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sexta-feira, julho 04, 2008

Mamonas assassinas

Dr. Rey, cirurgião-estrela de Dr. 90210

Desde que mudei para o Meo passei a apanhar um canal televisivo intitulado E!. No essencial, e no acessório, E! consiste numa espécie de revista do coração passada para a televisão. Quem é famoso, quem é o mais famoso entre o famosos, quem é sexy, quem é o mais sexy entre os sexies, episódios de novela da vida real com pessoas que julgo serem vip nos EUA, e o meu programa de humor preferido: Dr.90210. O programa não é de humor, mas para mim é como se fosse: que pratinho.
Trata de operações plásticas inimagináveis, a meu ver, respondendo à procura dos californianos por este produto: a transformação do corpo com que nasceram. Raparigas de 16 anos, e mulheres de 60, descobrem em si defeitos que eu não descortino, como o queixo ligeiramente recolhido ou as sobrancelhas descaídas. As clientes do Dr. Rey são mulheres absolutamente normais, com características faciais e físicas que as definem, que as tornam diferentes dos outros, e não menos bonitas, talvez até mais. Saudáveis mamas portuguesas, normais em tamanho e forma, e bem mantidas, causam traumas na Califórnia. Nunca um implante de silicone com menos de 500, 600 cc. Por outras palavras, umas mamonas. Aliás, qualquer corpo português normal teria de ser reformulado de cima até abaixo na clínica privada do Dr. Roberto Rey, brasileiro de nascimento, emigrado para os States para se tornar um cirurgião plástico famoso. Conseguiu. Bonitão. Vestido como um gigolo dos caros. Bisturi fácil e ligeiro.

As californianas realizam operações que nunca passariam pelo meu horizonte de possibilidades se não visse este programa. Vamos aos exemplos: uma das pacientes anunciou que ia realizar uma labioplastia, e tendo eu reparado que possuía os lábios finos, pensei que fosse engrossá-los. Engano meu, a paciente, ia operar os lábios vulvares, porque após o parto tinham ficado muito largos "e metiam-se para dentro durante o sexo".
Uma outra encontrava-se já de quatro no bloco operatório, e com as pernas abertas, realizando algo a que chamou um branqueamento anal, e que me pareceu pertencer à família dos peelings faciais da Lili Caneças. Aquilo deve queimar um bocado. Não sei. Segundo a paciente, o ânus ia ficar com muito melhor aspecto após o branqueamento. E eu acredito, mas também com o uso que dou ao meu, não preciso de melhorar. A mesma doente revelou que tinha implantes nas bochechas, mas que um deles começara a sair-lhe pelo olho, magoando, portanto foi preciso substituí-lo; mandou então prender ao osso, com um parafuso de titânio que não apita nos aeroportos, o implante substituto. Eu vi a operação. Faz-se rasgando a cara por dentro, acima do maxilar superior. A maior parte das intervenções ao queixo, bochechas e nariz fazem-se por dentro. Tenho ganho um grande endurance cirúrgico a ver o Dr. Rey. Cortar parece-me fácil. A coser também não havia de me sair mal, agora para estancar o sangue é que me dava jeito um curso técnico-profissional. A mesma cliente, eu deveria dizer, o mesmo filão de ouro, queixou-se muito de celulite na parte de trás de uma coxa. Eu vi: eram três piquinhos causados pelo próprio encaixe muscular e que quase toda a gente tem. Eu acho um encanto, mas os piquinhos envergonhavam-na tanto que não permitia ao marido vê-la de costas em biquini. O médico, com um sorriso, sempre o mesmo sorriso, pegou numa seringa, tirou-lhe gordura de onde ela não a tinha, porque é difícil encontrar-lha em que lugar seja do corpo, e injectou-lha nos buraquinhos que pareciam sorrisos. O homem passa a vida a transferir gordura daqui para ali; uma massa amarela misturada com sangue. Tira gordura das pernas, da barriga, e injecta-a na cara, aqui e ali, em múltiplas pequenas picadas que têm como efeito preenchê-la, encher rugas, o diabo a sete. E diz, apreciador, "aqui está um bela gordura". Convém ver o programa com a digestão já feita.
Outra cliente na casa dos 40, 50, é difícil dizer, já transformada numa múmia egípcia, e juro que não exagero; apenas menos seca, e menos castanha, até porque pinta o cabelo de louro e usa baton cor-de-rosa, repete, o meu corpo está melhor que aos 18 anos, o meu corpo está melhor que aos 18 anos. Honestamente, o corpo dela já não tem idade, mas também não respeita a ideia que tenho de um corpo: transformou-se numa estrutura suportada por implantes de fibra de vidro, metal e silicone. É um ciborgue. Tem os olhos muito arregalados, porque a pele da testa foi repuxada por uns fios interiores cosidos no alto do crânio, tapados pelos cabelos. É uma visão aterradora. Quem inicia este processo de operações é obrigado a viver nele até ao fim dos seus dias. Deixem-me explicar-vos o que acontece a uma mama com um implante de 600 cc. quando começa a descair, ou o implante rebenta numa queda de bicicleta?

(Continua amanhã, ou isso.)

segunda-feira, junho 30, 2008

A vingança da gorda


Foto de Leonard Nimoy


É o funcionário novo lá na fábrica. Terá os seus 16 anos, idade legal para o trabalho, e anda a dar serventia. Tem a mania que é poeta. Se calhar é poeta, não sei, mas que eu sou cabra velha é uma certeza, e costumo dizer-lhe, olha lá, isto dos teus olhos são estrelas, eu percebo, eu e toda a gente, mas não tens maneira diferente de dizer a mesma coisa?
Ah, não interessa, responde-me o puto, as miúdas gostam. Está bem, meu amigo, mas a poesia é uma espécie de território sagrado, não é para engatar miúdas. Pode servir-te como isco, mas então chama-lhe isco. Prefiro que me digas, escrevi aqui este isco, veja lá, Isabela, o que é que acha. Percebes o que estou a dizer? Percebo. Não percebes nada. Não percebes nada de nada. Não fazes a menor ideia do que seja a poesia. E o pior que pode haver é um poeta vaidoso. São aos milhares, e não há nada pior. Um poeta vaidoso é pior que uma praga de pulgas na carpete da sala. Livre-nos Deus. Não percebes nada do que te digo, pois não? Percebo. Não mintas. Estás a zeros. Não estou nada.
Isto passou. O rapaz nunca mais me mostrou os poemas, graças aos céus.
Esta semana encontrei-o no autocarro. Sorrimos. É giro o rapaz. Tem as faces rosadas, ainda um certo ar de menino. Não fosse a vaidade poética, e simpatizaria mais com ele.

Saímos na paragem da fábrica, e quando se encontra a meu lado, mesmo junto à porta do autocarro, e lhe sorrio, descendo, o poeta vaidoso diz-me, veja lá não tombe o autocarro pró seu lado. Fixei-lhe o olhar, atravessando-o, já não sorrindo, e segui o meu caminho. Não tombe o autocarro?!; o sacana, o grande cabrão estaria a chamar-me gorda? Ai, pois estava, pois estava. Não tombe o autocarro, grande cumprimento matinal, sim senhor. E eu a pensar que me tinha livrado, com a adultícia, dos insultos adolescentes sobre a gordura. Lindo. Fiquei a matutar. O comentário jocoso devia ter caído em saco roto, mas não caiu, porque os fundos estão ainda bem cosidos. Devia ter-lhe dito, ó grande marmanjo, gorda é a tua vaidade. Devia ter-lhe dito, eu sei lá, qualquer coisa com espírito, que desvalorizasse a gordura, que desproblematizasse a questão. Mas não me ocorreu. Não fui capaz. Fiquei paralisada naquilo, no gorda, gorda, gorda... como um eco, como quem tem medo de elevadores ou de andar de avião.
A chamar-me gorda... Espera lá, espera, meu cabranito. Hás-de cá vir com os teus poemas da tanga, hás-de cá vir, hás-de, hás-de, meu menino!

domingo, março 23, 2008

Estás à espera de quê para te ires embora?



- Como foram esses tempos?
- Nessa época, aos domingos, refugiava-me na eira para estar sozinha com os gatos e as galinhas. No Inverno, estendia-me no chão, à chapa do sol. Era bom. Não ouvia ninguém.
- Então, mas o que tira de bom desses tempos?
- De bom, desses tempos... - Nada, era o que me vinha à cabeça. Nada. Não seria o que esperavam ouvir, mas como sempre acreditei na bondade das respostas imediatas, decidi continuar, que se lixasse, e o que havia nisto de afronta, raiva e verdade! - Não precisar de ninguém. Ter-me tornado ab-so-lu-ta-mente autónoma. Fazer sozinha, com as minhas valências, o que a outros custa multidões.
- Tornou-se demasiado independente?!
- Enfim, dependo de saber que os outros existem, mas não dependo deles. Detesto a distância que me separa dos outros, contudo, tudo me parece no seu lugar à distância. Aprendi a estar longe, e isso tornou-se a minha casa. Há coisas que não sei fazer acompanhada... não sei, pronto, o que quer que lhe diga? Ir ao cinema, por exemplo... é estranho ir acompanhada... ao supermercado... a um museu, uma exposição... andar sozinha na rua... Não sei. Sei mal. E estou sempre à espera de perder. À espera que alguém se vá embora. Que desistam de mim. Que me digam que não têm tempo. Que não podem. Essa é a resposta natural. E quando acontece, mais tarde ou mais cedo, até respiro fundo. Finalmente foi-me dito o que esperava e nunca mais vinha. Finalmente, a ordem, e tudo pode retomar o seu curso normal.
Ela não me respondeu. Esperava que continuasse. Sorriu-me, séria, contudo, e senti que me ouvia, que talvez pudesse compreender-me.
- Mas não pode esquecer essas pessoas, pois não?!
- Não, não consigo... tenho-as sempre entaladas aqui - e fiz o gesto, a mão na garganta, como se a cortasse à navalha, mas não era isso, e sorri com o meu sorriso mais bonito - às vezes, sabe?!, penso que não esquecer os outros é a minha vingança contra a pouca importância que me deram. Contra terem-me largado com a minha total complacência. Melhor, respondendo ao meu persistente estímulo. Contra nunca terem insistido, nunca terem dito, oh minha grande filha-da-puta, eu não vou nada fazer aquilo que esperas, vais ter que lidar comigo, vais ter que gerir a tua vida comigo, vais engolir esse orgulho...
- Mas é contra si...
- É sempre contra mim.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Que morram longe



Perder alguém que se amou fecha-nos para os outros, mesmo aqueles para quem até somos importantes. Homens e mulheres passam por nós, sorriem-nos, falam-nos, mas ninguém pode substituir a alma de quem se amou muito. Não permitimos, porque não queremos, durante muitos anos, não se fazendo contas ao tempo. Suportamo-lo voluntariamente, rangendo os dentes.
Uma defesa? Sobretudo uma vingança, realizada em nós, por nós, em nome dos outros. Um autosacrifício vivido com amargura dissimulada na raiva. Que os outros expiem connosco a nossa dor. Não se comprazerão com a possibilidade de nos amarem. Não estamos lá para mais ninguém.


sábado, novembro 18, 2006

Da esperança e do nada: a tragicomédia da resiliência

Meninos da rua, no Brasil

A investigação em ciências sociais estuda o conceito de resiliência, em crianças e jovens, para perceber o motivo por que algumas possuem maior capacidade de regeneração após experiências traumáticas.
A capacidade para resistir a situações de carência e/ou trauma emocional depende de certa vivência e aprendizagem do mundo. Quem recebeu, mesmo que uma vez, sem exemplo, manifestações de afecto e confiança, poderá ser capaz de esperar uma vida inteira pelo segundo momento dessa experiência; esperá-lo, antecipá-lo, fantasiá-lo, e, assim, resistir.
A isso sempre chamámos, em bonito português, a esperança.
Quem não teve coisa alguma, não sabe o que esperar, nada tem por que esperar.

Isto explicará a aparente saúde mental da jovem alemã raptada, e mantida em severo cativeiro, pelo seu raptor, durante oito anos: a esperança no dia D.
Uma criança despojada de tudo, desde o princípio, não demonstrará capacidades regenerativas, como Natasha Kampusch. Não as aprendeu, estas não são inatas, e dificilmente se estruturará a ponto de conseguir os mínimos necessários a uma socialização saudável.
A resiliência tem, contudo, os seus limites. O objecto de continuado esforço sofre desgaste interno, muitas vezes imperceptível, do qual não recupera facilmente. Isto, como qualquer peça, de qualquer mecanismo.
A pessoa resiliente terá adquirido vícios de sobrevivência que custosamente abandonará: baixa auto-estima disfarçada, isolamento, intolerância geral, impaciência, ansiedade, agressividade, entre outros.
Todos somos sobreviventes em diversos graus, mas nenhum sobrevivente perde a memória, saltando sobre as experiências vividas. Não seria possível apagar registos que traçam a personalidade, mas o resiliente pensa-se capaz de o fazer. Conseguir, sozinho, e o consequente orgulho disso, é um vício de comportamento resiliente. A pessoa resiliente considera-se forte, invencível, acima de outros. Possui grande consciência daquilo a que resistiu. Recorda, sem recordar, o pesado custo dessa resistência à dor, mas isso não a torna mais realmente mais forte. Em algum momento do percurso de vida ocorre uma quebra. O resiliente percebe que a esperança, afinal, serviu pouco, e torna-se impossível continuar a representar, para si mesmo, a tragicomédia da resiliência.
Não acredito em resilientes. Não há.
Somos peças que já não podem substituir-se.

quarta-feira, maio 31, 2006

Abraça-me e beija-me

(III da série "O que me comove")


Não me lembro de grandes traços particulares. Dez, onze anos com o nariz muito ranhoso e um rabo-de-cavalo despenteado; os olhos semicerrados, quando sorri; castanhos, pequeninos, cheios de vida e medo, desculpa e atrevimento. Faltam-lhe dentes. Não tenho a certeza. Não consigo fixar bem o seu rosto. Custa-me. Tenho vergonha. Faltam-lhe ou talvez estejam tortos ou riscados. Pormenores, não sei. Hoje trazia umas calças vermelhas e uma t-shirt às riscas ou com flores. Tenho essa ideia vaga. As unhas andam sempre negras, isso vejo bem, porque ela toca-me, abraça-me, beija-me. Ela agarra-me, e eu deixo, porque nesses momentos sou feliz. As pessoas reparam, mas eu quero que ela me agarre, que perceba que sou sólida, real; que existo para ela. Quero que me toque e beije e abrace, porque não sei quantas oportunidades terá, no futuro, de tocar, abraçar e beijar alguém. E abraçar, e ser beijada. Por isso, abraço-a e beijo-a, sabendo que o meu poder insignificante pode ainda protegê-la, e a mim, dos que reparam.
Ela precisa de mim, e eu dela. Quero habituá-la mal. Quero que sinta, depois, a falta inevitável de mim, para que procure noutros, nos que hão-de vir, o que teve comigo; quero que os mace, se forem de ficar maçados, mas que não se resigne a perder-me, estando esta perda datada.


Jan Saudek, The Shelter, 1963

Ela quase não existe. A Catarina. Não fomos apresentadas. Veio ter comigo. Olhou-me fixamente e sorriu. É uma menina tão linda e doce! Eu sorri, perguntei-lhe o nome, e apaixonámo-nos à primeira vista. Sou uma menina grande e, ela, uma mulher pequenina. Creio que não sabe como me chamo. Nomeia-me pela incumbência que julga pertencer-me, como “senhor motorista”, “senhor enfermeiro, mas não tive tempo para reparar.
A mãe da Catarina trabalha na noite. O pai é alcoólico. Tem mais 2 irmãos, com seis e dois anos. Os pais estão a divorciar-se, vivendo ainda na mesma casa. O pai, quando chega muito vermelho, bate na mãe e nos irmãos, enquanto ela se esconde. Conta-me.
Vem ter comigo aos gabinetes onde me encontro, espera-me pelo caminho, e conta-me tudo, de olhos fechados, enquanto me abraça, e fica encostadinha a mim sem dizer nada, e eu deixo-a sentir o meu calor. Se está a ler um livro pára, de repente, entusiasmada com a narrativa, e prende-me o rosto com as duas mãos, e beija-me com força. E diz "é tão querida!" Está ao meu lado, sempre que pode, estendendo os limites possíveis.
Ontem, pedi-lhe que me contasse uma história sobre a coisa mais engraçada que lhe tivesse acontecido. Riu-se. Lembrou-se logo de uma, cuja memória pertence a outros:
- Eu era pequena, tinha 2, 3 anos. Comi mal, depois era de noite e os meus pais foram trabalhar. Então, acordei de madrugada, com fome; como estava sozinha e vi no chão um biscoito de chocolate duro, pensei que podia comê-lo. Meti-o na boca e comecei a trincar, mas era duro e sabia mal. Depois, os meus pais chegaram, e ficaram aflitos, porque era uma tartaruga pequenininha. Tiraram-ma da boca já toda esquisita, blargh, mas não morri. Depois, a minha mãe, aflita, disse que nunca mais ia comprar tartarugas, para não acontecer outra vez.
Riu-se muito quando acabou. Eu sorri, apenas. Perguntou-me se não tinha gostado. Respondi que era engraçada, mas, coitada da tartaruga!, e perguntei:

- Catarina, depois, a partir daí, nunca mais tiveste fome à noite, por comer mal?
Não se lembra. Olha para mim séria. Não percebe.
Mas eu sei, pela forma como me procura, me abraça, me beija, que sentiu sempre, sente agora, uma fome devoradora de tudo, a qualquer hora. Uma fome de mim, que tenho nada, que tenho apenas o que ela tem e o que procura. Essa fome, reconheço-a. E quando estamos abraçadas, ela mata a sua fome inicial, e eu, a minha que é crónica. Resta-me acreditar que o calor dos meus braços aqueça os seus, por agora, para que a distância e o tempo não permitam, nunca, encontrá-la vendendo, num bairro qualquer, os seus abraços e beijos tão cheios de luz e sombra.
Aperto-lhe a mãozinha. Aperto-lhe muito a mãos e os pulsos, e quero dizer-lhe aquilo que dizemos quando apertamos com força as mãos e os pulsos de alguém.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...