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sábado, maio 27, 2006
Patriotismo
A bandeira nacional serve, como é do senso comum, para pendurar nas varandas e nas janelas, e esticar nas empenas, quando a selecção da bola marca golos à Inglaterra e à Holanda -- e para arrear, acto contínuo, se um improvável e inverosímil país como a Sérvia-Monte... monte quê?, nos arruma com duas batatas a seco.
sábado, maio 13, 2006
Das coisas de que não se fala
Nunca falamos das putas: da sua tristeza, da sua generosidade, do seu desalento, da sua tão dissimulada alegria, da sua surpreendente magnificência, das suas lágrimas, do seu choro quando verdadeiramente as amamos e elas nos amam.
Às nove da manhã
Gosto assim das meninas: muito ciosas das suas maminhas generosas, muito dignas no andar de modo a que o salto alto lhes levante a nádega presunçosa, muito ignorantes da sintaxe e muito orgulhosas disso, muito perfeccionistas no jeito de arredondar a unhazinha do pé, muito desastradas no enrolar do primeiro caderno do Expresso. Não o digo com orgulho: é um meu tão censurável defeito antigo, eu sei: ainda assim pergunto que dizer de vê-las e desejá-las com o cílio arreganhado fio por fio, desassossegadas por mor do putativo esborratar do baton, com o sobressalto de por um instante breve lhes descair ou erguer-se um milímetro a linha da cintura, com o desassossego de ser-lhes o rouge demasiado ou ligeiramente escasso. Claro que podemos sempre falar de quotas e outras coisas assim sérias, graves –- mas, oh, as meninas que temem que o mundo acabe às nove da manhã…
quinta-feira, maio 11, 2006
As dificuldades de penetração
As mulheres têm maiores dificuldades de acesso a lugares de chefia ou decisão, a um assentozinho no Parlamento Europeu, a uma propina no conselho de administração do Metro? Parece que sim. Por razões culturais, sociológicas, fisiológicas, sócio-económicas, as mulheres concorrem num mercado feroz com desvantagens de partida assinaláveis. É o caralho. Homens menos capazes levam-lhes, tantas vezes, a palma.
Ponto: uma sociedade democrática, moderna, evoluída, só tem a ganhar com o fim destas actuais disparidades que resultam, em regra, em desigualdades óbvias, em injustiças frequentes, numa subalternidade das mulheres que leva a que ainda hoje se publiquem anúncios oficiais a recrutar «secretárias» e não «lugares de secretariado».
Há uma maneira simples de resolver esta questã, este imbróglio, este gravame sem lógica: estabelecendo um sistema de quotas. A partir de um determinado momento, o conselho de administração das Águas de Portugal, onde pontificam cinco marmanjos, passará, por decreto, a ser constituído por duas mulheres e meia e dois homens e meio (até porque num sistema de quotas não será difícil o recrutamento de meias mulheres e meios homens). E na assessoria da Secretaria de Estado da Justiça, é um supor, haverá quatro macacos e quatro senhoras. É para isto, mais ou menos assim, que caminha a nossa legislação e o nosso entendimento do que é, ou deverá ser, o lugar da mulher numa sociedade digna do seu nome.
A opção compreende-se, enfim, mas: a verdade é que se atacam as consequências sem a mínima preocupação com as causas. Não se discernindo que a injustiça aumenta, que os desequilíbrios são, por esta via, acentuados.
Uma minha muito querida amiga, quase tão ambiciosa e cúpida como ignorante, gaba-me o sistema das quotas e, diligente, esclarece: sim, as mulheres com filhos, sobretudo sendo ainda de mama e exigindo da mamã os desvelos e a costumeira e consabida atenção, vê-se mais impedida de acesso a lugares com exigências grandes de disponibilidade de tempo; mas o sistema de quotas permite ultrapassar tudo isso: ela, agora, vai-se candidatar à comissão política do partido e passa, de rompante, dezasseis notáveis do sexo masculino; acede, portanto, à estrutura; e, entrementes, paga a uma senhora que lhe fique em casa a tomar conta dos filhos.
Eis como, pelo sistema de quotas, se restabelece e se impõe um sistema justo de igualdade entre cavalheiros e senhoras no acesso aos lugares de decisão.
Ponto: uma sociedade democrática, moderna, evoluída, só tem a ganhar com o fim destas actuais disparidades que resultam, em regra, em desigualdades óbvias, em injustiças frequentes, numa subalternidade das mulheres que leva a que ainda hoje se publiquem anúncios oficiais a recrutar «secretárias» e não «lugares de secretariado».
Há uma maneira simples de resolver esta questã, este imbróglio, este gravame sem lógica: estabelecendo um sistema de quotas. A partir de um determinado momento, o conselho de administração das Águas de Portugal, onde pontificam cinco marmanjos, passará, por decreto, a ser constituído por duas mulheres e meia e dois homens e meio (até porque num sistema de quotas não será difícil o recrutamento de meias mulheres e meios homens). E na assessoria da Secretaria de Estado da Justiça, é um supor, haverá quatro macacos e quatro senhoras. É para isto, mais ou menos assim, que caminha a nossa legislação e o nosso entendimento do que é, ou deverá ser, o lugar da mulher numa sociedade digna do seu nome.
A opção compreende-se, enfim, mas: a verdade é que se atacam as consequências sem a mínima preocupação com as causas. Não se discernindo que a injustiça aumenta, que os desequilíbrios são, por esta via, acentuados.
Uma minha muito querida amiga, quase tão ambiciosa e cúpida como ignorante, gaba-me o sistema das quotas e, diligente, esclarece: sim, as mulheres com filhos, sobretudo sendo ainda de mama e exigindo da mamã os desvelos e a costumeira e consabida atenção, vê-se mais impedida de acesso a lugares com exigências grandes de disponibilidade de tempo; mas o sistema de quotas permite ultrapassar tudo isso: ela, agora, vai-se candidatar à comissão política do partido e passa, de rompante, dezasseis notáveis do sexo masculino; acede, portanto, à estrutura; e, entrementes, paga a uma senhora que lhe fique em casa a tomar conta dos filhos.
Eis como, pelo sistema de quotas, se restabelece e se impõe um sistema justo de igualdade entre cavalheiros e senhoras no acesso aos lugares de decisão.
domingo, abril 02, 2006
As escolhas
Se bebesse Seven-up não haveria de suportar a resposta frequente do «pode ser uma Sprite?». Quando, lá de três em três meses, peço a minha aguazinha das Pedras – olho o empregado acto contínuo de cenho cerrado como quem diz «pões-me na mesa uma Vidago e prego-te um balázio nos cornos meu filho da puta».
Há um princípio estético que é um princípio ético: em matéria de gosto não é possível recuar um milímetro – sob pena de perdermos em absoluto o respeito que de nós a nós mesmos nos é devido e exigido. Um mocinho que expõe arte abstracta porque é mais fácil esborratar uma tela com acrílicos e trinchas de furco do que estudar e aprender os rudimentos técnicos da Arte – impõe-nos o dever público da acusação de modo a que os infractores (ele, neste caso, e o galerista), sem direito a recurso e sem outras providências que um mandato judicial emitido de forma expedita, sejam de imediato levados ao cárcere debaixo de armas.
Comece-se pela displicência em matéria de gosto (gabando os Madredeus, valorizando as análises económicas de Perez Metelo, deixando em paz a Margarida Rebelo Pinto, aplaudindo entusiasticamente o João Pedro George) – e já se sabe: a História recorda-nos que, por menos, mais que uma geração ilustre se perdeu na dissolução das vontades e nos labirintos da degenerescência.
Há um princípio estético que é um princípio ético: em matéria de gosto não é possível recuar um milímetro – sob pena de perdermos em absoluto o respeito que de nós a nós mesmos nos é devido e exigido. Um mocinho que expõe arte abstracta porque é mais fácil esborratar uma tela com acrílicos e trinchas de furco do que estudar e aprender os rudimentos técnicos da Arte – impõe-nos o dever público da acusação de modo a que os infractores (ele, neste caso, e o galerista), sem direito a recurso e sem outras providências que um mandato judicial emitido de forma expedita, sejam de imediato levados ao cárcere debaixo de armas.
Comece-se pela displicência em matéria de gosto (gabando os Madredeus, valorizando as análises económicas de Perez Metelo, deixando em paz a Margarida Rebelo Pinto, aplaudindo entusiasticamente o João Pedro George) – e já se sabe: a História recorda-nos que, por menos, mais que uma geração ilustre se perdeu na dissolução das vontades e nos labirintos da degenerescência.
sábado, abril 01, 2006
A descomedida enunciação metafórica
Gosto muito da susana, comentadora de primeira aqui da casa, e fico também de pé atrás – só tenho pena de nunca termos sido apresentados, e medo de vir a sê-lo: porque aprecio quase tanto como temo a inteligência feminina: e a susana, intui-se, o que diz é apenas um sinal do que está disponível para dizer se o interlocutor tiver disponibilidade para passar, digamos, da conversa da esfregona e do bacamarte matinal e inconsequente que a Isabela reitera, para um outro nível argumentativo em que não há preconceitos de base a estraçalhar o discurso. Por isso mesmo, por exemplo, a susana diz que “o sangue é lindo. os meninos é que se acanham” – e nós sabemos que, dizendo-o, não apenas está a afastar deliberadamente da conversa os grunhos que vêm ao Mundo Perfeito rir-se com expressões do género «fodia-te toda» ou «o teu problema é que estás cô priúdo e tenho pressa», como simultaneamente se derrete na expectativa de que alguém aceda e responda a essa descomedida enunciação metafórica. «o sangue é lindo. os meninos é que se acanham» - diz a susana como quem diz: «o coração é a única coisa que verdadeiramente interessa. os meninos é que andam distraídos com a superficialidade das coreografias». Acontece que não sou eu, que as temo, às meninas inteligentes, que me ponho a jeito para o colóquio proposto. Mas, ainda assim, juro, se não fosse logo à noite jogarem o Sporting às sete e o Benfica às nove, abdicava do mais e haveria de escrever-lhe uma declaração filosófica sobre o amor, o desamparo, o êxtase, o desabrigo e a exaltação de um corpo que se deseja como se estar vivo decorresse duma disponibilidade permanente para sermos de alguém antes mesmo de nos pertencermos a nós mesmos.
sexta-feira, março 31, 2006
Eu se fosse mais novo ia lá dar uma volta
Aqui:
«Esta é uma boa altura para fazer férias no Canadá. Basta comprar o bilhete de ida, que as autoridades canadianas tratam da viagem de regresso.»
«Esta é uma boa altura para fazer férias no Canadá. Basta comprar o bilhete de ida, que as autoridades canadianas tratam da viagem de regresso.»
quinta-feira, março 30, 2006
A esfregona
Não se me dava ter o período de quinze em quinze dias. Sete ou oito dias por mês haveria de ter a desculpa do «oh dói-me a cabeça», «não me apetece», «estou mesmo é a precisar dum salmonetezinho».
Vamos por partes e confessemos: somos, os homens, sim é verdade, um tagalho broncos. Manejar esfregonas, entendermo-nos com os autocolantes das fraldas descartáveis, fazer um centro de mesa, explicitar sistemas fisiológicos, limpar as retretes ou o pó dos móveis da salinha de estar, compor adversativas, escolher um anel de noivado, redigir um convite, fazer uma lista de compras, seguir o fio condutor dum romance da Margarida, telefonar duas horas seguidas – é coisa que lamentavelmente nos ultrapassa. Tem razão a Isabela e eu dou-lha toda: dêem-nos uma esfregona para as mãos e o mundo desmorona-se.
Resta-nos o quê? O futebol, pois, e a política – quer dizer: a retórica, a oratória, a metáfora. Se o sistema solar, em boa verdade, estivesse dependente de nós, os homens, nos decidirmos à acção prática – bem poderia Vénus (e quem diz este diz os restantes e concomitantes planetas) na sua órbita confirmar a teoria da desaceleração vagarosa mas irreversível por efeito da inércia, estatelando-se não sei bem aonde por não ter estudado Física quando se começasse a transformar a energia cinética em potencial e estacionasse em pleno espaço sideral. Que elas, as mulheres, e Isabela igualmente o exprimiu, é que fazem mover o mundo e as suas roldanas todas, agindo, mexendo, avançando, desenculatrando (foda-se...).
Ora eu só lhes invejo é o período – não obstante a chatice da higiene e do preço dos pensos: em a gente lhes fodendo a molécula, no intervalo da «acção», desculpam-se com as dores da cabeça e um mau-estar abstracto que parece que tem origem algures no umbigo e lhes dá três voltas ao organismo: e, portanto, e em face disto, se a gente não for à bola ou se meter a mamar uns finos e a desfazer um pouco dos políticos e acólitos avençados – faz o quê? Entretém-se a limpar o chão da sala de estar de esfregona em punho?
Vamos por partes e confessemos: somos, os homens, sim é verdade, um tagalho broncos. Manejar esfregonas, entendermo-nos com os autocolantes das fraldas descartáveis, fazer um centro de mesa, explicitar sistemas fisiológicos, limpar as retretes ou o pó dos móveis da salinha de estar, compor adversativas, escolher um anel de noivado, redigir um convite, fazer uma lista de compras, seguir o fio condutor dum romance da Margarida, telefonar duas horas seguidas – é coisa que lamentavelmente nos ultrapassa. Tem razão a Isabela e eu dou-lha toda: dêem-nos uma esfregona para as mãos e o mundo desmorona-se.
Resta-nos o quê? O futebol, pois, e a política – quer dizer: a retórica, a oratória, a metáfora. Se o sistema solar, em boa verdade, estivesse dependente de nós, os homens, nos decidirmos à acção prática – bem poderia Vénus (e quem diz este diz os restantes e concomitantes planetas) na sua órbita confirmar a teoria da desaceleração vagarosa mas irreversível por efeito da inércia, estatelando-se não sei bem aonde por não ter estudado Física quando se começasse a transformar a energia cinética em potencial e estacionasse em pleno espaço sideral. Que elas, as mulheres, e Isabela igualmente o exprimiu, é que fazem mover o mundo e as suas roldanas todas, agindo, mexendo, avançando, desenculatrando (foda-se...).
Ora eu só lhes invejo é o período – não obstante a chatice da higiene e do preço dos pensos: em a gente lhes fodendo a molécula, no intervalo da «acção», desculpam-se com as dores da cabeça e um mau-estar abstracto que parece que tem origem algures no umbigo e lhes dá três voltas ao organismo: e, portanto, e em face disto, se a gente não for à bola ou se meter a mamar uns finos e a desfazer um pouco dos políticos e acólitos avençados – faz o quê? Entretém-se a limpar o chão da sala de estar de esfregona em punho?
quarta-feira, março 29, 2006
Galinholas
Vivemos hoje da imagem, já se sabe, e de parecermos. Não importa o que pensamos verdadeiramente e chegamo-nos a esquecer de «ser» em face da preocupação automática, um destes dias endémica, de «parecer» o que expectamos que os outros desejam que sejamos. Camaleões educados, propensos a uma noite social de brindes e juras, politicamente correctos até na discordância pejada necessariamente de adversativas e pontes para o entendimento, civilizados, europeus, literatos, amantes da arte abstracta e viajados por Nova Iorque e Berlim (a ver «arquitectura») - levamos no cu se o politicamente correcto nos mandar abafar a palhinha e até compramos flores na Romeira Roma para a nossa querida menina se um despacho em Diário da República a levou a chefe de divisão «precedendo concurso». Ora dá-se o caso de eu, agricultor um bocado das berças ainda que lido no meu Cervantes, me estar cagando para a paneleiragem e a gosma, e disso me limpar às bandas do casaco. Mas o politicamente correcto, em se dizendo esta enormidade, vem logo pela voz duma comentadora do Mundo Perfeito (susana-sem-linque) relembrando que (passo a citar): «um heterosexual gostar de levar no cu da sua gaja é um sinal de grande coragem, falta de preconceito e fuga a estereotipos. Deve dar para se orgulharem».
Pois deve. Só que eu fugi dessa escola, Susana, quando tinha, deixa ver, aí uns treze anos, seduzido pela coxa duma vizinha minha de Lisboa que vinha passar férias às berças - nunca me tendo ocorrido que seria bom virar-me para ela de costas a mostrar a coragem e a desviar-me do preconceito. E quando se vai a ver - é tarde, tá ver?
Pois deve. Só que eu fugi dessa escola, Susana, quando tinha, deixa ver, aí uns treze anos, seduzido pela coxa duma vizinha minha de Lisboa que vinha passar férias às berças - nunca me tendo ocorrido que seria bom virar-me para ela de costas a mostrar a coragem e a desviar-me do preconceito. E quando se vai a ver - é tarde, tá ver?
terça-feira, março 28, 2006
Ainda as galinhas
Em resumo: o que algumas mulheres desejariam de nós é que fôssemos gajas. Ou que, sem prejuízo de mantermos pau ocasional, em regra nos comportássemos assim como mariconços com orgulho na gosma e na paneleirice.
domingo, março 26, 2006
segunda-feira, março 13, 2006
O outro Ulisses
Ulisses rei de Ítaca
lutou para reconquistar
a mulher e o trono
e o impossível era quase nada
em face de tanto
que estava em jogo
Actualmente
um outro Ulisses
(este Morais)
treinador do Gil Vicente
tem crises existenciais
por não poder contar
com o Mateus
e ter-se lesionado
um tal Nandinho
Bem certo é que cada época
tem o seu deus
os seus heróis
o seu Mourinho
os seus sinais
E neste tempo
em que não há
comboios para Ítaca
é o Ulisses das quatro linhas
que abre os telejornais
lutou para reconquistar
a mulher e o trono
e o impossível era quase nada
em face de tanto
que estava em jogo
Actualmente
um outro Ulisses
(este Morais)
treinador do Gil Vicente
tem crises existenciais
por não poder contar
com o Mateus
e ter-se lesionado
um tal Nandinho
Bem certo é que cada época
tem o seu deus
os seus heróis
o seu Mourinho
os seus sinais
E neste tempo
em que não há
comboios para Ítaca
é o Ulisses das quatro linhas
que abre os telejornais
quinta-feira, março 09, 2006
Por ocasião da sua tomada de posse
Dava tudo por um convite do Presidente da República e Sua Senhora para a sessão deste fim de tarde no Palácio da Ajuda. Às vezes pode parecer o contrário -- mas peço muito pouco da vida.
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Miró
Inexplicável equívoco: o de entender a pintura de Miró como um processo de desprendimentos sucessivos daquilo que chega até nós pelo lado da cultura, num caminho em que o objectivo último seria pintar como uma criança, com a pureza e a ingenuidade duma criança.
Nada mais enganador numa Arte em que tudo é inteligência transfiguradora feita de símbolos elementais, explosão e reverberação. Mesmo quando uma figura rudimentar, estranhamente colorida, ou o azul das telas, por exemplo, apelam em nós à serenidade ou à despreocupação da infância, compreendemos de súbito que essa espécie de lago de águas paradas não aguarda senão a deflagração imprevista dos meteoros das nascentes.
Nada mais enganador numa Arte em que tudo é inteligência transfiguradora feita de símbolos elementais, explosão e reverberação. Mesmo quando uma figura rudimentar, estranhamente colorida, ou o azul das telas, por exemplo, apelam em nós à serenidade ou à despreocupação da infância, compreendemos de súbito que essa espécie de lago de águas paradas não aguarda senão a deflagração imprevista dos meteoros das nascentes.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Dripping
Na pintura de Jackson Pollock predominam os gestos automáticos e a aceitação dos elementos do acaso enquanto processo de chegada à verdade intrínseca das coisas: pinceladas aleatórias, salpicos de tinta espalhados pela tela, a irracionalidade, o gesto inconsciente.
Os fotógrafos de domingo e os pintores realistas ou naturalistas dão-nos o mundo tal como o vemos; a pintura de Pollock dá-nos o mundo tal como é.
Os fotógrafos de domingo e os pintores realistas ou naturalistas dão-nos o mundo tal como o vemos; a pintura de Pollock dá-nos o mundo tal como é.
Malevich: Black-square
A intervenção de Malevich resumiu-se a espalhar tinta preta sobre uma tela como quem apaga definitivamente o passado. O que o quadro nos dizia não era senão isto: esqueçamos tudo o que está para trás: é possível recomeçar tudo de novo a partir do que cada um de nós tem de melhor.
Olho este quadro e emociono-me sempre: por um lado – pelo que nos diz, nos confronta e desafia; por outro lado – pela nossa recusa em ouvir e ousar.
Olho este quadro e emociono-me sempre: por um lado – pelo que nos diz, nos confronta e desafia; por outro lado – pela nossa recusa em ouvir e ousar.
Medo
Os déspotas e os poderosos pusilânimes (presumindo que a expressão não incorre na desatenção do duplo pleonasmo) impediram ao longo do tempo as exposições de arte abstracta, o direito de reunião e manifestação e a livre expressão das ideias. E impediram também o sexo – isolando fisicamente, homologando protocolos, perseguindo, legislando em preâmbulos, secções, artigos e alíneas sempre que o seu critério arbitrário assim lhes ditasse. Mas não conseguiram nunca impedir que uma pessoa, sendo-o e exigindo-se sê-lo, pudesse deixar de continuar a sentir (e, mais, desejar sentir) o desejo. Por isso o desejo é o calcanhar de Aquiles do poder arbitrário. E, maxime, a masturbação – esse reduto maior da liberdade individual.
Já se vê que o discurso contra a punheta não é senão, as mais das vezes, um resquício dessa nossa incapacidade, ou desse nosso medo, de sermos livres.
Já se vê que o discurso contra a punheta não é senão, as mais das vezes, um resquício dessa nossa incapacidade, ou desse nosso medo, de sermos livres.
domingo, fevereiro 19, 2006
O caldo
O casamento é, na sua essência, um contrato. Que se justificava por razões de organização social, juntando duas pessoas de sexo diferente. Os filhos nasciam, por mor do espermatozóide e do óvulo ou lá o que é, as tarefas dividiam-se, e enquanto um dos parceiros cavava o cebolo ou disparava ao urso castanho, o outro, concomitantemente, dava da teta aos lactentes ansiosos. Hoje, depois do ordenado médio garantido, do direito ao subsídio de férias e da possibilidade de acesso generalizado aos electrodomésticos e ao leite em pó da Nestlé para além da couve e do chouriço, o casamento faz, digamos assim, menos sentido. A garantia do caldo e do visa para pagamento da renda de casa ou da prestação do Audi, e o luxo, nos restaurantes, de deixarmos a espórtula – depende actualmente muito pouco desse contrato que chegou a revelar-se de extrema importância nas estratégias de sobrevivência. Ora – é daí exactamente que reverte o lugar central do desejo numa sociedade que se desprendeu das amarras do contrato social enquanto condição necessária à disponibilidade de bife, de fibras e tecto. O amor, o desejo e o casamento saíram, autonomizando-se, desse saco de serapilheira onde por necessidades básicas e de regular funcionamento das instituições foram enfiados, sem critério, a esmo.
Para que se possa dissertar sobre a punheta é necessário começar assim, com um bocadinho de lastro teórico, a arrumar os conceitos e a espanejar as teias – as velhas e as novas. Que isto da pívia, oh oh, tem que se lhe diga.
Para que se possa dissertar sobre a punheta é necessário começar assim, com um bocadinho de lastro teórico, a arrumar os conceitos e a espanejar as teias – as velhas e as novas. Que isto da pívia, oh oh, tem que se lhe diga.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...