequação de uma nova ideia ao edifício pessoal de crenças? Ou melhor, como integramos no nosso sistema de valores o que é novo? Compramos este produto ideológico ou nem por isso?

O fascismo digitalizado

Nos velhos tempos, a educação religiosa fornecia-nos a cartilha de valores que permitia seleccionar informalmente o material ideológico que melhor nos servia; esse crivo supria as ausências parentais no que respeitava à transmissão de valores. Se em casa não se aprendia a diferença entre o Bem e o Mal (os adolescentes também escrevem Bem e Mal com minúsculas), ela aprendia-se na igreja, fosse qual fosse a confissão. Havia sempre uma igreja para cada um. Inclusive para aqueles cujos pais se tinham tornado ateus por excesso de uma errada ideia de religião nas suas vidas, o que faz todo o sentido. Contudo, fornecer aos filhos uma educação religiosa era uma forma de os iniciar na cultura a que pertenciam, para além de que decorar os 10 Mandamentos nunca fez mal a ninguém. Mas isso acabou. Os mandamentos de hoje são outros: rouba antes que te roubem; lixa antes que te lixem; nada importa porque tudo é relativo.
Reparo que os jovens que a Igreja Católica deseja ver no seu culto adquiriram já um sistema de valores assente no culto ao ego e ao prazer como princípio e fim. É um sistema que afronta o meu, por excluir deliberadamente valores que considero essenciais para os grupos humanos, como os da solidariedade. Não me espanta, portanto, que o nosso tempo pulule de jovens engravatados defendendo a economia liberal, o capitalismo, as leis da selva aplicadas aos actos económicos, políticos e sociais, resumindo, o fascismo digitalizado: elimina os pequenos e torna-te maior.

Bater nos padres (e nos professores)

Grupos que por desagrado ou vingança mandam espancar os seus padres, figuras sacralizadas, como ocorreu em Alijó, na véspera de Natal, perderam todo o contacto com o sagrado. Igualmente, cresceram ignorando o respeito que se deve aos detentores do saber e aos transmissores do conhecimento. Em que outro tempo e espaço teria sido possível agredir um ministro de Deus sem temer a irreparável condenação ao fogo eterno?! Ser-me-ia possível compreender atitudes de revolta anti-clerical e de condenação da religião enquanto entretém desresponsabilizador do povo, sempre que ela o foi, mas o que se passa hoje é diferente. A religião nunca saiu da vida dos agressores de padres, porque nunca chegou a entrar.
Creio que a educação dos valores entrou em lento colapso com a perda de influência da Igreja, após o 25 de Abril. Tal perda de influência terá constituído uma inconsciente penalização clerical, em alguns casos justa, já que a Igreja Católica colaborou inquestionavelmente na disseminação da ditadura e na sua manutenção, mas reflectiu, igualmente, a abertura da nossa cultura a uma errónea modernização através da glorificação do rápido e do fácil, que tão tortos frutos produzem.
A perda de influência da Igreja, com todos os males que acarretava, ocasionou danos culturais geracionais que não poderão já ser superados pelos jovens, ou jovens adultos, que a mesma cobiça.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...