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domingo, 4 de dezembro de 2016

100 de 1975, n.º 14, Robert Wyatt



RUTH IS STRANGER THAN RICHARD
ROBERT WYATT (Inglaterra)


Edição original: Virgin
Produtor(es): Robert Wyatt



terça-feira, 5 de julho de 2016

100 de 1974, n.º 1, Robert Wyatt



ROCK BOTTOM
ROBERT WYATT (Inglaterra)


Edição original: Virgin
Produtor(es): Nick Mason



segunda-feira, 26 de março de 2012

O mais próximo que conseguimos estar de Robert Wyatt, nesta quinta-feira

Se um dia me perguntarem pelo músico que mais gostaria de ver ao vivo, tenho a resposta na ponta da língua: Robert Wyatt. Pela sua notável carreira a solo ou, recuando no tempo, pela discografia dos Soft Machine ou dos "seus" Matching Mole, pelas colaborações preciosas com o seu velho camarada Kevin Ayers, com Brian Eno, com David Gilmour, com Michael Mantler e com tantos outros. Pelo compositor, pelo intérprete.

É provavelmente a maior lacuna na história de concertos em Portugal. Isto, claro, se ninguém aparecer já a seguir a dizer que Wyatt já cá esteve em mil novecentos e setenta e tal, no sítio tal, com os músicos fulanos de tal. Não vale dizer que ele já passou por Portugal. Na verdade, Wyatt passou por cá em criança, como testemunha uma resposta aqui há uns anos a Rui Tentúgal, do Expresso:
«Portugal foi muito importante para mim. A minha empatia com o Terceiro Mundo vem do facto de eu ter sido fantasticamente intoxicado por um país que naqueles tempos imaginávamos ser o Terceiro Mundo: as crianças andavam descalças, as raparigas eram impossivelmente exóticas, os meus pais deixavam-me ficar acordado até tarde porque todas as crianças portuguesas ficavam acordadas até tarde (e podiam beber vinho misturado com água). Brinquei com uma rapazinho chamado Rudolfo que era tão bonito que se eu tivesse ficado mais algum tempo ter-me-ia tornado homossexual. Foi incrível ver esta gente, que era muito mais pobre do que nós, ter uma vida maravilhosa na pobreza. Um melão custava um escudo. As pessoas carregavam na cabeça grandes blocos de gelo, com um passo muito digno. Fiquei com vergonha de ter sapatos e tentei andar descalço, mas o chão estava cheio de escarros e a minha mãe obrigou-me a calçá-los. Lembro-me de coisas muito simples, como dormir na praia, com um cobertor, em sítios como a Trafaria, junto ao rio, e ver as estrelas...Para um rapazinho que vivia num subúrbio de londres, com brumas e nevoeiro, era como um reino mágico. Isto é incrivelmente romântico, mas eu não percebia nada de pobreza ou opressão (Portugal ainda era um país fascista), eu via apenas a beleza das pessoas, mas não compreendia o que é que isso tinha a ver comigo, como é que eu podia ser parte daquilo»
(Esta visita de Wyatt ao Portugal dos anos 50 serviu de inspiração para o EP "A Short Break", uma pequena coleção de temas gravados em casa e lançada em 1992.)

Mas a que vem isto agora? Quinta-feira vamos estar mais perto de Wyatt! Mas já lá vamos, porque interessa contar a história do início. Em 2009, sob a direção do contrabaixista Daniel Yvinec, a Orchestre National de Jazz, de França, gravou um tributo ao músico inglês. "Around Robert Wyatt" reunia velhos temas como "Alifib" ou "Vandalusia", as mais recentes "Just As You Are" ou "Del Mondo", e até composições de outros que ora se tornaram fundamentais no longo reportório de Wyatt, como "Shipbuilding", de Elvis Costello, ora tiveram a voz do barbudo, como "The Song" e "Kew Rhone", dos velhos amigos John Greaves e Peter Blegvad. Além do próprio Wyatt, emprestaram voz aos temas nomes como Rokia Traoré ou a atriz pela qual este vosso escriba tinha o maior dos fascínios nos idos de 90: Iréne Jacob. "Around Robert Wyatt" viria a ser distinguido como "Álbum do ano" na gala anual "Les Victoires du Jazz".

Quinta-feira, dia 29, então, vamos tê-los por cá, em mais uma etapa da programação CCBeat. A Orchestre National de Jazz vem ao grande auditório do CCB apresentar este tributo desenhado em torno de Robert Wyatt, com a colaboração do próprio e, como convidados especiais, teremos Erik Truffaz no trompete e Perry Blake na voz. Os preços dos bilhetes, se ainda os houver, variam entre os 5,33€ e os 15,99€, havendo os descontos do costume para jovens, menos jovens, estudantes, profissionais do espetáculo e grupos.



Orchestre National de Jazz
Daniel Yvinec - direção artística
Eve Risser - piano, piano preparado, flauta
Vincent Lafont - teclas, eletrónica
Antonin-Tri Hoang - saxofone alto, clarinete, piano
Remi Dumoulin - saxofone tenor, clarinete
Matthieu Metzger - saxofones, efeitos electrónicos
Joce Mienniel - flauta, eletrónica
Sylvain Bardiau - trompete
Pierre Perchau - guitarra, banjo
Sylvain Daniel - baixo elétrico
Yoann Serra - bateria

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Marquês dos pântanos #2

"Apart from the Devil's music, the principal consolation in the young Ravenscroft J. R. P.'s life came from football. (...) I had supported Liverpool since the 1950 Cup Final, which they had lost 2-0 to Arsenal, in recognition of which I allowed no Arsenal supporters into our house except Robert Wyatt and Alfie until the mid-1990s. I'm still not convinced that I did the right thing in reversing this policy either."

(in "Margrave of the Marshes", John Peel and Sheila Ravenscroft, ed. Corgi Books, 2006)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

As reedições de Robert Wyatt

A Domino prepara-se para lançar um conjunto de reedições da obra de Robert Wyatt. Em Outubro e Novembro, vão sair, não só em formato CD mas também em LP (e talvez até no formato digital que a Domino acabou de lançar), os seguintes trabalhos (entre parêntesis a data da primeira edição):

27 de Outubro
Theatre Royal Drury Lane 8th September 1974 (2005) [ao vivo]
Rock Bottom (1974)
Ruth Is Stranger Than Richard (1975)
Nothing Can Stop Us (1981) [compilação de singles]

17 de Novembro
Old Rottenhat (1985)
Dondestan (1991)
Shleep (1997)
EPs (1998) [compilação com temas retirados de singles, bandas sonoras e bandas sonoras; Inclui a versão para "I'm a Believer", dos Monkees, e "Pigs", a versão de Wyatt para "Biko", de Peter Gabriel]
Cuckooland (2003)

domingo, 30 de dezembro de 2007

Um bom 08 para todos!

Falta pouco mais de um dia para que este velho 07 chegue ao fim. Foi um ano intenso para mim. As reviravoltas na minha vida pessoal, que entretanto julgo ter estabilizado da melhor forma, os abraços, as risadas e as lágrimas dos e com os amigos (vós sabeis quem sois, famigliares), os inúmeros concertos (ainda assim menos que em 2005), os bailaricos sofisticados e outros que tais. 07 foi o grande ano dos festivais de world music (Sines, Sines, Sines, sempre inesquecível, mas também Viseu e Póvoa do Varzim e todos os outros que não pude ir), foi o ano em que poucas pessoas estiveram a ver os incríveis Akron/Family (quero mais em 08, Luís!), foi o ano em que toda a gente foi para o Primavera e eu a Joana delirámos com os Dirty Three, foi o ano de foi o ano para fazer crowd surfing nos braços dos Maiorais ao som dos d3ö, foi o ano para estar cara-a-cara com o exorcismo dos demónios do Lirinha do Cordel, foi o ano do campeonato decidido até ao final (valeu a taça), foi o ano do encore dos Mudhoney com o "Fix Me" dos Black Flag, foi o ano da brincadeira com a Internacional na esplanada da SMURSS pelo Jacky Mollard e compinchas bretões, foi o ano do sim à IVG (finalmente, porra), foi o ano do Shortbus, foi o ano do Control, foi o ano em que o meu filho mais vezes disse que "gochto muito do meu pai", foi o ano da Passarola, foi o ano dos Anonima Nuvolari um pouco por todo o lado, foi o ano de mais um estrondo criativo de Robert Wyatt, foi o ano para voltar a interessar-me por música feita de propósito para as pistas, foi o ano de muitas leituras interessantes, foi o ano do novo livro da Naomi Klein (bom, está a ser, na verdade), foi o ano do Death Proof, foi o ano das festas incríveis dos Filho Único no 211 da avenida da Liberdade...
Por outro lado, 07 foi também o ano em que vi menos cinema, menos teatro, menos exposições, foi o ano em que menos vontade tive de ir à ZDB, foi o ano que cheguei a pensar ser o pior de sempre, foi o último ano em que se pode fumar em liberdade (não confundir com respeito por outrém), foi o ano em que menos viajei, foi o ano das perspectivas iludidas ao nível da situação profissional (cercear as liberdades pessoais é mais fácil do que acabar com os recibos verdes), foi o ano do calafrio mais ou menos esperado com o fim-não-fim dos Mão Morta...
Mas, como dizia, 07 foi intenso. E como intenso que foi, há muitos momentos que já ficaram esquecidos. Há uma certa brincadeira habitual nesta altura que apenas não fica esquecida porque vou tomando nota ao longo do tempo. É a lista dos meus... cem melhores concertos do ano. Desde o concerto dos Vicious Five no Alquimista, na primeira parte do Marky Ramone, a 3 de Janeiro, até ao dos Caveira nesta passada sexta, no Lounge (o Quim Albergaria acaba por ser aqui um elemento comum curioso...), 07 ofereceu-me um total de 149 concertos (caramba, devia ter ido ontem ver os Alla Pollaca para chegar a um número redondo, mas estava estourado...), mais que em 06, menos que em 05 (a culpa é dos Gomez Brothers terem deixado a ZDB). Na lista dos mais assistidos estão os grandes Anonima Nuvolari (seis concertos), Caveira (quatro), d3ö, Green Machine, Norberto Lobo e Ó'questrada (três), Born a Lion, Hipnótica, Nicotine's Orchestra, Pop Dell'Arte e Vicious Five (dois). Aqui vão, então, os 100+, de trás para a frente:

100. marcel kanche @ sines (23 jul)
99. human league @ terreiro do paço (4 ago)
98. capitán entresijos @ barreiro (10 nov)
97. mojo hand @ catacumbas (20 dez)
96. caveira @ zdb (27 set)
95. andrew bird @ são jorge (31 mai)
94. señor coconut @ sines (28 jul)
93. rob k & uncle butcher @ barreiro (9 nov)
92. gala drop @ espaço avenida (13 jul)
91. norman @ lounge (13 set)
90. mayra andrade @ belém (28 jun)
89. [d-66] @ lounge (5 out)
88. marky ramone and friends @ santiago alquimista (3 jan)
87. pop dell'arte @ maxime (25 dez)
86. the white stripes @ oeirasalive (9 jun)
85. green machine @ music box (26 mai)
84. d3ö @ oeirasalive (9 jun)
83. josephine foster @ zdb (8 mar)
82. traumático desmame @ casa da avenida (21 dez)
81. ó qu'estrada @ zdb (24 nov)
80. the black lips @ barreiro (10 nov)
79. jesus and mary chain @ sbsr (4 jul)
78. bunnyranch @ music box (21 set)
77. green machine @ zdb (13 jan)
76. lobster @ zdb (9 fev)
75. vicious five @ santiago alquimista (3 jan)
74. haydamaky @ porto covo (22 jul)
73. caveira @ lounge (28 dez)
72. caveira @ lux (3 mai)
71. the mojomatics @ barreiro (10 nov)
70. rão kyao & karl seglem @ porto covo (22 jul)
69. d3ö @ rio maior, in a bar (8 dez)
68. anonima nuvolari @ póvoa de varzim (1 set)
67. hypnotic brass ensemble @ sines (26 jul)
66. born a lion @ barreiro (9 nov)
65. bypass @ santiago alquimista (13 abr)
64. músicos do nilo @ belém (28 jun)
63. nobody's bizness @ teatro viriato (16 jun)
62. caveira & jorge martins @ espaço avenida (13 jul)
61. young gods acústicos @ são jorge (16 nov)
60. green machine @ barreiro (10 nov)
59. wraygunn @ oeirasalive (10 jun)
58. beastie boys @ oeirasalive (10 jun)
57. ó qu'estrada @ zdb (20 jan)
56. the hospitals @ zdb (9 fev)
55. la etruria criminale banda @ sines (27 jul)
54. wraygunn @ lux (4 mai)
53. nicotine's orchestra @ lounge (3 fev)
52. world saxophone quartet @ sines (27 jul)
51. hamilton de holanda quinteto @ sines (27 jul)
50. oumou sangaré @ sines (25 jul)
49. mamany keita & nicolas repac @ porto covo (21 jul)
48. don byron @ porto covo (21 jul)
47. dead combo @ santiago alquimista (30 jan)
46. darko rundek & cargo orkestar @ porto covo (20 jul)
45. galandum galundaina @ porto covo (20 jul)
44. d3ö @ culto club (11 jul)
43. tó trips @ maxime (9 dez)
42. bassekou kouyate & ngoni ba @ belém (29 jun)
41. hypnotic brass ensemble @ sines (26 jul)
40. hipnótica @ restart (29 mar)
39. nicotine's orchestra @ zdb (31 mai)
38. norberto lobo & iancarlo mendonza @ soc. guilherme cossoul (8 fev)
37. howe gelb @ santiago alquimista (30 jan)
36. pop dell'arte @ lux (11 mai)
35. panda bear @ b.leza (11 abr)
34. anonima nuvolari @ incrível tasca móvel (10 ago)
33. k'naan @ sines (28 jul)
32. tartit @ sines (26 jul)
31. bellowhead @ sines (25 jul)
30. anonima nuvolari @ clube de viseu (16 jun)
29. mahmoud ahmed @ sines (26 jul)
28. ttukunak @ sines (23 jul)
27. anonima nuvolari @ zdb (19 fev)
26. hipnótica @ music box (13 out)
25. etran finatawa @ porto covo (20 jul)
24. mountain tale @ teatro viriato (16 jun)
23. anonima nuvolari @ b.leza (30 mai)
22. djumbai jazz @ zdb (26 jan)
21. kap bambino @ lounge (19 out)
20. vicious five @ oeirasalive (10 jun)
19. erika stucky @ sines (28 jul)
18. trilok gurtu band @ sines (25 jul)
17. the go! team @ oeirasalive (9 jun)
16. anonima nuvolari @ catacumbas (19 set)
15. harry manx @ sines (26 jul)
14. o'questrada @ incrível tasca móvel (10 ago)
13. jacky mollard acoustic quartet @ sines (24 jul)
12. mão morta maldoror @ theatro circo (12 mai)
11. rachid taha @ sines (27 jul)

10. CARLOS BICA TRIO AZUL C/DJ ILL VIBE @ SINES (26 JUL)
9. GOGOL BORDELLO @ SINES (28 JUL)
8. MUDHONEY @ CULTO CLUB (11 JUL)
7. PATTI SMITH @ COLISEU DOS RECREIOS (28 OUT)
6. TINARIWEN @ SÃO JORGE (5 JUL)
5. STARS OF THE LID @ NIMAS (6 DEZ)
4. LCD SOUNDSYSTEM @ SBSR (4 JUL)
3. CORDEL DO FOGO ENCANTADO @ TEATRO VIRIATO (15 JUN)
2. DIRTY THREE @ LUX (2 JUN)
1. AKRON/FAMILY @ MUSICBOX (22 ABR)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

A lista de álbuns da gerência

2007 foi, a respeito de discos, um ano de colheita memorável, na quantidade e na qualidade. Muito ficou por ouvir, como sempre, fazendo que só daqui a alguns anos se consiga ter uma lista (quase) definitiva, mas esta é, para já, a lista dos 25 melhores álbuns de 2007 para a gerência do tasco:


1. ROBERT WYATT "Comicopera" (Domino)


2. NEIL YOUNG "Chrome Dreams II" (Wea)


3. LCD SOUNDSYSTEM "Sound of Silver" (Capitol)


4. PANDA BEAR "Person Pitch" (Paw Tracks)


5. BATTLES "Mirrored" (Warp)


6. JAPANTHER "Skuffed Up My Huffy" (Menlo Park)


7. TINARIWEN "Aman Iman" (World Village)


8. AKRON/FAMILY "Love is Simple" (Young God)


9. NORBERTO LOBO "Mudar de Bina" (Bor Land)


10. ELECTRELANE "No Shouts No Calls" (Too Pure/Beggars)


11. THE NATIONAL "Boxer" (Beggars)
12. M.I.A. "Kala" (Interscope)
13. VON SÜDENFED "Tromatic Reflexxions" (Domino)
14. BASSEKOU KOUYATÉ & NGONI BA "Segu Blue" (Out Here)
15. ANIMAL COLLECTIVE "Strawberry Jam" (Domino)
16. LIARS "Liars" (Mute)
17. SHELLAC OF NORTH AMERICA "Excellent Italian Greyhound" (Touch & Go)
18. BLACK LIPS "Good Bad Not Evil" (Vice)
19. DIGITALISM "Idealism" (Astralwerks)
20. GRINDERMAN "Grinderman" (Mute)
21. NO AGE "Weirdo Rippers" (Fat Cat)
22. BLACK LIPS "Los Valientes Del Mundo Nuevo" (Vice)
23. IRON AND WINE "The Sheperd's Dog" (Sub Pop)
24. WHITE STRIPES "Icky Thump" (Wea)
25. !!! "Myth Takes" (Warp)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

There's a light that never goes out

Aqui há três meses, falava do privilégio enorme de viver no tempo em que pessoas como Robert Wyatt escrevem discos como "Comicopera". É provável que esteja no lugar mais alto da minha lista dos álbuns do ano. Mas "Chrome Decoder II", o novo álbum de Neil Young, chegou agora e está a querer desafiar essa previsão. E faz repetir palavras para falar do privilégio que é viver no tempo em que um músico do tamanho do universo como é Neil Young continua ainda a fazer discos tão arrebatadores como este. Luzes como estas não se apagam nunca, está visto.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Privilégio enorme...

...viver no tempo em que pessoas como Robert Wyatt escrevem discos como "Comicopera". Preparem-se.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Uma racha no crâneo (por Fernando Magalhães)

Os discos importados e as interferências da rádio, a bizarria progressiva, o krautrock e o ódio ao punk. Mas o que realmente fica é a revelação de que os perigos que o consumo e audição desenfreados de álbuns podem não ser psicológicos. É o que acontece quando um disco dos Public Image Ltd nos acerta em cheio no crâneo.


O disco que mais me marcou em toda a minha vida foi, sem dúvida, "Metal Box", dos Public Image Lda. Vinha embalado numa caixa circular em metal. Calhou, numa certa data fatídica, cair da estante em que se encontrava, atingindo-me em cheio no crâneo. Fiquei marcado para sempre. Cinco pontos no occipital mais um trauma profundo que me fez odiar para sempre John Lydon e a música dos PIL. Foi, de qualquer forma, o contacto mais físico que alguma vez tive com um disco.

Mas a minha relação com a música popular e com os discos começara muitos anos antes do acidente. Carregando na tecla "rewind", chego a 1968, aos 13 anos de idade. Como ainda não possuía gira-discos, ouvia rádio. Aliás, como toda a gente interessada pela música nessa época. Só mais tarde me apercebi dos perigos, não só lesivos da integridade física, como, sobretudo, psicológicos, que o consumo e audição desenfreados de álbuns de música pop/rock implicava.

No início, ouvir música era uma actividade inocente. Fixava o nome de canções, por vezes tomava notas ou elaborava as minhas próprias listas de preferências. Lembro-me de escutar até ao enjoo, quer obras-primas como "The Dock Of The Bay", de Otis Redding, quer coisas tão prosaicas como "The Legend Of Xanadu", de Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick and Tich ou "Bonnie & Clide", de George Fame. "Light My Fire", escutei-a pela primeira vez na voz de José Feliciano. Quando ouvi o original, dos Doors, senti-me chocado. A voz de Jim Morrison não tremia o suficiente...

Fui passando o tempo desta maneira até que, na transição para a década de 70, a loucura explodiu, tornando-se galopante como o passar dos anos. Um programa da Rádio Renascença fez nascer em mim o gosto pelas músicas bizarras e pelas sonoridades mais retorcidas da então emergente "música progressiva", esse papão das décadas seguintes. Chamava-se o programa Página Um, com locução e realização de José Manuel Nunes. Abriram-se mundos. Cada audição de ábuns com o selo de editoras, como a Vertigo, Island, Harvest ou Neon constituía uma descoberta: Trees, Savoy Brown, Jethro Tull, Forest, Incredible String Band, Gracious, The Greatest Show on Earth, Warm Dust, Quatermass eram nomes que se me iluminavam na imaginação envolvidos numa mística própria. A música tinha cor e sabor. Nas discotecas (por vezes minúsculas lojas de electrodomésticos) encontravam-se muitos desses discos (invariavelmente com capas de abrir) que hoje são preciosidades para o coleccionador. Comprei uns tantos e desdenhei uma quantidade de outros. "It's All Work Out In Boomland", dos T2, "Ben", dos Ben, "Pre-Flight", dos Room, "Three Parts Of My Soul", dos Dr. Z, "The Polite Force", dos Egg, "Sorcerers" dos Jan Dukes de Grey, entre outras raridades, passaram-me pelas mãos...

Também ganhei o hábito de escutar -- em péssimas condições, diga-se de passagem, tal a quantidade de interferências -- a Rádio Luxembourg, só por causa de um programa chamado Dimensions. A locução estava a cargo de Kid Jensen, que hoje ganha a vida a fazer anúncios de colectâneas saudosistas no Quantum Channel, mas nessa altura era um guru, concorrente de John Peel. Por vezes passava faixas inteiras, interessantíssimas, de 20 minutos, de bandas desconhecidas. Quem seriam? Terrível expectativa. Quando, finalmente, o Kid se prestava a revelar o segredo, lá vinha a onda de ruído tapar a audição do nome do intérprete. Mas lá fui apanhando uns quantos nomes: Focus, Clarck Hutchinson, Dando Shaft, Mogul Trash, entre dezenas de outros que hoje preenchem o catálogo de reedições em compacto da Repertoire.

Claro que, entretanto, a compra de álbuns já se tornara um imperativo estético e moral (há quem lhe chame vício). Com o "pequeno" senão da mais do que frequente falta de liquidez obstar a aquisição de todos os objectos de desejo. Acabei por descobrir que saía mais barato mandar vir os discos de fora. Através de firmas exportadoras como a Tandy's e, mais tarde, a COB. Horas e horas de angústia, com as semanas a passar devagar, até a campainha da porta tocar, por fim, de uma forma especial, e aparecer-me pela frente o carteiro segurando nas mãos o mágico embrulho de cartão. Rasgado furiosamente o pacote, seguia-se o prazer da revelação, o manuseamento da capa, terminando na audição de álbuns que muitas vezes encomendava sem nunca os ter ouvido antes, apenas pela foto da capa ou pela leitura de uma crítica mais sugestiva no "Melody Maker", no "New Musical Express" ou nas revistas francesas "Rock & Folk" e "Best". Muitas vezes por simples intuição.

Anos de magia, em que parecia dispor de todo o tempo para ouvir um disco, as vezes que quisesse, até conhecer de cor as letras e as melodias. Um, dois por mês, chegavam, a princípio, para me ocupar até à encomenda seguinte. Depois, à medida que as posses iam aumentando, aumentava proporcionalmente o ritmo de compra com o consequente descalabro económico. Era o vício a ditar as suas leis.

Foram esses os anos do deslumbramento, da procura inflamada da criatividade e da diferença que determinariam a partir daí a minha forma de ouvir música.

A aventura continuou por outras descobertas e latitudes. Do "krautrock" (Tangerine Dream, Harmonia, Cluster, Kraftwerk, Neu!, Yatha Sidhra, Release Music Orchestra, Parzival, Klaus Schulze, Eroc, Wallenstein, as edições originais encontravam-se com facilidade...), dos tesouros de Canterbury (Soft Machine, Hatfield and the North, Caravan, Khan, Gong, Gilgamesh, National Health, Kevin Ayers...) das pérolas da Virgin (David Vorhaus, Comus, Henry Cow, Faust...). E ouvia os programas de rádio do António Sérgio. Até ao ano da grande desilusão: 1976. Confesso: odiei o "punk" desde o primeiro momento. Curiosamente, foi o mesmo António Sérgio o primeiro a divulgar a praga em Portugal. Ouvia e amaldiçoava os Sex Pistols, Sham 69, X-Ray Spex, 999, The Damned (apesar de Lol Coxhill tocar num dos seus discos...). A salvação chegou dos Estados Unidos, com os Suicide, Devo, Talking Heads, Pere Ubu. A Inglaterra contribuiu com os Cabaret Voltaire e os Human League, de "Reproduction", "Travelogue" e do EP "The Dignity Of Labour".

O passo seguinte foi o mergulho insano nos "industriais" (o que prejudicou grandemente a minha saúde mental). O lema era Einstürzende Neubauten, Test Department e SPK; bidões, Black & Decker e martelos pneumáticos. Mas antes o fogo e metal das fábricas do apocalipse que o pontapé na avó da punkalhada.

Com a chegada dos anos 80, após um flirt com a Made To Measure (Hector Zazou, Daniel Schell, Benjamin Lew & Steven Brown) transferi-me com armas e bagagem para o universo da Recommended Records, onde o espírito do Progressivo adquirira novas formas de beleza e esquizofrenia criativa: Roberto Musci & Giovanni Venosta, Doctor Nerve, Jocelyn Robert, Biota, Steve Moore, Wha Ha Ha, Boris Kovac, Non Credo, Wondeur Brass... Alguém se deve lembrar de uma certa lista dos melhores álbuns dos anos 80 que apareceu publicada, em duas semanas, consecutivas, no jornal "Blitz"... Quando, por fim, já nos anos 90, comecei a escrever sobre música, a razão deu início à sua actividade de médico legista. Mas as autópsias não conseguiram arrefecer a paixão. Foram milhares e milhares de sons sulcados pela agulha do gira-discos e pelo laser do CD que sulcaram igualmente a minha alma.

Discos da minha vida, há vários. Contudo, apenas um me fez chorar, quando o ouvi pela primeira vez: "Pawn Hearts" dos Van der Graaf Generator, onde percebi que a santidade e a loucura podiam ser só uma e a mesma coisa e coexistir num homem só. Fui conferindo a minha própria loucura pelos poemas e pela música de Peter Hammill. Estremeci com "In Camera", que me fez compreender onde termina uma canção e começa o inferno.

É verdade, e a folk? Essa é outra história. Uma história de amor sem o reverso da medalha. Encetou-se em 1969 quando uma amiga me ofereceu "Liege & Lief" dos Fairport Convention. A partir daí fluiu como um rio com o caudal cada vez mais forte. Até hoje.

Termino com uma lista (não há quem lhes resista) de dez discos cujas primeiras audições, no mínimo, me fizeram acreditar que a música popular pode ser algo mais do que uma maquinação da indústria. Discos que me fizeram sentir o mesmo frémito da "primeira vez":

"Ummagumma" (o disco de estúdio) (Pink Floyd, 69)
"Acquiring the Taste" (Gentle Giant, 70)
"Magma" (Magma, 70)
"Faust" (Faust, 71)
"Ege Bamyasi" (Can, 72)
"The Henry Cow Leg End" (Henry Cow, 73)
"Rock Bottom" (Robert Wyatt, 74)
"Autobahn" (Kraftwerk, 74)
"Suicide" (Suicide, 77)
"Low" (David Bowie, 77)
"Berlin" (Art Zoyd, 87)


Fernando Magalhães
Supl. Sons, Público
08/01/99