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terça-feira, 28 de maio de 2013

Collectif Animalix chez les Belges



Quando há dois anos vi os Animal Collective no ATP de Minehead, na dupla atuação do festival em que eram os curadores, fiquei desiludido. Até prometia ao início. O Panda Bear na bateria e tudo o mais devolvia ao som do grupo um caráter orgânico, assim se costuma dizer, mas... Talvez porque os novos temas apresentados não fossem completamente apelativos (alguns deles viriam a aparecer no pobre "Centipede Hz", do ano passado), talvez porque a nova disposição do grupo, principalmente no que à posição de Panda Bear diz respeito, não estivesse ainda suficientemente bem treinada, havia ali uma sensação de algum falhanço a pairar no ar. Parecia que caía por terra o mito da banda americana mais importante do século XXI.

Mas eis que tive a sorte de poder revê-los hoje, num local magnífico: o Ancienne Belgique, em Bruxelas. Passaram dois anos e, mesmo que o alinhamento desta noite tenha sido pouco diferente, o resultado é substancialmente superior. Ao olharmos para um cuspidor de fogo, achamos piada. Se víssemos um dragão a soltar labaredas do focinho ficaríamos certamente mais contentes. Passe um pouco deste exagero e assim foi esta noite (ou este fim de tarde, que os concertos aqui começam cedo). Há temas do "Centipede Hz" que agora soam a fantasia ("Fireworks", "Rosie Oh", "Today's Supernatural" e "Applesauce", por exemplo, são agora esmagadores ao vivo, nestes novos arranjos). Há recuperações interessantes de temas mais ou menos recentes como a de "I Think I Can", agora também muito diferente (e a subir diretamente para o meu punhado de temas preferidos, pelo menos nesta versão ao vivo) e, claro, dos sempiternos "Brother Sport" (agora numa versão disco-chunga da feira da terrinha, irresistível, irresistível, irresistível), "My Girls" (como dizer que está também muito diferente sem me repetir?) e, a encerrar, "What Would I Want? Sky" (mais uma vez, desfigurado em relação ao original).

Os Animal Collective são novamente uma banda. Com guitarras e tudo. As coisas rolam na quase perfeição, sendo que os erros, ou melhor, a forma como se lhes dá a volta é também fundamental neste espetáculo. Até nisso o grupo cresceu. Avey Tare parece mandar cada vez mais, ao ponto de atravessar o palco para ir dizer duas ou três a um distraído Deakin e depois voltar ao seu posto para cortar com um beat que surpreendeu a todos. Por falar em Deakin, aquele de que quase sempre nos esquecemos, transcendeu-se a cantar "Wide Eyed". Pareceu um verdadeiro Peter Gabriel. No que ao cenário diz respeito, os AC estão também surpreendentes. O palco foi transformado numa enorme boca monstruosa. Por todo o lado são projetadas as imagens psicadélicas, cheias de cor. Nos dentes da bocarra, umas almofadas brancas gigantescas colocadas em baixo e em cima, são projetadas as imagens, através da técnica do video-mapping. Madonna, vai buscar.

Pronto, despachemos isto para sublinhar, se é que não ficou explícito, que foi inesquecível e que temos de voltar a ter AC em palcos portugueses. SÃO A MELHOR BANDA AMERICANA DO MUNDO.

Antes dos AC, subiu ao palco a também norte-americana Laurel Halo, para meia hora com os olhos postos na maquinaria. Ganhou muito com a potência e a definição do PA da sala, fazendo aquecer as poucas pessoas que àquela hora ali estavam.

E o Ancienne Belgique? Que tem um português a dizer desta sala? Devo dizer que ir ao AB era um desejo de longa data. Na adolescência, quando trocava gravações de concertos das minhas bandas preferidas, nasceu um certo fetiche por algumas salas de concertos europeias mais notórias. O Paradiso de Amesterdão, o Electric Balroom de Londres e, entre outros, este AB de Bruxelas. A sala é enorme, mesmo que para estes concertos tenha sido reduzida, através de paineis, descendo a lotação máxima das 2000 para as 800 pessoas (enorme, mesmo assim, como se percebe). Há outras coisas curiosas por aqui. Às modernices de que falava no outro dia, juntem mais algumas:

- Os concertos começam cedo e a horas. Nem mais um minuto, esteja quem estiver, pelo menos a avaliar pela pequena amostra desta noite. (Não serve isto de crítica às salas portuguesas. Bem sabemos porque nunca são respeitados os horários divulgados.)

- Há máquinas dispensadoras de... tampões protetores dos ouvidos. E, a avaliar pelo que ia vendo à minha volta, a procura é relevante. Talvez alguns dos miúdos não venham a ter as dificuldades que por vezes tenho em escutar as pessoas...

- Dentro do AB, a moeda não é o euro, mas sim as chapas que se trocam num balcão próprio ou nas várias máquinas dispensadoras (para cartões e tudo). Uma cerveja custa uma chapa e, surpresa, uma chapa custa... 2,5 euros. Para Bruxelas, é barato e é de fazer envergonhar a maioria das salas portuguesas (ainda que, sem querer entrar demasiado no campo da Economia, a culpa também seja em grande parte da nossa distribuição de rendimento, uma das mais desiguais da Europa).

- À saída, há diversos écrans montados nas paredes a indicar os horários dos comboios para a malta que sai de Bruxelas. Ah, civilização.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ensaio sobre a cegueira (mas desta vez sobressai o melhor dos homens e mulheres)



Se podes ouvir, escuta. Se podes escutar, repara.

A citação de Saramago ao "Livro dos Conselhos" não é bem esta, mas assim ajusta-se bem a "Eclipse", o espetáculo que o casal Amadou & Mariam trouxe ontem ao Grande Auditório da Gulbenkian. Um espetáculo que prometia uma experiência multissensorial única, vedado que estava o sentido da visão de se distrair (a sala foi mergulhada durante quase todo o concerto na completa escuridão), deixando livres a audição para a música e os sons ambientes da história subjacente, o olfato para os odores de África e a perceção da temperatura que foi oscilando ao longo do concerto.

E foi, de facto, uma experiência única, incrível, inesquecível.

Já todos passámos pela experiência de fechar os olhos durante um concerto, deixando o som entrar livremente nos ouvidos sem disputar a atenção com o sentido da visão. Ou até em casa: se nunca o fizeram, experimentem pôr um disco a tocar, apagar a luz e deitarem-se no sofá, no chão, onde quer que sintam o corpo relaxado o suficiente para não vos distrair do que sai das colunas. Se nos agrada aquilo que escutamos, essa ligação pura e direta à música pode até fazer-nos transportar por uma viagem onírica. Sem químicos.

Imagine-se agora isto num concerto inteiro (ou quase inteiro). A ajudar, um som em quadrifonia, equilibrado e equalizado de forma perfeita. A Mariam Doumbia a ouvir-se atrás, do lado esquerdo, a kora a surgir do lado direito, o resto da banda lá à frente. Jogamos à cabra-cega e estamos a adorar, sentimos a felicidade das crianças que já fomos. Alguém dançará, certamente, pois já não está ali a vergonha que teria para se levantar sozinha das poltronas nos concertos iluminados. Casais trocarão carícias. Talvez haja quem se sinta desconfortável por não ter sido assim que a MTV ou o youtube a ensinou a ouvir música. Não temos nada para ver, nem para ser visto. Estamos apenas a escutar, a reparar nos sons que habitualmente não reparamos. Sentimo-nos tão perto dos músicos, tão perto da história de amor que uniu Amadou e Mariam e que tem sido levada aos palcos de todo o mundo. Aqui escutámo-la com direito a narração do percurso, desde que perderam a visão, desde que se encontraram na Eclipse Orchestra do Institut des Jeunes Aveugles de Bamako, até se tornarem as estrelas mundiais que são hoje. Temos um breve relance da maneira como os dois veem o mundo.

E sentimo-nos felizes por nos terem deixado experimentar o bom que é reparar no que escutamos.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Perfume de espírito adolescente

Thurston Moore nunca deixou de ser este miúdo empertigado, que muitos ainda tentam imitar (sem sucesso). Prefiro pensar que não reparamos nisso porque ele já passou dos 50. Afinal, o Neil Young já vai nos 66, o Tom Zé nos 75... e continuam a rockar tanto ou mais. Não será porque as rugas que lhe caem pelo rosto abaixo se escondam nos esgares que faz quando puxa a voz uma oitava acima do que é normal. Algo estaria completamente errado em tudo isto se a idade e as rugas de quem pisa um palco nos levasse a tomar de outros ângulos de visão aquilo que nos é partilhado ao vivo. Prefiro então pensar que é justamente porque somos levados rapidamente a esquecer tais detalhes, com toda a naturalidade deste mundo, e a julgá-lo como o tal miúdo empertigado (e sobredotado) que ali aparece com a sua nova banda. Miúdo que dizia, entre as muitas ocasiões em que se dirigiu ao público que a banda e o próximo álbum se chamariam Chelsea Light Moving, o nome da empresa de mudanças que o compositor Philip Glass criou nos anos 50 para garantir o rendimento que a música não lhe dava (e por onde passou também outro minimalista dos grandes, Steve Reich). Foram muitas, aliás, as ocasiões em que Moore trocou palavras com o público, atirou piadas, pediu e ofereceu cerveja. Uma surpresa nesta noite. Já vi Sonic Youth ao vivo mais de uma meia dúzia de vezes e raramente o vi usar o microfone para outra coisa que não fosse cantar ou lançar o mote inicial "We're Sonic Youth and we come from New York City". Parece que o miúdo ficou (ou voltou a ficar) apaixonado por Lisboa e que cá voltará para o fim do ano, para passar algum tempo de qualidade (alguém lhe faça um arranjinho com uma portuguesa!).
O espetáculo íntimo de ontem -- para pouco mais de 150 pessoas no aquário da ZDB, apenas sócios da galeria -- foi dividido em duas partes. Na primeira, a banda atacou números do próximo álbum, que já vão num estado além do bruto, ainda que ali faltem, esperando-se que seja essa a ideia, as vozes. O mais provável é que não voltemos a ter um álbum novo de Sonic Youth, mas a avaliar por esta amostra de ontem, aquilo que habitualmente esperávamos deles, ou pelo menos naquelas composições creditadas a Moore, vamos facilmente encontrar neste tal de "Chelsea Light Moving". Na segunda parte, para a qual Moore havia prometido "oldies", a banda pôs-se a desfilar tema de "Psychic Hearts", disco que já leva com quase 20 anos em cima: "Feathers", "Cindy (Rotten Tanx)", "Pretty Bad", "See-Through Playmate", "Ono Soul" (uma versão magistralmente intercalada com a torrente de guitarras distorcidas e em feedback a que já estávamos habituados nos SY, e a que a própria banda chamava "hurricane"), "Staring Statues". E ainda houve muito mais, de outros discos. Não houve guitarra acústica, como os últimos álbuns a solo de Moore davam a entender que pudesse acontecer. Ao longo de toda a noite, Thurston Moore empunhou sempre a sua jazzmaster, em duelo com a distorção alta da guitarra de Keith Wood. O violino de Samara Lubelski encaixou-se sempre muito bem e a bateria de John Moloney esteve, na maior parte das ocasiões, escondida atrás do barulho das guitarras e deu até para sentir vontade de ali ter o Steve Shelley. Foi talvez o único defeito a apontar à noite de ontem.
Descobri esta semana que há uma corrente na arquitetura ocidental do século XX designada por "brutalismo", o que me oferece o pretexto científico ideal para terminar com uma frase outrora banal nestas coisas da música: foi BRUTAL.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Não há nada como o ATP, a não ser outro ATP

Esqueçam tudo o que aqui já escrevi sobre festivais. O All Tomorrow's Parties de Inglaterra, curado pelos Animal Collective e realizado neste passado fim de semana no campo de férias Butlins, em Minehead, na sua edição de Primavera (a última, segundo a organização), ultrapassa não só tudo o que já experimentei no passado como toda a imaginação com que previamente viajei para o Somerset inglês.

Primeiro, como é óbvio, os concertos. Não só as melhores expetativas foram facilmente derrubadas, com uma ou outra exceção, como os pontos negros do cartaz, as zonas de ignorância em relação a algumas das escolhas dos AC acabaram por revelar-se belas surpresas.

Mas, depois, há tudo o resto que eleva este ATP a um evento fora do comum, em absoluto. O conforto de se ter morada naqueles pequenos apartamentos em chalets, próximos dos locais onde aconteciam os espetáculos. O convívio e a partilha do espaço entre público e artistas. A simpatia britânica dos empregados do Butlins, o campo de férias, ou dos elementos da organização. Até os seguranças musculados brincavam e deixavam que brincassem com eles. O público em número certo (poucos milhares), tornando possível percorrer todos os sítios do festival e assistir a todos os concertos com o máximo conforto possível. O próprio público em si, e tirando talvez a miudagem que foi para ver o Big Boi, é nitidamente constituído por pessoas que gostam abusivamente de música, como nós, que seguramente passam horas em lojas de discos e uma boa parte do seu tempo livre a assistir a concertos (e sem a proporção de hipsters e fashionistas que regularmente encontramos por cá!). E não batem palmas a acompanhar os concertos.

E há mais, ainda. Os curadores não programaram apenas o programa do festival. Nos chalets, as televisões tinham dois canais internos, um deles a cargo dos Animal Collective (muitos filmes de terror, muitos filmes de adolescentes dos anos 80, muitos filmes dos Sun City Girls) e outro gerido pela organização. O ciclo de cinema do fim de semana foi também escolhido pelos AC, com filmes de terror japoneses, documentários da Sublime Frequencies, etc.

É difícil, para os padrões habituais, imaginar como tal pode acontecer, mas não há qualquer publicidade oficial por terceiros patrocinadores no ATP. É qualidade de vida. Até nas bebidas havia mais de uma dezena de marcas de cerveja (e o mesmo para o whisky) para se escolher. Aqui o mais importante é a música, mesmo.

E na música, então, o que se passou? Logo na sexta-feira, ao segundo momento do cartaz, fomos brutalmente atropelados pela máquina de dança chamada Black Dice. Sim, máquina de dança. Não é que tenham mudado muito, mas o grupo está de regresso com uma postura mais "amigável". O noise continua, mas agora dançamos muito mais. E com o som cristalino e poderoso que o palco principal tinha para oferecer, os Dice transformam-se numa orquestra onde se percebe todas as fontes de som usadas em simultâneo, o noise é elevado ao estatuto de música erudita. Se o ATP fosse uma competição, tínhamos aqui os prováveis vencedores, logo ao segundo round. Demos mais um passo no avanço da surdez, mas saímos felizes desta experiência, tal como na performance a solo de um dos Dices, o Eric Copeland, no dia seguinte.

No segundo lugar da minha lista de preferências, ficaram os Gang Gang Dance. Entre temas antigos e novos, e mais uma vez beneficiando do som incrível do palco principal, os GGD fizeram a festa que se esperava. Tenho-o dito por brincadeira, mas com uma inescapável ponta de verdade: são uma das melhores bandas da atualidade. E ao vivo, superam os aparentemente insuperáveis discos. Ainda há dias saiu "Eye Contact" e já em palco se ouve uma versão completamente diferente (e excelente) do segundo single, "Mindkilla". Não foi possível estar parado ao som dos Gang Gang Dance. Que o diga a Kria Brekkan, ex-mulher de Avey Tare e também ela uma das convidadas para atuar neste ATP, que passou todo o concerto a dançar f-r-e-n-e-t-i-c-a-m-e-n-t-e em cima do palco. Há que rumar a Serralves para rever uma vez mais os Gang Gang Dance.

Para fechar este conjunto dos três concertos mais relevantes do fim de semana, para este vosso, temos os irmãos Bishop, no projeto The Brothers Unconnected, onde os dois prestam tributo a Charles Gocher, o terceiro membro dos Sun City Girls, falecido há cerca de quatro anos. O humor de Allan e Richard Bishop continua intocável, enquanto se referem às baladas irlandesas e mexicanas que transportam do catálogo dos SCG para o palco e se metem com o público. Foi pena ter sido tão curto. Na verdade, a ter que apontar um defeito ao ATP (e, na verdade, a todos os festivais), só talvez mesmo a curta duração (45 minutos a uma hora) de alguns dos concertos.



O que dizer, então, dos mestres de cerimónia, dos padrinhos, dos mordomos, dos curadores Animal Collective? Fizeram mais ou menos o mesmo concerto por duas vezes, sábado e domingo. A perspetiva de afluência de público em maior número terá condicionado esta opção. No primeiro, e porque em casa de ferreiro, espeto de pau, tiveram um som péssimo. No segundo, já tiveram direito ao tratamento de que os seus próprios convidados beneficiaram naquele mesmo palco, mas ainda assim, estiveram algo longe de oferecerem os melhores momentos do festival. Ao contrário dos Gang Gang Dance ou até dos Black Dice, onde a experimentação surge hoje de uma forma talvez menos expontânea, mas mais cuidada, sem deixar de ser arriscada, os AC contornaram essa mudança procurando voltar no tempo, regressar ao formato de banda rock, com o Noah Lennox desterrado para a bateria, numa altura em que se calhar já não são propriamente uma banda. Foram inúmeros os temas novos a serem apresentados, algo que não é tão incomum assim (afinal, quanto tempo antes da saída do álbum começámos a ouvir youtubes dos temas do Merriweather Post Pavillion?), mas ainda há muito a fazer até que os temas cheguem a bom porto. A história da música popular dá-nos inúmeros exemplos de super-bandas que, com o avançar dos anos, viram os seus elementos mudar de quotidianos, viverem até em continentes diferentes (como é o caso aqui). Algumas dessas bandas souberam adaptar-se e continuar em grande, outras desapareceram em álbuns e carreiras de sucesso monetário mas de qualidade duvidosa. Os Animal Collective deste fim de semana mostraram que ainda têm que fazer para voltarem a ser um grupo. Esperemos que a digressão europeia venha a ajudar e que em Julho já cá os tenhamos na forma que nos habituaram em todas as vezes que por cá passaram (bom, excetuando a do Número festival).

Ao longo do fim de semana, houve muitos outros bons motivos para se andar nas nuvens. Os Beach House, por exemplo, foram mágicos. E tiveram também direito ao magnífico som... já vos falei do som do palco principal, não? Mágicas também, absolutamente mágicas, foram as irmãs Larson, as Prince Rama, aqui acompanhadas pela dançarina brasileira Melissa Huser. Como diz Taraka Larson na visão religiosa no seu facebook, "fall in love everyday"... Não há como perdê-las no Lounge, no mês que vem. Peter Kember, o Spectrum, trouxe um espetáculo não muito diferente daquele que deu no Primavera, há dois anos (excelente, portanto). A maliana Khaira Arby, prima do falecido Ali Farka Touré, começou muito bem (e assim deve ter continuado, mas os Gang Gang Dance tocavam à mesma hora, pelo que a partir de certo momento, houve que escolher). Também do deserto do Saara, estiveram por lá os Group Doueh, com um espetáculo semelhante ao que trouxeram à Gulbenkian, há dois anos. Os ingleses ficaram loucos. No campo dos compositores e artistas mais avançados na idade, importa ainda referir os concertos de Terry Riley e de Tony Conrad. O primeiro veio acompanhado do seu filho Gyan. Pai no piano e filho na guitarra clássica: uma união perfeita, mas a horas que o cansaço começava a levar a melhor. Conrad não veio com Genesis P-Orridge mas esteve acompanhado de uma performer vocal fora de série, para uma hora de improvisação notável.

E o que houve de principais surpresas? Para já, o contrário, uma desilusão daquilo que antes tinha sido uma surpresa: Thinking Fellers Union Local 282. A sério, se não conhecem nada destes norte-americanos, como eu não conhecia até há poucas semanas, vão já ouvir os discos deles. São obrigatórios e é um caso estranho serem tão pouco conhecidos deste lado do Atlântico. O concerto, todavia, foi estranhamente banal. Já os Meat Puppets não desiludiram nesse aspeto. Mas no que ao rock diz respeito, houve neste fim de semana duas boas surpresas: os Soldiers of Fortune e os The Entrance Band. Os primeiros vieram de Nova Iorque com um autocarro desgovernado de guitarras armadas para batalhas épicas. Os segundos, de Chicago, vieram piscarem o olho às bandas inglesas que nos anos 80 construíam templos de adoração ao reverb, dos Killing Joje aos Bunnymen.

Houve mais, claro. E houve coisas que não foi posível ver. Mais tempo houvesse, mais os pés ajudassem e, por uma vez ou outra, com a ajuda do poder da ubiquidade, teria sido possível ir a tudo. Porque iria valer a pena, quase de certeza. Assim como vai valer a pena voltar um dia ao ATP, não ao de Maio, porque não este foi o último, mas ao de Dezembro. Na edição deste ano, o curador vai ser Jeff Mangum (Neutral Milk Hotel).

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Um power trio maior que a tua mãe

Os L'Enfance Rouge não são franceses, como dizem por aí. Não são italianos, como sugerem os nomes Locardi e Andreini, a secção rítmica. Não são europeus, como disse o Thurston Moore quando lhe chamou uma das melhores bandas do velho continente. Não são tunisinos, como podia indicar o álbum anterior e a formação com que chegaram há dois anos a Sines. Os L'Enfance Rouge são uma raça alienígena proveniente de um planeta longínquo. Planeta de cujo o mais insigne espécie até cá chegado dá pelo nome de Steve Albini, compreendem? São daquela sociedade em que as crianças aprendem Black Flag na creche, Swans na primária e Big Black no ciclo, enquanto em simultâneo resolvem de cabeça inequações de 967º grau. Na verdade, os L'Enfance Rouge não existem. Ontem, no Musicbox, no encerramento do Festival Terapêutico do Ruído, o que houve foi uma magnífica alucinação colectiva que vai ser motivo de conversa para muitos anos.
(Título gentilmente roubado e alterado aos Paus.)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A última vez?

Primeiro, que fique registado, os Young Gods são a segunda banda estrangeira que mais vezes vi ao vivo. Ontem foi a oitava. Não fui a tempo da estreia no antigo cinema Alvalade, com os Mão Morta, mas fiquei aterrado com eles na Voz do Operário, em Vilar de Mouros, naquele mítico concerto em que o palco andou alguns metros para trás, na ainda assim chamada Gartejo, no Técnico, duas vezes na Aula Magna e a penúltima, em 2007, num surpreendente formato acústico apresentado no São Jorge. Sempre os respeitei, mesmo ontem, no Santiago Alquimista.

Segundo, não menos importante, deve também ficar registado o facto de que, à partida e só por causa disso, nada tenho contra os velhos músicos que anda em palco com os seus mesmos grupos de há 30, 40 ou mais anos. Não é assim tão reduzida a proporção daqueles que continuam a ter mais sangue na guelra que qualquer malmequer acabado de florir numa sala de espectáculos lotada por hipsters adolescentes.

E os Young Gods eram, lamento usar o pretérito perfeito, assim. Em 2005, na Aula Magna, ainda estava ali tudo que me tinha deixado aterrado em 93, na Voz do Operário. Era impossível assistir ao concerto sentado. Mesmo em 2007, a surpresa acústica revelou um trio apostado em reinventar-se, em fazer contorcer as pequenas celulazinhas cinzentas de cada uma das cabeças do seu público. Quem conceberia que um grupo que durante anos e para uma inteira geração assumiu a ideia de um rock cheio de esteróides metido dentro de um teclado midi, quase-inovação tecnológica da época, se poria a recriar o seu reportório em formato acústico?

Mas ontem. O trio já não é trio. Agora apresentam um quarto elemento, mais jovem, que, ironicamente, nada de novo traz ao grupo, a não ser a inclusão de mais um bonequinho no logotipo e, não falemos muito dela, uma guitarra que faz solos a mais e que não justifica de todo a sua presença (ah, e um teclado mais moderno que o do senhor Al). O alinhamento deixou a nu as debilidades das composições mais recentes. A crueza das canções boas, se assim lhe pudermos chamar, deu lugar a tapetes sonoros debruados a arranjos pseudo-sofisticados, mas sem qualquer chama (uma das piores doenças a atacar as bandas mais idosas *). Praticamente só no encore, e já em formação de trio, vieram algumas das melhores canções do passado (e mesmo assim, só a partir do álbum "T.V. Sky", ainda que antes do encore tenha havido uma versão para "Envoyé"). O chamado encore do vamos-lá-dar-lhes-coisas-antigas-senão-eles-ainda-partem-isto-tudo. Há contudo, e genuinamente, que dar aqui valor aos Young Gods. Mais de 20 anos depois, não se limitam a arrastar-se pelos palcos com os mesmos temas de sempre. Têm álbuns novos e tocam-nos ao vivo. Podem não valer um chavo, mas estes veteranos não se deixam repousar à sombra dos antigos sucessos. Respeito.

* Um dia, quando arranjar um estetoscópio, dedico um artigo científico a esta doença. Ataca mais frequentemente quando as bandas deixam de ser um grupo de miúdos que não sabem tocar mas ensaiam todos os dias para terem as melhores canções e passam a ser um convénio de adultos, com as suas vidas, que compõem canções e arranjos cada um para o seu lado, cada um no seu ponto do globo terrestre, por vezes até com a participação de um produtor externo que molda todo o novo som do grupo.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O meu Primavera Sounds 2010

Enquanto se dá descanso aos pés dos quilómetros percorridos e das horas em pé a ver concertos e a dançar, enquanto se dá descanso aos ouvidos e à cabeça de tanto rock’n’roll, enquanto se dá descanso ao corpo daquela coisa com nome de santo a que os espanhóis chamam cerveja, há tempo para um esforço de rememoração daquilo que se conseguiu ver e ouvir no Primavera Sound 2010. Notem que esta é apenas uma breve apreciação do que foi «o meu Primavera Sounds 2010». Se já quando se assina uma reportagem sobre um mero concerto a subjectividade é, por natureza, inescapável, muito mais próprio se torna o relato de um festival em que mais de meia-dúzia de palcos funcionam praticamente em simultâneo, em que a cada um cabe decidir o alinhamento do que pretende ver. E este ano, por várias razões, a começar pela memória do estouro físico e mental da experiência de 2009, «o meu Primavera Sounds 2010» foi bastante mais compacto. Mas vamos aos destaques destes três dias de festival no Forum de Barcelona:

Os baixos, as baterias e os músicos que tocam que se fartam
Do cartaz do Primavera Sound deste ano fizeram parte inúmeras bandas com sonoridade (e line-ups) assentes nas secções rítmicas. O protagonismo do baixo e da bateria era evidente nas várias correntes e gerações que passaram por estes palcos.
Da terra do kraut, veio Michael Rother acompanhado de Steve Shelley e Aaron Mullan, para uma enérgica e retemperadora revisitação do reportório dos Neu!, no último final de tarde soalheiro do festival. Do kraut também se ouviu revivalismo por parte de músicos mais novos, como foi o caso da bela surpresa chamada Beak>, o novo projecto de Geoff Barrows, dos Portishead.
Da terra do funk-punk, vieram os Liquid Liquid. Quem, como eu, imaginava que se ia apenas prestar tributo a mais um grupo icónico do passado agora regressado aos palcos, de músicos enferrujados pelo tempo, percebeu logo desde o início o engano. Foi, neste meu Primavera, o melhor de todos os espectáculos (em ex aequo com os Les Savy Fav, mas já lá vamos). Esta potente máquina de dança parece não ter parado no tempo, não só por causa do acaso circunstancial do legado da banda fazer todo o sentido nas pistas de dança de hoje, mas também, e ainda mais, porque os próprios músicos tocam com um rigor e uma energia tais que tornam a dança obrigatória desde o início e que, por várias ocasiões, produzem clímaxes de loucura indescritíveis.
Da terra do pós-rock, vieram os Ui e os Tortoise. Os primeiros, dois baixos e bateria, circunspectos mas exímios na linguagem que criaram nos anos 90. Mais abertos, mais completos, mais ágeis, mais ricos musicalmente, os Tortoise, com John McEntire e John Herndon a trazerem as suas baterias para a frente do palco, mostraram em palco aquilo que já tinham provado em estúdio com “Beacons of Ancestorship”, isto é, que este combo de músicos exímios e multifacetados merece continuar a prolongar a carreira, já tantos anos depois da euforia do pós-rock.

Who rocks the party?
Ainda que com pena de ter perdido, por diferentes motivos, os concertos de Monotonix (diz quem foi que a loucura se instalou no palco ATP, com estes punks israelitas a tocarem no meio da assistência), King Khan, Black Lips, Almighty Defenders (grupo que reúne elementos dos dois anteriores), «o meu Primavera Sounds 2010» ficou marcado pela actuação dos nova-iorquinos Les Savy Fav. Tim Harrington, o vocalista, é a grande figura desta edição do festival. Se em mais de vinte anos de concertos pensava que já tinha visto de tudo, eis Tim Harrington a mostrar o contrário. Ainda mal a actuação tinha começado e já ele, apenas em calções, depois de ter retirado o seu fato de panda mutante, se atirava para a plateia. Ele e a sua opulente barriga. Surfava por cima dos espectadores, subia às bancadas, ia o mais longe possível que o cabo permitia, voltava a palco para subir as estruturas laterais e tentar destruir um ou outro holofote, voltava a atirar-se para o público, fazia questão em aleijar-se ao mergulhar de cabeça para o chão ou cobria-se de pó de talco e atirava-se de novo para a plateia, enquanto cantava o perfeitamente explícito “Who Rocks the Party?”. Tudo isto sem se furtar à tarefa de ter a voz nos momentos certos, no decorrer do excelente alinhamento trazido pelos Les Savy Fav. No último crowd-surfing desapareceu no meio do público e já não voltou. Hoje deve estar com hematomas pelo corpo inteiro. Até o Iggy Pop passa por atinado ao lado de Tim Harrington, que ainda atravessou o palco de um lado ao outro no dia seguinte, na actuação dos Liquid Liquid (ver vídeo aqui). Who rocks the party? Who rocks the party?

Outras coisas
No palco principal, apenas prestei atenção a três actuações. Primeiro, The Fall, que tiveram um arranque enérgico, proporcionado por um dos temas-título do novo álbum “Your Future Our Clutter”, e a esperada sobranceria de Mark E. Smith, que se entreteve por várias vezes a mexer nos amplificadores dos seus músicos. Excelente versão do “Strychnine”, dos Sonics, uma vez gravada para uma Peel Session e depois tornada habitual ao vivo. Mais tarde, vieram os Pavement, com um alinhamento mais ou menos esperado, alguns convidados de ocasião (dos Monotonix e dos Broken Social Scene) e algumas histórias ao microfone: “I got in the elevator with Mark E. Smith, Colin Newman from Wire and two members of Mission of Burma – It was a punk rock wet dream”, dizia o Scott “Spiral Stairs” Kannberg. Na sexta-feira, foi o dia de Pixies. Tal como nos Pavement, ouviu-se aquilo que mais ou menos se esperava (exceptuando a magnífica versão de “Winterlong”) e também se ouviu muitos pregos de Kim Deal (e diz quem estava mais perto do palco que, perante os risos da baixista nestas ocasiões, Frank Black reagia com cara de poucos amigos...).
Um susto chamado Gary Numan: ao princípio, imaginei tratar-se de uma qualquer banda dos círculos góticos espanhóis. Não era de se supor que houvesse alguém a tocar àquela hora no palco Vice, sabendo-se que neste festival os horários são respeitados de forma absolutamente escrupulosa, mas era mesmo o Gary Numan que ali estava naqueles preparos. Entrou logo directamente para o lugar de pior experiência n’«o meu Primavera Sounds 2010».

É muita gente
Há uma razão, entre outras, para não gostar, de uma forma geral, do conceito de festival. As multidões. E se, no ano passado, a experiência do Primavera tinha sido interessante por justamente não ter sido afectada por este problema, à excepção do último dia, por causa da presença em cartaz de Neil Young, este ano teve multidões compactas todos os dias e logo desde bem cedo. Em vários dos espectáculos, principalmente nos mais apelativos do palco principal ou nos do palco ATP, tornou-se complicado conseguir bons lugares, com um mínimo de boa visibilidade. Para ajudar ao clima de caos que rapidamente se instalava com o movimento das massas, as redes de telemóvel deixavam de funcionar. Comunicação por voz tornava-se impossível, e por texto havia atrasos de 10 ou 20 minutos na entrega das mensagens. Estamos em 2010 e problemas de comunicações em situações de grandes aglomerações de povo são coisa que já nem sequer por cá existe.
Por este andar, não vai haver «o meu Primavera Sounds 2011».

O TOP 10 d’«o meu Primavera Sounds 2010»
1º Liquid Liquid
Les Savy Fav (ex aequo)
3º Michael Rother & Friends present Neu! Music
4º Shellac
5º Tortoise
6º Diplo
7º Lee ‘Scratch’ Perry
8º Beak>
9º Pavement
10º The Fall

(O que mais pena me deu de não ter visto: The Almighty Defenders, Monotonix, Apse, Scout Niblett, Thee Oh Sees, The King Khan & BBQ Show, Major Lazer, Dum Dum Girls, Atlas Sound)

terça-feira, 25 de maio de 2010

Shellac da Nort'América

Os Shellac não são uma banda. São um relógio suíço de frontispício em que, no lugar do cuco ou dos paisanos da aldeia surge um power trio clássico. São um metrónomo de três hastes, cada uma delas com um tique-taque sincronizado ao limite do absurdo, mais preciso que o relógio atómico de Greenwich. Eles nem se olham entre si quando acertam entre si as paragens, os arranques, as mudanças de tempos. E Steve Albini, como se tornou hábito dizer-se, é deus. E também é um óptimo guitarrista, que extrai da sua Travis Bean de alumínio o som rude, sujo e áspero do metal com que a maior parte de nós cresceu ao ouvir as bandas que Albini gravou e produziu ao longo das duas últimas décadas. E é ainda um poeta rock, em diferentes momentos do espectáculo, como em "The End of Radio". Nessas alturas, Albini pisa com toda a segurança o caminho de outros poetas americanos de palco como Patti Smith, Jim Morrison ou Jello Biafra. Mas Shellac não é só Albini. Bob Weston, que tem o sangue do hardcore de DC a correr pelas cordas do baixo, e Todd Trainer, um autêntico demónio na bateria (nota: não é figurativo), são as duas outras engrenagens do tal relógio suíço. O alinhamento teve vários pontos de contacto com o concerto do ano passado, no Primavera, e ainda mais terá certamente com o deste ano no mesmo local. Quem nunca passou pela experiência Shellac e na próxima sexta-feira, em Barcelona, se propuser a trocar parte dos Pixies ou dos The King Khan & BBQ Show, que tocam quase à mesma hora noutros palcos, não ficará seguramente a perder.
Assistiu-se, esta noite, a um dos maiores concertos deste ano. (Mission of Burma foi bom, óptimo até, mas depois do estrondo shellaquiano, fica-se com pouco para se dizer.)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Mas este gajo só fala de alinhamentos?

Como é que dois alinhamentos tão semelhantes...
Perdoem-me os que não tiveram oportunidade de ver os Sonic Youth, no ano passado, no Primavera Sound, mas não consigo deixar de reagir ao concerto desta noite sem ter por referencial aqueloutro. Como é que dois espectáculos com alinhamentos tão semelhantes, conseguem ser tão diferentes, pelo menos nas reacções que provocaram a mim e, suspeito, a outros que, como eu, também lá estiveram? Será porque hoje estávamos numa sala cheia, comprimida, com muito calor e muito suor, e não numa doca, ao ar livre, entre largos milhares de pessoas, entre horários de dezenas e dezenas de outras actuações? Será porque os temas mais recentes estão agora mais rodados ao vivo? Será porque hoje a banda esteve efectivamente melhor, sem ostentar aquele ar de frete do ano passado? Será porque a empatia com o público foi outra? Será pelo clima de euforia com que toda a gente -- pelo menos ao meu redor -- ansiava pelo concerto de hoje? Não sei. O que sei é que tudo hoje, desde os temas mais recentes até coisas antiquíssimas como "Shadow of a Doubt", "Schizophrenia", "Cross the Breeze" ou "Death Valley '69" soava (e fazia suar) de uma forma que me fez sentir um miúdo a ir aos seus primeiros concertos no Coliseu (tal como o André, que tem 14 anos e saiu de lá com um sorriso de orelha a orelha). Estes foram os "meus" Sonic Youth. Os meus e os de muita gente, ao longo de várias gerações. E provavelmente vão por cá andar ainda em 2020 ou 2030, a conquistar novos públicos e a manter estas relações "para a vida" com as gerações mais antigas. Pelo menos, é o que o espectáculo de hoje sugere.
Muito bem estiveram também os Gala Drop. Surpresa ou não, o cosmos alucinante que o grupo serve tão bem modo dub -- hoje com uma incursãozita por uma cena mais disco-trashy -- acabou por colher bastante entusiasmo junto de público que não os conhecia e que até protestou pelo acontecimento estranho ao último tema. É que as luzes apagaram-se e, segundos depois, aconteceu o mesmo ao som. Toda a gente ali por perto imaginou que terão sido "calados", mas fontes próximas da banda (sempre quis usar esta expressão) garantiu que foi uma falha técnica. Há quem não acredite...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Liberdade e irreverência na "música para uma nova tradição"

"A música tradicional como espaço de liberdade e de irreverência." A frase de Carlos Guerreiro, surgida a meio da actuação dos Gaiteiros de Lisboa resumia de forma particularmente feliz a noite de ontem e o espírito que atravessou não só as actuações dos quatro grupos envolvidos mas também a mensagem deixada pelo homenageado, João Aguardela, e que os seus amigos pretendem continuar a fazer passar através das iniciativas do projecto Megafone 5. Tradição, liberdade e irreverência estão nos Gaiteiros desde o primeiro disco, estão na folia de tasca dos Oquestrada, surgem subrepticiamente nos instrumentais dos Dead Combo, estão na voz de Maria Antónia Mendes, d'A Naifa. Não havia maneira de celebrar melhor esta ideia.

A história do Megafone 5 é uma história bonita desde o princípio. Há nove meses, logo na noite imediata ao funeral de João Aguardela, Nuno Calado, da Antena 3, liga o chat do gmail e põe-se à conversa com Pedro Gonçalves (o jornalista). "Temos que fazer qualquer coisa." A bola passa para depois para o Luís Varatojo e para a Sandra Baptista, que desenvolvem a ideia até chegar ao ponto em que a conhecemos hoje. Megafone 5 não foi apenas a habitual noite de homenagem. É um site (www.aguardela.com) com tudo sobre a obra do João, incluindo o download livre dos quatro volumes de Megafone, as transformações que o músico fez de recolhas da música tradicional portuguesa, e é também algo que vai muito mais longe e se projecta no futuro da música feita por cá, com a criação de um prémio para distinção da nova música tradicional portuguesa, em colaboração com a SPA. E tudo isto começou com um "temos que fazer qualquer coisa".

Voltando à noite de ontem, a coisa começou por ameaçar correr mal. Os Gaiteiros de Lisboa, que continuo a ter para mim como um dos dois ou três melhores grupos portugueses, especialmente ao vivo (embora, infelizmente, isso pareça ser cada vez coisa mais rara), tiveram um som baixíssimo. Sou quase capaz de jurar que a percussão não estava amplificada. Em dias normais, a percussão dos Gaiteiros esmaga-nos contra as costas das cadeiras. Ainda por cima, o grupo aproveitou para introduzir variações particularmente curiosas nos temas (um deles até era, aparentemente, inédito). Depois da experiência do "Três Cantos", comecei até a recear que viesse aí a moda do "veja primeiro, oiça depois (com o CD e DVD)". Contudo, os níveis de volume atingiram o desejável na actuação seguinte, com os Oquestrada. E aqui o público acordou. Com a vocalista Miranda, sempre despachada, sempre irrequieta (o raio da mulher não aguenta mesmo o palco, passeia pela plateia, mete-se com fotógrafos e espectadores), a festa instalou-se no grande auditório do CCB. Só foi pena a actuação do "fadista pugilista" -- figura de Alfama que costuma animar, e bem, a "Incrível Tasca Móvel", o espectáculo que os Oquestrada têm com os Anonima Nuvolari -- que fugia constantemente aos tempos do fado que saía dos Casios do Lima e do Donatello (fado com Casios, claro -- "liberdade e irreverência"). Depois do intervalo, os Dead Combo levaram o espectáculo para o terreno da serenidade que tão bem conseguem recriar, especialmente em ambientes como estes do CCB. E se esta noite era como que um showcase da "música para uma nova tradição", aos Dead Combo ficou nitidamente atribuído o papel de enunciar que não é preciso cantar, nem tão pouco recriar ponto por ponto as frases melódicas e rítmicas da muitas músicas tradicionais portuguesas para conseguir exprimir algo que é intrinsecamente nosso. Para o final, veio A Naifa. Ao primeiro tema, o lugar de Aguardela estava ali guardado, vazio, mas poucos esperavam (nem tão pouco alguns dos elementos da própria organização) que aquele espaço viesse a ser ocupado pela... Sandra Baptista. E houve mais momentos bonitos e enternecedores na actuação d'A Naifa, como aquele em que a vocalista Maria Antónia Mendes revelou à audiência a história por trás das letras de "Uma Inocente Inclinação para o Mal", o último álbum do grupo. No disco, as letras surgem creditas a Maria Rodrigues Teixeira. Era o nome de uma avó de João Aguardela, e, afinal, era ele o verdadeiro autor das letras, sem sequer a própria banda o ter sabido na altura...

Foi uma noite muito bonita, muito bonita mesmo.

sábado, 24 de outubro de 2009

Que força é essa, amigo?

(Um pequeno aviso: quem pretende desfrutar plenamente dos concertos do Porto, na próxima semana, deve imediatamente saltar este texto, diria eu...)

Não foi o espectáculo do ano. Mas isso sou eu que o digo, forreta (e teso) que comprei bilhete para uma galeria de segunda, a onde o som chegava baixinho e disforme, os três cantos transformavam-se em quatro com ajuda do vizinho desafinado do lado ou a percussão ganhava outro tom nas palmas do vizinho de trás.

Logo à primeira canção, “Guerra e Paz”, percebe-se que o espectáculo é para ser conjugado no plural. Os três músicos cantam em coro “ainda agora aqui chegámos” em vez do “ainda agora aqui chegado” que Sérgio Godinho cantava no original e, num estilo frequente ao longo da noite, os músicos repartem a interpretação dos versos, cruzam-se nas palavras de uns e de outros sem nunca se chocarem. A camaradagem cultivada ao longo de anos está ali sobre-evidenciada e as autorias confundem-se em palco, como se não houvesse canções do Sérgio, do Zé Mário ou do Fausto, mas de todos os três. Há pequenos desvios a esta ideia, quando cada um deles fica sozinho em palco. Aí volta a ideia que fazíamos de cada um dos músicos, aí ressaltam ao ouvido as diferenças. José Mário Branco é aquele que expande musicalmente mais o seu reportório, ilustração trazida, por exemplo, no jazz ao estilo de Big Band em “Onofre”, com Carlos Bica e José Peixoto. Fausto é o melhor cantor e aquele que leva o alinhamento mais próximo da tradição música popular portuguesa, com toques beirões (fez falta poder-se dançar naquela arena maldita). Sérgio Godinho é o poeta, por excelência, entre os três, e fez terminar o seu momento a solo com uma arrepiante interpretação de “O Primeiro Dia”.

Feitas as actuações a solo, e outras a dueto, onde curiosamente numa das quais, Sérgio Godinho e José Mário Branco cantaram “Se tu Fores Ver o Mar (Rosalinda)”, do ausente Fausto (lá está, a canção ontem não era do Fausto, era de todos), voltou-se a baralhar tudo de novo. Se a banda de suporte era composta de excelência e se os arranjos eram magníficos (todo o receio que Sérgio Godinho trouxesse os seus roqueiros era infundado, felizmente), o momento em que os três músicos ficaram sozinhos com as suas guitarras acabou por ser um dos mais especiais da noite. Tirando o final (já lá vamos), terá sido o momento em que houve maior aproximação com o público. Nisto – ou na falta disto – residiu talvez um dos maiores defeitos do espectáculo, aliás. Já seria de esperar que um espectáculo deste género, apoiado numa grande produção, onde tudo precisa de ser ensaiado ao detalhe, onde quase tudo é encenado e repetido, perca depois naqueles outros aspectos que alguns de nós valorizamos mais. Faltou um pouco de improvisação, um pouco de anarquia, um pouco de mijo fora do penico, um pouco daquelas coisas que ajudam a que um espectáculo se torne verdadeiramente único e inesquecível nas memórias. Nesse sentido, e sem querer dramatizar excessivamente, “Três Cantos” é um produto moderno, como aqueles que encontramos nos supermercados, hermeticamente embalados, obedientes a todas as normas de higiene e segurança. Mas, atenção, é bom e é saudável.

Regressou a banda de suporte e surgiu a semi-surpresa (alguns já sabiam) no tributo a José Afonso, em “De Não Saber o que Me Espera”. Foi a parte mais emotiva do espectáculo, com “Ser Solidário”, “Mudam-se os Tempos…” , uma versão arrasadora de “Que Força É Essa”, o melhor momento da noite, e ainda o inesperado tema principal do filme “A Confederação”. “Inquietação” fechou de forma soberba o primeiro encore e, para o regresso, outra surpresa em palco, o momento da noite que mais contribuiu para desfazer a ideia de pouco arrojo de que falava no parágrafo anterior. Sob uma intensa tempestade debitada pelo PA, os técnicos de palco rapidamente montaram dezenas de tripés de microfone à boca do palco, para de seguida surgirem todos os músicos ali à frente, em meia-lua, para cantarem, quase sem ajuda do sistema sonoro, “Na Ponta do Cabo”. Mal se ouvia na galeria de 2ª, mas, visualmente, era um final perfeito.

Agora é esperar pela edição em CD e DVD, cuja edição se prevê, de acordo com os panfletos, daqui a apenas dois meses.


Alinhamento de “Três Cantos”:

Os três, com a banda:
1. Guerra e Paz [L e M: Sérgio Godinho; de Era Uma Vez um Rapaz, 1985]
2. Travessia do Deserto [L e M: José Mário Branco, de Ser Solidário, 1982]
3. Como um Sonho Acordado [L e M: Fausto, de Por Este Rio Acima, 1982]
José Mário Branco e Sérgio Godinho:
4. Barca dos Amantes [L: Sérgio Godinho; M: Milton Nascimento; de Coincidências, 1983]
José Mário Branco (c/Carlos Bica e José Peixoto):
5. Onofre [L e M: José Mário Branco; de Resistir é Vencer, 2004]
6. Emigrantes da Quarta Dimensão (Carta a J.C.) [L e M: José Mário Branco; de Correspondências, 1990]
José Mário Branco e Fausto:
7. Mariazinha [L e M: José Mário Branco; de Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, 1971]
Fausto:
8. Eis Aqui o Agiota [L e M: Fausto; de A Ópera Mágica do Cantor Maldito, 2003]
9. Adeus Orelhas de Abano [L e M: Fausto; de A Ópera Mágica do Cantor Maldito, 2003]
10. A Nova Brigada dos Coronéis de Lápis Azul [L e M: Fausto; de A Ópera Mágica do Cantor Maldito, 2003]
Sérgio Godinho:
11. O Velho Samurai [L e M: Sérgio Godinho; de Ligação Directa, 2006]
12. Cuidado com as Imitações [L e M: Sérgio Godinho; de Campolide, 1979]
13. O Primeiro Dia [L e M: Sérgio Godinho; de Pano-Cru, 1978]
José Mário Branco e Sérgio Godinho:
14. Se tu Fores Ver o Mar (Rosalinda) [L e M: Fausto; de “Madrugada dos Trapeiros”, 1977]
Os três:
15. Quatro Quadras Soltas [L e M: Sérgio Godinho; de “Campolide”, 1979]
Os três, mas sozinhos, sem banda:
16. Canto dos Torna-Viagem [L e M: José Mário Branco; de Resistir é Vencer, 2004]
17. A Ilha [L e M: Fausto; de Por Este Rio Acima, 1982]
18. Não Canto Porque Sonho [L: Eugénio de Andrade; M: Fausto e António Pedro Braga; de P’ró que Der e Vier, 1974]
19. O Charlatão [L: Sérgio Godinho; M: José Mário Branco; de Sobreviventes, 1971, e Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, 1971]
Os três, já com a banda de regresso:
20. De Não Saber o que me Espera [L e M: José Afonso; de Fura Fura, 1979]
21. Ser Solidário [L e M: José Mário Branco; de Ser Solidário, 1982]
22. Faz Parte (O Retorno das Audácias) [Inédita]
23. Olha o Fado [L e M: Fausto, de Por Este Rio Acima, 1982]
24. Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades [L: Luiz Vaz de Camões; M: Fausto; de Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, 1971]
25. Foi por Ela [L e M: Fausto; de Para Além das Cordilheiras, 1987]
26. Que Força É Essa [L e M: Sérgio Godinho; de Os Sobreviventes, 1971]
27. Confederação [L e M: José Mário Branco; de A Confederação, 1978]
1º encore:
28. Maré Alta [L e M: Sérgio Godinho; de Os Sobreviventes, 1971]
29. Inquietação [L e M: José Mário Branco; de Ser Solidário, 1982]
2º encore:
30. Na Ponta do Cabo [L e M: Fausto; de Crónicas da Terra Ardente, 1994]

sábado, 4 de julho de 2009

Companheiros

Soaram tão bem ao vivo os novos temas de Tinariwen, ontem, no Forte de São Filipe, no arranque da primeira edição do Arrábida World Music Festival. Em "Imidiwan Afrik Tendam", por exemplo, uma balada perfeita que remete em parte para o título do álbum, "Imidiwan", não é preciso percebermos a linguagem tamasheq em que Ibrahim Ag Alhabib reúne os "companheiros de toda a áfrica" (a tradução do título) para ali vermos uma canção de reencontros à volta de uma fogueira no meio de um oásis, por excelência o ponto de intersecção nos caminhos de tuaregues como os Tinariwen. E isto tem ainda mais piada quando acontece numa imponente fortificação militar com quase cinco séculos, parecido com muitos daqueles castelos, mais antigos, que pelo país fora marcam os outras intersecções que fomos tendo -- por motivos bélicos, é certo -- com os nossos vizinhos muçulmanos. Mas a História levou para longe esses tempos e hoje só nos podemos sentir privilegiados por partilhar reencontros como este.
O Forte de São Filipe é mesmo um dos protagonistas deste festival, que hoje continua com, entre outros, a Sun Ra Arkestra e os Heavy Trash. Parece até que foi desenhado de propósito para um evento como este (ainda que não permita que o festival cresça muito, contudo). O outro palco, por exemplo, num dos pontos mais altos do forte, de onde aliás se captura uma magnífica vista sobre toda a península, colocou literalmente o Paulo Furtado no céu. É uma visão inesquecível a do Legendary Tiger Man iluminado e recortado na noite da Arrábida.
Um festival como este merece continuar (agradece-se é que se arranje outra pessoa para desenhar as luzes do palco principal -- se não há rede suspensa, que se use luzes laterais... ainda hoje vejo sinais vermelhos quando fecho os olhos...)

domingo, 21 de junho de 2009

O guitar hero do deserto e o azeite da Síria

É bonito ver o anfiteatro da Gulbenkian quase cheio e a dançar a músicas pouco frequentes por Lisboa, interpretadas por grupos que poucos terão ouvido previamente, de uma pequena editora norte-americana cujo magnífico trabalho de pesquisa poucos conhecerão. O final da digressão europeia da Sublime Frequencies aconteceu neste fim-de-tarde de domingo, num clima de grande festa, num espaço cuja descrição fica sempre a carecer de superlativos suficientes. Tirando o Jazz em Agosto, que outros eventos tomam desta forma partido das características magníficas do anfiteatro ao ar livre e do jardim que o circunda?
O palco abriu com o Group Doueh. Duas vozes, uma masculina e uma feminina, e um teclista com programações de percussão um tanto ou quanto parolas orbitam à volta da guitarra eléctrica de Salmou "Doueh" Baamar (é, a propósito, o senhor que encabeça esta página por estes dias). Encantaram o público durante uma hora -- pena que não tenha sido mais -- com uma qualidade de som excelente, por comparação com aquilo que se encontra nos dois discos que a Sublime Frequencies lançou, incluindo o recente "Treeg Salaam". E Doueh é mesmo o guitar hero do deserto, como alguns lhe chamam, tendo aliás feito gala de imitar um dos seus "mestres", Jimi Hendrix, quando se pôs a tocar com a guitarra às costas.
Depois veio Omar "carrinhos de choque" Souleyman, acompanhado de outro teclista-programador, particularmente ágil, um saz eléctrico e um... poeta, supostamente o autor das letras que a estrela cantava, com direito a permanência, nitidamente desconfortável, em palco. Ao vivo, o grupo de Omar Souleyman fez lembrar, por vezes, aqueles grupos espanhóis com gajas boas que se ouviam em tudo o que era discoteca de nuestros hermanos nos anos 90 (uma chungaria pegada que rapidamente chegaria a nós para dar origem ao "pimba"), com as excepções de não haver gajas boas, por um lado, e de haver um saz, uma espécie de alaúde mais pequeno típico do Médio Oriente, a substituir a guitarra clássica do flamenco que aqueles grupos tinham. Fez também lembrar os grupos indianos e paquistaneses do Bhangra Pop, mas numa versão mais despida, mais pobre, mais cansativa. Foi divertido, ao princípio, mas às tantas a música de feira começou a fartar por estes lados (numa opinião que não será certamente partilhada pela boa parte do público que dançou do princípio ao fim). Se ao menos houvesse farturas na Gulbenkian... Azeite não faltou.
Para a semana há mais na Gulbenkian, no âmbito da programação "Próximo Futuro", com a fusão afro-britânica de A.J. Holmes, no sábado (21h30), e os tangos dos argentinos Dema y su Orquesta Petitera, no domingo (19h).

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Records catalans

Aproveito para partilhar alguns dos momentos vividos ao longo de um fim-de-semana com tanto de inesquecível quanto de cansativo:

U. Os dez melhores concertos, por ordem de preferência: Neil Young, Shellac, My Bloody Valentine, Jason Lyttle, Liars, Black Lips, The Jesus Lizard, Spectrum, Sonic Youth, The Vaselines.

Dos. Neil Young curto demais. Houve vários pontos de contacto com o concerto em Lisboa, no ano passado. Das canções mais conhecidas, não houve (e foi uma pena) o "Words" e várias outras, mas houve "Cinnamon Girl", "Down by the River", "Mansion on the Hill" e, a única nova, "Get Behind the Wheel". Mas do que mais se notou a falta, e daí também o concerto ter sido relativamente curto face ao que se esperava, foi dos temas longos, daqueles em que Young abraça a guitarra, explora a distorção, procura o feedback, sem pressa de terminar a relação de amor com as seis cordas. Alinhamento: Mansion on the Hill, Hey Hey My My, Are you Ready for the Country, Everybody Knows this is Nowhere, Pocahontas, Spirit Road, Cortez the Killer, Cinnamon Girl, Oh Mother Earth (Natural Anthem), Needle and the Damage Done, Unknown Legend, Heart of Gold, Old Man, Down by the River, Get Behind the Wheel, Rockin' in the Free World, A Day in the Life (encore).

Tres. A maior desilusão do festival? Sonic Youth. Foi, em matéria de pesos e medidas, um bom espectáculo. Ouvir o "Brother James", o "Hei Joni" ou o "Tom Violence", só para citar algumas das mais antigas, num mesmo concerto, é coisa pela qual um tipo se deve sentir privilegiado. Mas, e é um grande "mas", estando-se num festival em que metade do cartaz deve a sua existência aos Sonic Youth e usa mesmo o palco, como filhos de peixe que sabem nadar, para desafiar algumas das convenções que estes vieram a derrubar ao longo dos anos é, no mínimo, decepcionante ver os progenitores, para mais elevados a cabeças-de-cartaz principais, pouco capazes de arriscar fosse o que fosse (uma ausência total de coragem se nos lembrarmos da actuação dos My Bloody Valentine, por exemplo) ou de mostrarem algo mais do que aquele ar de tédio com que enfrentaram o palco (parecia até haver algum desconforto entre os elementos do grupo, quem sabe sintoma do regresso a uma editora independente). Foi tudo tão diferente quando, há oito anos, os vi nesta mesma Barcelona, a apresentarem o projecto "Goodbye 20th Century". Agora, no Primavera, foram apenas mais uma banda... como as outras, com um bom concerto... como os outros. Alinhamento (com * os temas do novo álbum, "The Eternal"): Brother James, Sacred Trickster*, Hey Joni, No Way*, Calming The Snake*, Antenna*, The Sprawl, Cross The Breeze, Anti-Orgasm*, Leaky Lifeboat*, What We Know*, Tom Violence, Pink Steam, Bull In The Heather (encore), Expressway To Yr Skull (encore).

Quatre. Steve Albini é Deus. Pouco depois de Jarvis Cocker, a quem Albini produziu o mais recente álbum, acabar no palco principal, voltou com os seus parceiros Bob Weston e Todd Trainer ao palco ATP, para ali produzir um dos maiores estrondos do festival. Som perfeito, coisa pouco frequente neste palco (pior ainda era o RockDeluxe, já agora), experiência e técnica a rodos entre os três, permitindo um entrosamento magnífico como banda, coisa também nem sempre frequente em muitas das outras bandas, especialmente as deste palco, e um alinhamento magnífico (fez falta o "Prayer to God"). Grande final com "The End of Radio", uma de várias que foram buscar ao último álbum, numa performance apoteótica, onde nem sequer a bateria, que foi desmontada peça a peça por Albini e Weston, sobrou. Memorável. Só por isto já teria valido a pena este Primavera.

Cinc. Os tampões para My Bloody Valentine. À entrada, nos dois primeiros dias, respectivamente os dos concertos dos irlandeses no palco principal e no auditório, a organização distribuía aos participantes tampões para os ouvidos. É que -- e eu só vi o concerto do palco principal -- o volume e o ruído que ali se produziram desafiou tudo o que até hoje já se viu, perdão ouviu, à frente de um palco. Não espanta que haja quem fique com a audição reduzida depois destes concertos de regresso da banda de Kevin Shields (a começar pelo próprio). A demonstração de maior coragem, tanto por parte da banda como do público, veio com "You Made Me Realise", com que os MBV têm encerrado estes concertos, onde no meio surgem quase vinte minutos de ruído intenso, só eventualmente comparável ao que se ouvirá no interior de um reactor de um avião ou pairando por entre nuvens em permanente colisão.

Sis. Outros concertos, outros barulhos. Houve outros momentos dignos de nota. Os Spectrum a tocarem Mudhoney; O stage diving de David Yow, dos Jesus Lizard, que apareceram em grande forma, mesmo passados todos estes anos; A simpatia dos Vaselines; A estranheza de ver Lightning Bolt num palco e com som baixo, o que foi uma pena, o que também afectou os Sunn O))); A presença em palco de Jarvis Cocker, que bastou para agarrar o público mesmo antes de cantar fosse o que fosse (nota curiosa - a dada altura, Cocker dirigiu-se ao público em castelhano macarrónico, que depois traduziu para "my hovercraft is full of eels", do célebre "Dirty Hungarian Phrasebook" dos Monty Python, sendo que pouco depois Bob Weston, baixista dos Shellac, repetiria a piada no palco ATP; A pop country do Jason Lyttle, que ainda tocou vários temas dos Grandaddy; a irreverência ié-ié dos Black Lips no final do festival, os quais ainda cheguei a ver num pequeno e surpreendente set acústico na tenda da Ray Ban; A bebedeira dos dois putos dos Wavves, que levou a que o concerto se tornasse, possivelmente, no mais caótico do festival; O nervosismo dos chineses Carsick Cars, que possivelmente nem tinham idade para entrar no festival sem ser acompanhados por adultos; O enorme colectivo -- parecia quase uma banda de afrobeat, de tantos que eram -- que acompanhava o Dan Deacon, outro espectáculo que ameaçou o caos, quando o músico fazia birra para que o público fizesse o círculo de dança; etc.
Não foi fácil conseguir ver-se tudo o que se queria, num festival como estes. Alguns tiveram que ficar de fora (Gang Gang Dance é o caso que mais me custou), outros foram apanhados a meio e/ou abandonados antes do final. Só não houve silêncio. Mesmo nos poucos momentos em que não havia ninguém a tocar nos palcos mais cercanos, era o barulho, curioso por sinal, dos copos de plástico a serem pisados e chutados por quem caminhava pelos acessos. E as conversas dos espanhóis.

Set. ¿Por qué no te callas? No público, ninguém conseguia comunicar, a não ser por gestos, durante o final do concerto dos My Bloody Valentine. Ninguém? Bom, talvez os espanhóis conseguissem. Como todos sabemos desde há muitos anos, o desporto favorito dos nossos vizinhos é falar, falar, falar, falar, falar o mais alto possível, do erguer ao deitar. É impressionante como, às cinco da manhã, no interior das carruagens de metro ou dos autocarros de Barcelona, se continua a ouvir a mesma cacofonia que já se ouvia durante o dia. A estas horas, qualquer português vai cansado, calado, mono, a dormir até. Mas em toda a Espanha escuta-se sempre o mesmo matraquear, seja que horas forem. Ora, nos concertos, especialmente aqueles em que o som é mais baixo ou nas periferias da plateia, nos outros, é impossível ignorar o adstrato sonoro produzido por estes grupos de espanhóis, que só param de falar no intervalo dos temas, para levantarem os braços e aplaudirem algo que não estiveram a escutar antes. É tão cómico que quase nos faz esquecer não nos terem deixado ouvir a música.

Vuit. O Forum cheira mal. A zona do Forum, junto ao mar que banha Barcelona, é um espaço cuja dimensão e configuração oferecem características ideais para se organizar um festival como este. Mas fede que se farta. Não é o mau cheiro típico de Barcelona. É um pivete proveniente ora de descargas de dejectos químicos, ora de esgotos, que se torna insuportável por vezes.

Nou. Primavera Marcas. Apesar de vocacionado para os públicos afectos a círculos mais independentes na música -- ou talvez mesmo por causa disso... -- o Primavera não deixa de ser um palco enorme para as duas principais marcas do festival, a da cerveja e a dos óculos escuros. A primeira é das piores bebidas que a Catalunha tem para oferecer (até a San Miguel sabe a cerveja por comparação). E se aquela andava nas mãos do público, a segunda outra marca omnipresente tinha o seu público nas mãos. Em cada um destes três dias, parecia que estávamos não num festival de rock, mas numa qualquer concentração ibérica de wayfarers...

Deu. Me duelen las rodillas, tio. Aguentar três dias de um festival como estes até ao fim é pôr à prova o corpo, principalmente dos joelhos para baixo. Percorrem-se quilómetros de palco em palco, da banca de cerveja às casas-de-banho, sem contar com as as caminhadas sempre obrigatórias pelas ruas de Barcelona. E, ao cansaço físico, junta-se o intelectual. Obrigamos o cérebro a mudar rapidamente de um Jason Lyttle, por exemplo, para uns Sunn O))) ou de um Jarvis Cocker para uns Shellac. Não é fácil, mas o esforço é recompensador e a vontade de voltar é algo que surge assim que os primeiros sinais de cansaço se dissipam.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Afro tuga beat, o rescaldo

Dele Sosimi, antigo elemento dos Egypt 80, a última banda de suporte de Fela Kuti, e hoje instigador do afro beat em Londres (e não só: esteve pela Póvoa de Varzim no ano passado e volta em breve, para o FMM Sines) costuma dizer que não há razão nenhuma para que a sua música, nascida em Lagos, na Nigéria, nos anos 70, não seja tocada por gente de quaisquer outras raças, quaisquer outras nacionalidades. Num mundo que todos os dias derruba fronteiras, por vezes até demais, quando compromete o trabalho honesto de agricultores e outros produtores locais, a música continua, ainda assim, a ser um mapa com cores diversas. Há quem ainda fale em música negra, por exemplo... Esta noite, o concerto no MusicBox dos denominados Kota Cool, uma reunião de músicos dos Terrakota, Cool Hipnoise e Cacique '97, foi uma evidência magnânime da tese de Sosimi. Brancos e mulatos, portugueses na sua maioria, tocaram, como se lhes estivesse no sangue, temas de Fela Kuti, do filho Femi, "originais" dos Cacique, e até foram, já em encore, a uma magnífica rumba senegalesa e, depois, a um funk que rapidamente derivou para um soukous acelerado (uma espécie de rumba do antigo Zaire, mas com a velocidade a puxar mais para as pistas de dança contemporâneas). E com um groove daqueles que faz mente e corpo dançarem abraçados toda a noite (diga-se a propósito que o baixista é o Francisco Rebelo, dos Cool Hipnoise).
A festa repete-se todas as segundas quintas-feiras de cada mês. Não há como perder isto.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O homem do espectáculo

Foi um bom espectáculo, antecipo já a conclusão, mas... há uma pedra no sapato que teima em não sair nesta espécie de passeio selectivo pela obra de David Byrne. Vejamos: há, e creio que será, mais do que uma opinião, uma constatação unânime, vários tipos de David Byrnes. Entre eles, o David "new wave" Byrne, o David "Luaka" Byrne, o David "renascentista" Byrne, o David "realizador de bandas sonoras" Byrne, o David "cool showman" Byrne (e paremos por aqui, não porque o génio não tenha mais facetas, mas porque já ficou demonstrado o exemplo). Se a primeira persona já está há muito desaparecida, não queria que o espectáculo desta noite fosse tomado, quase por inteiro, pela última. Afinal de contas e apesar de ter acompanhado a preparação do espectáculo quase diariamente, através do seu blogue, ainda cheguei a alimentar inconscientemente a esperança de que tudo fosse mais do que um alinhamento perfeito de coreografias, de marcações de palco, de deixas visuais para a mudança no ritmo das músicas, enfim, de um espartilho cheio de atilhos que pouco ou nada tem a ver com o que espero de um concerto de rock. A coreografia dos dançarinos não era chocante, nada disso, ainda que me tenha passado pela cabeça que o Tony Carreira também deverá usar bailarinos nos seus mega-espectáculos (se não usa, devia, que o público gosta sempre de todo o tipo de fogo-de-vista em palco). Esperava era mais David Byrnes em palco, portanto, o que até veio a acontecer, não tanto quanto desejaria, nos sucessivos encores, que fizeram a melhor parte da noite, coroada pelo sublime "Everything That Happens". Como espectáculo, foi bom, volto a repetir, e sublinho a palavra espectáculo, porque não há outra para descrever estas duas horas de música e dança, mas é uma noite que será coberta pelo manto do esquecimento mais cedo do que outras, aposto. Espectáculos há muitos. Para que fiquem na memória, precisam de ser mais do que um espectáculo.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Eram já imensas as saudades....

...de ver Mão Morta no registo que ontem trouxeram ao São Jorge, em mais uma etapa da Ventos Animais Tour. Saudades de estar no meio de uma plateia a ouvir e a sentir E se Depois, Oub'Lá, Quero Morder-te as Mãos, Barcelona, Lisboa, Charles Manson, Anarquista Duval, Velocidade Escaldante... E tantas, tantas outras, em quase duas horas de suor deixado em palco (e na camisa do Adolfo), com direito até a segundo encore não previsto, de tão especial que foi a noite. Escutou-se o Bófia. Sim, até o Bófia foi tocado, como dedicatória especial à Joana, que ontem fazia anos. E Ventos Animais, que dá nome à digressão e que, por isso mesmo, abriu a noite, e que faz parte do lote das canções dilectas de quem escreve isto. E o gajo que escreve isto, a propósito, reconciliou-se definitivamente, tantos anos passados, com o Budapeste.
Por mais canções que aqui citasse e apesar dos vinte e cinco anos que os Mão Morta vão celebrar em Novembro, o que eles fazem de um concerto não se resume a um mero alinhamento, uma enumeração de hits, como frequentemente vemos nos dinossauros do rock'n'roll. Em abono da verdade, até pode ser que isso aconteça por vezes. Mas não foi assim ontem. É perigoso falar pelos outros, mas aposto que para muitas das caras habituais que ontem marcaram presença no São Jorge, como o Bruno, que chegou ao 60º concerto, este não foi "mais um". O de ontem não foi, acreditem.
Tivesse sido em pé e teria havido mortos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Aula Magwai

Primeiro, umas palavras de apreço por alguém de quem raramente se fala, a não ser para falar mal. O técnico de som de sala dos Mogwai. Génio das leis acústicas que descobriu a forma de pôr este grupo de rapazes com vontade inata de fazer barulho a soarem da melhor maneira possível naquela sala. Asseguro-vos que da centena de concertos que levo no bucho na Aula Magna, não me consigo lembrar de algo assim. Perfeição no equilíbrio harmónico, distinguindo-se claramente o que fazia cada uma das três guitarras, ora limpas, ora distorcidas. De génio, mesmo. Já da mesma sorte não se podem gabar os Errors, a banda de miúdos que anda a fazer as primeiras partes nesta digressão. Descendentes dos Mogwai, que não enjeitam uns riffs de guitarra à Franz Ferdinand (tudo em casa) ou uns teclados à Electrelane. Simpáticos, mas francamente aborrecidos.
Os Mogwai, com aquele som, pareciam o Cristiano Ronaldo a enfrentar a defesa do Paços de Ferreira (nota para os menos dados à bola: defesa mais batida da liga). Tudo ao dispor para mostrarem o que realmente valem. Até os temas mais recentes -- quem goste dos últimos álbuns, passe à frente -- tem outra força ao vivo. Mas, claro, é nos antigos, como "Mogwai Fear Satan", que a sala quase vai baixo. Os Sonic Youth inventaram o famoso "hurricane", mas os Mogwai deixam para a posteridade -- e para um largo exército de bandas copistas, espalhadas por todo o mundo -- estas magníficas texturas a três guitarras que, volta e meia, e por vezes sem aviso, redundam em estrondosas descargas sonoras. Estrondosas, mas harmónicas, e daí que tenha começado por referir-me ao técnico de som. Seria muito fácil deixar que as texturas dos Mogwai resultassem em cacofonia fútil. Mas não foi assim, e este foi um dos melhores concertos dos escoceses pela nossa terra, só rivalizando porventura com o do Paradise Garage.
(Não posso terminar, sem deixar uma nota final para a dedicatória que Stuart Braithwaite deixou a Lux Interior, no último tema antes do encore. A mesma que se deve ter ouvido um pouco por todo os palcos do mundo, esta noite. Pelo menos, gosto de pensar que assim tenha sido.)

(E, obrigado, Tadeu, pela setlist!)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Ontem

Pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá falta o ar falta o ar pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá oxigénio oxigénio pá pum pá pá pum pá pá pum pá pá pum pá!

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A banda de Efrim Menuck já não é uma orquestra, é uma redução

Confesso que, na expectativa que levava para este espectáculo, transportava a memória saudável do tempo dos godspeed you black emperor! ou, para não ser tão injusto na comparação, a dos primeiros álbuns da banda de Efrim Menuck, que também conhece nomes como The Silver Mt. Zion Memorial Orchestra e afins. Mas, convenhamos que o que ontem subiu ao palco da ZDB (subir é a palavra, a propósito; finalmente, um estrado alto que permite ver a banda de qualquer ponto da plateia) não foi mais do que uma amostra em formato demasiado reduzido da banda de Efrim Menuck. A começar pela própria formação. A acompanhá-lo, apenas as violinistas Sophie Trudeau e Jessica Moss, o (contra)baixista Thierry Amar e o baterista Eric Craven. Sejamos justos e deixemos a memória dos godspeed para trás, para dizer que, porém, já mesmo num contexto silvermountziano, isto soube a pouco. Na redução dos arranjos, perde-se a opulência harmónica, essencial para a sustentação dos edifícios sónicos criados pela banda de Efrim Menuck nos primeiros álbuns. Perde-se também o magnífico efeito dos jogos de vozes, característica essencial no contexto pós-godspeed, restando ontem apenas algum sucesso em "1,000,000 Died to Make This Sound", à custa da repetição, técnica que se tornou aliás via fácil, de forma mais geral, para a banda de Efrim Menuck suportar as baterias de lamentos deste. E, já que se fala nisso, fica-se mesmo com a impressão de que todo o espectáculo se reduz ao lamento de Efrim. Além de soar sempre ao mesmo (excepto nas vezes em que desafina), é acompanhado quase sempre da mesma forma e é transversal a todo o alinhamento.
Enfim, as expectativas eram exageradas, que é como dizer que o monte de Sião pariu um rato ou que a banda de Efrim Menuck não é menos aborrecida do que os exércitos de imitadores que seguiram as suas pisadas ao longo dos últimos anos. Não que tenha sido propriamente uma má noite. Mas a sensação que ficou não anda muito longe daquela do espectador de futebol que vê a equipa ganhar os três pontos numa maçada de jogo...
Nota positiva para o humor de Efrim, que, apesar de já ser evidente, ainda que de forma discreta, até mesmo no tempo dos godspeed, não era algo que se esperasse nesta forma directa, em palco, com intervenções sempre a propósito nas pausas entre os temas. Ao início, apresentou-se como Sting e disse que "13 Blues..." era sobre uma rapariga chamada Roxanne. No final, depois do "nooooo" do público a "this is goin' to be our last song", saiu-se com um "but it'll be looooong!". Quem sabe brincar consigo próprio não é má pessoa.
Alinhamento:
13 Blues for Thirteen Moon
1,000,000 Died to Make This Sound
God Bless Our Dead Marines
Take These Hands And Throw Them In A River
There's a Light
Microphones in the Trees (encore)