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terça-feira, 7 de julho de 2015

100 do FMM (até ver), do 6 ao 10


6. ROKIA TRAORÉ (Mali)
Castelo, 26/jul/2008::vídeo::
"Na segunda vez que a bela Rokia Traoré veio a Sines, teve honras de encerramento de noite no castelo. Trazia na bagagem o magnífico Tchamanché e o espectáculo foi, ao contrário do que a actuação de quatro anos antes e o próprio disco novo deixava antever, muito movimentado, ora por culpa dos músicos (recordo o excelente baixista), ora por culpa da postura avassaladora de Traoré em palco."

7. STAFF BENDA BILILI (RD Congo)
Castelo, 31/jul/2010::vídeo::
"Uma máquina de dança e alegria chamada Bilili. E a última grande explosão (literalmente até, pois coube-lhes as honras de fogo de artifício com que o FMM todos os anos se despede do castelo) veio com os Staff Benda Bilili. O disco era estupendo, já se sabia. Mas que os Staff Benda Bilili conseguissem, mesmo que esquecidos ou ignorados todos os problemas físicos que os debilitam, multiplicar a um ponto impensável toda aquela energia para o palco com as suas rumbas diabólicas e fazer transpirar as gentes no castelo daquela forma insana, era algo que nem nas minhas perspectivas mais optimistas encontrava lugar. Mais uma deixa para outra das razões para elogiar o FMM: estar sempre na linha da frente no que há de mais quente a surgir no meio. Foi assim quando trouxe cá os Taraf de Haïdouks, o Tom Zé, a Rokia Traoré, o casal Amadou & Mariam, os Konono nº1, o KNaan, o Cordel do Fogo Encantado, entre tantos outros."

8. BARBEZ (EUA)
Castelo, 30/jul/2010::vídeo::
"A gaja do theremin e os judeus nova-iorquinos. Os Barbez, grupo de Nova Iorque com ligações à Tzadik de John Zorn, apareceram no FMM com toda a pinta de outsiders. O grupo de Dan Kaufman já por cá tinha passado para um concerto na ZDB, para um concerto mediano, mas agora, com formação alargada e com um som perfeito que permitiu a percepção ao detalhe das texturas e frases criadas em palco, misturando klezmer com rock de câmara ou jazz marginal, a lembrar bandas da editora Constellation, tudo foi diferente, para melhor. Muito melhor. Houve algo que se manteve, contudo: o papel central de Pamelia Kurstin na música do grupo. Nunca se viu em Sines alguém a tocar theremin, o estranho instrumento literalmente intocável que os russos desenvolveram nos anos 20 do século passado (e para o qual Lenine chegou a receber aulas), e a estreia coube, felizmente, a uma das suas mais incríveis intérpretes (vejam o vídeo para apanharem breves imagens que testemunham esta afirmação). E os Barbez ofereceram ainda a deixa ideal para apresentar outra das razões pelas quais o FMM é tão particular: a abertura (e o bom gosto) da programação. Por esse país fora, por essa Europa fora, é muito frequente encontrar programadores de festivais de world music de olhos e ouvidos fechados para o que se passa fora daquela gaveta. Antes eram as músicas de tradição europeia, depois, com a globalização das tournées, vieram os africanos extra-PALOPs. E pouco mais do que isso. Festivais como o FMM e o MED Loulé vieram provar que se pode ir muito mais longe. (Já agora, e que tal alguma formação de Masada ou o próprio John Zorn numa próxima edição, hum?)"

9. MÁRIO LÚCIO (Cabo Verde)
Castelo, 30/jul/2011::vídeo::
"É engraçado saber -- foi o próprio que o disse -- que Mário Lúcio, na véspera do concerto, vestiu a pele de ministro da cultura de Cabo Verde, para discutir o Estado da Nação no parlamento do seu país. Um dia, o estado da sua nação. No outro, o mundo todo (mais palavras saídas da sua boca) que se aglomerava em Sines a dançar à sua música. Tivemos em palco alguém que sabe muito bem o que faz. São muitos anos de estrada, de como saber encher um palco, de como saber pôr um público em delírio. E o que temos ali não é apenas o que se pode ouvir nos discos. Há um artista e um grupo que o acompanha que se transformam, que vão além de Cabo Verde, que celebram a África sub-sariana em todo o seu esplendor. A ele ficam-lhe bem estas palavras, ditas perto do final: Sines devia mudar de nome, para... Sinergia. Devia ter sido o Mário Lúcio a festejar o fim dos concertos no castelo com o tradicional fogo-de-artifício."

10. DHAFER YOUSSEF (Tunísia)
Castelo, 27/jul/2012::vídeo::
"Dhafer Youssef e o quarteto do mundo. Dhafer Youssef pode não ser o mais exímio dos intérpretes de alaúde -- e nesse campo, até já ali tínhamos visto, dias antes, o prodigioso Bassam Saba, com o seu Al-Madar -- mas se aliarmos a essa capacidade o seu arrepiante domínio da voz, fazendo lembrar Milton Nascimento do inicio, mas com técnica imensuravelmente melhor, e a forma como o quarteto se entende nos diversos diálogos que se vão construindo ao longo do espetáculo, percebemos um pouco da magia, dos sorrisos de alegria na plateia, do sorriso que Youssef levou para fora do palco. Foi talvez o melhor episódio deste FMM."



segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O provável fim dos Staff Benda Bilili

Tudo aponta para que a história bonita dos Staff Benda Bilili tenha chegado ao fim. O grupo de músicos deficientes de Kinshasa, que desde 2009 tem vindo a incendiar as plateias europeias -- recebemo-los por cá em 2010 e 2012 -- deixou de ser representado pelo manager que os levou ao mundo, o belga Michel Winter (o homem que nos trouxe os Taraf de Haïdouks, a Kočani Orkestar, as Tartit, os Konono nº1 ou os Kasaï Allstars) e de trabalhar com a agência francesa Run Productions. Depois, saíram dois elementos fulcrais do grupo, Théo Nzonza Nsituvuidi e Coco Yakala Ngambali, e foram cancelados todos os concertos marcados (ver notícia no Libération).

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Breves memórias do FMM 2012: África e GNR

Regressado a Lisboa para uma breve escala antes de mais uma semana de férias, deixo aqui algumas das memórias a reter em mais um FMM que terminou. Talvez por desígnio do circuito de digressões dos grupos, este foi um FMM com lanças apontadas especialmente a África:

A Oumou e o Béla

Béla Fleck toca no banjo, acústico ou elétrico, como mais ninguém, aqui intrometendo-se na música do Mali e entregando ao seu instrumento, na maior parte das vezes, o pepel que a kora tradicionalmente assume nestas paragens da música africana, enquanto Oumou Sangaré domina o palco mostrando por que é uma das maiores divas da atualidade. É qualidade de sobra para um único projeto. Como se não bastasse, no grupo viajam ainda o baixista senegalês Alioune Wade -- de tal forma fluente na sua disciplina que quase faz esquecer o habitual companheiro de Fleck neste papel, o incrível Victor Wooten -- e o baterista Will Calhoun, dos Living Colour.



Fatoumata Diawara, a linda

Começou como Rokia Traoré, sua compatriota, no primeiro dos seus dois concertos em Sines. Calma, serena, intimista. Acabou como Rokia no segundo. Explosiva, festiva, imparável. Fatoumata Diawara, provavelmente a mulher mais bonita que alguma vez pisou o palco do castelo de Sines, foi a grande revelação deste ano.



Dhafer Youssef e o quarteto do mundo

Dhafer Youssef pode não ser o mais exímio dos intérpretes de alaúde -- e nesse campo, até já ali tínhamos visto, dias antes, o prodigioso Bassam Saba, com o seu Al-Madar -- mas se aliarmos a essa capacidade o seu arrepiante domínio da voz, fazendo lembrar Milton Nascimento do inicio, mas com técnica imensuravelmente melhor, e a forma como o quarteto se entende nos diversos diálogos que se vão construindo ao longo do espetáculo, percebemos um pouco da magia, dos sorrisos de alegria na plateia, do sorriso que Youssef levou para fora do palco. Foi talvez o melhor episódio deste FMM.



Masekela, o génio de palco

Já anda pelos setentas e afirma-se como músico desde os 5. Todos estes anos de digressões, discos, experiências bem sucedidas por África e pelos EUA, fizeram dele a maior lenda viva da música africana. E é ali no palco que ele o prova. Não só mantém intacta toda a sua capacidade técnica instrumental e vocal, como sabe como poucos como se dirigir a uma audiência, mesmo que seja para a “picar”.

Outros destaques

Há que guardar, uma vez mais, memória dos L’Enfance Rouge, que talvez nunca tenham tido na sua vida um palco tão grande como o do castelo de Sines e que estiveram irrepreensíveis nesta primeira apresentação do projeto com o tunisino Lofti Bouchnak, ele que se mostrou bastante divertido com a experiência de partilhar o palco com o power trio sónico e o pequeno ensemble magrebino.
Há que falar também no Bombino, que no primeiro dia do festival, levou a festa dos blues a todos os que ali estavam, num formato intenso e marcadamente hipnótico, muito diferente daquele que apresentou no ano passado, em Lisboa. O pobre do Otis Taylor, que tocou imediatamente antes, terá inventado “trance-blues”. Talvez tenha ficado envergonhado ao ouvir o trance no blues do guitarrista do Níger.
Junte-se ainda os Staff Benda Bilili, que regressaram àquele palco apenas dois anos depois, por força do cancelamento do concerto de Gurrumul. Houve festa rija, claro, ainda que pudesse ter ajudado ter havido um maior distanciamento face ao anterior concerto dos congoleses.
Mais destaques breves: Marc Ribot esteve impecável, tanto enquanto convidado dos Dead Combo, como na direção dos Cubanos Postizos. Diabo a Sete foi uma excelente revelação para este escriba (ao contrário dos Uxu “Absoluta Desilusão” Kalhus, que agora se perdem num hard rock sem qualquer tipo de piada). A nova banda do Lirinha deixa muito a desejar, mas os poemas do brasileiro continuam a ser explosivos. Os Osso Vaidoso são uma das melhores coisas a terem acontecido à música feita por cá nos últimos anos.

Pela lei e pela grei, dizem eles

A Guarda Nacional Republicana apareceu este ano com intenções de estragar a festa. Chegou mesmo a fechá-la quando irrompeu pelos bastidores do palco secundário, junto ao rochedo do Pontal, tendo alegadamente dado voz ao tradicional “acabam a bem ou acabam a mal?”. Mas este triste desfecho não foi o pior. O corpo de segurança pública que na sua insígnia carrega, sem que realmente se entenda porquê, a expressão “pela grei”, fez tudo o que esteve ao seu alcance ao longo de duas semanas para incomodar esse mesmo povo que pretendia estar ali no clima de festa que sempre foi próprio do FMM, ora com mega-operações à entrada da cidade, onde cães farejavam viaturas individuais e autocarros, ora com a barraca preta ao estilo de confessionário à porta do castelo para onde enfiavam o espetador que apresentasse “pinta” que não lhes agradasse, ora com a presença constante, em estilo de ameaça contida, nas imediações dos dois palcos. Como se nestas duas semanas se concentrassem em Sines os piores malfeitores do mundo. Triste e vergonhoso. Nestes dias que se seguem, é a vez do Boom. 1500 militares destacados para Idanha-a-Nova, dizem as notícias. Mil e quinhentos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os melhores concertos de 2010 (1 a 10)

1. Staff Benda Bilili @ FMM (31/7)
Escrevi, na altura: "E a última grande explosão (literalmente até, pois coube-lhes as honras de fogo de artifício com que o FMM todos os anos se despede do castelo) veio com os Staff Benda Bilili. O disco era estupendo, já se sabia. Mas que os Staff Benda Bilili conseguissem, mesmo que esquecidos ou ignorados todos os problemas físicos que os debilitam, multiplicar a um ponto impensável toda aquela energia para o palco com as suas rumbas diabólicas e fazer transpirar as gentes no castelo daquela forma insana, era algo que nem nas minhas perspectivas mais optimistas encontrava lugar." VÍDEO

2. Sonic Youth @ Coliseu dos Recreios (22/4)
Já vi Sonic Youth umas sete ou oito vezes. Esta é bem capaz de ter sido a melhor. Escrevi, na altura: "Perdoem-me os que não tiveram oportunidade de ver os Sonic Youth, no ano passado, no Primavera Sound, mas não consigo deixar de reagir ao concerto desta noite sem ter por referencial aqueloutro. Como é que dois espectáculos com alinhamentos tão semelhantes, conseguem ser tão diferentes, pelo menos nas reacções que provocaram a mim e, suspeito, a outros que, como eu, também lá estiveram? Será porque hoje estávamos numa sala cheia, comprimida, com muito calor e muito suor, e não numa doca, ao ar livre, entre largos milhares de pessoas, entre horários de dezenas e dezenas de outras actuações? Será porque os temas mais recentes estão agora mais rodados ao vivo? Será porque hoje a banda esteve efectivamente melhor, sem ostentar aquele ar de frete do ano passado? Será porque a empatia com o público foi outra? Será pelo clima de euforia com que toda a gente -- pelo menos ao meu redor -- ansiava pelo concerto de hoje? Não sei. O que sei é que tudo hoje, desde os temas mais recentes até coisas antiquíssimas como «Shadow of a Doubt0«, «Schizophrenia», «Cross the Breeze» ou «Death Valley '69» soava (e fazia suar) de uma forma que me fez sentir um miúdo a ir aos seus primeiros concertos no Coliseu (tal como o André, que tem 14 anos e saiu de lá com um sorriso de orelha a orelha). Estes foram os «meus» Sonic Youth. Os meus e os de muita gente, ao longo de várias gerações. E provavelmente vão por cá andar ainda em 2020 ou 2030, a conquistar novos públicos e a manter estas relações «para a vida» com as gerações mais antigas. Pelo menos, é o que o espectáculo de hoje sugere." VÍDEO

3. Shellac @ ZDB (24/5)
Eu disse que ia haver mais Shellac nesta lista. E de outro concerto na mesma semana que aquele que aqui já apareceu. Escrevi, na altura: "Os Shellac não são uma banda. São um relógio suíço de frontispício em que, no lugar do cuco ou dos paisanos da aldeia surge um power trio clássico. São um metrónomo de três hastes, cada uma delas com um tique-taque sincronizado ao limite do absurdo, mais preciso que o relógio atómico de Greenwich. Eles nem se olham entre si quando acertam entre si as paragens, os arranques, as mudanças de tempos. E Steve Albini, como se tornou hábito dizer-se, é deus. E também é um óptimo guitarrista, que extrai da sua Travis Bean de alumínio o som rude, sujo e áspero do metal com que a maior parte de nós cresceu ao ouvir as bandas que Albini gravou e produziu ao longo das duas últimas décadas. E é ainda um poeta rock, em diferentes momentos do espectáculo, como em "The End of Radio". Nessas alturas, Albini pisa com toda a segurança o caminho de outros poetas americanos de palco como Patti Smith, Jim Morrison ou Jello Biafra. Mas Shellac não é só Albini. Bob Weston, que tem o sangue do hardcore de DC a correr pelas cordas do baixo, e Todd Trainer, um autêntico demónio na bateria (nota: não é figurativo), são as duas outras engrenagens do tal relógio suíço." VÍDEO

4. N'Diale - Jacky Molard Quartet & Founé Diarra Trio @ FMM (29/7)
Escrevi, na altura: "Quem imaginaria que a música de tradição europeia a que o bretão Jacky Molard se tem dedicado ao longo da carreira, e que já apresentou por duas outras ocasiões em Sines, casaria tão bem com a música do trio maliano de Founé Diarra? Quem é que é capaz de dizer, sem mais nem menos, que um prato de peixe e de carne, em simultâneo, se pode tornar uma maravilha da gastronomia? A este respeito, aliás, o António Pires dizia que "o gajo que inventou a carne de porco à alentejana deve ter tido uma experiência semelhante". E como é que dançamos isto? Com as pernas para a frente ou com o rabo espetado para trás? Estas eram as interrogações iniciais de muitos, certamente, mas não foram mesmo mais do que isso mesmo: iniciais. Rapidamente, todos atirámos os axiomas etnomusicológicos para trás das costas e abraçámos calorosamente aquela que foi uma das experiências mais incríveis de sempre no palco do castelo." VÍDEO

5. Barbez @ FMM (30/7)
Escrevi, na altura: "Os Barbez, grupo de Nova Iorque com ligações à Tzadik de John Zorn, apareceram no FMM com toda a pinta de outsiders. O grupo de Dan Kaufman já por cá tinha passado para um concerto na ZDB, para um concerto mediano, mas agora, com formação alargada e com um som perfeito que permitiu a percepção ao detalhe das texturas e frases criadas em palco, misturando klezmer com rock de câmara ou jazz marginal, a lembrar bandas da editora Constellation, tudo foi diferente, para melhor. Muito melhor. Houve algo que se manteve, contudo: o papel central de Pamelia Kurstin na música do grupo. Nunca se viu em Sines alguém a "tocar" theremin, o estranho instrumento literalmente intocável que os russos desenvolveram nos anos 20 do século passado (e para o qual Lenine chegou a receber aulas), e a estreia coube, felizmente, a uma das suas mais incríveis intérpretes." VÍDEO

6. Yasmin Levy @ FMM (29/7)
Em 2009, o FMM ofereceu-nos Mor Karbasi. Em 2010, tivemos direito a Yasmin Levy, uma voz para a qual faltam adjectivos na língua portuguesa, uma actuação de fazer mexer com todos os sentidos. VÍDEO

7. Master Musicians Of Bukkake @ ZDB (17/10)
O reino dos MMB veio até nós. Antes mesmo do espectáculo começar, o cenário do palco dava desde logo a perceber que aquilo a que ali íamos assistir seria muito diferente do habitual. Em inúmeros aspectos. Hoje, que vivemos cada vez mais o tempo das imagens, o tempo do parecer em detrimento do ser, toda a actuação dos MMB, com todo aquele aparato cénico, podia cair dentro do saco das futilidades com que frequentemente somos brindados na música que vai sendo feita por aí, mas ali há muito mais do que cenário. Há até, pasme-se, profissionalismo e naturalidade em palco, como demonstrou o incidente em que a energia eléctrica foi abaixo e o colectivo continuou a tocar em formato acústico até o fuzz voltar aos amplificadores, sem nunca parar o tema. Houve até quem não se tivesse apercebido do incidente. VÍDEO

8. Faust & James Johnston @ Maria Matos (6/10)
E eis que tivemos a oportunidade de ver os Faust-que-não-eram-os-outros-Faust, os Faust-que-são-mais-malucos-do-que-os-outros-Faust, que o diga quem depois teve que limpar o palco do Maria Matos depois da encenação quase fiel, imaginamos, do apocalipse. Cereja no topo do bolo: a guitarra tresloucada de James Johnston, o eterno Gallon Drunk. VÍDEO

9. Liquid Liquid @ Primavera (29/5)
Já andamos todos um pouco fartos dos regressos de bandas míticas dos anos 70, 80 ou 90, não? Não são poucas vezes que saímos com aquela sensação de "naquele tempo deve ter sido bom, e esta apresentação é um documento importante para nós que não vivemos essa época" -- ao que imediatamente pensamos (ou dizemos entredentes) -- "mas foi uma seca do cacete". Ou, ainda pior, "eh pá, eles só voltaram para meter dinheiro ao bolso por conta dessas mentes nostálgicas que por aí pairam". Mas a actuação dos Liquid Liquid esteve o mais distante possível disso que possa haver. Este foi um dos casos raros em que que saímos a dizer "porra, isto faz todo o sentido hoje; FESTÃO como 99% dos miúdos que por aí andam não sonham conseguir vir a fazer." Ou algo do género. VÍDEO

10. Les Savy Fav @ Primavera (28/5)
Para quem gosta de loucos à solta num palco (E FORA DELE!) pouca concorrência haverá para os Les Savy Fav (esperem pelos Monotonix em Fevereiro). Convenhamos, às tantas já não sabemos se é só da performance do Tim Harrington (talvez seja, que os discos não são propriamente interessantes), mas que importa isso? É uma experiência como poucas. Já agora, se viram o vídeo dos Liquid Liquid, no posto acima, hão-de reparar na aparição do Tim. VÍDEO

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os três 10 em 10 do FMM 2010 (e outras coisas)

Foi o melhor Festival de Músicas do Mundo de Sines de sempre? Não tenho a resposta na ponta dos dedos, até porque a comparação com as edições de 2006 a 2009 não é honestamente possível, com a redução no número de dias de música ao vivo neste ano. Mas, em todo o caso, esta foi a edição que, nas minhas contas pessoais (sublinhe-se a subjectividade da coisa), teve mais concertos 10 em 10. Acredito que a expressão "10 em 10" seja suficientemente explícita (além de estupidamente redutora, eu sei). Suficientemente explícita mesmo para quem não esteja habituado a olhar aqui nestas páginas para aquilo que um psicanalista barato diria tratar-se de "uma manifestação de um desejo reprimido de integrar um júri de patinagem artística". Portanto, adiante. Deitando um olhar para o passado do FMM, é verdade que têm havido um número inacreditável de magníficas actuações (não admira que haja tanta gente a tratar o FMM como o "melhor festival do país"), mas aquilo a que eu chamo "10 em 10" verifica-se apenas, no máximo, uma vez por edição (ou nem isso). Lembro-me dos Black Uhuru em 2001, por exemplo, do Tom Zé em 2004, do Trilok Gurtu em 2006, do Cyro Baptista no ano passado. Este ano, houve três destes concertos mágicos. Não um, nem dois, mas três. E depois houve os outros, também... poderosos (para usar uma expressão muito em voga nos músicos do Congo/Zaire, desde há décadas).

O primeiro dos 10 em 10: Um casamento perfeito



("Primeiro" porque aconteceu na quinta-feira, enquanto os outros foram nos dias seguintes.) Quem imaginaria que a música de tradição europeia a que o bretão Jacky Molard se tem dedicado ao longo da carreira, e que já apresentou por duas outras ocasiões em Sines, casaria tão bem com a música do trio maliano de Founé Diarra? Quem é que é capaz de dizer, sem mais nem menos, que um prato de peixe e de carne, em simultâneo, se pode tornar uma maravilha da gastronomia? A este respeito, aliás, o António Pires dizia que "o gajo que inventou a carne de porco à alentejana deve ter tido uma experiência semelhante". E como é que dançamos isto? Com as pernas para a frente ou com o rabo espetado para trás? Estas eram as interrogações iniciais de muitos, certamente, mas não foram mesmo mais do que isso mesmo: iniciais. Rapidamente, todos atirámos os axiomas etnomusicológicos para trás das costas e abraçámos calorosamente aquela que foi uma das experiências mais incríveis de sempre no palco do castelo.
E, mesmo que este encontro não tenha sido realizado de propósito para o festival (já existe até um disco), está aqui também patente mais uma das inúmeras razões pelas quais, todos os anos, fico a contar os dias até à última semana de Julho: Sines enquanto forum mundial de músicas e tradições, Sines enquanto oficina da música moderna. Não mais nada assim por cá.

O segundo dos 10 em 10: A gaja do theremin e os judeus nova-iorquinos



Os Barbez, grupo de Nova Iorque com ligações à Tzadik de John Zorn, apareceram no FMM com toda a pinta de outsiders. O grupo de Dan Kaufman já por cá tinha passado para um concerto na ZDB, para um concerto mediano, mas agora, com formação alargada e com um som perfeito que permitiu a percepção ao detalhe das texturas e frases criadas em palco, misturando klezmer com rock de câmara ou jazz marginal, a lembrar bandas da editora Constellation, tudo foi diferente, para melhor. Muito melhor. Houve algo que se manteve, contudo: o papel central de Pamelia Kurstin na música do grupo. Nunca se viu em Sines alguém a "tocar" theremin, o estranho instrumento literalmente intocável que os russos desenvolveram nos anos 20 do século passado (e para o qual Lenine chegou a receber aulas), e a estreia coube, felizmente, a uma das suas mais incríveis intérpretes (vejam o vídeo para apanharem breves imagens que testemunham esta afirmação).
E os Barbez ofereceram ainda a deixa ideal para apresentar outra das razões pelas quais o FMM é tão particular: a abertura (e o bom gosto) da programação. Por esse país fora, por essa Europa fora, é muito frequente encontrar programadores de festivais de world music de olhos e ouvidos fechados para o que se passa fora daquela gaveta. Antes eram as músicas de tradição europeia, depois, com a globalização das tournées, vieram os africanos extra-PALOPs. E pouco mais do que isso. Festivais como o FMM e o MED Loulé vieram provar que se pode ir muito mais longe. (Já agora, e que tal alguma formação de Masada ou o próprio John Zorn numa próxima edição, hum?)

O terceiro dos 10 em 10: Uma máquina de dança e alegria chamada Bilili



E a última grande explosão (literalmente até, pois coube-lhes as honras de fogo de artifício com que o FMM todos os anos se despede do castelo) veio com os Staff Benda Bilili. O disco era estupendo, já se sabia. Mas que os Staff Benda Bilili conseguissem, mesmo que esquecidos ou ignorados todos os problemas físicos que os debilitam, multiplicar a um ponto impensável toda aquela energia para o palco com as suas rumbas diabólicas e fazer transpirar as gentes no castelo daquela forma insana, era algo que nem nas minhas perspectivas mais optimistas encontrava lugar.
Mais uma deixa para outra das razões para elogiar o FMM: estar sempre na linha da frente no que há de mais "quente" a surgir no meio. Foi assim quando trouxe cá os Taraf de Haïdouks, o Tom Zé, a Rokia Traoré, o casal Amadou & Mariam, os Konono nº1, o K'Naan, o Cordel do Fogo Encantado, entre tantos outros.

Mais -- muito mais, claro -- se passou nos palcos do FMM ao longo destes quatro dias:

A novidade dos concertos gratuitos no castelo ao fim da tarde
A aposta parece ter sido ganha. Ao fim da tarde, quando os raios de sol ainda afrontavam as muralhas do castelo, tinha-se um cenário bem bonito para se assistir, com o rabo sentado na palha e hortelã espalhadas, a actuações como as dos manos Salomé com os Cantadores de Redondo (que por várias vezes foi arrepiante), dos 34 Puñaladas (tango em guitarras clássicas, numa passagem por estas bandas muito mais bem conseguida que aquela de há cinco anos atrás, em Porto Covo) ou a do genial Kimi Djabaté (é mesmo tempo de as pessoas começarem a prestar-lhe atenção e este foi um passo importante).

Um festival de vozes
Começou com Vitorino e Janita Salomé (já disse que houve momentos arrepiantes, não já?), e prolongou-se no canto yoik de Wimme Saari (há mais de dez anos que ansiava por um concerto dele por cá e nunca imaginei que fosse tão bem recebido como foi ali em Sines, no palco da praia, ao fim da tarde, para uma música que se imagina nas montanhas, no frio), a voz quente de Alejandro Guyot, dos 34 Puñaladas, a voz de uma diva do flamenco (Lole Montoya) e, a mais impressionante, a mais esmagadora, a mais arrebatadora de todas, a voz incrível de Yasmim Levy, israelita que tem vindo a trabalhar em reportório de influência e tradição ora ladina (os judeus que habitavam a Península Ibérica até ao século XV), ora flamenca.

Os menos bons e os maus
Depois de Cui Jian, há dois anos, houve mais um azar com chineses, agora com a cantora Sa Dingding. Usar um ou outro instrumento tradicional num aparato de música ligeira com arranjos perfeitamente desinteressantes parece mais cenário de festival da Eurovisão.
Os Galaxy, de Timor Leste, já muito fazem, para aquilo que estes miúdos viveram enquanto cresceram, para o país jovem e onde tudo está por fazer em que vivem neste momento, o mesmo país em que, por diversas razões, as tradições musicais são muito pobres, quase inexistentes (mas não deixam de soar a uma banda de reggae e de metal da margem sul a dar um dos seus primeiros concertos num palco refundido da festa do Avante! -- e, dias após ter visitado aquele magnífico país, acreditem que me custa dizê-lo).
As Rubias del Norte, o outro projecto de Olivier Conan, que no ano passado ali trouxe os Chicha Libre, perdem-se numa estilização (a palavra roubo-a ao Rui Neves) demasiado plástica do que é o reportório latino que vieram reciclar. Se os Chicha Libre conseguiam fazer dessa mesma reciclagem um ponto forte (nesse caso, sobre as chichas peruanas), as Rubias deitam quase tudo a perder.


Agora, é arranjar forma de entreter o tempo enquanto se espera, por 51 semanas, pela próxima edição do FMM.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O cartaz completo do FMM 2010

Foi hoje avançado o cartaz completo da 11ª edição do Festival de Músicas do Mundo de Sines. O evento, que este ano ficou reduzido à cidade de Sines e a quatro dias de concertos, devido a restrições orçamentais, apresenta como cabeças-de-cartaz principais os congoleses Staff Benda Bilili, autores, no ano passado, de um disco fora-de-série, e de prestações ao vivo contagiantes, a avaliar pelo que se pode ver no youtube.
Vitorino faz as habituais honras de abertura do castelo em português, desta vez com um concerto pela tarde, numa quarta-feira especialmente dedicada à música de expressão latina (excepção feita à celebração afro-beat dos Cacique 97 pela praia, à hora em que o Sol se começa a deitar).
Na quinta-feira, há a destacar, entre as novidades hoje anunciadas, a presença do finlandês Wimme Saari, praticante do canto yoik e um nome que por aqui há muito se desejava ver ao vivo. Há também que celebrar o regresso do sempre simpático, sempre eficaz Jacky Mollard, agora acompanhado pelo seu quarteto e pelo Foune Diarra Trio, do Mali. Este é também o dia dos Mekons, os antigos punks convertidos ao alt-country, e mais música de expressão latina, com os argentinos 34 Puñaladas a abrirem e os norte-americanos Grupo Fantasma a fechar.
A sexta-feira começa em grande com o "nosso" guineense preferido, Kimi Djabaté, num programa que conta ainda, entre outros, com Barbez (atenção à menina do theremin!), os sempre magníficos Tinariwen e a grande expectativa em redor da actuação dos Forro in the Dark.
Para o último dia, destaca-se no cartaz, além dos Bilili, uma surpresa (e incógnita) vinda de Timor-Leste, Galaxy, o histórico jamaicano U-Roy e, para fechar a festa em grande, os Batida.

Dia 28 (quarta-feira)
Castelo, 18h00
VITORINO (Portugal)
Avenida, 19h30
CACIQUE 97 (Portugal/Moçambique)
Castelo, 21h30
NAT KING COLE PROJECT (EUA/Cuba/Portugal)
RUBIAS DEL NORTE (USA)
CÉU (Brasil)
Avenida, 02h30
NOVALIMA (Peru)

Dia 29 (quinta-feira)
Castelo, 18h00
34 PUÑALADAS (Argentina)
Avenida, 19h30
WIMME (Finlândia)
Castelo, 21h30
YASMIN LEVY (Israel)
JACKY MOLARD QUARTET & FOUNE DIARRA TRIO (Bretanha/Mali)
THE MEKONS (Reino Unido/EUA)
Avenida, 02h30
GRUPO FANTASMA (EUA)

Dia 30 (sexta-feira)
Castelo, 18h00
KIMI DJABATÉ (Guiné-Bissau)
Avenida, 19h30
THE RODEO (França)
Castelo, 21h30
BARBEZ (EUA)
SA DINGDING (China)
TINARIWEN (Mali)
Avenida, 02h30
FORRO IN THE DARK (Brasil)
BAILARICO SOFISTICADO convida SELECTA ALICE (Portugal)

Dia 31 (sábado)
Castelo, 18h00
GUADI GALEGO (Galiza)
Avenida, 19h30
GALAXY (Timor Leste)
Castelo, 21h30
LOLE MONTOYA (Espanha)
CHEICK TIDIANE SECK & MAMANI KEITA (Mali)
STAFF BENDA BILILI (RD Congo)
Avenida, 02h30
U-ROY (Jamaica)
BATIDA (Portugal/Angola)

sábado, 17 de abril de 2010

E, já agora, também sobre a celebração do objecto

Por trás da celebração das lojas de discos, naturalmente se esconde a celebração do próprio objecto que naquelas é transaccionado, consultado, discutido, admirado. A esse propósito, veja-se, por exemplo, esta edição luxuosa que a editora belga Crammed acabou de lançar:




Congotronics Vinyl Box Set


Imaginem que, sob este aspecto deslumbrante, se podem encontrar:
- O primeiro álbum dos Konono nº1, "Congotronics";
- O segundo álbum, a editar em breve, dos mesmos Konono nº1, "Assume Crash Position" (LP duplo);
- A compilação "Congotronics 2";
- O álbum dos Staff Benda Bilili, "Très Très Fort", uma das grandes obras primas lançadas no ano passado (e que vamos poder assistir ao vivo no próximo FMM Sines);
- O álbum dos Kasaï Allstars, "In The 7th Moon, The Chief Turned Into A Swimming Fish And Ate The Head Of His Enemy By Magic";
- Um livro de fotografias tiradas em Kinshasa sobre toda a cena "Congotronics";
- Uma pen de 2GB com nove vídeos e mp3s de todos os cinco álbuns aqui incluídos;
- Um sete polegadas com faixas inéditas dos Kasaï Allstars, uma das quais com a colaboração dos norte-americanos... Akron/Family!

Ufa. Até dói.
Tudo isto por 80 libras (para já, em pré-compra durante quatro semanas) e com entrega para o final do mês de Junho.

terça-feira, 2 de março de 2010

Primeiros nomes para o FMM

Os dois primeiros nomes divulgados pela organização do FMM são Staff Benda Bilili, esse magnífico colectivo congolês de músicos de rua que no ano passado lançou pela Crammed a preciosidade chamada "Très Très Fort" (um dos dois ou três melhores discos do ano por aqui), e... The Mekons, sim, os Mekons sobreviventes do punk inglês dos anos 70. Ambos os grupos têm actuações marcadas para o castelo de Sines, os Mekons no dia 29 e os Staff Benda Bilili no dia 31. Os ingleses têm ainda uma data agendada para Lisboa, dia 31, no Maxime.

O FMM desenrola-se entre 23 e 31 de Julho, com Porto Covo a receber a festa nos três primeiros dias, passando depois tudo para a cidade de Sines, com dois dias no Centro de Artes e os restantes nos palcos do castelo e da avenida da praia.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Os melhores discos do ano


ANIMAL COLLECTIVE "MERRIWEATHER POST PAVILLION"

(Todo o destaque, mais um, para o "MPP". De seguida, os outros discos que fizeram, para mim, o ano de 2009, por ordem alfabética:)








B Fachada "Um Fim-de-Semana no Pónei Dourado"


Bill Callahan "Sometimes I Wish We Were an Eagle"


David Sylvian "Manafon"


Dirty Projectors "Bitte Orca"


The Flaming Lips Stardeath and White Dwarfs with Henry Rollins and Peaches "Dark Side of the Moon"


Fool's Gold "Fool's Gold"


K'Naan "Troubadour"


Lemonade "Lemonade"


Norberto Lobo "Pata Lenta"


Oneida "Rated O"


Oquestrada "Tasca Beat - O Sonho Português"


Staff Benda Bilili "Trés Trés Fort"


Tinariwen "Imidiwan"


Tortoise "Beacons of Ancestership"


The Very Best "Warm Heart of Africa"