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quarta-feira, julho 09, 2008

Uma peça na engrenagem



Hoje, tivemos uma reunião com o patrão, lá na fábrica. Quer melhorar a produtividade, e esteve a explicar-nos a teoria da engrenagem.
O doutor Mouzinho, eloquente, com o dom da palavra, de cabeça erguida para a assembleia de trabalhadores, e braço estendido, disse que o que se pretende é o que funcionário faça um percurso de identificação com a sua tarefa, baseie o seu desenvolvimento pessoal e profissional nos pontos fracos e fortes do seu desempenho, e realize, a todo o momento, uma constante auto-avaliação do seu trabalho diário, obrigatoriamente por escrito. Mais, o trabalhador não se pode abstrair da organização, no seu todo, para definir os seus objectivos na linha de montagem, relativamente à tarefa que lhe cabe. Cada um de nós deve considerar-se uma peça da organização, e funcionar enquanto tal. Neste momento, lembrei-me do Charlot, em Tempos Modernos, e imaginei-me no seu lugar, uma peça na engrenagem. Apenas uma peça na engrenagem.
Fiquei triste. Não quero ser uma peça. Não quero fazer parte da engrenagem.


sexta-feira, outubro 12, 2007

Ensaio sobre a lucidez I

Foto Francesca Woodman


Não sou infeliz. Trabalho na linha de montagem de uma fábrica de parafusos, e os dias deslizam, sucedendo-se entre pensamentos sobre o trabalho. Quando estou na fábrica não penso em mais nada. E à noite sonho que torneio parafusos atrás de parafusos, que desentorto os tortos, que não fui capaz de reparar peças com defeito, que me esforço por dar ainda mais brilho aos de primeira qualidade.
Fabricar parafusos é não só uma psicoterapia como uma técnica que poucos compreendem. É preciso amor ao parafuso, teimosia e paciência. Não basta ser especialista. Ter frequentado muitas acções de formação sobre parafusos e aparafusamento não chega. É preciso, de facto, amar o material para além do processo de fabricação.
A semana de trabalho na fábrica é muito longa. À sexta-feira, sinto-me cansada, e só penso em evadir-me. Podia ter-me lançado nas drogas - consta serem eficazes para o efeito, mas a minha mãe sempre me proibiu de aceitar rebuçados a estranhos, por esse motivo acabo por ir ao cinema, ao teatro, a exposições, e a livrarias. Sinto-me, então, bastante feliz, e por duas horas não penso em parafusos, não tenho corpo nem alma nem existo.
Evadir-me implica morrer duas horas por semana.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Levar demasiado a sério o trabalho

Não sei quanto é que os serviços secretos lhe pagam, sobretudo passando o homem a vida a agir por contar própria, desautorizado e perseguido pelos chefes, mas espero que lhe paguem à mesma, e muito bem, porque Jack Bauer leva o trabalho demasiado a sério.
24 horas por dia, sem dormir, comer, beber, arriscando os miolos... pensei que só o conseguissem os médicos e enfermeiros do nosso serviço nacional de saúde; os professores em serviço extra-aula permanente... mas, afinal, há outros heróis.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Premonição



Estou?! Sim, bom dia dona Eugénia. Liga-me à senhora directora, por favor?!
Maria Teresa, más notícias: acordei doente... não posso ir! Pois, eu sei, mas deve ser uma crise de bílis, que não aguento a cabeça em pé... algum iogurte fora do prazo. Eu sei, Maria Teresa, mas a minha cabeça... é impossível, estou praticamente em estado de coma... sim, a gente, depois, na segunda, logo vê isso. Xau, bom fim-de-semana, filha!

domingo, janeiro 29, 2006

Início

Enquanto o juiz da cidade de Viterbo, em Itália, pondera a eventual existência histórica de Jesus, sou assaltada por pensamentos excessivamente cristãos.
Ao ficarmos incapacitados para o trabalho normal, das nove às cinco, por um longo período de tempo, ou se dele somos privados, percebemos a importância vital dessa condenação que maldizemos todos os dias, nos faz saltar da cama cedo, mal dormidos, meros corpos animados de funções vitais que se exercem voluntárias, contra quase tudo. Quando ficamos saudosos dos papéis de que temporariamente nos livramos, das discussões, das incredulidades diárias, compreendemos que essa pirâmide que se constrói aos nossos olhos, a que se dá forma lenta mas tenazmente, resmungando, é a vida, a melhor, a única.
O trabalho não é apenas uma forma de organização social. Não é apenas uma cultura a que nos condenamos. É provável que o trabalho seja verdadeiramente aquilo que nos dá um sentido, porque nos força a olhar o outro, a enfrentá-lo. A pensá-lo. Somos-lhe úteis não apenas porque isso nos garante a sobrevivência diária, mas porque não há outra sobrevivência possível. A de nos vivermos com o outro, pelo, para o outro.
As manhãs de sábado e domingo, quando não quero sair de casa, porque chove ou faz frio, e estou excessivamente preguiçosa para descer à rua, tornam viáveis as piores segundas-feiras. As manhãs de preguiça, mesmo frias e sombrias, permitem-me renascer e voltar a ter 20 anos, sabendo o que sei hoje. Assim me concedo, numa só existência, inúmeras vidas.
O fim é inevitável: eu continuo a preferir o início.



Foto de J. Saudek, Life, 1966

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...