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sexta-feira, 15 de maio de 2015

100 de 1973, n.º 19, Faust (rep.)



FAUST IV
FAUST (Alemanha)
Edição original: Virgin
Produtor(es): Uwe Nettelbeck
discogs allmusic wikipedia YOUTUBE

Segunda aparição dos Faust nesta colheita de 1973, agora com um álbum propriamente digno do nome, pelo menos na opinião dos próprios Faust, que nunca deram muito crédito pela coleção de gravações que era "Faust Tapes". E os Faust não estavam aqui para enganarem ninguém, como se percebe ao chamarem "Krautrock" à faixa de abertura, uma torrente de guitarras em que a bateria entra apenas aos sete minutos, em que o baixo sincopado à maneira do kraut a que ainda hoje imediatamente assim chamamos quando vemos qualquer banda atual a pisar semelhantes terrenos. Os trajetos seguidos no remanescente do álbum são quase sempre, à boa maneira dos Faust, diversos e imprevisíveis, de uma forma que noutro contexto poderia até soar a uma banda incapaz de encontrar o caminho, e que aqui não é mais do que a expressão excêntrica do grupo. E até desconcertante, no que de desafiante tem o adejtivo, como no momento em que estamos deliciados a ouvir a segunda parte do "Picnic on a Frozen River", uma daquelas jóias do tesouro krautiano, e somos abruptamente interrompidos. "Faust IV" é o último álbum desta primeira encarnação do grupo. Dois anos mais tarde, a Virgin recusar-e-ia a lançar o quinto álbum e o grupo acabaria, para renascer mais tarde, nos anos 90, em sucessivas formações (hoje até existem duas em paralelo), que continuaram a tocar ao vivo e a editar.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

100 de 1973, n.º 40, Faust (rep.)



THE FAUST TAPES
FAUST (Alemanha)
Edição original: Virgin
Produtor(es): Uwe Nettelbeck
discogs allmusic wikipedia YOUTUBE

A Polydor alemã fartou-se dos Faust ao segundo álbum, "Faust so Far" (1972), argumentando que não eram suficientemente comercializáveis. Uwe Nettelbeck, o produtor da banda, virou-se para a inglesa Virgin. Richard Branson pegou nesta estranha e difícil coleção de pedaços de gravações, sem pós-produção e dos quais nem nome se sabia na primeira edição. Foi o terceiro álbum lançado pela então incipiente Virgin (um pouco mais abaixo nesta lista encontram "Tubular Bells", a primeira). Mas o mais curioso foi o preço, 49p, que era quanto custava um sete polegadas, na altura. O resultado foi a venda de 50 mil unidades e a obtenção do 12.º posto na tabela de vendas. De repente, havia um número significativo de ingleses a conhecerem aquela banda alemã obscura, um número bem maior do que aqueles que habitualmente frequentavam a loja de krautrock de Richard Branson, em Notting Hill. Como se lia nas notas da edição original, estes eram "os Faust ao seu nível mais pessoal e espontâneo, um olhar único aos bastidores de um grupo que os críticos europeus e britânicos aclamaram como um dos mais excitantes e mais exploratórios do mundo". Os Faust, contudo, consideravam este "Faust Tapes" como um bónus, não como o terceiro álbum, mas a verdade é que o álbum se manteve até hoje como uma obra essencial, redescoberta por sucessivas gerações, fruto do estatuto adquirido pelo próprio grupo ao longo das décadas e das várias reedições que o disco foi tendo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

100 discos de 1973, n.º 19



FAUST IV
FAUST (Alemanha)
Edição original: Virgin
Produtor(es): Uwe Nettelbeck
discogs allmusic wikipedia

Segunda aparição dos Faust nesta colheita de 1973, agora com um álbum propriamente digno do nome, pelo menos na opinião dos próprios Faust, que nunca deram muito crédito pela coleção de gravações que era "Faust Tapes". E os Faust não estavam aqui para enganarem ninguém, como se percebe ao chamarem "Krautrock" à faixa de abertura, uma torrente de guitarras em que a bateria entra apenas aos sete minutos, em que o baixo sincopado à maneira do kraut a que ainda hoje imediatamente assim chamamos quando vemos qualquer banda atual a pisar semelhantes terrenos. Os trajetos seguidos no remanescente do álbum são quase sempre, à boa maneira dos Faust, diversos e imprevisíveis, de uma forma que noutro contexto poderia até soar a uma banda incapaz de encontrar o caminho, e que aqui não é mais do que a expressão excêntrica do grupo. E até desconcertante, no que de desafiante tem o adejtivo, como no momento em que estamos deliciados a ouvir a segunda parte do "Picnic on a Frozen River", uma daquelas jóias do tesouro krautiano, e somos abruptamente interrompidos. "Faust IV" é o último álbum desta primeira encarnação do grupo. Dois anos mais tarde, a Virgin recusar-e-ia a lançar o quinto álbum e o grupo acabaria, para renascer mais tarde, nos anos 90, em sucessivas formações (hoje até existem duas em paralelo), que continuaram a tocar ao vivo e a editar.

terça-feira, 13 de março de 2012

100 discos de 1973, n.º 40



THE FAUST TAPES
FAUST (Alemanha)
Edição original: Virgin
Produtor(es): Uwe Nettelbeck
discogs allmusic wikipedia

A Polydor alemã fartou-se dos Faust ao segundo álbum, "Faust so Far" (1972), argumentando que não eram suficientemente comercializáveis. Uwe Nettelbeck, o produtor da banda, virou-se para a inglesa Virgin. Richard Branson pegou nesta estranha e difícil coleção de pedaços de gravações, sem pós-produção e dos quais nem nome se sabia na primeira edição. Foi o terceiro álbum lançado pela então incipiente Virgin (um pouco mais abaixo nesta lista encontram "Tubular Bells", a primeira). Mas o mais curioso foi o preço, 49p, o preço de um sete polegadas. O resultado foi a venda de 50 mil unidades e a obtenção do 12.º posto na tabela de vendas. De repente, havia um número significativo de ingleses a conhecerem aquela banda alemã obscura, um número bem maior do que aqueles que habitualmente frequentavam a loja de krautrock de Richard Branson, em Notting Hill. Como se lia nas notas da edição original, estes eram "os Faust ao seu nível mais pessoal e espontâneo, um olhar único aos bastidores de um grupo que os críticos europeus e britânicos aclamaram como um dos mais excitantes e mais exploratórios do mundo". Os Faust, contudo, consideravam este "Faust Tapes" como um bónus, não como o terceiro álbum, mas a verdade é que o álbum se manteve até hoje como uma obra essencial, redescoberta por sucessivas gerações, fruto do estatuto adquirido pelo próprio grupo ao longo das décadas e das várias reedições que o disco foi tendo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Os melhores concertos de 2010 (1 a 10)

1. Staff Benda Bilili @ FMM (31/7)
Escrevi, na altura: "E a última grande explosão (literalmente até, pois coube-lhes as honras de fogo de artifício com que o FMM todos os anos se despede do castelo) veio com os Staff Benda Bilili. O disco era estupendo, já se sabia. Mas que os Staff Benda Bilili conseguissem, mesmo que esquecidos ou ignorados todos os problemas físicos que os debilitam, multiplicar a um ponto impensável toda aquela energia para o palco com as suas rumbas diabólicas e fazer transpirar as gentes no castelo daquela forma insana, era algo que nem nas minhas perspectivas mais optimistas encontrava lugar." VÍDEO

2. Sonic Youth @ Coliseu dos Recreios (22/4)
Já vi Sonic Youth umas sete ou oito vezes. Esta é bem capaz de ter sido a melhor. Escrevi, na altura: "Perdoem-me os que não tiveram oportunidade de ver os Sonic Youth, no ano passado, no Primavera Sound, mas não consigo deixar de reagir ao concerto desta noite sem ter por referencial aqueloutro. Como é que dois espectáculos com alinhamentos tão semelhantes, conseguem ser tão diferentes, pelo menos nas reacções que provocaram a mim e, suspeito, a outros que, como eu, também lá estiveram? Será porque hoje estávamos numa sala cheia, comprimida, com muito calor e muito suor, e não numa doca, ao ar livre, entre largos milhares de pessoas, entre horários de dezenas e dezenas de outras actuações? Será porque os temas mais recentes estão agora mais rodados ao vivo? Será porque hoje a banda esteve efectivamente melhor, sem ostentar aquele ar de frete do ano passado? Será porque a empatia com o público foi outra? Será pelo clima de euforia com que toda a gente -- pelo menos ao meu redor -- ansiava pelo concerto de hoje? Não sei. O que sei é que tudo hoje, desde os temas mais recentes até coisas antiquíssimas como «Shadow of a Doubt0«, «Schizophrenia», «Cross the Breeze» ou «Death Valley '69» soava (e fazia suar) de uma forma que me fez sentir um miúdo a ir aos seus primeiros concertos no Coliseu (tal como o André, que tem 14 anos e saiu de lá com um sorriso de orelha a orelha). Estes foram os «meus» Sonic Youth. Os meus e os de muita gente, ao longo de várias gerações. E provavelmente vão por cá andar ainda em 2020 ou 2030, a conquistar novos públicos e a manter estas relações «para a vida» com as gerações mais antigas. Pelo menos, é o que o espectáculo de hoje sugere." VÍDEO

3. Shellac @ ZDB (24/5)
Eu disse que ia haver mais Shellac nesta lista. E de outro concerto na mesma semana que aquele que aqui já apareceu. Escrevi, na altura: "Os Shellac não são uma banda. São um relógio suíço de frontispício em que, no lugar do cuco ou dos paisanos da aldeia surge um power trio clássico. São um metrónomo de três hastes, cada uma delas com um tique-taque sincronizado ao limite do absurdo, mais preciso que o relógio atómico de Greenwich. Eles nem se olham entre si quando acertam entre si as paragens, os arranques, as mudanças de tempos. E Steve Albini, como se tornou hábito dizer-se, é deus. E também é um óptimo guitarrista, que extrai da sua Travis Bean de alumínio o som rude, sujo e áspero do metal com que a maior parte de nós cresceu ao ouvir as bandas que Albini gravou e produziu ao longo das duas últimas décadas. E é ainda um poeta rock, em diferentes momentos do espectáculo, como em "The End of Radio". Nessas alturas, Albini pisa com toda a segurança o caminho de outros poetas americanos de palco como Patti Smith, Jim Morrison ou Jello Biafra. Mas Shellac não é só Albini. Bob Weston, que tem o sangue do hardcore de DC a correr pelas cordas do baixo, e Todd Trainer, um autêntico demónio na bateria (nota: não é figurativo), são as duas outras engrenagens do tal relógio suíço." VÍDEO

4. N'Diale - Jacky Molard Quartet & Founé Diarra Trio @ FMM (29/7)
Escrevi, na altura: "Quem imaginaria que a música de tradição europeia a que o bretão Jacky Molard se tem dedicado ao longo da carreira, e que já apresentou por duas outras ocasiões em Sines, casaria tão bem com a música do trio maliano de Founé Diarra? Quem é que é capaz de dizer, sem mais nem menos, que um prato de peixe e de carne, em simultâneo, se pode tornar uma maravilha da gastronomia? A este respeito, aliás, o António Pires dizia que "o gajo que inventou a carne de porco à alentejana deve ter tido uma experiência semelhante". E como é que dançamos isto? Com as pernas para a frente ou com o rabo espetado para trás? Estas eram as interrogações iniciais de muitos, certamente, mas não foram mesmo mais do que isso mesmo: iniciais. Rapidamente, todos atirámos os axiomas etnomusicológicos para trás das costas e abraçámos calorosamente aquela que foi uma das experiências mais incríveis de sempre no palco do castelo." VÍDEO

5. Barbez @ FMM (30/7)
Escrevi, na altura: "Os Barbez, grupo de Nova Iorque com ligações à Tzadik de John Zorn, apareceram no FMM com toda a pinta de outsiders. O grupo de Dan Kaufman já por cá tinha passado para um concerto na ZDB, para um concerto mediano, mas agora, com formação alargada e com um som perfeito que permitiu a percepção ao detalhe das texturas e frases criadas em palco, misturando klezmer com rock de câmara ou jazz marginal, a lembrar bandas da editora Constellation, tudo foi diferente, para melhor. Muito melhor. Houve algo que se manteve, contudo: o papel central de Pamelia Kurstin na música do grupo. Nunca se viu em Sines alguém a "tocar" theremin, o estranho instrumento literalmente intocável que os russos desenvolveram nos anos 20 do século passado (e para o qual Lenine chegou a receber aulas), e a estreia coube, felizmente, a uma das suas mais incríveis intérpretes." VÍDEO

6. Yasmin Levy @ FMM (29/7)
Em 2009, o FMM ofereceu-nos Mor Karbasi. Em 2010, tivemos direito a Yasmin Levy, uma voz para a qual faltam adjectivos na língua portuguesa, uma actuação de fazer mexer com todos os sentidos. VÍDEO

7. Master Musicians Of Bukkake @ ZDB (17/10)
O reino dos MMB veio até nós. Antes mesmo do espectáculo começar, o cenário do palco dava desde logo a perceber que aquilo a que ali íamos assistir seria muito diferente do habitual. Em inúmeros aspectos. Hoje, que vivemos cada vez mais o tempo das imagens, o tempo do parecer em detrimento do ser, toda a actuação dos MMB, com todo aquele aparato cénico, podia cair dentro do saco das futilidades com que frequentemente somos brindados na música que vai sendo feita por aí, mas ali há muito mais do que cenário. Há até, pasme-se, profissionalismo e naturalidade em palco, como demonstrou o incidente em que a energia eléctrica foi abaixo e o colectivo continuou a tocar em formato acústico até o fuzz voltar aos amplificadores, sem nunca parar o tema. Houve até quem não se tivesse apercebido do incidente. VÍDEO

8. Faust & James Johnston @ Maria Matos (6/10)
E eis que tivemos a oportunidade de ver os Faust-que-não-eram-os-outros-Faust, os Faust-que-são-mais-malucos-do-que-os-outros-Faust, que o diga quem depois teve que limpar o palco do Maria Matos depois da encenação quase fiel, imaginamos, do apocalipse. Cereja no topo do bolo: a guitarra tresloucada de James Johnston, o eterno Gallon Drunk. VÍDEO

9. Liquid Liquid @ Primavera (29/5)
Já andamos todos um pouco fartos dos regressos de bandas míticas dos anos 70, 80 ou 90, não? Não são poucas vezes que saímos com aquela sensação de "naquele tempo deve ter sido bom, e esta apresentação é um documento importante para nós que não vivemos essa época" -- ao que imediatamente pensamos (ou dizemos entredentes) -- "mas foi uma seca do cacete". Ou, ainda pior, "eh pá, eles só voltaram para meter dinheiro ao bolso por conta dessas mentes nostálgicas que por aí pairam". Mas a actuação dos Liquid Liquid esteve o mais distante possível disso que possa haver. Este foi um dos casos raros em que que saímos a dizer "porra, isto faz todo o sentido hoje; FESTÃO como 99% dos miúdos que por aí andam não sonham conseguir vir a fazer." Ou algo do género. VÍDEO

10. Les Savy Fav @ Primavera (28/5)
Para quem gosta de loucos à solta num palco (E FORA DELE!) pouca concorrência haverá para os Les Savy Fav (esperem pelos Monotonix em Fevereiro). Convenhamos, às tantas já não sabemos se é só da performance do Tim Harrington (talvez seja, que os discos não são propriamente interessantes), mas que importa isso? É uma experiência como poucas. Já agora, se viram o vídeo dos Liquid Liquid, no posto acima, hão-de reparar na aparição do Tim. VÍDEO

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Faust em Lisboa!

Calma, é só para Outubro, ainda sem dia definido, mas fica desde já dada a notícia: os alemães Faust, pioneiros do kraut, vão subir ao palco do Maria Matos, para um concerto produzido em parceria entre o teatro e a ZDB. Como é sabido, o grupo encontra-se hoje dividido em duas formações homónimas. Em 2006, vieram à Casa da Música com a banda liderada pelo fundador Hans Joachim Irmler. Quem virá em Outubro ao Maria Matos será a outra formação onde se destacam os dois outros fundadores no activo, Werner "Zappi" Diermaier e Jean-Hervé Péron. A ZDB prepara-se ainda para anunciar outras novidades em redor deste espectáculo.
Uma outra boa surpresa do programa 2010-2011 recentemente anunciado pelo Maria Matos é a vinda do islandês Jóhann Jóhannsson (falei dele aqui, em tempos), em Setembro.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Peripécias

(Alerta geral! alerta geral! Post pessoal! Post demasiado pessoal!) São três e vinte da manhã e só agora chego a casa, depois de ter ficado apeado por baixo de um viaduto, sem gasolina, a primeira vez que isto acontece em 14 anos de carta, é preciso que seja dito, depois da primeira estação de serviço não aceitar o multibanco, e, acabo já esta frase pouco dada a respirações, como se estivesse armado em Saramago, desculpem lá, voltando ao que dizia, depois de um estupendo, um devastador, um inclassificável concerto dos Akron/Family. Ufa. A expectativa era muita, conforme terão reparado nas postagens anteriores, carregadas de vídeos que testemunham a passagem destes friques de Brooklyn por outros palcos. Mas nada do que se passou esta noite pelo Musicbox foi menos bom do que aquilo deixava perceber, e se já era difícil superar tantas expectativas, próprias já só de um puto que noutros tempos aguardaria impacientemente concertos de Jesus and Mary Chain ou Nick Cave, como explicar que esta noite foi ainda melhor do que aquilo que se esperava? Por outro lado, como não haveremos nós de reagir perante tipos simples e humildes que tocam bem e suam em palco (conseguido com que a plateia os acompanhe nessa missão), enquanto esticam os limites da imaginação melómana ao jogarem os Can e os Faust com a free folk marada norte-americana, as polifonias do gospel com as polifonias das guitarras? Foi uma noite inesquecível. Como o meu chapéu, assim que o comprar, se este não for um dos concertos do ano. Não fosse ter que trabalhar na terça-feira e eu vos diria quem estaria em Braga amanhã. Há bandas que merecem esse sacrifício e os Akron/Family, por voltarem a fazer-me sentir um puto a descobrir a alegria que é ver um concerto, preenchem inapelavelmente o requisito. Akron/Family ou Angels of Light, voltem, já.

sexta-feira, 14 de abril de 2006

E viva o Porto

Hoje:

Casa da Música: Faust + Dälek
O Meu Mercedes é Maior que o Teu: This is Your Captain Speaking

(Mais uma vez:) que faço eu aqui?

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Uma racha no crâneo (por Fernando Magalhães)

Os discos importados e as interferências da rádio, a bizarria progressiva, o krautrock e o ódio ao punk. Mas o que realmente fica é a revelação de que os perigos que o consumo e audição desenfreados de álbuns podem não ser psicológicos. É o que acontece quando um disco dos Public Image Ltd nos acerta em cheio no crâneo.


O disco que mais me marcou em toda a minha vida foi, sem dúvida, "Metal Box", dos Public Image Lda. Vinha embalado numa caixa circular em metal. Calhou, numa certa data fatídica, cair da estante em que se encontrava, atingindo-me em cheio no crâneo. Fiquei marcado para sempre. Cinco pontos no occipital mais um trauma profundo que me fez odiar para sempre John Lydon e a música dos PIL. Foi, de qualquer forma, o contacto mais físico que alguma vez tive com um disco.

Mas a minha relação com a música popular e com os discos começara muitos anos antes do acidente. Carregando na tecla "rewind", chego a 1968, aos 13 anos de idade. Como ainda não possuía gira-discos, ouvia rádio. Aliás, como toda a gente interessada pela música nessa época. Só mais tarde me apercebi dos perigos, não só lesivos da integridade física, como, sobretudo, psicológicos, que o consumo e audição desenfreados de álbuns de música pop/rock implicava.

No início, ouvir música era uma actividade inocente. Fixava o nome de canções, por vezes tomava notas ou elaborava as minhas próprias listas de preferências. Lembro-me de escutar até ao enjoo, quer obras-primas como "The Dock Of The Bay", de Otis Redding, quer coisas tão prosaicas como "The Legend Of Xanadu", de Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick and Tich ou "Bonnie & Clide", de George Fame. "Light My Fire", escutei-a pela primeira vez na voz de José Feliciano. Quando ouvi o original, dos Doors, senti-me chocado. A voz de Jim Morrison não tremia o suficiente...

Fui passando o tempo desta maneira até que, na transição para a década de 70, a loucura explodiu, tornando-se galopante como o passar dos anos. Um programa da Rádio Renascença fez nascer em mim o gosto pelas músicas bizarras e pelas sonoridades mais retorcidas da então emergente "música progressiva", esse papão das décadas seguintes. Chamava-se o programa Página Um, com locução e realização de José Manuel Nunes. Abriram-se mundos. Cada audição de ábuns com o selo de editoras, como a Vertigo, Island, Harvest ou Neon constituía uma descoberta: Trees, Savoy Brown, Jethro Tull, Forest, Incredible String Band, Gracious, The Greatest Show on Earth, Warm Dust, Quatermass eram nomes que se me iluminavam na imaginação envolvidos numa mística própria. A música tinha cor e sabor. Nas discotecas (por vezes minúsculas lojas de electrodomésticos) encontravam-se muitos desses discos (invariavelmente com capas de abrir) que hoje são preciosidades para o coleccionador. Comprei uns tantos e desdenhei uma quantidade de outros. "It's All Work Out In Boomland", dos T2, "Ben", dos Ben, "Pre-Flight", dos Room, "Three Parts Of My Soul", dos Dr. Z, "The Polite Force", dos Egg, "Sorcerers" dos Jan Dukes de Grey, entre outras raridades, passaram-me pelas mãos...

Também ganhei o hábito de escutar -- em péssimas condições, diga-se de passagem, tal a quantidade de interferências -- a Rádio Luxembourg, só por causa de um programa chamado Dimensions. A locução estava a cargo de Kid Jensen, que hoje ganha a vida a fazer anúncios de colectâneas saudosistas no Quantum Channel, mas nessa altura era um guru, concorrente de John Peel. Por vezes passava faixas inteiras, interessantíssimas, de 20 minutos, de bandas desconhecidas. Quem seriam? Terrível expectativa. Quando, finalmente, o Kid se prestava a revelar o segredo, lá vinha a onda de ruído tapar a audição do nome do intérprete. Mas lá fui apanhando uns quantos nomes: Focus, Clarck Hutchinson, Dando Shaft, Mogul Trash, entre dezenas de outros que hoje preenchem o catálogo de reedições em compacto da Repertoire.

Claro que, entretanto, a compra de álbuns já se tornara um imperativo estético e moral (há quem lhe chame vício). Com o "pequeno" senão da mais do que frequente falta de liquidez obstar a aquisição de todos os objectos de desejo. Acabei por descobrir que saía mais barato mandar vir os discos de fora. Através de firmas exportadoras como a Tandy's e, mais tarde, a COB. Horas e horas de angústia, com as semanas a passar devagar, até a campainha da porta tocar, por fim, de uma forma especial, e aparecer-me pela frente o carteiro segurando nas mãos o mágico embrulho de cartão. Rasgado furiosamente o pacote, seguia-se o prazer da revelação, o manuseamento da capa, terminando na audição de álbuns que muitas vezes encomendava sem nunca os ter ouvido antes, apenas pela foto da capa ou pela leitura de uma crítica mais sugestiva no "Melody Maker", no "New Musical Express" ou nas revistas francesas "Rock & Folk" e "Best". Muitas vezes por simples intuição.

Anos de magia, em que parecia dispor de todo o tempo para ouvir um disco, as vezes que quisesse, até conhecer de cor as letras e as melodias. Um, dois por mês, chegavam, a princípio, para me ocupar até à encomenda seguinte. Depois, à medida que as posses iam aumentando, aumentava proporcionalmente o ritmo de compra com o consequente descalabro económico. Era o vício a ditar as suas leis.

Foram esses os anos do deslumbramento, da procura inflamada da criatividade e da diferença que determinariam a partir daí a minha forma de ouvir música.

A aventura continuou por outras descobertas e latitudes. Do "krautrock" (Tangerine Dream, Harmonia, Cluster, Kraftwerk, Neu!, Yatha Sidhra, Release Music Orchestra, Parzival, Klaus Schulze, Eroc, Wallenstein, as edições originais encontravam-se com facilidade...), dos tesouros de Canterbury (Soft Machine, Hatfield and the North, Caravan, Khan, Gong, Gilgamesh, National Health, Kevin Ayers...) das pérolas da Virgin (David Vorhaus, Comus, Henry Cow, Faust...). E ouvia os programas de rádio do António Sérgio. Até ao ano da grande desilusão: 1976. Confesso: odiei o "punk" desde o primeiro momento. Curiosamente, foi o mesmo António Sérgio o primeiro a divulgar a praga em Portugal. Ouvia e amaldiçoava os Sex Pistols, Sham 69, X-Ray Spex, 999, The Damned (apesar de Lol Coxhill tocar num dos seus discos...). A salvação chegou dos Estados Unidos, com os Suicide, Devo, Talking Heads, Pere Ubu. A Inglaterra contribuiu com os Cabaret Voltaire e os Human League, de "Reproduction", "Travelogue" e do EP "The Dignity Of Labour".

O passo seguinte foi o mergulho insano nos "industriais" (o que prejudicou grandemente a minha saúde mental). O lema era Einstürzende Neubauten, Test Department e SPK; bidões, Black & Decker e martelos pneumáticos. Mas antes o fogo e metal das fábricas do apocalipse que o pontapé na avó da punkalhada.

Com a chegada dos anos 80, após um flirt com a Made To Measure (Hector Zazou, Daniel Schell, Benjamin Lew & Steven Brown) transferi-me com armas e bagagem para o universo da Recommended Records, onde o espírito do Progressivo adquirira novas formas de beleza e esquizofrenia criativa: Roberto Musci & Giovanni Venosta, Doctor Nerve, Jocelyn Robert, Biota, Steve Moore, Wha Ha Ha, Boris Kovac, Non Credo, Wondeur Brass... Alguém se deve lembrar de uma certa lista dos melhores álbuns dos anos 80 que apareceu publicada, em duas semanas, consecutivas, no jornal "Blitz"... Quando, por fim, já nos anos 90, comecei a escrever sobre música, a razão deu início à sua actividade de médico legista. Mas as autópsias não conseguiram arrefecer a paixão. Foram milhares e milhares de sons sulcados pela agulha do gira-discos e pelo laser do CD que sulcaram igualmente a minha alma.

Discos da minha vida, há vários. Contudo, apenas um me fez chorar, quando o ouvi pela primeira vez: "Pawn Hearts" dos Van der Graaf Generator, onde percebi que a santidade e a loucura podiam ser só uma e a mesma coisa e coexistir num homem só. Fui conferindo a minha própria loucura pelos poemas e pela música de Peter Hammill. Estremeci com "In Camera", que me fez compreender onde termina uma canção e começa o inferno.

É verdade, e a folk? Essa é outra história. Uma história de amor sem o reverso da medalha. Encetou-se em 1969 quando uma amiga me ofereceu "Liege & Lief" dos Fairport Convention. A partir daí fluiu como um rio com o caudal cada vez mais forte. Até hoje.

Termino com uma lista (não há quem lhes resista) de dez discos cujas primeiras audições, no mínimo, me fizeram acreditar que a música popular pode ser algo mais do que uma maquinação da indústria. Discos que me fizeram sentir o mesmo frémito da "primeira vez":

"Ummagumma" (o disco de estúdio) (Pink Floyd, 69)
"Acquiring the Taste" (Gentle Giant, 70)
"Magma" (Magma, 70)
"Faust" (Faust, 71)
"Ege Bamyasi" (Can, 72)
"The Henry Cow Leg End" (Henry Cow, 73)
"Rock Bottom" (Robert Wyatt, 74)
"Autobahn" (Kraftwerk, 74)
"Suicide" (Suicide, 77)
"Low" (David Bowie, 77)
"Berlin" (Art Zoyd, 87)


Fernando Magalhães
Supl. Sons, Público
08/01/99