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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Em 2015 e ainda falamos em Músicas do Mundo? Siga!

Não é todos os dias que temos a música a ser discutida nas páginas de jornais de distribuição alargada por gente com autoridade como António Pinto Ribeiro, que ontem assinava um texto de opinião no jornal Público intitulado "Músicas do mundo ou músicas de fora da Europa?". Pinto Ribeiro foi diretor do excelente Próximo Futuro, um programa de música ao vivo da Gulbenkian, fundação na qual agora assume um papel mais abrangente, com a coordenação do Museu, do CAM e do Serviço de Música. Sabe do que fala e o texto tem que ser lido por todos os que se interessam pelas mais dversas facetas da produção musical numa perspetiva globalizada.

Mas, como todos os bons textos, merece também ser discutido.

Como ponto de partida, será que a discussão em torno da utilização do termo "world music" ou "músicas do mundo" é hoje tão pertinente quanto o era em 1999, ano em que David Byrne publicou no New York Times o famoso texto "I Hate World Music", citado por Pinto Ribeiro? Não é verdade que então se usava muito mais vezes o termo para se dividir águas e subalternizar algumas músicas em relação a outras, tivesse esta separação lugar nos escaparates das lojas de discos, nas playlists das rádios ou na produção de concertos e festivais? Em Portugal, isso era claro: as músicas "normais" de um lado, para as pessoas com gostos normais, e as músicas do mundo, do outro. Para as pessoas com gostos estranhos. Talvez sofisticados, mas estranhos.

Todavia, em quinze ou mais anos, o panorama mudou muito. Talvez por causa de um fenómeno mais alargado de globalização cultural, talvez por causa de feiras como a Womex, talvez por causa dos Rough Guides da World Music Network (Nome profano! E o site? worldmusic.net? Para a fogueira com eles!), talvez por causa da união dos agentes, das editoras e, claro, dos artistas, em torno de um mercado e até de uma marca conveniente designados por "músicas do mundo", foi possível que fossem realizados cada vez mais concertos, festivais e digressões que têm trazido ao Ocidente músicos com passaportes que outrora não se viam nestas andanças. O circuito cresceu tanto que transbordou para outros espaços mais generalistas. Tornou-se comum ver Caetano Veloso, Tinariwen ou Amadou & Mariam a fazerem parte de cartazes de festivais de rock. O circuito tornou-se tão visível e tão apetecível que o inverso também se sucedeu: tornou-se comum ver as linguagens ocidentais nos festivais que antes eram só das tais músicas do mundo, nos catálogos que antes eram só das tais músicas do mundo. Há uma mão invisível a mexer o caldeirão. Ainda alguém sente a mesma necessidade da distinção das músicas do mundo?

Essas tais músicas do mundo cresceram, transbordaram e misturaram-se.

O próprio Byrne admite a mudança, ainda que deixando um pé atrás. Em entrevista recente à Wired, e a propósito do texto de 1999, dizia: "As coisas mudaram? Um pouco. Podemos ver a Rolling Stone ou talvez até a Pitchfork fazerem crítica ao novo disco do Caetano ou um do Lenine ou qualquer outro artista brasileiro, mas para a quantidade de criatividade que existe no mundo, somos muito localistas". Nota: já não é o termo "world music" que lhe faz confusão (e nunca terá sido uma questão assim tão semântica, convenhamos), mas sim o enviesamento "localista" que a generalidade dos ouvintes de música tem, e que o próprio admite que também se verifica do outro lado: "Eu mantenho o meu desprezo pelo termo -- significa que há um 'nós' e depois toda a gente restante. Mas, claro, pessoas de outras em outros países sentem da mesma maneira -- na Índia, és capaz de encontrar quiosques de cassettes em que 98% do material consiste nas últimas bandas sonoras de Bollywood, havendo talvez depois uma pequena secção 'internacional' com, na altura em que vi, Madonna e George Michael. A nossa xenofobia é um pouco mais pesada, contudo."

A questão da autenticidade, cara a Byrne no texto de 1999 e também agora citada por Pinto Ribeiro, está cada vez mais ultrapassada. São cada vez mais seguidas com atenção pública as experiências de fusão entre linguagens ocidentais e as mil e uma outras que antes iam parar ao escaparate único das músicas do mundo. Todos os dias, há uma ÁFrica diferente a contaminar, no bom sentido, a escrita de música de um grupo de rock nos EUA, em Londres ou nos arredores de Lisboa. Já ninguém se preocupa com a autenticidade do kuduro e os músicos angolanos andam em digressões por esse mundo fora, pisando palcos além da lusofonia.

Pinto Ribeiro traz ainda à colação outra preocupação legítima que merece alguma reflexão:
"[Os compositores não ocidentais] são remetidos para um género musical ao qual se retirou a história. E atente-se ainda como além de se retirar a história dessas músicas, retira-se também o contexto de onde as mesmas surgem e uma parte substantiva da sua comunicabilidade quando são cantadas. (...) Nesta forma de tratar com igual valor todas as músicas do mundo, fica-se também privado da dimensão política das canções, do simbolismo de muitas dessas composições e também da relação de entendimento de classes, conforme as origens regionais destas músicas."
Não há como negar isto. É a mais pura verdade, mesmo que haja muito boa gente que se ocupe a lutar contra isso, escrevendo, divulgando, programando. Mas isto leva a que se faça outra pergunta. Será que esta ausência de metainformação é exclusivo destas tais músicas do mundo? Quando vamos a um festival de jazz -- olhem, outro circuito que cresceu, transbordou e misturou-se -- quantos de nós sabemos o contexto histórico, político e social em que foram gerados os projetos americanos ou norugueses, recentes ou com décadas de existência, que ali vemos? Será que a maioria das pessoas que vai ver Patti Smith no próximo mês conhece Robert Mapplethorpe e a relevância que este teve no seu repertório musical e lírico? Em boa verdade, e esta questão é absoluta e inapelavelmente derradeira, entre todo o público do rock, quantos conhecem os Velvet Underground?

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Pop already ate itself

Em 1982, abriam guerra às guerras da Irlanda do Norte ao Chile, em nome da paz.
Em 1984, lembravam heróis passados e presentes das lutas pela integração racial no mundo.
Em 1984, alertavam o mundo para a fome em África.
Em 1986, tornavam-se uma das vozes mais importantes da Amnistia Internacional.
Em 1992, aliavam-se à Greenpeace pelo ambiente.
Em 1994, ridicularizavam os líderes mundiais que permitiam e fomentavam a guerra da Bósnia.
Em 1997, caricaturavam o peso emergente de referências capitalistas e consumistas na cultura popular.
Em 2000, ele aliava-se à campanha pelo perdão da dívida dos países do Terceiro Mundo.
Em 2001, lembravam Aung San Suu Kyi, Nobel da Paz e prisioneira política birmanesa até há pouco tempo.
Em 2002, ele fez campanha contra a SIDA em África.
Em 2005, estiveram em campanhas para ajudar as vítimas do furacão Katrina.
Em 2006, ele entrou na luta financeira contra a pobreza.

Em 2014? Em 2014, ajudam a vender telemóveis e afins para as classes média e alta.

Mas é mais do que isso.

Desde que se começou a discutir o declínio da indústria discográfica, mantenho a opinião de que o principal fator subjacente à crise nas vendas não é a pirataria, ainda que esta seja obviamente determinante. É a alteração dos hábitos de consumo, ou melhor, o surgimento e a intensa diversificação de novas necessidades junto da população mais jovem, aquela que antes sustentava a indústria.

Roupas caras, computadores e jogos, viagens de turismo, intercâmbios estudantis, concertos e festivais para todos os gostos, maior oferta na noite, e, claro, os telemóveis, dos equipamentos aos planos mensais de preços, para este e para aquele serviço.

Muitos destes "novos" bens e serviços tornam-se necessidade e ganham até a maior quota-parte do seu preço final através do ato publicitário, por mais que qualquer profissional de marketing nos venha dizer que a necessidade já lá estava à espera de ser acordada. E que seja, então, porque a conclusão não é radicalmente diferente.

Mais, muitos destes "novos" bens e serviços são eles próprios o suporte privilegiado para a afirmação da pirataria. Como se houvesse aqui um duplo ataque ao velho paradigma da indústria discográfica: tomam o lugar da música no orçamento mensal e ainda permitem que se partilhe e oiça música sem que os antigos agentes do negócio, incluindo os próprios autores, sejam daí remunerados.

E quem tem ajudado a vender estes bens e serviços, quem tem ajudado a diversificar o destino dos orçamentos (cada vez mais magros nesta altura de crise geral) dos jovens? A própria música.

A novidade é que já não são pequenas bandas, daquelas que precisam de exposição e dinheiro para o arranque, como quando os Dandy Warhols plagiavam os Specials nos anos 90 num dos maiores sucessos mundiais da publicidade. Agora é uma das maiores bandas de sempre, aquela para quem aliás parece ter sido cunhada a expressão "a maior banda do mundo", aquela que era conhecida pelos seus atos de filantropia e de ativismo social e político.

No reino das metáforas, o novo álbum dos U2 é a pedra da lápide que faltava.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Kill the Boy

A páginas tantas da saga "Songs of Ice and Fire", de George R.R. Martin, levada à televisão na série "Game of Thrones", uma das personagens, um miúdo recém-nomeado comandante de um corpo militar (poupo nos detalhes para não estragar a leitura de quem venha a fazê-lo), revela um pensamento persistente: "Kill the boy". Mais à frente, percebemos a expressão por intermédio de outras que lhe sucedem: "Kill the boy. It takes a man to rule. Kill the boy and let the man be born."

Sem pretender atalhar foice em searas da psicologia ou da antropologia para as quais não me formei, julgo que era assim (e ainda é, em grande medida) que os homens e mulheres fechavam fronteiras entre as etapas de crescimento. A realidade de hoje, porém, é muito mais complexa. Somos, muitos de nós, aquilo que entretanto os sociólogos e marketeers passaram a designar por "kidults", adultos a meio caminho entre a infância ou a adolescência e a idade adulta, ou até mesmo adultos já avançados na idade, que se divertem como crianças, que guardam interesses ainda do tempo em que eram as maiores dúvidas eram se a Cristina da carteira da frente ia dizer que sim ou para que servia o teorema de Pitágoras. E isto sem deixarem de ser responsáveis como se quer que um adulto seja.

Não sei que razões costumam ser apontadas para que este fenómeno tenha surgido nas últimas décadas nas sociedades modernas. Mas suspeito que o rock, nos cinquenta ou sessenta anos que leva, bem como outras indústrias culturais massivas das sociedades ocidentais, desempenhem aqui um papel muito forte. Há, pelo menos, uma clivagem notória entre quem, já em idade adulta, opta, consciente ou inconscientemente, por manter tais laços com os interesses da juventude e aqueles que rompem, aqueles que "matam a criança", como no caso da saga acima citada, porque os contextos sociais, culturais ou económicos assim o determinam. Todos encontramos essa experiência no dia-a-dia, principalmente no local mais óbvio em que nos encontramos com outros adultos da nossa idade, o local de trabalho. Há quem nos olhe de esguelha, há quem nos olhe com alguma ponta de inveja (haverá mesmo ou estarei a ser demasiado otimista?), há quem desde logo sinta cumplicidade mútua connosco. Não espanta que sejam, muitas das vezes, as primeiras amizades que fazemos no sítio em que nos damos com outras pessoas que não escolhemos.

Poderá também ser um motor de desigualdades sociais, seguramente. Um grupo de pessoas move-se no tecido social com uma mundividência que pode ser bastante diferente da do outro, e não são tão pouco frequentes os episódios de arrogância e sobranceria de parte a parte. A nível pessoal, a opção poderá também trazer inconvenientes: o sentido de responsabilidade pode lá estar, mas a falta de tino, para usar uma palavra boa, é mais frequente no caso dos "kidults". Mas é provavelmente essa "falta de tino" que torna mais colorida a vida desta pessoas, o suficiente para que cada um assim justifique as suas escolhas face aos outros que levam a vida normal. É que, seja isto um ato de sobranceria ou não, julgo que, por vezes, se sobrevaloriza a normalidade.
Vá, deixem a criança viver, se isso vos fizer mais felizes. A mim, faz. Não me olhem é de esguelha, vocês os outros, que eu chamo a turma lá da rua.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Os One Direction e o velho negócio

Já toda a gente sabe que os One Direction vêm novamente a Portugal, desta vez para um mega-espetáculo no Estádio do Dragão, depois de recentemente terem esgotado num ápice o Pavilhão Atlântico. Bem sei que forço a semântica nesta última frase um pouco para além do que é aconselhável: eles não vêm, eles virão, já que o concerto será apenas em julho do próximo ano; da mesma generosidade gramatical beneficia a associação direta desta vinda à última manifestação do fenómeno, ainda fresca nas notícias de espetáculo deste país e implícita na expressão "depois de recentemente". São, se calhar, percalços de linguagem em que ninguém repara, mas talvez seja interessante perdermos algum tempo a divagar sobre o assunto, que vai além da linguagem.

Até aqui há alguns anos, quando o mundo da pop era feito de artistas que conseguiam chegar ao topo e aí manter-se por longos períodos de tempo, mesmo quando a chama criativa, se é que alguma vez tivesse existido, se reduzia apenas à edição de coletâneas de sucessos e de reedições do catálogo passado, o modelo de negócio das editoras (e do meio em geral, ainda que aqui as editoras tivessem um destaque óbvio) passava por apostar nestes artistas enquanto jovens, com contratos frequentemente exploratórios (não sou eu que o digo, mas os artistas de sucesso de então, nas biografias e nos comentários que hoje vão fazendo aos tempos "antigos"). Em termos muito básicos, as editoras avançavam aos artistas quantias mais ou menos chorudas ao início, por conta de royalties e outros direitos futuros, e os artistas comprometiam-se a gravar mais dois ou três álbuns, se a editora exercesse o direito de opção. Alguns destes artistas, os que conseguiam chegar ao coração do grande público, garantiam a sustentabilidade financeira do negócio, permitindo que a editora continuasse a apostar noutros, mesmo que estes outros não viessem a conseguir subir ao topo. Basicamente, o sucesso de uns financiava o risco corrido com outros.

Mas, como tantas outras coisas que mudaram neste negócio, também estas longas carreiras de sucesso parecem ser história do passado. Frequentemente se ouve ou lê que já não é hoje possível manter aquele modelo de negócio. A "next-big-thing" ganhou definitivamente destaque na atenção dos media, do grande público, dos promotores de espetáculos, dos gestores das editoras, mas já não consegue vir a ser a tal "big-thing", pelo menos na medida e na duração de tempo em que outras foram no passado. Agora estamos mais na era do "sabor da semana", não é assim?

Voltemos ao concerto dos One Direction. A haver por parte da máquina que tem a ganhar com a boy band inglesa uma estratégia implícita na promoção do espetáculo com tamanha antecedência, talvez seja a de conseguir prolongar mais o tempo de vida do grupo, de fazer sentir junto do público que eles vão estar cá mais tempo do que tem sido habitual, particularmente neste tipo de música para a miudagem (ou, para usar de maior rigor, neste tipo de música que começa pela miudagem, como tanto artista da pop começou no passado). Mais, a corrida aos bilhetes do próximo dia 28 (vão esgotar em minutos, vão ver), vai garantir que o próprio público fica "agarrado" aos One Direction por quase mais um ano. E se a máquina conseguir fazer disto sistema, os One Direction (e outros) vão continuar nas notícias e vão ter menos motivos para terminarem a carreira, como tem acontecido a tantos outros. Talvez o público envelheça com eles. A coisa até pode vir a funcionar como funcionou no passado. Ou não, mas a máquina tentou.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O futuro próximo de Lisboa, nos concertos e em tudo o resto

Hoje, uma espécie de conversa de rede social, a propósito das lojas de discos (ainda a respeito do roteiro das lojas de discos para turistas que nos visitam) fez-me lembrar uma outra conversa, esta ao vivo, com um gerente de um bar bem conhecido de Lisboa, tida numa noite em que éramos os únicos portugueses no bar que, àquela hora, se encontrava cheio de ingleses. Ele acredita que está a acontecer a Lisboa, ou melhor, ao centro de Lisboa, o mesmo que encontramos noutras cidades estrangeiras com grande afluxo turístico. Lembrou-se da experiência que tinha tido no centro de Roma. Pensando que iria encontrar in loco a loucura noturna dos italianos, ficou surpreendido por encontrar todos os bares cheios exclusivamente (ou quase) de... turistas estrangeiros. Roma, a cidade aberta, faz-se pelos que a visitam, não pelos que nela vivem. Pelo menos, no centro.

Talvez seja esse o próximo destino para o centro de Lisboa. Já se começa a ver hoje. Bares, salas de concertos, discotecas, lojas de discos, seja o que for, andam cada vez mais cheias de... turistas. O público de festivais urbanos, como o Alive, é cada vez mais composto por... turistas. Os restaurantes do centro estão todos os dias esgotados pelos... turistas. Os donos das lojas de discos vão comentando que aquilo que os safa é o que vendem a... turistas. Chega quase a ser difícil ouvir português nas ruas do Bairro Alto. Cada vez mais se vê reclames das lojas e outras iniciativas comerciais em inglês.

É mau? Não necessariamente. Não há, nestas palavras, uma ponta de xenofobia que seja. Lisboa abre-se e recebe os que vêm de fora, fazendo-os sentir em casa. Só por mesquinhez poderíamos colocar esta ideia em causa. Mas... quando nós, os que aqui vivemos com os nossos rendimentos mais baixos, não formos capazes de acompanhar a subida dos custos, que poderemos vir a fazer? Buscar alternativas. Por enquanto, aproveitemos este boom de bares, de salas de concerto, de festivais. Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Bilhetes caros, salas cheias e a crise

Ontem, um amigo perguntava-se como é que, no nosso país e no atual contexto económico que vivemos, podia haver bilhetes tão caros para um concerto como o dos Bon Jovi (59 a 295 euros.) Mais ainda, não será coisa inédita que, apesar dos preços, a lotação esgote (ainda que, especificamente, pouco ou nada saiba sobre o estado de vendas para o concerto desta noite).

É frequente fazermos este tipo de perguntas. Eu próprio aqui a faço, frequentemente. Sabemos da crise, sabemos das dificuldades pelas quais passam muitos portugueses, sentimos em maior ou menor escala o efeito da austeridade na carteira, no nível de vida que levamos. É uma pergunta legítima. E até tem resposta fácil e simples.

Constituímos, na União Europeia, uma das sociedades com distribuição de rendimento mais desigual. Em 2010, éramos batidos apenas por Letónia e Bulgária, se consultarmos os valores para o índice de Gini, o principal indicador para a medição das desigualdades. Num outro indicador de leitura mais fácil, vemos que, para a mesma altura, os 20% mais ricos, em Portugal, ganhavam 5,7 vezes mais que os 20% mais pobres (média UE: 5,1). Ou que os 10% mais ricos ganhavam, em 2009, 9,4 vezes mais que os 10% mais pobres. E, voltando à pergunta inicial, sabemos que a maior parte dos concertos que a motivam ocorrem na região de Lisboa. É precisamente esta região que regista o maior nível de desigualdade no país.

É isto que permite que haja público suficiente para a venda de bilhetes a estes preços. Para uns, são preços que estão perfeitamente ao seu alcance, esteja como estiver a economia, esteja como estiver a austeridade gaspariana. Para outros, é um sacrifício para se poderem juntar ao grupo dos primeiros. É também isto que explica por que é Portugal um dos países onde mais se vendem carros de luxo e onde as marcas como a BMW ou a Audi têm ganho quota de mercado a outras como a Fiat ou a Citröen. Já agora, porque está também relacionado, ninguém se deve igualmente espantar que o Rock in Rio seja um conceito importado do Brasil, uma das sociedades mais desiguais do mundo...

sexta-feira, 23 de março de 2012

Este novo mundo sem bandeiras, sem fronteiras

Sob o título "The term 'world music' is outdated and offensive", Ian Birrel, jornalista de assuntos internacionais do Guardian, discorre sobre o tema já relativamente gasto da "ghettificação" do termo "world music" (o tema é tão velho, na verdade, quanto o termo: 25 anos), mas com uma abordagem aos tempos atuais, ao paradigma do "mashup" a que a muitos de nós aderimos com entusiasmo:
«Life's a mashup these days, isn't it? Not just online but in the real world too. From arts to science, from finance to food, from work to play, we live in a time of fantastic fusion, with ideas taken from anywhere and influences found everywhere.»
Uma das passagens mais interessantes do artigo de Birrel é a ilustração destes tempos com a história do músico sul-africano Spoek Mathambo:
«Spoek grew up in South Africa. His wife is Swedish. His mum sang in a church choir, his dad listened to jazz and his sisters liked Bob Marley and Shabba Ranks while he preferred American rap. In recent years, Spoek has toured the world, working with some of the coolest dance producers. His music is released on Sub Pop, home to grunge. Little wonder it reflects so many people and places, all given his unique and often-dark township techno twist.»
Goste-se ou não do Mathambo e da versão dele para "She's Lost Control", dos Joy Division, a sua história é fundamental como ilustração para a compreensão dos fenómenos culturais dos nossos dias. Histórias destas tornam o mundo em que vivemos mais rico, independentemente da quebra do produto mundial, independentemente das guerras e guerrilhas que todos os dias eclodem.

terça-feira, 13 de março de 2012

Vamos poder passar a fazer discos em casa?

Já nos anos 60, na Inglaterra ou nos EUA, havia pequenas cabines, parecidas com as das fotos instantâneas que hoje ainda encontramos no metro, e geralmente instaladas em lojas de discos, onde por uma pequena quantia, qualquer um podia colocar a sua cantoria num sete polegadas.

Parece impressionante que tenha passado tanto tempo até podermos (quase) fazê-lo em casa. Talvez a tecnologia nunca a venha a ser barata o suficiente para que possamos também com o vinil -- ou qualquer outro sucedâneo -- fazermos aquilo que já há largos anos podemos fazer com os CDs. Nem talvez haja o interesse suficiente para tornar isto possível, até porque o habitual consumidor de vinil é, ao mesmo tempo, o colecionador que valoriza, ao contrário dos outros, a genuinidade, que aceita pagar mais por uma edição original do que por uma reedição recente, mesmo que esta venha em 180 gramas, com som remasterizado, livro com a contextualização do disco na história da música, senha para descarregar a versão digital e outras regalias que tais. Naturalmente, tudo dependerá do interesse comercial que a tecnologia evolvente das impressoras a três dimensões, para já apontadas para o segmento industrial, especialmente no sector da engenharia da medicina, venha a ter nos consumidores particulares. Mas que há pistas que apontam nesse sentido, há.

Começa a tomar forma a ideia de termos em casa algo que nos devolva este velho apego por coisas materiais que a revolução digital parecia querer fazer abandonar. É, ironia do destino, a própria revolução digital a dar-nos de bandeja um regresso ao lado material da vida. O próprio Pirate Bay, o famoso site de torrents tem agora uma categoria com a designação "Physibles". Isso mesmo. Já se podem descarregar modelos para serem "impressos" numa das novas impressoras 3D disponíveis no mercado. Um boneco como este. Ou até mesmo a famosa máscara do Guy Fawkes. Afinal, por que razão hão de os "anonymous" deste mundo entregar dinheiro à Time Warner, que detém os direitos da imagem, de cada vez que compram uma máscara do Guy Fawkes, quando a podem descarregar livremente e imprimi-la em casa?

Então e discos? No ano passado, era apenas uma brincadeira de primeiro de abril. Mas a piada na tecnologia é mesmo essa. O que no ano passado é brincadeira, no ano que vem é consumo de massas. Ou qualquer coisa assim. Entretanto, vejam algumas das hipóteses para esta tecnologia, neste artigo recente da mashable.

terça-feira, 6 de março de 2012

Uma pequena nota sobre o preço dos bilhetes e a carreira de um artista

A propósito dos bilhetes para o concerto do Bon Iver, em troca de palavras com um amigo, dizia ele:
"É impressionante como um gajo às vezes apenas com um disco já consegue ter bilhetes a esse valor, é tudo muito rápido hoje em dia."
Eu acrescento que mais difícil hoje é acontecer o contrário, ou seja, um artista ao quarto ou quinto disco conseguir ter bilhetes a esse valor.

Faz isto ligação direta com aquela constatação por várias vezes trazida às discussões pelos responsáveis da indústria discográfica e não só, de que hoje é impensável fazer-se carreiras. O mercado da música valoriza cada vez mais a novidade e reage aos fenómenos recentes, dispensando o prolongamento das carreiras. Esse caminho, aparentemente, funciona apenas para a velha guarda, para o Bruce Springsteen, para os U2, para a Madonna, o Paul Simon ou os Pearl Jam, cada um na sua dimensão. Hoje em dia, o sucesso é para acontecer logo ao primeiro ou segundo álbum. Poucos serão os que conseguirão ir além disso. A Lady Gaga vai, provavelmente, ser esquecida tão rapidamente como foi a Rihanna.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A crise, o fim do euro, os concertos e tal

Tenho que começar por pedir desculpa, porque quero usar uma palavra e abordar um tema a que os nossos olhos e ouvidos parecem já não conseguir dar mais vazão, enquanto se deixam transbordar nesta poça de pessimismo, para não usar matizes mais carregados do termo. A crise. A filha da puta da crise.

Pior, quero falar de outra crise, não da atual, muitas das vezes exacerbada, outras das vezes generalizada a todos, quando aqueles que efetivamente já a sentem nem oportunidade para falar têm. Não quero falar de IVA nos bilhetes ou da redução esperada por alguns da afluência às salas de concertos.

Pretendo apenas refletir, sem pessimismo outro além daquele que os cenários económicos expectáveis de virem a desenhar-se nos próximos tempos já deixam antever, no que poderá vir a ser o panorama de concertos daqui a poucos anos, se o caminho que agora trilhamos não der uma meia volta, um lapso de sorte, um coelho branco de paz que ainda ninguém conseguiu tirar da cartola.

Vejamos, antes de mais, como têm sido os últimos anos, as últimas décadas até, no que a este domínio, o dos concertos e dos espetáculos em geral, diz respeito, tendo por aliada a premissa de que sempre é mais fácil, seguro e unânime falar do passado do que pintar um futuro por acontecer, seja qual for a paleta de cores preferidas do artista. Na segunda metade dos anos 90, tornou-se claro que o número de concertos de artistas estrangeiros estava a aumentar. Ora porque os portugueses andavam com mais dinheiro nos bolsos, ora porque andavam mais informados à custa da diversificação e "minorificação" dos meios mediáticos (o termo "minorificação" não é usado de forma leviana: lembrem-se da importância que a Xfm teve na promoção e solidificação de um circuito de concertos importante em salas como a Aula Magna, através de grupos como os Tindersticks, os Soul Coughing, os dEUS ou os Lamb, concertos esses que ajudaram depois as promotoras a avançarem com menos medos para os festivais de verão, para os festivais urbanos noutras estações do ano, etc.).

Depois, no novo milénio, aquela tendência veio a ser reforçada. Mais, floresceram as salas pequenas, em Lisboa e no Porto -- e até, ainda que de forma menos regular, em outros locais do país, muitos deles até pouco óbvios --, onde os promotores (muitos dos atuais, principalmente os mais pequenos, surgidos neste boom) podiam agora apresentar as bandas de públicos mais específicos, aquelas 50, 100 ou 150 pessoas que em cada uma daquelas cidades se vai interessando por música nova, sem que precise de chegar a um ponto de massificação (relativa, claro) como aquele a que estávamos sujeitos nos anos 90.

Com razão, acredito, muitos apontarão como fator importante para este crescimento o dinamismo ganho, um pouco por todo o mundo, no mercado dos espetáculos ao vivo, essencialmente motivado pela quebra na venda de discos, e que fez com que o negócio da música tenha vindo a mover-se do lado dos suportes para o lado da apresentação, música em carne e osso e noutros tantos aspetos impossíveis de serem reproduzidos à distância, de serem copiados e distribuídos livremente.

Mas há outro fator que, seja neste ou em qualquer outro negócio, é habitualmente esquecido.

No início dos anos 90, Portugal sujeitou a sua moeda, o velhinho escudo, a um espartilho de variações fixado pelo então designado Sistema Monetário Europeu e o seu famoso ECU. Mais tarde, a 1 de Janeiro de 1999, o ECU transformou-se no euro, e os países que se preparavam para vir a usar a nova moeda, perdiam qualquer margem de manobra na sua política monetária, não podendo alterar as taxas de câmbio das suas moedas. O escudo ficava paritário em relação ao euro, ou seja, este último valia (sempre!) 200,482 escudos, e a partir de 2002, desaparecia de circulação o próprio escudo.

Procurando novamente descer à terra com rapidez para a leitura daqueles que aqui tenham chegado sem desistir a meio destas reflexões, as nossas trocas comerciais com o exterior passaram a estar dependentes da flutuação de uma moeda que já não era nossa para controlarmos. Veio a suceder-se que o euro começou a ganhar importância sobre outras moedas. Veio a suceder-se que os produtos vindos do estrangeiro se tornaram mais baratos para nós. Quem costumava comprar discos ou passar férias em Inglaterra, por exemplo, sabe o bem que lhe soube esta aparente descida dos preços. Da mesma forma, quantas mais libras ou dólares valha um euro, mais fácil será pagar a alguém de fora, que trabalhe naquelas moedas, para cá trazer o nosso artista favorito semanal.

O que acontecerá num cenário, porventura provável, de falhanço do projeto do euro, quanto mais não seja de uma saída de Portugal deste sistema monetário? Um primeiro passo será a desvalorização relativa da futura moeda por comparação com os atuais níveis do euro. Os turistas virão em charters, as nossas exportações conseguirão vender mais bem lá fora, e... os concertos com os nossos artistas estrangeiros favoritos da semana? Ficarão mais caros. Será sustentável o panorama interessante de que acima falava? Provavelmente não. Talvez voltemos ao início dos anos 90, em que cada novo espetáculo anunciado no cardápio do Blitz era celebrado com o gáudio com que se celebra um bife em casa de quem não consegue fazer uma refeição de carne quando quer, mas apenas quando pode, mal feita a comparação entre misérias incomparáveis. Mas isto já será especulação.

Resta uma nota positiva no meio deste pessimismo. Se este cenário se vier a concretizar, poderá aqui renascer uma nova oportunidade para o desenvolvimento da música portuguesa. Tanto dentro, como fora de portas, os músicos portugueses poderão sair mais bem sucedidos no negócio a que dedicam as suas vidas ou parte delas. E isto também é especulação, ainda que por este caminho...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O fim do vinilo - desta é de vez?

Ao longo dos últimos anos, mais ou menos desde quando passámos a barreira do milénio, fui alimentando a esperança de que viesse a haver um ressurgimento do mercado do suporte de vinilo. E até houve, na verdade. Cada vez mais as edições, desde o underground mais underground até ao mainstream mais mainstream, vieram a incluir esse suporte. Cada vez mais vieram aparecendo lojas de discos especialmente dedicadas (tenho tentado fazer algum eco do que vai acontecendo por Lisboa neste roteiro), não só com o habitual e fácil mercado de segunda mão, mas também com as novidades. Não só no mercado da música de dança, para os profissionais, mas também em todas os géneros. As pessoas normais voltaram a comprar vinilo para ouvirem em casa. Até as lojas portuguesas da F*** criaram escaparates, ainda que com pouco tacto para a coisa, exclusivamente dedicados ao vinilo. Por aqui e ali, foram aparecendo novos gira-discos, para os mais diversos segmentos de mercado, para quem quer um objecto de design em casa, para quem quer ouvir música com qualidade, para quem tem numa ligação USB uma ponte entre maneiras antigas e actuais de ouvir e partilhar música.

Em parte responsáveis pelo ressurgimento do suporte, estiveram os DJs, tanto mais com a crescente importância que estes profissionais vieram a ter, pelo menos por cá, nos novos espaços e momentos de animação nocturna. Fala-se muito na evolução da oferta de concertos, que é notável, mas esta crescente movida, associada à abertura de novos espaços veio oferecer ainda mais oportunidades para se girar um disco e fazer disso uma festa. Mas... ainda é o vinilo o suporte de eleição, agora que nos aproximamos vertiginosamente do final da década? Cada vez menos, parece-me ser a resposta, se aquilo que vou encontrando por aí servir de amostra fiável. Entre os DJs internacionais, vê-se cada vez mais o uso do CD-R. Não tanto porque aderiram à facilidade da "pirataria", mas porque evitam assim o transporte de grandes malas pesadas (e o risco de as perderem nas viagens aéreas). E, para mais, os recentes leitores de CD da Pioneer e de outras marcas oferecem potencialidades que nem sequer estavam ao alcance dos gira-discos. E, depois, há também os portáteis carregados de MP3 e apetrechados de software que faz quase tudo. São cada vez mais habituais nas cabines de DJ. Há casos até em que ao gira-discos é apenas reservado o papel de fazer de controlo remoto, por assim dizer, para o scratch dos mp3, para conservar, digamos, uma réstia de "fisicalidade" ao acto de se passar música.

A haver uma estocada final sobre o mercado do vinilo, é a que é dada por esta notícia. A Panasonic terá, alegadamente, descontinuado a produção dos incontornáveis Technics 1200 e 1210. A ser verdade tal notícia, é o fim de um reinado de quase quatro décadas. Será também o fim definitivo do suporte, após os enterros antes de tempo que lhe fizeram no passado? Só o mercado não profissional terá uma palavra a dizer.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Músicas universais e paralelas


Hanggai "Drinking Song" @ FMM Sines

Há cerca de uma semana, por ocasião do FMM, marquei presença na apresentação do livro "Músicas nas Cidades", do meu caro amigo Manuel Fernandes Vicente. Já aqui falei por várias vezes da obra. Um dos seus pontos interessantes é a tese que o Manuel defende de que o meio ambiente, neste caso, as cidades ou as regiões, condiciona em grande parte (ou condicionou) a criação, neste caso, a música. O autor cita, como um dos primeiros exemplos com que se deparou na sua vida de melómano, o caso das bandas kraut, que ele bem cedo começou a distinguir de acordo com a cidade alemã de que eram originárias.

Calhou termos assistido ao concerto dos chineses Hanggai ao lado um do outro e o Manuel foi aproveitando os intervalos para discutir algumas ideias interessantes. A que mais guardei prendia-se com a curiosidade de o canto gutural (ou próximo de gutural), algo que os Hanggai transportam para o seu universo rock, se ter desenvolvido em pontos diversos do mundo com uma característica comum: áreas pouco densamente povoadas. Nunca tinha feito essa ligação, mas, de facto, temos as vastas estepes da Mongólia, onde os Hanggai foram buscar esta técnica. Temos as grandes planícies do interior norte-americano, onde os índios praticavam também um género de canto semelhante. Temos a Lapónia, uma região ocupada por Noruega, Finlândia, Suécia e Rússia, onde o povo sami tem no canto yoik, uma tradição. Bate certo.

Noutra alusão, o Manuel falava-me dos instrumentos de corda fabricada a partir de crina de cavalo que os Hanggai usavam. Até o nosso conhecido violino é ainda tocado com arcos feitos a partir de crina. Será aqui mais difícil sustentar desenvolvimentos em paralelo do mesmo tipo de instrumento, até porque os historiadores da música sugerem que os primeiros violinos podem mesmo ter sido os morin huur como aquele que os Hanggai trouxeram a Sines, e que, por via das rotas comerciais, chegaram à Europa há cinco ou seis séculos, transformando-se em violinos, violoncelos, etc. Gostaria, contudo, de imaginar que a simples proliferação de um animal doméstico como o cavalo teria ajudado a fazer nascer, de forma autónoma, instrumentos semelhantes em diferentes partes do mundo. Assim como ainda hoje me faz confusão que um instrumento como a gaita-de-foles exista em tantas partes diferentes da Europa (e não só), com formas absolutamente diversas e métodos igualmente díspares. Afinal, ovelhas, cabras e vacas, a partir do couro das quais é feito o instrumento, existia (e existe) por todo o lado. Não poderia a simples disponibilidade em abundância do material ter constituído ponto de partida para que a mesma ideia surgisse, em paralelo, em diferentes pontos?

Exemplos como estes, com maior ou menor segurança na defesa desta tese, não faltarão. Remotamente relacionado com isto, há também paralelismos curiosos nas linguagens das canções, nos temas que abordam, naquilo que pretendem comunicar. Este "Drinking Song" dos Hanggai, por exemplo, pode ser cantado em cantonês ou em qualquer outra língua oriental, que não precisaria deste título em inglês para que, ao escutá-lo, percebessemos que se trata de uma canção de... copos. Faz lembrar, por exemplo, o "Engwish Bwudd", dos norte-americanos Man Man. Ou uma boa parte da... folk irlandesa. Canções de bêbedos para bêbedos. Se pusermos de lado o mundo islamista, um tema como este é, convenhamos, universal. É imediatamente percebido por uma boa parte do mundo.

Na primeira vez que os Hanggai tocaram esta canção (ela foi repetida já no encore), lembrei ao Manuel que, depois da experiência das "Músicas nas Cidades", das músicas que pertencem a uma cidade, podia estudar as músicas que pertencem, ao mesmo tempo, a diferentes cidades, ao mundo, quem sabe sem qualquer ligação entre si na origem. É o meio ambiente a mandar, à mesma. É a velha psicogeografia, de que os situacionistas tanto gostavam. O desafio ficou lançado, Manuel.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Ainda a propósito do Primavera

«O cérebro emocional é um cérebro lento. Vem de há milhões de anos. É um cérebro que tem certas características de sistema neuronal, de mediador de estímulos, e que funciona numa escala relativamente lenta. É uma escala de segundos a, por vezes, minutos. O cérebro cognitivo funciona numa escala de centenas de milisegundos. Muito, muito rápido. Portanto, é perfeitamente possível para nós aprendermos muito rapidamente uma quantidade de factos, recolhermos uma quantidade de imagens e lembrarmo-nos delas, manipularmos essas imagens de uma forma inteligente. E, ao mesmo tempo, as emoções que deviam ser disparadas em relação a certos factos, em relação a certos acontecimentos, não conseguem ser disparadas porque não há tempo. Portanto, estamos a fazer uma separação, um divórcio completo entre estes dois cérebros, e isso, sim, isso pode ser muito perigoso.»

Lembrando de novo o passado fim-de-semana em Barcelona, coisa frequente destes dias, em particular a última entrada da espécie de reportagem que publiquei na segunda-feira (ver mais abaixo), fui parar às palavras do neurologista António Damásio, que acima cito (e das quais já falei aqui e aqui) e ainda às do músico António Pinho Vargas (aqui). De facto, foi uma bela oportunidade para vermos dez, vinte ou trinta das bandas que mais gostamos. Vermos, ouvirmos e sentirmos dez, vinte ou trinta concertos essenciais nos tempos que correm. Mas, conseguimos verdadeiramente digerir aquilo que nos foi oferecido, quando não tivemos nem sequer um minuto de silêncio que fosse para deixarmos as emoções tomarem conta de nós, para, enfim, reflectirmos? É o inevitável trade-of entre concertos individuais e o conceito de festival como é o do Primavera Sound. Cada qual terá as suas vantagens e os seus inconvenientes. Uma coisa é certa, porém: são duas coisas muito, muito diferentes.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A culpa foi do Vasco Granja

Vasco Granja, divulgador de banda desenhada e do cinema de animação em Portugal, morreu esta madrugada em Cascais. Tinha 83 anos.
(in Público)

Os anos passam e cada vez mais olhamos para trás, não só porque vamos carregando uma bagagem de memórias que ganha peso pelo caminho, mas também porque o chão que pisamos é cada vez mais diferente daquele de onde viemos. Se há algo de me orgulhe a sério do tempo em que cresci é o de ter sido educado por alguém como Vasco Granja. Vou ao ponto de achar que uma boa parte da minha geração -- algo meio indefinido onde coloco aqueles que nasceram entre o final dos anos 60 e os anos 70 -- desenvolveu o espírito da curiosidade, da tolerância (eu disse "uma parte da geração") e, se quisermos até, da rebeldia, no seu sentido criativo mais abrangente possível, à custa das manhãs e tardes passadas com o senhor de óculos e de cabelos grisalhos que apresentava com o mesmo entusiasmo as produções Hanna & Barbera e as Looney Tunes ou as demonstrações mais vanguardistas da animação checa ou canadiana.
As gerações seguintes (ou parte delas, para não entrarmos em generalizações injustas) teriam tido a ganhar com um Vasco Granja ao seu lado e a grande desilusão do crescimento para a minha geração é que o mundo evoluiu no sentido oposto ao que a minha geração aprendia naquelas aulas. Qualquer dia, vai parecer miragem que tenha existido alguém assim. Koniec

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ainda sobre o cérebro emocional

Relendo o que escrevi ontem, parece-me agora óbvio que faltou dizer uma coisa, nomeadamente na ponte entre a citação do professor Damásio e as questões que lancei. Imagino eu, a partir do meu modesto -- diria nulo -- conhecimento dos meandros da mente e da ciência que a ela se dedica, que o professor se estivesse a referir a algo muito específico, isto é, a reacções emocionais no imediato, nos tais segundos que nos dão para, por exemplo, digerirmos as notícias de um telejornal. A ponte para o raciocínio e para as questões que imediatamente surgiram na minha cabeça pode, por isso, ser exagerada ou desadequada, mas, e não sendo aliás um tema novo, creio que algumas delas tenham alguma pertinência.
Uma outra questão que deriva daquela "reflexão" prende-se com o trabalho diário dos especialistas da matéria, no caso específico, da música, e, particularizando um pouco mais, dos críticos. Na mesma linha de pensamento, será que, perante a obrigação de conhecer tudo, conseguem eles reagir a algo, conseguem eles ser mais do que autómatos com funções cognitivas? No tempo em que desempenhava tais tarefas, principalmente nos últimos anos, acumulei uma espécie de stress ou cansaço que se resumia a algo como "estou farto de ouvir música" ou "estou farto de não ter prazer ao ouvir música". Tal opinião era partilhada por outros camaradas, como o Pedro Gonçalves, que chegou a escrever um editorial na revista "On", do Independente, a precisar, ponto por ponto, os sintomas dessa espécie de stress. Desde então, sempre imaginei que a origem do problema estivesse na mistura entre trabalho e prazer, isto é, que tudo era consequência de se transformar um prazer numa obrigação. Talvez assim seja, mas vai ganhando força a teoria de que também para isso contribuirá este desfasamento entre as velocidades da função cognitiva e da função emocional.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A velocidade do cérebro emocional

Numa notável conversa com a jornalista Judite de Sousa no programa "Grande Entrevista", nesta noite, o conceituado neurologista António Damásio dizia, a certa altura, na sequência da abordagem do tema do aceleramento da vida diária:

«E há outro problema mais grave, para onde o nosso trabalho se está a dirigir. É um problema que tem a ver com a diferença de velocidades do nosso cérebro cognitivo e do nosso cérebro emocional. O cérebro emocional é um cérebro lento. Vem de há milhões de anos. É um cérebro que tem certas características de sistema neuronal, de mediador de estímulos, e que funciona numa escala relativamente lenta. É uma escala de segundos a, por vezes, minutos. O cérebro cognitivo funciona numa escala de centenas de milisegundos. Muito, muito rápido. Portanto, é perfeitamente possível para nós aprendermos muito rapidamente uma quantidade de factos, recolhermos uma quantidade de imagens e lembrarmo-nos delas, manipularmos essas imagens de uma forma inteligente. E, ao mesmo tempo, as emoções que deviam ser disparadas em relação a certos factos, em relação a certos acontecimentos, não conseguem ser disparadas porque não há tempo. Portanto, estamos a fazer uma separação, um divórcio completo entre estes dois cérebros, e isso, sim, isso pode ser muito perigoso.»

Enquanto ouvia estas palavras do professor Damásio, e nas linhas modestas com se cose o meu raciocínio, pensava no tema -- esbatido, admito -- dos modernos hábitos de consumo de objectos de arte e entretenimento, neste caso, da música. Ouvimos mais música, muito mais música. Conhecemos mais música, muito mais música. Mas teremos, de facto, tempo para lhe reagirmos... emocionalmente? Mesmo quando um novo disco nos cativa a atenção e o escutamos seis ou sete vezes ao dia, por quantos dias o fazemos até que outra ou outras descobertas ocupem esse privilégio no tempo que ocupamos durante o dia a ouvir música -- o qual também se prolongou consideravelmente, desde o despertar até ao deitar -- e deixemos para trás aquela paixão anterior, como se fossemos uma capa viva do NME, sempre em busca da next big thing?
Por vezes, dou por mim a levar a mala, para os Bailaricos Sofisticados, com discos que, na sua esmagadora maioria, têm mais de 10 ou 15 anos. Há dias, em Braga, numa conversa de amigos ao jantar, discutíamos que, apesar das quantidades massivas de nova música com que contactamos diariamente, o maior prazer acaba por ser tirado das coisas antigas. Uma das teorias na mesa, que vem ao encontro das palavras do professor Damásio, era a de que o trabalho de apreensão emocional já tinha sido feito no passado. Entra em acção a memória emocional, se assim se puder dizer sem fazer chocar nenhum neurologista.
Na mesma linha de raciocínio, há um exemplo que, apesar de poder (certamente que sim) derivar do desenvolvimento do marketing enquanto ferramenta de criação de mercados, ajuda a ilustrar esta questão. Porque é há hoje tantos discos, tantos eventos, tantos discos, tantos regressos de bandas, onde a palavra-chave é "nostalgia"? Os anos 70, os anos 80 ou até mesmo a década passada, nunca estiveram tanto na moda. Talvez nem mesmo na sua própria altura. E não é apenas na música que isto acontece. A minha memória é daquelas que mais cedo ou mais tarde vai carecer da pílula mágica em desenvolvimento de que o professor Damásio também falou nesta noite, mas sou perfeitamente capaz de me lembrar que há 15 ou 20 anos não havia nada que se parecesse com isto.
Nós, os da geração que cresceu antes da World Wide Web, ainda temos uma memória que recupera as emoções do tempo em que tínhamos tempo para as ter. Levamos bagagem para esta viagem, por assim dizer. Espero que o meu filho consiga ter tempo de fazer uma malita para transportar consigo (na viagem que é a vida, para este texto acabar de maneira bonita e singela, já agora).

quinta-feira, 12 de março de 2009

A crise, a música e o mercado do "ao vivo"

Talvez por "defeito" de formação, vejo-me recorrentemente a pensar neste assunto. Até há pouco tempo, pensávamos que o negócio da música ao vivo, especialmente por comparação com o cada vez mais moribundo negócio da música gravada, ia de vento em popa. Mas talvez estejam a começar a chegar ventos de mudança (para pior).

A crise financeira que abalou o mundo tem, pelo menos a curto prazo, um impacte particularmente negativo ao nível do consumo. As notícias da crise disseminam pelos consumidores uma espécie de vírus a que vulgarmente chamamos pessimismo. Mesmo que a situação neste momento até seja simpática face às desgraças pelas quais já passa uma grande parte da população, imaginamos que o mais certo é também perdermos o emprego, imaginamos que haverá uma altura em que não vamos conseguir pagar a prestação da casa e não sabemos como iremos suportar a creche da miudagem, quanto mais sabermos como vamos conseguir pagar as prestações de um carro que praticamente já não sai do sítio porque a gasolina está cara, receamos que a nossa moeda perca valor e que os mil e um tipos de produtos importados que fazem parte do nosso cabaz de consumo fiquem além das nossas capacidades. Não acreditamos em nada e prescindimos de férias, de jantares semanais, de cinemas, concertos ou de despesas mais fúteis que vão além daquelas que temos como essenciais para o dia-a-dia.

Mas voltemos ao mercado do "ao vivo". Se o pessimismo no consumo atacar o público dos concertos, goram-se as expectativas de milhares de actores económicos que investiram fortemente neste mercado que tinha, como dizia mais acima, excelentes horizontes. Talvez seja ainda cedo, mas já se diz à boca larga que existem muitos agentes e promotores com a corda na garganta, com crises de tesouraria que lhes impedem de fazer face a custos fixos ou a bilheteiras pouco simpáticas ou a custos diferidos como os impostos. E se estes agentes vão ao fundo, uma boa parte do negócio da música ao vivo, de grandes festivais a pequenos promotores, de bandas com pequenas ou grandes ambições, enterra-se com eles.

O Reino Unido, por exemplo, foi sempre um ponto de passagem fundamental para digressões, não necessariamente porque haja mais público, mas porque é o Reino Unido, porque é o centro histórico de todos os negócios que mexem com a música, porque é garantia de maior visibilidade internacional, porque ajudará, eventualmente, a negociar com maior tranquilidade o resto da digressão ou de futuras digressões. Num clima de pessimismo dos consumidores, num clima de forte descida do valor da libra como aquele a que assistimos, como é que o mercado europeu do "ao vivo" reagirá?

É cedo demais para se tirarem conclusões, mas uma coisa é certa: algo vai mudar e não há razão para grandes optimismos. Vejamos como decorre este Verão de festivais.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Ainda se toca nos liceus?

Aqui há dias, por ocasião da festa da Bíblia no MusicBox, recordava com o João Morais (hoje nos Gazua) o nosso tempo de adolescentes, nos anos 80, quando frequentávamos as festas das escolas secundárias, para ver concertos dos Corrosão Caótica (a banda do João, na altura), dos Derniére Cri, dos Fart (do Casanova -- por onde andas, pá?), dos Tropa Morta, dos "meus" Gatos do Telhado, ... Em Lisboa, e estou certo que por todo o país, as associações de estudantes alugavam PAs manhosos, improvisavam palcos e metiam bandas a tocar durante festas que ocorriam, na maior parte das vezes, ao sábado à tarde. Nos pátios ou nos pavilhões das escolas, juntava-se gente do punk, do hardcore, do heavy metal, da pop mais imediata à de aspirações mais épicas, tudo o que havia de fresco a sair das salas de ensaio. A malta ia até à António Arroio, até à secundária dos Olivais, só para citar algumas das que ainda não desapareceram da memória. Dos subúrbios, chegavam ecos de bandas que despontavam precisamente nesse meio escolar, como os Vómito, de Queluz, futuros Peste & Sida. Na minha escola, a dos Anjos, durante os anos em que fiz parte da AE (o cargo de presidente de Conselho Fiscal abria-me portas para poder avacalhar, como então se dizia, com a rádio do bar), cheguei a participar activamente na organização de duas festas com imensos concertos (e também muito de, já sabemos, testosterona a saltar das borbulhas, álcool e outras drogas, a combinação química irresistível de qualquer festa do secundário). E, ao escrever isto, lembro-me do Sr. Mário, porteiro da escola, de ar sempre sério, sempre distinto, de fato e gravata, a preencher todos os espaços possíveis do seu Austin Mini com o kit de bateria que arranjámos para o primeiro desses festivais... Ou dos góticos com ar medonho -- um deles transportava um candelabro -- que apareceram por lá. Ou da polícia, ainda mais medonha, que fechou uma das festas.
Mas não é tanto de nostalgia que pretendia fazer esta postagem respirar. Mais importante, a questão que ficou da conversa com o João, e sem qualquer segundo sentido, é a seguinte: será que ainda existem, hoje, concertos nas escolas? E como são? Sessões de freestylin' e outros apontamentos na área do hip hop ou vai-se além disso?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

()

Ainda hoje mesmo, o correio trouxe-me o novo single da dupla inglesa Dan Le Sac vs Scroobius Pip, "Thou Shalt Always Kill". O tema não é novo, mas depois de ter esgotado rapidamente a primeira edição do ano passado (dois anos?), volta agora a sair em 7", com uma versão diferente, com Pos Plug Won, dos De La Soul. Acontece que, por ironia macabra do destino, a letra, que em tempos aqui citei, versa assim:

(...)
Thou shalt not worship pop idols or follow lost prophets.
Thou shalt not take the names of Johnny Cash, Joe Strummer, Johnny Hartman, Desmond Decker, Jim Morrison, Jimi Hendrix or Syd Barret in vain.
(...)
Thou shalt not put musicians and recording artists on ridiculous pedestals no matter how great they are or were.
The Beatles... Were just a band.
Led Zepplin... Just a band.
The Beach Boys... Just a band.
The Sex Pistols... Just a band.
The Clash... Just a band.
(...)
The Next Big Thing.. JUST A BAND.


E agora, com a notícia da morte de Lux Interior, que nunca sequer conheci pessoalmente, reajo quase como se uma pessoa próxima tivesse desaparecido. Irónico, não? Aconteceu quando o Kurt Cobain se suicidou, quando o Joey Ramone morreu no hospital, quando o John Peel morreu no Peru, ... Ajuda o facto de, tirando a efemeridade de Kobain, os outros serem já ídolos -- não vou desprezar a palavra -- desde a adolescência. Mas também é relevante notar que se trata de gente que continuava a fazer o seu trabalho admirável com uma vitalidade impressionante. Não é gente que se tenha vendido com o passar dos anos, não é gente que seja recordada pela memória do que eram há trinta ou quarenta anos (bom, admito que no caso do Joey Ramone o caso mude de figura)...
A Patti Smith tem hoje mais um nome para acrescentar ao seu poema sobre rock'n'rollers desaparecidos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Quem ganha?

Com o apoio logístico da Música no Coração, a empresa de cerveja de Leça do Balio produz hoje e amanhã, na cidade de Lisboa, mais um evento de promoção da sua principal marca. Um ou vários eventos, se quisermos, já que a ideia passa pela realização, em espaços diferentes e a horas coincidentes, de concertos de diversas bandas, nacionais e internacionais. Se, por um lado, é de aplaudir que o sector institucional da música ao vivo em Portugal explore novas ideias, custa por outro lado entender como se pode, mesmo que este até possa vir a ser visto como o ano zero do festival, dar tanto destaque a algo que pouco ou quase nada traz ao público, sem que haja uma voz na imprensa que fuja do alinhamento ovino.

Imitação do SXSW? A própria organização admite a ligação, ainda que tendo consciência da distância (só faltava que assim não fosse). Mas porquê tentar imitar? Porquê esta tendência eminentemente portuguesinha de forçar por cá o que lá fora surge com naturalidade ou, pelo menos, de forma previamente trabalhada? Só para a marca aparecer com mais destaque nos jornais?

Tudo à mesma hora? Tirando as vezes que o nome da marca de cerveja surge por toda a imprensa, quando esta última relata com entusiasmo a suposta originalidade do festival, qual a vantagem de se ter espectáculos a acontecerem à mesma hora ou em horas praticamente coincidentes, que obrigam à opção entre Santogold e Rui Reininho, por exemplo? Quem é que fica a ganhar com isso, além, claro, da empresa de Leça do Balio? Se fosse o caso de um cartaz extenso, como num festival como o que a mesma empresa produz no Verão... Dirão que agora temos mais de duas dezenas de nomes em dois dias. Claro, mas mais de metade estão lá para encher e vender o conceito...

40 euros? Quem vai gastar 40 euros (!) para ver nem que seja apenas um dos concertos? Dirão que isso já acontece num festival tradicional. Reformulando a questão, quem vai gastar 40 euros (!), nesta altura de falta de liquidez generalizada e de gastos natalícios, pela pulseira mágica para o festival, sabendo que apenas pode escolher dois ou três nomes por dia e que, mesmo para isso, vai ter que andar ao frio e à chuva a subir e a descer a avenida para conseguir ver qualquer coisa, ao mesmo tempo que vai torcendo para que a sala já não esteja esgotada? Talvez o perfil do consumidor do evento de logo e de amanhã não seja muito diferente daquele que vai aos festivais de Verão mais badalados da nossa terra: pertence à classe média alta, não conhece as bandas, foi bombardeado por uma imprensa acrítica e vai, claro, porque se quer divertir com os seus amigos, que pertencem à classe média alta, não conhecem as bandas e foram bombardeados por uma imprensa acrítica. E esses, de facto, não se importam com nada disto. Quem é que se importa pelas bandas, afinal?