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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Tributo aos Crise Total
A editora londrina Subsoundz está a convidar grupos a participarem no álbum de tributo aos Crise Total. Já se encontram inscritos Factor C, Tiro no Escuro, Artigo 19, Simbiose (com "Derrame de Sangue"), Revolta, Cães Portugueses (com "Sociedade Degradada"), Konad, Crise Quase Total (com "Pátria Amada"), Reltih (com "Holocausto"), Coluna de Ferro, Ervas Daninhas, Evil Class, Albert Fish ("Autista"), Estado de Sítio ("Foi Portugal"), Renegados de Boliqueime ("Assassinos no Poder"), Subcaos, Dawnrider, Corvos Anais ("Crise Total"), The Sadists, R12 ("Santa Inocência") e Barafunda Total. Os restantes interessados devem contactar a Subsoundz através do mail smoothal@fsmail.net ou o próprio Manolo dos Crise Total em myspace.com/manoloxines.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
25 anos de Crise Total
3 de Outubro, 22h - Porto, Porto-Rio (com Varukers, Dokuga e Motornoise)
4 de Outubro, 20h - Linda-a-Velha, Academia (com Varukers e Dr. Bifes e os Psicopratas)
A banda está a lançar também "Bem Viva no RRV", recuperação em em disco de temas gravados ao vivo no RRV e agora remasterizados. A velha guarda lembrar-se-á de uma cassette com essas mesmas gravações que andou a circular de mão em mão (a propósito, para quem não sabia, a voz que encerra uma das mixes no myspace do Bailarico Sofisticado resulta daí...)
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Espelho Meu - História do Rock Português
77, António Sérgio, António Variações, Aqui del Rock, Ban, Baton Rouge, Bunnyranch, Cães Vadios, Cameraman Metalico, Capitão Fantasma, Censurados, Conjunto Mistério, Corpo Diplomático, Crise Total, D3Ö, Delfins, Filipe Mendrix, GNR, Heróis do Mar, Joaquim Costa, Legendary Tigerman, M'as Foice, Mão Morta, Mata Ratos, Mler if Dada, Moonspell, Peste e Sida, Pop dell'Arte, Quarteto 1111, Rádio Macau, Rui Veloso, Sheiks, Street Kids, Tédio Boys, Telectu, UHF, Victor Gomes, Xutos e Pontapés.
Que fazem todos estes nomes juntos? São as figuras das 38 pinturas que integram a exposição "Espelho Meu - História do Rock Português" que vai estar patente no Santiago Alquimista a partir do próximo sábado, 1 de Março. As obras "Espelho Meu" são da autoria de Sardine & Tobleroni, uma dupla de artistas plásticos residente em Londres. Sardine é português e muita gente já o conheceu como Victor Silveira, como Victor Torpedo ou como Vitinho (sim, o dos Tédio Boys e dos Parkinsons). Tobleroni é o suíço Jay Rechsteiner. A exposição é inaugurada no próximo sábado, com um concerto dos Pop Dell'Arte e um dj set dos Bunnyranch.
CORRECÇÃO: A exposição estará patente no Alquimista apenas no sábado, já que depois vai fazer um percurso pelo país.
Que fazem todos estes nomes juntos? São as figuras das 38 pinturas que integram a exposição "Espelho Meu - História do Rock Português" que vai estar patente no Santiago Alquimista a partir do próximo sábado, 1 de Março. As obras "Espelho Meu" são da autoria de Sardine & Tobleroni, uma dupla de artistas plásticos residente em Londres. Sardine é português e muita gente já o conheceu como Victor Silveira, como Victor Torpedo ou como Vitinho (sim, o dos Tédio Boys e dos Parkinsons). Tobleroni é o suíço Jay Rechsteiner. A exposição é inaugurada no próximo sábado, com um concerto dos Pop Dell'Arte e um dj set dos Bunnyranch.
CORRECÇÃO: A exposição estará patente no Alquimista apenas no sábado, já que depois vai fazer um percurso pelo país.
sexta-feira, 13 de outubro de 2006
Um pedido de desculpas aos Crise (Quase) Total
ESCLARECIMENTO: Não conhecia o "Pátria Amada", mas o Escrito teve a gentileza de deixar a letra nos comentários à anterior postagem e, afinal, não é mais do que um exercício de ironia que não foi apanhado no mau som e que ainda foi prejudicado por ver tantas caras do tempo do Marão (um dos principais covis de boneheads do Bairro Alto). Atenção, que não fui o único a ficar com essa impressão. Resta deixar um (enorme) pedido de desculpas à banda...
Afinal, os pretos é que valeram, oi!
Mas o melhor da noite -- ah, falta dizer que a noite era do Rigo, artista plástico madeirense radicado em São Francisco, que ontem viu ser inaugurada uma exposição retrospectiva, e que bela exposição, da sua carreira, na zdb -- veio com o duo de balafons do guineense Kimi Djabaté. Ainda hoje de manhã ressoam pela cabeça os terrivelmente hipnotizantes sons das madeiras e cabaças...
segunda-feira, 19 de dezembro de 2005
No mê tempo...
Rock Rendez Vous, 25 anos depois. É sob este título que o mui estimável Nuno Galopim recorda aquele mítico espaço lisboeta numa das mais recentes postagens publicadas no sound+vision (sound--vision.blogspot.com), o blogue que comanda a meias com o João Lopes. É sempre bom manter a memória acesa nas boas e nas más circunstâncias, e estas são, efectivamente, boas recordações para o rock português. Porém, essa "mirada al pasado" corre sempre o risco de ser injusta se, em seu nome, nos esquecemos daquilo que nos rodeia actualmente. Passamos a viver daquilo que já foi, sem notarmos que aqui mesmo ao nosso lado, há algo que está a ser. É isso que pode acontecer quando dizemos, como faz o Nuno, que "Lisboa não tem há 15 anos um clube de rock activo e interventivo como aquele foi" ou quando não faz nenhuma referência a um espaço dos que existem, mas somente, e sem tirar o olhar do passado, aos que eram para ser, como o rockodrómo (a propósito, esse acabou por ser o Atlântico -- não é um sonho por cumprir) ou o abortado clube de rock no cinema São Jorge. Não há sequer uma referência, por mais baixo que fosse o rodapé, à ZDB ou ao Santiago Alquimista, por exemplo (ainda que este último esteja longe de se enquadrar no meu espírito de clube de rock que tento expor um pouco mais à frente).
Eu nunca meti os pés no Rock Rendez Vous, admito. Até aos 16 anos, não cheguei a ter autorização dos pais para ir a concertos que acabavam quando o sol começava a nascer. Claro que, ao longo de todos estes anos, os meus ouvidos passaram a destilar inveja de tanto testemunho que ouvi, de tanto concerto gravado que escutei quase religiosamente: Mão Morta, Bourbounese Qualk, Crise Total, Emílio e a Tribo do Rum, João Peste & O Acidoxibordel, Ku de Judas, N.A.M., Ocaso Épico, Pop Dell'Arte, Xutos & Pontapés...
Com a experiência do Johnny Guitar, do qual me tornei um cliente assíduo, comecei a formar opinião em relação ao que devia ser um clube de rock. Não são regras, mas antes um conjunto de características que tornam estes espaços únicos e, ao mesmo tempo, tão importantes no universo cultural e social em que se inserem. Não tenho dúvida que o essencial dessas características terá ajudado a fazer nascer o mito do RRV e que, por outro lado, foi a ausência destas na segunda metade dos anos 90 que terá deixado perceber o quanto se fazia notar o encerramento do Johnny Guitar.
Primeiro, deve ter regularidade de programação, para que acabe por ser um poiso habitual para quem gosta de ver música ao vivo.
Segundo, convém que haja alguma personalidade na programação. Não quer isto dizer que não possa ser ecléctico. Tem de o ser. Mas não sem algum rigor, na tentativa de juntar todos os tipos de públicos possíveis. E, a bem da verdade, a avaliar pelos testemunhos de então, o RRV nem observava particularmente este ponto. Tudo o que havia, lá ia parar. Diz-se também que os públicos de então eram menos exigentes...
Terceiro, e talvez a mais importante das características, pelo menos no que diz respeito aos efeitos que produz, deve promover o convívio entre os amantes da música, os músicos, os jornalistas, os editores, os promotores, etc. Quantas bandas não terão nascido à volta de alguns copos de cerveja no RRV ou no Johnny? Ou, se não quisermos ir tão longe, quantas bandas não nasceram depois de fulano ter conhecido cicrano nos encontros regulares num daqueles espaços para verem esta ou aquela banda tocar? E publicações? E contactos para edição?
Quarto, e não menos importante, note-se, deve ter condições para sobreviver comercialmente.
Continuar com o mesmo discurso saudosista que tínhamos na segunda metade dos anos 90 (e ainda por alguns anos deste novo século), com alguma razão de ser -- não havia nada! -- é como que passar ao lado da vitrina da ZDB, na rua da Atalaia, e preferir ignorar o que ali se passa. Tal como diz o Nuno em relação aos outros tempos, ali também há "entusiasmo". Ali também há uma "programação regular". Ali também há um "público fiel". Ali também se está a assistir ao nascimento de muitas e diversas cenas, começando pelas bandas e projectos que a partir dali se formam, porque as pessoas interessadas se cruzam naquele espaço com regularidade, naquela imagem de ponto de encontro do rock que tantas vezes é referido para lembrar o RRV. O serviço que aquele espaço presta, enquanto anfitrião de todas estas vontades e de todos estes entusiasmos, é também igualmente determinante para o Portugal musical, para usar a expressão exagerada do Nuno, dos tempos que correm.
Diz o Nuno que em 10 anos de RRV houve 1500 concertos. Em dois anos e pouco mais de "zdbmüsique" já quase mil bandas ou artistas a solo passaram pela ZDB. Ignorar isto é como ficar a olhar para o autocarro que passou, quando acaba justamente de chegar outro já com as portas escancaradas.
Projectos como os Dead Combo, os Loosers, os CAVEIRA, os Vicious Five, os Bypass ou o Legendary Tigerman, entre muitos outros, são tão relevantes (ou deviam ser) para os tempos actuais como os Mão Morta ou os Pop Dell'Arte foram para os anos 80. Olhe-se também para o número, impensável até há uns anos atrás, de projectos internacionais, oriundos das cenas alternativas mais alternativamente mediáticas do momento, se assim se pode dizer, que tem aparecido por lá. E sem ser uma programação elitista, no pior sentido da palavra, como o preconceito que começa a surgir por aí parece indicar: de cantautores a autênticos destruidores de palco, da electrónica fria ao calor da música africana, entre muitas outras alternativas, respira-se um grande ecletismo por ali, sem se cair em demasia na facilidade.
Será que é pela diferença na dimensão física dos espaços? O RRV estava quase sempre vazio, dizem uma vez mais os testemunhos, principalmente se se tratava de bandas portuguesas, como acontecia nos concursos. Se se trata de uma questão de tamanho, tenho conhecimento de pelo menos três projectos mais ou menos encaminhados, na Grande Lisboa, por mão de três entidades diferentes. Vamos a ver se têm "público fiel" para os manter...
Não leves a mal, Nuno, mas esses exercícios de nostalgia podem ter contra-indicações... (e vê se colocas comentários no blogue)
Eu nunca meti os pés no Rock Rendez Vous, admito. Até aos 16 anos, não cheguei a ter autorização dos pais para ir a concertos que acabavam quando o sol começava a nascer. Claro que, ao longo de todos estes anos, os meus ouvidos passaram a destilar inveja de tanto testemunho que ouvi, de tanto concerto gravado que escutei quase religiosamente: Mão Morta, Bourbounese Qualk, Crise Total, Emílio e a Tribo do Rum, João Peste & O Acidoxibordel, Ku de Judas, N.A.M., Ocaso Épico, Pop Dell'Arte, Xutos & Pontapés...
Com a experiência do Johnny Guitar, do qual me tornei um cliente assíduo, comecei a formar opinião em relação ao que devia ser um clube de rock. Não são regras, mas antes um conjunto de características que tornam estes espaços únicos e, ao mesmo tempo, tão importantes no universo cultural e social em que se inserem. Não tenho dúvida que o essencial dessas características terá ajudado a fazer nascer o mito do RRV e que, por outro lado, foi a ausência destas na segunda metade dos anos 90 que terá deixado perceber o quanto se fazia notar o encerramento do Johnny Guitar.
Primeiro, deve ter regularidade de programação, para que acabe por ser um poiso habitual para quem gosta de ver música ao vivo.
Segundo, convém que haja alguma personalidade na programação. Não quer isto dizer que não possa ser ecléctico. Tem de o ser. Mas não sem algum rigor, na tentativa de juntar todos os tipos de públicos possíveis. E, a bem da verdade, a avaliar pelos testemunhos de então, o RRV nem observava particularmente este ponto. Tudo o que havia, lá ia parar. Diz-se também que os públicos de então eram menos exigentes...
Terceiro, e talvez a mais importante das características, pelo menos no que diz respeito aos efeitos que produz, deve promover o convívio entre os amantes da música, os músicos, os jornalistas, os editores, os promotores, etc. Quantas bandas não terão nascido à volta de alguns copos de cerveja no RRV ou no Johnny? Ou, se não quisermos ir tão longe, quantas bandas não nasceram depois de fulano ter conhecido cicrano nos encontros regulares num daqueles espaços para verem esta ou aquela banda tocar? E publicações? E contactos para edição?
Quarto, e não menos importante, note-se, deve ter condições para sobreviver comercialmente.
Continuar com o mesmo discurso saudosista que tínhamos na segunda metade dos anos 90 (e ainda por alguns anos deste novo século), com alguma razão de ser -- não havia nada! -- é como que passar ao lado da vitrina da ZDB, na rua da Atalaia, e preferir ignorar o que ali se passa. Tal como diz o Nuno em relação aos outros tempos, ali também há "entusiasmo". Ali também há uma "programação regular". Ali também há um "público fiel". Ali também se está a assistir ao nascimento de muitas e diversas cenas, começando pelas bandas e projectos que a partir dali se formam, porque as pessoas interessadas se cruzam naquele espaço com regularidade, naquela imagem de ponto de encontro do rock que tantas vezes é referido para lembrar o RRV. O serviço que aquele espaço presta, enquanto anfitrião de todas estas vontades e de todos estes entusiasmos, é também igualmente determinante para o Portugal musical, para usar a expressão exagerada do Nuno, dos tempos que correm.
Diz o Nuno que em 10 anos de RRV houve 1500 concertos. Em dois anos e pouco mais de "zdbmüsique" já quase mil bandas ou artistas a solo passaram pela ZDB. Ignorar isto é como ficar a olhar para o autocarro que passou, quando acaba justamente de chegar outro já com as portas escancaradas.
Projectos como os Dead Combo, os Loosers, os CAVEIRA, os Vicious Five, os Bypass ou o Legendary Tigerman, entre muitos outros, são tão relevantes (ou deviam ser) para os tempos actuais como os Mão Morta ou os Pop Dell'Arte foram para os anos 80. Olhe-se também para o número, impensável até há uns anos atrás, de projectos internacionais, oriundos das cenas alternativas mais alternativamente mediáticas do momento, se assim se pode dizer, que tem aparecido por lá. E sem ser uma programação elitista, no pior sentido da palavra, como o preconceito que começa a surgir por aí parece indicar: de cantautores a autênticos destruidores de palco, da electrónica fria ao calor da música africana, entre muitas outras alternativas, respira-se um grande ecletismo por ali, sem se cair em demasia na facilidade.
Será que é pela diferença na dimensão física dos espaços? O RRV estava quase sempre vazio, dizem uma vez mais os testemunhos, principalmente se se tratava de bandas portuguesas, como acontecia nos concursos. Se se trata de uma questão de tamanho, tenho conhecimento de pelo menos três projectos mais ou menos encaminhados, na Grande Lisboa, por mão de três entidades diferentes. Vamos a ver se têm "público fiel" para os manter...
Não leves a mal, Nuno, mas esses exercícios de nostalgia podem ter contra-indicações... (e vê se colocas comentários no blogue)
quarta-feira, 27 de abril de 2005
Mais bandas portuguesas de outros tempos que podiam ser (re)editadas
Sendo a próxima edição das canções perdidas dos Émasfoi-se um momento importante do rock português, como se falava ontem, a ocasião faz também lembrar que há mais património perdido nos tempos, à espera de ser recuperado. Assim sendo, aqui vai uma escolha breve:
1. OCASO ÉPICO
Origem: Lisboa; Época: anos 80.
"Muito Obrigado", o único álbum dos Ocaso Épico, não reflectia de uma forma inteiramente fiel o reportório avant-pop que o grupo do falecido Farinha apresentava nos concertos, mas é, ainda assim, um objecto incontornável da chamada música moderna portuguesa.
2. CORPO DIPLOMÁTICO
Origem: Lisboa; Época: 1979-80.
Talvez a versão que os Mão Morta fizeram recentemente de "Kayatronic" recupere o interesse das pessoas num dos mais importantes projectos pós-punk cá da terra. Na transição entre os Faíscas e os Heróis do Mar, os Corpo Diplomático sobreviveram pouco tempo, mas deixaram um documento, o álbum "Música Moderna", que merece ser reeditado um dia destes.
3. LUCRETIA DIVINA
Origem: Viseu; Época: transição 80s/90s.
José Valor faleceu há alguns meses, Rini Luyks é visto habitualmente pelas ruas da baixa de Lisboa já sem o seu acordeão às costas e Alagoa desapareceu sem deixar rasto. Os três formaram um dos mais divertidos e empolgantes projectos que a MMP conheceu. As danças de tradição europeia com um cheirinho de folclore francês dado pelo acordeão de Luyks, ao que se juntava as programações minimais e tuxedomoonianas de Valor mais a postura dramatico-provocatória de Alagoa, ficaram retratadas num único CD, editado sob condições mais ou menos obscuras, por volta de 1993.
4. OS PUNKS
Origem: essencialmente Lisboa e arredores; Época: essencialmente finais dos anos 70.
Não será um facto conhecido e até pode surpreender muito boa gente, mas a verdade é que os estilhaços do punk demoraram muito pouco tempo a fazerem sentir-se em Portugal, ou melhor, pela zona de Lisboa. Em 1978, os Aqui d'El Rock davam o seu primeiro concerto. Mais ou menos pela mesma altura, outros projectos declaradamente punk surgiriam, como os Faíscas, os Minas & Armadilhas ou os UHF. Tocavam mal que doía e tinham letras de fugir, mas existiram e alguns deles continuaram ou deram origem a outros grupos com peso mediático nos dias de hoje. Não eram muitos, mas tinham uma legião de punks fiéis que passava os concertos a fazer pogo e a cuspir para o ar. Poucos anos depois, viria ainda a vaga do hardcore, com os Ku de Judas, N.A.M. ou Crise Total, entre outros. Poucos registos sonoros terão sobrado e fala-se destes grupos quase como um biólogo fala de expécies extintas há milhões de anos. Pode ser um trabalho difícil, mas justificava-se uma compilação que recuperasse o punk português.
Certamente que muitos outros projectos ficaram esquecidos no tempo. Este é apenas um esforço de memória superficial, porventura demasiado centralizado na cena lisboeta, como espero que se entenda. Se tiverem outras ideias, deixem-nas em comentário. Não deixarmos de falar das coisas já é darmos um passo valente no sentido de não nos esquecermos delas.
1. OCASO ÉPICO
Origem: Lisboa; Época: anos 80.
"Muito Obrigado", o único álbum dos Ocaso Épico, não reflectia de uma forma inteiramente fiel o reportório avant-pop que o grupo do falecido Farinha apresentava nos concertos, mas é, ainda assim, um objecto incontornável da chamada música moderna portuguesa.
2. CORPO DIPLOMÁTICO
Origem: Lisboa; Época: 1979-80.
Talvez a versão que os Mão Morta fizeram recentemente de "Kayatronic" recupere o interesse das pessoas num dos mais importantes projectos pós-punk cá da terra. Na transição entre os Faíscas e os Heróis do Mar, os Corpo Diplomático sobreviveram pouco tempo, mas deixaram um documento, o álbum "Música Moderna", que merece ser reeditado um dia destes.
3. LUCRETIA DIVINA
Origem: Viseu; Época: transição 80s/90s.
José Valor faleceu há alguns meses, Rini Luyks é visto habitualmente pelas ruas da baixa de Lisboa já sem o seu acordeão às costas e Alagoa desapareceu sem deixar rasto. Os três formaram um dos mais divertidos e empolgantes projectos que a MMP conheceu. As danças de tradição europeia com um cheirinho de folclore francês dado pelo acordeão de Luyks, ao que se juntava as programações minimais e tuxedomoonianas de Valor mais a postura dramatico-provocatória de Alagoa, ficaram retratadas num único CD, editado sob condições mais ou menos obscuras, por volta de 1993.
4. OS PUNKS
Origem: essencialmente Lisboa e arredores; Época: essencialmente finais dos anos 70.
Não será um facto conhecido e até pode surpreender muito boa gente, mas a verdade é que os estilhaços do punk demoraram muito pouco tempo a fazerem sentir-se em Portugal, ou melhor, pela zona de Lisboa. Em 1978, os Aqui d'El Rock davam o seu primeiro concerto. Mais ou menos pela mesma altura, outros projectos declaradamente punk surgiriam, como os Faíscas, os Minas & Armadilhas ou os UHF. Tocavam mal que doía e tinham letras de fugir, mas existiram e alguns deles continuaram ou deram origem a outros grupos com peso mediático nos dias de hoje. Não eram muitos, mas tinham uma legião de punks fiéis que passava os concertos a fazer pogo e a cuspir para o ar. Poucos anos depois, viria ainda a vaga do hardcore, com os Ku de Judas, N.A.M. ou Crise Total, entre outros. Poucos registos sonoros terão sobrado e fala-se destes grupos quase como um biólogo fala de expécies extintas há milhões de anos. Pode ser um trabalho difícil, mas justificava-se uma compilação que recuperasse o punk português.
Certamente que muitos outros projectos ficaram esquecidos no tempo. Este é apenas um esforço de memória superficial, porventura demasiado centralizado na cena lisboeta, como espero que se entenda. Se tiverem outras ideias, deixem-nas em comentário. Não deixarmos de falar das coisas já é darmos um passo valente no sentido de não nos esquecermos delas.
segunda-feira, 6 de outubro de 2003
Regresso ao passado #4: Pop-Off
Continuando o hábito de fazer estas viagens ao passado em segundas-feiras intercaladas, proponho desta vez a recordação não de uma banda, como aconteceu até agora com os Ik Mux, os Crise Total e os Corpo Diplomático, mas de um programa de televisão que foi enorme no seu tempo, o Pop-Off. Ao longo de três anos, o programa da Latina Europa desempenhou um papel singular na divulgação (e no fomento) da explosão de novas bandas do início da década anterior, quebrou barreiras na comunicação televisiva e formou público. Por tudo isto deixou uma carga enorme de saudades naqueles que sentem que nunca mais se foi tão longe na televisão, que nunca mais se foi tão longe na música servida por imagens. Encontrei o texto que se segue no site do jornalista Jorge P. Pires, um dos operários de texto do programa. O mesmo serviu de entrada na Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dirigida pelos irmãos Luís e João Pinheiro de Almeida, e editada em 1998 pelo Círculo de Leitores:
POP-OFF
O magazine «Pop-Off» foi emitido pela RTP-2 entre Setembro de 1990 e Agosto de 1993, e foi um dos programas que marcaram a imagem e o sentido da produtora independente Latina-Europa, a par do programa infantil «Ícaro» e do magazine juvenil «Lentes de Contacto», entre outras produções. Intencionalmente dedicado à moderna música urbana portuguesa, o «Pop-Off» foi contratado pela RTP - na época em que o responsável pelo Departamento de Programas Musicais e Recreativos era José Nuno Martins - a uma nova empresa de produção televisiva, fundada em 1987 por Paulo Miguel Forte e António Saraiva, que, além da experiência recolhida junto de algumas empresas congéneres europeias, eram já responsáveis por alguma animação no panorama musical da RTP, sendo autores dos primeiros videoclips dos Madredeus e de Júlio Pereira (Paulo Miguel Forte), ou dos Mler Ife Dada (A. Saraiva). A Latina-Europa estreou no Verão de 1989 a sua primeira produção para a RTP, o magazine «Lusitânia Expresso», que além das produções originais incluía blocos de programação consignados por outras produtoras independentes europeias, com as quais a Latina-Europa estabelecera convénios. Com o «Lusitânia Expresso», a RTP abriu-se pela primeira vez à influência das estéticas alternativas em televisão, e exibiu obras paradigmáticas da estética videográfica - como as do polaco Zbig Rybczynski - intercaladas por pequenas ficções, videoclips e curtos documentários sobre a nova geração das artes nacionais, produzidos e realizados por Paulo Miguel Forte e António Saraiva. Ficaram aí registados os primeiros audiovisuais sobre autores como o fotógrafo Daniel Blaufuks, ou o poeta Al Berto. Na sequência do «Lusitânia Expresso», aclamado por críticos tão impenitentes como o decano Mário Castrim, a Latina-Europa conseguiu junto da RTP, em 1990, contratos para novas produções.
O contrato do «Pop-Off» impunha a regularidade de produção de um videoclip original por emissão. Os apresentadores eram Gimba (Eugénio Lopes) e Sofia Morais, uma adolescente que fôra vista pela primeira vez nos estúdios da Latina-Europa enquanto figurante no primeiro videoclip dos Sétima Legião, realizado por António Gutierres. Os textos - cuja elaboração foi inicialmente proposta por José Nuno Martins a João Gobern e José Matos Cristovão - eram de Rui Monteiro, que nesse ano se tornara director do semanário «Blitz». A realização, inicialmente de Paulo Miguel Forte e António Saraiva, ao longo dos meses seguintes foi progressivamente confiada a José Pinheiro e Bruno Niel Costa - o primeiro vinha de um Curso de Formação na RTP; o segundo, francês e ex-estudante universitário de Artes e Estética, com alguma experiência em video, residia há pouco tempo em Lisboa desde que se casara com uma portuguesa.
Desde o início, o programa marcou a diferença. Primeiro pela inacreditável irreverência de Gimba - que, além de apresentador, era também o entrevistador de serviço, e certa vez ofereceu a Rui Reininho 500 escudos para um corte de cabelo novo, pormenor apenas digno de registar devido à reacção gelada do cantor dos GNR. Depois pelo registo de reportagem de rua conseguido por José Pinheiro e Bruno Niel (por vezes em situações quase inacreditáveis), o qual permitia a espontaneidade neste primeiro contacto com a nova geração de músicos - até aí sobretudo mediatizados pelos jornais e pela rádio. Finalmente, pela prossecução e desenvolvimento da estética visual antes experimentada no «Lusitânia Expresso», talvez o melhor trunfo da Latina-Europa, que a dada altura era a única produtora televisiva em Lisboa a dispôr da tecnologia necessária para a obtenção de semelhantes resultados visuais e gráficos no écran televisivo.
A meio da Primavera de 1991, a emissão do videoclip «A Minha Sogra É Um Boi», do grupo Mata-Ratos (realizado por Diamantino Ferreira, que trabalhava com Paulo Miguel Forte no programa «Ícaro») provocou a ira de José Nuno Martins e dos responsáveis da RTP por esta canção incluir a frase «Chutou-me os colhões». Este episódio veio introduzir alguns factores de tensão na Latina-Europa (particularmente porque, apesar de diversos episódios do «Pop-Off» já terem sido emitidos, o contrato do programa ainda não havia sido assinado - e assim a produtora não recebera ainda qualquer pagamento), depois agravados com o mini-folhetim «Cázé Duarte», a história de um artista de subúrbio que quer brilhar na grande cidade. A história, escrita por Rui Monteiro e improvisada por Gimba e por toda a equipa da Latina-Europa (a banda de Cázé Duarte, Os Fatelas, era constituída por Elvis Veiguinha, Manuel Amaro da Costa, realizador do «Lentes de Contacto», Diamantino Ferreira e José Pinheiro) em episódios de 5 minutos por emissão, teve o seu público mas não estava prevista no contrato do programa. O posterior desentendimento entre Paulo Miguel Forte e Rui Monteiro levou à demissão deste. Desde então tornaram-se mínimas as referências às actividades da Latina-Europa nas páginas do «Blitz», embora mais tarde Gimba tenha vindo a colaborar no jornal durante um certo período. Nos tempos seguintes, os textos do programa passaram a ser escritos por Gimba, com a colaboração de Henrique Amaro (então adolescente e locutor de rádio numa estação dos arredores de Lisboa) durante dois meses.
Quando, no entanto, a RTP renovou o contrato do programa por mais um ano, Paulo Miguel Forte convidou o jornalista ( e ex-estudante de Filosofia) Jorge Pires a ocupar-se do programa - o que, para este, significava um regresso à Latina-Europa, que conhecera na fase inicial do «Lusitânia Expresso», cujos textos da primeira série escrevera a partir da oitava emissão, após desistência de Inês Pedrosa, embora o seu nome nunca fosse creditado no genérico do programa (escrevera também o guião da curta-metragem «Body-Chip», realizada por Paulo Miguel Forte e interpretada pelo modelo Ricardo Carriço no seu primeiro desempenho como actor). A sua primeira tarefa, no final de Agosto, consistiu em estruturar o guião de uma reportagem sobre o Rock Rendez-Vous, para a qual Gimba e Henrique Amaro haviam recolhido diversos depoimentos. Quase em simultâneo com Jorge Pires, entraram também para a equipa do «Pop-Off» o músico Tiago Lopes, dos Golpe de Estado (e ex-Linha Geral), que passou a assegurar a sonoplastia do programa, e João Marchante, finalista da Escola Superior de Cinema, que ali colaborou entre Setembro de 1991 e Março de 1992.
Entretanto, as alterações sentidas no meio musical português no início da década de 90 encontravam o seu veículo ideal de expressão: novas editoras independentes, edições de autor, projectos musicais ainda não publicados (como os participantes no concurso de novas bandas organizado pela Câmara Municipal de Lisboa), encontravam no «Pop-Off» um meio de expressão à sua altura. Por isso, o programa passou a preterir o contacto com as editoras em favor do relacionamento directo com os músicos, assumindo por inteiro a sua dupla estratégia: adquirir um estatuto sólido de impulsionador da cena musical, enquanto revelava a actualidade de um mercado discográfico nacional cujos limites se iam progressivamente alargando. O programa introduziu igualmente as formas e a estética de um programa completamente alternativo, que pulverizava os géneros musicais e não se coibia de incluir uma entrevista com o acordeonista Quim Barreiros (no que foi, aliás, pioneiro na televisão portuguesa) ao lado de um videoclip com uma nova e absolutamente desconhecida banda de heavy-metal portuguesa, ou apontamentos de reportagem sobre as profissões adjacentes: os «roadies», os produtores, os radialistas, etc. Além dos textos, as entrevistas e reportagens do programa passaram a ser feitas por Jorge Pires, e o papel da apresentadora Sofia Morais foi reconduzido no sentido da criação de uma figura virtual, puramente videográfica - mas, graças aos excelentes dotes de interpretação de Sofia Morais, capaz de assumir diferentes personalidades e formas. A ideia foi aperfeiçoada a partir da Primavera de 1992, com a caracterização de Alda Salavisa e a colaboração de Cristina Duarte, que passou a assegurar o «styling».
Em Fevereiro de 1992, José Pinheiro interrompeu por algumas semanas as suas funções no «Pop-Off» para acompanhar a romântica viagem até Timor de um navio curiosamente chamado «Lusitânia Expresso»; as muitas horas de reportagem que então obteve permanecem até hoje inéditas. Em Maio desse ano, Bruno Niel Costa abandonou a Latina-Europa para integrar temporariamente o Departamento de Promoções da RTP. O seu último trabalho para o «Pop-Off» foi «B.A.D.», um videoclip dos Zirkus Maximus (uma efémera banda da Azambuja) que foi parcialmente filmado junto dos altos fornos da Siderurgia Nacional e contou com a colaboração da bailarina Mónica Lapa e do actor Duarte Barrilaro Ruas. António Forte, ex-baterista dos Emílio e a Tribo do Rum e dos Osso Exótico, e também ex-assistente de realização do «Ícaro» (que entretanto terminara) juntou-se então à equipa do «Pop-Off» - a par de João Pedro Gomes, ex-estudante da Escola António Arroio e também radialista numa estação dos arredores de Lisboa, que passou a ser o infografista do programa, em substituição do original Zeb.
Ao longo do tempo, cada alteração na equipa do programa teve consequências mais ou menos subtis. A entrada de João Pedro Gomes ocorreu em Junho de 1992, e ficou assinalada pela elaboração de uma «emissão em brasileiro» (onde a voz de João Pedro dobrava a de Sofia Morais, e que foi parcialmente filmada no lote de terreno deixado vazio após a demolição do Rock Rendez-Vous), com que a equipa decidiu saudar a simultânea abertura dos trabalhos da conferência mundial ECO-92 no Rio de Janeiro. Um segundo programa dedicado à ECO-92 foi, na semana seguinte, filmado junto às poluídas margens do rio Trancão, perto de Moscavide. Esta emissão praticamente inaugurou a fase dos «programas de tema», com cuja construção a equipa se ocupou ao longo do Verão e do Outono seguintes: um «Pop-Off policial», um «Pop-Off Side» (em ‘blague’ aos programas desportivos da RTP), um «Pop-Off Star Trek», um «Pop-Off dos Milhões» (‘blague’ aos concursos televisivos), ou um «Pop-Off no ano 2012» são apenas alguns exemplos. A entrada para a equipa de Nuno Tudela, estagiário do Curso Superior de Cinema do Conservatório, foi assinalada pela criação de um «Pop-Off Twin Peaks», para o qual os textos de Jorge Pires foram reescritos com as sílabas em ordem inversa, para que Sofia Morais os lesse nessas condições. A gravação video de Sofia Morais foi depois lida em retrocesso e copiada para um segundo gravador video, de modo a que o estranho resultado final da apresentação se assemelhasse à fala do anão na popular série televisiva realizada por David Lynch. O assistente de realização Jesus Roque, que viria mais tarde a gozar de grande destaque como «o figurante desconhecido», foi também contratado nesta época, bem como Maria João Wolmar, que veio substituir Teresa Albuquerque na assistência de produção.
No início de Setembro, por consulta ocasional de uma revista que continha a programação da RTP-Internacional (que estreara as suas emissões no início de Agosto desse ano), a equipa descobriu que o programa estava a ser emitido semanalmente via satélite, embora num horário diferente (aos domingos à tarde, de acordo com o tempo médio de Greenwich, e era actualmente visto na Madeira e nos Açores.
Faltavam duas semanas para o início das emissões regulares da estação privada SIC quando o «Pop-Off» celebrou a sua centésima emissão, com um programa dos mais arrojados, que incluía uma extensa entrevista com o vocalista dos Ena Pá 2000, Manuel João Vieira. O delírio valeu à equipa uma reportagem do «Diário de Notícias», porque uma jornalista vira a emissão às 2 e meia da manhã (o horário para que a RTP remetera o programa) e ficara curiosa, porque pensava tratar-se de uma estação de televisão pirata. Quando publicada, a reportagem acabaria porém por divulgar diversa informação truncada. Na noite anterior à estreia da SIC, o «Pop-Off» teve uma das suas mais radicais emissões, iniciada com uma mira técnica igual à daquela estação, mas alterada de forma a ler-se «BIC», e dedicada a Nossa Senhora de Fátima: Sofia Morais, nesse papel, voava como o Super-Homem, calçava uns ténis com meias às riscas (como as da Pippi das Meias Altas) e dava conselhos a dois pastorinhos que nunca se fartavam de ver televisão debaixo de uma azinheira, interpretados por João Pedro Gomes e Jesus Roque.
Estimulado pelo facto de estar a ser difundido por satélite, foi neste período que o «Pop-Off» se tornou mais declaradamente semiótico e experimentalista, manipulando e subvertendo os códigos normais de significado, e procurando levar ao ridículo a ideia de que a comunicação televisiva atinge as pessoas no seu último reduto - o lar - e, graças a alguns processos que não cabe aqui enumerar, em regra provoca nelas um efeito perverso: o de ser sucessivamente interpretada como "verdadeira". Se alguma coisa aparece na televisão, não pode ser mentira - e assim, a par de videoclips, reportagens e entrevistas no mais puro estilo realista (todas as entrevistas e reportagens do programa sempre foram feitas «live on tape» e ao primeiro take) e elementos declaradamente falsos e erróneos. Um dos momentos mais apreciados pela equipa foi a produção de um videoclip dos "Fake No More" (com letra de Jorge Pires, música de Tiago Lopes e vocalização de João Pedro Gomes), uma banda inexistente que reunia quase todos os pequenos defeitos e «clichés» das bandas portuguesas. Outro momento célebre aconteceu no programa 110 (emitido a 25.11.92), concebido como um filme mudo e antigo, com intertítulos, saltos e riscos na película.
Quando, em Novembro de 1992, a RTP difundiu, num noticiário da hora de almoço, as primeiras imagens do massacre no cemitério de Santa Cruz, em Dili, a equipa do programa reuniu-se de emergência e concebeu uma resposta imediata, que surgiu na forma de videoclip, com música de Tiago Lopes e letra do rapper General D, naquela que foi a sua segunda intervenção televisiva (a primeira ocorreca exactamente durante uma reportagem do programa com os «rappers» de Miraflores. Oferecido ao noticiário da RTP, o clip seria recusado com uma desculpa fraca, de que o jornalista João Dias Miguel deu conta em notícia publicada no matutino «Público».
Num texto escrito por Jorge Pires e divulgado pela equipa por altura da sua centésima edição, proclamava-se que «Quantos aos lançamentos editoriais das grandes editoras, habituámo-nos a falar com os músicos antes e durante o seu trabalho. Não depois. O princípio do realismo fez-nos preferir que as pessoas falem francamente daquilo que tentam construir, e dos problemas que defrontam para o fazer. Existem outros programas de televisão onde se pode fazer melhor figura e vender mais discos. É possível manter e amplificar a ficção de que existe um país cheio de músicos, que estão cheios de ideias novas. É possível oferecer liberdade de expressão aos músicos portugueses; o Pop-Off nunca se limitou a ser um programa "de rock"; é um programa de música. É possível oferecer aos espectadores a visão do que acontece nas grandes noites dos pequenos concertos, e descobrir o que é que anima toda esta gente que deseja ser músico e ter uma banda. Se tudo isto está a acontecer na televisão, é porque é verdade». Todo este jogo com o sentido e o significado de um programa sobre música moderna portuguesa ajudou a criar códigos e uma identidade própria, bem como um público de culto, que anos depois ainda recordava os melhores momentos. Para isso também contribuiu o lado "verdadeiro" do programa: em 1992/1993 o POP-OFF acompanhou várias histórias com meses de antecedência em relação à imprensa (casos dos álbuns dos Xutos e Pontapés e dos Zero), efectuou várias incursões em reportagem no «país real» (Açores, Porto, Vila do Conde, Ovar, Braga, Évora e Viseu), e conseguiu garantir um razoável equilíbrio na informação sobre as chamadas "bandas de primeira linha" e sobre os grupos completamente desconhecidos do grande público. Ao mesmo tempo, a temática nem sempre se concentrou exclusivamente na música: entrevistaram-se escritores, autores de banda desenhada, editores, radialistas, engenheiros de som, produtores de espectáculos, "roadies", "managers" e, por diversas vezes, público anónimo. Foram várias as bandas reveladas pelo programa, e que graças a ele conseguiram contratos para edição discográfica, quando as editoras perceberam que determinadas canções já tinham um público conhecedor, que as entoava durante os concertos de bandas que não haviam gravado ainda nenhum disco - citem-se os casos dos Ramp, dos LX-90 e dos Braindead.
No seu último ano, e apesar de seleccionado para a RTP-Internacional, o «Pop-Off» não voltou a beneficiar de um contrato de produção anual; em vez disso, teve contratos de 13 episódios, que foram sucessivamente renovados até findarem em Agosto de 1993. Ao longo dos seus três anos de emissão, o «Pop-Off» coleccionou um bonito livro de recortes, repleto de críticas e referências elogiosas na imprensa mas que, na maior parte das vezes, eram completamente alheios ao contexto e aos objectivos da equipa do programa. Melhores momentos: as referências elogiosas feitas pela revista alemã "Metronom", e a reportagem feita em Fevereiro de 1992 pelo programa "Boomerang" da FR3 (Marselha), cuja equipa se deslocou ao estúdio da Latina-Europa e acompanhou um dia na vida do programa.
O programa 133, e último, foi emitido em Agosto de 1993. Era construído como uma ‘blague’ em torno do filme «Terminator 2», com Arnold Schwarzenegger, e, no termo de uma aventura de acção com a esfuziante Sofia Morais e os diversos elementos da equipa do programa (alguns disfarçados de Ninjas para um breve apontamento de «filme kung-fu» - uma das ideias, neste caso de Tiago Lopes, que nunca se concretizaram), o andróide maligno era derrotado. As suas últimas palavras: «I’ll be back». Desde então, a equipa do programa não voltou a reunir-se.
José Pinheiro - seguramente o maior autor português de videoclips, e responsável por boa parte da imagem da música popular portuguesa na entrada dos anos 90 - prosseguiu a sua carreira como realizador video, bem como Bruno Niel e António Forte, tendo estes últimos, em épocas diferentes, adaptado a linguagem visual ensaiada no «Pop-Off» ao magazine televisivo de moda «86-60-86». Sofia Morais prosseguiu carreira como locutora da estação de rádio XFM, tendo feito aparições esporádicas em programas da RTP. Gimba tornou-se posteriormente um dos fundadores dos Irmãos Catita, e em 1997 publicou o seu primeiro trabalho em nome próprio, após duas décadas de colaboração com os mais diversos grupos e projectos musicais.
POP-OFF
O magazine «Pop-Off» foi emitido pela RTP-2 entre Setembro de 1990 e Agosto de 1993, e foi um dos programas que marcaram a imagem e o sentido da produtora independente Latina-Europa, a par do programa infantil «Ícaro» e do magazine juvenil «Lentes de Contacto», entre outras produções. Intencionalmente dedicado à moderna música urbana portuguesa, o «Pop-Off» foi contratado pela RTP - na época em que o responsável pelo Departamento de Programas Musicais e Recreativos era José Nuno Martins - a uma nova empresa de produção televisiva, fundada em 1987 por Paulo Miguel Forte e António Saraiva, que, além da experiência recolhida junto de algumas empresas congéneres europeias, eram já responsáveis por alguma animação no panorama musical da RTP, sendo autores dos primeiros videoclips dos Madredeus e de Júlio Pereira (Paulo Miguel Forte), ou dos Mler Ife Dada (A. Saraiva). A Latina-Europa estreou no Verão de 1989 a sua primeira produção para a RTP, o magazine «Lusitânia Expresso», que além das produções originais incluía blocos de programação consignados por outras produtoras independentes europeias, com as quais a Latina-Europa estabelecera convénios. Com o «Lusitânia Expresso», a RTP abriu-se pela primeira vez à influência das estéticas alternativas em televisão, e exibiu obras paradigmáticas da estética videográfica - como as do polaco Zbig Rybczynski - intercaladas por pequenas ficções, videoclips e curtos documentários sobre a nova geração das artes nacionais, produzidos e realizados por Paulo Miguel Forte e António Saraiva. Ficaram aí registados os primeiros audiovisuais sobre autores como o fotógrafo Daniel Blaufuks, ou o poeta Al Berto. Na sequência do «Lusitânia Expresso», aclamado por críticos tão impenitentes como o decano Mário Castrim, a Latina-Europa conseguiu junto da RTP, em 1990, contratos para novas produções.
O contrato do «Pop-Off» impunha a regularidade de produção de um videoclip original por emissão. Os apresentadores eram Gimba (Eugénio Lopes) e Sofia Morais, uma adolescente que fôra vista pela primeira vez nos estúdios da Latina-Europa enquanto figurante no primeiro videoclip dos Sétima Legião, realizado por António Gutierres. Os textos - cuja elaboração foi inicialmente proposta por José Nuno Martins a João Gobern e José Matos Cristovão - eram de Rui Monteiro, que nesse ano se tornara director do semanário «Blitz». A realização, inicialmente de Paulo Miguel Forte e António Saraiva, ao longo dos meses seguintes foi progressivamente confiada a José Pinheiro e Bruno Niel Costa - o primeiro vinha de um Curso de Formação na RTP; o segundo, francês e ex-estudante universitário de Artes e Estética, com alguma experiência em video, residia há pouco tempo em Lisboa desde que se casara com uma portuguesa.
Desde o início, o programa marcou a diferença. Primeiro pela inacreditável irreverência de Gimba - que, além de apresentador, era também o entrevistador de serviço, e certa vez ofereceu a Rui Reininho 500 escudos para um corte de cabelo novo, pormenor apenas digno de registar devido à reacção gelada do cantor dos GNR. Depois pelo registo de reportagem de rua conseguido por José Pinheiro e Bruno Niel (por vezes em situações quase inacreditáveis), o qual permitia a espontaneidade neste primeiro contacto com a nova geração de músicos - até aí sobretudo mediatizados pelos jornais e pela rádio. Finalmente, pela prossecução e desenvolvimento da estética visual antes experimentada no «Lusitânia Expresso», talvez o melhor trunfo da Latina-Europa, que a dada altura era a única produtora televisiva em Lisboa a dispôr da tecnologia necessária para a obtenção de semelhantes resultados visuais e gráficos no écran televisivo.
A meio da Primavera de 1991, a emissão do videoclip «A Minha Sogra É Um Boi», do grupo Mata-Ratos (realizado por Diamantino Ferreira, que trabalhava com Paulo Miguel Forte no programa «Ícaro») provocou a ira de José Nuno Martins e dos responsáveis da RTP por esta canção incluir a frase «Chutou-me os colhões». Este episódio veio introduzir alguns factores de tensão na Latina-Europa (particularmente porque, apesar de diversos episódios do «Pop-Off» já terem sido emitidos, o contrato do programa ainda não havia sido assinado - e assim a produtora não recebera ainda qualquer pagamento), depois agravados com o mini-folhetim «Cázé Duarte», a história de um artista de subúrbio que quer brilhar na grande cidade. A história, escrita por Rui Monteiro e improvisada por Gimba e por toda a equipa da Latina-Europa (a banda de Cázé Duarte, Os Fatelas, era constituída por Elvis Veiguinha, Manuel Amaro da Costa, realizador do «Lentes de Contacto», Diamantino Ferreira e José Pinheiro) em episódios de 5 minutos por emissão, teve o seu público mas não estava prevista no contrato do programa. O posterior desentendimento entre Paulo Miguel Forte e Rui Monteiro levou à demissão deste. Desde então tornaram-se mínimas as referências às actividades da Latina-Europa nas páginas do «Blitz», embora mais tarde Gimba tenha vindo a colaborar no jornal durante um certo período. Nos tempos seguintes, os textos do programa passaram a ser escritos por Gimba, com a colaboração de Henrique Amaro (então adolescente e locutor de rádio numa estação dos arredores de Lisboa) durante dois meses.
Quando, no entanto, a RTP renovou o contrato do programa por mais um ano, Paulo Miguel Forte convidou o jornalista ( e ex-estudante de Filosofia) Jorge Pires a ocupar-se do programa - o que, para este, significava um regresso à Latina-Europa, que conhecera na fase inicial do «Lusitânia Expresso», cujos textos da primeira série escrevera a partir da oitava emissão, após desistência de Inês Pedrosa, embora o seu nome nunca fosse creditado no genérico do programa (escrevera também o guião da curta-metragem «Body-Chip», realizada por Paulo Miguel Forte e interpretada pelo modelo Ricardo Carriço no seu primeiro desempenho como actor). A sua primeira tarefa, no final de Agosto, consistiu em estruturar o guião de uma reportagem sobre o Rock Rendez-Vous, para a qual Gimba e Henrique Amaro haviam recolhido diversos depoimentos. Quase em simultâneo com Jorge Pires, entraram também para a equipa do «Pop-Off» o músico Tiago Lopes, dos Golpe de Estado (e ex-Linha Geral), que passou a assegurar a sonoplastia do programa, e João Marchante, finalista da Escola Superior de Cinema, que ali colaborou entre Setembro de 1991 e Março de 1992.
Entretanto, as alterações sentidas no meio musical português no início da década de 90 encontravam o seu veículo ideal de expressão: novas editoras independentes, edições de autor, projectos musicais ainda não publicados (como os participantes no concurso de novas bandas organizado pela Câmara Municipal de Lisboa), encontravam no «Pop-Off» um meio de expressão à sua altura. Por isso, o programa passou a preterir o contacto com as editoras em favor do relacionamento directo com os músicos, assumindo por inteiro a sua dupla estratégia: adquirir um estatuto sólido de impulsionador da cena musical, enquanto revelava a actualidade de um mercado discográfico nacional cujos limites se iam progressivamente alargando. O programa introduziu igualmente as formas e a estética de um programa completamente alternativo, que pulverizava os géneros musicais e não se coibia de incluir uma entrevista com o acordeonista Quim Barreiros (no que foi, aliás, pioneiro na televisão portuguesa) ao lado de um videoclip com uma nova e absolutamente desconhecida banda de heavy-metal portuguesa, ou apontamentos de reportagem sobre as profissões adjacentes: os «roadies», os produtores, os radialistas, etc. Além dos textos, as entrevistas e reportagens do programa passaram a ser feitas por Jorge Pires, e o papel da apresentadora Sofia Morais foi reconduzido no sentido da criação de uma figura virtual, puramente videográfica - mas, graças aos excelentes dotes de interpretação de Sofia Morais, capaz de assumir diferentes personalidades e formas. A ideia foi aperfeiçoada a partir da Primavera de 1992, com a caracterização de Alda Salavisa e a colaboração de Cristina Duarte, que passou a assegurar o «styling».
Em Fevereiro de 1992, José Pinheiro interrompeu por algumas semanas as suas funções no «Pop-Off» para acompanhar a romântica viagem até Timor de um navio curiosamente chamado «Lusitânia Expresso»; as muitas horas de reportagem que então obteve permanecem até hoje inéditas. Em Maio desse ano, Bruno Niel Costa abandonou a Latina-Europa para integrar temporariamente o Departamento de Promoções da RTP. O seu último trabalho para o «Pop-Off» foi «B.A.D.», um videoclip dos Zirkus Maximus (uma efémera banda da Azambuja) que foi parcialmente filmado junto dos altos fornos da Siderurgia Nacional e contou com a colaboração da bailarina Mónica Lapa e do actor Duarte Barrilaro Ruas. António Forte, ex-baterista dos Emílio e a Tribo do Rum e dos Osso Exótico, e também ex-assistente de realização do «Ícaro» (que entretanto terminara) juntou-se então à equipa do «Pop-Off» - a par de João Pedro Gomes, ex-estudante da Escola António Arroio e também radialista numa estação dos arredores de Lisboa, que passou a ser o infografista do programa, em substituição do original Zeb.
Ao longo do tempo, cada alteração na equipa do programa teve consequências mais ou menos subtis. A entrada de João Pedro Gomes ocorreu em Junho de 1992, e ficou assinalada pela elaboração de uma «emissão em brasileiro» (onde a voz de João Pedro dobrava a de Sofia Morais, e que foi parcialmente filmada no lote de terreno deixado vazio após a demolição do Rock Rendez-Vous), com que a equipa decidiu saudar a simultânea abertura dos trabalhos da conferência mundial ECO-92 no Rio de Janeiro. Um segundo programa dedicado à ECO-92 foi, na semana seguinte, filmado junto às poluídas margens do rio Trancão, perto de Moscavide. Esta emissão praticamente inaugurou a fase dos «programas de tema», com cuja construção a equipa se ocupou ao longo do Verão e do Outono seguintes: um «Pop-Off policial», um «Pop-Off Side» (em ‘blague’ aos programas desportivos da RTP), um «Pop-Off Star Trek», um «Pop-Off dos Milhões» (‘blague’ aos concursos televisivos), ou um «Pop-Off no ano 2012» são apenas alguns exemplos. A entrada para a equipa de Nuno Tudela, estagiário do Curso Superior de Cinema do Conservatório, foi assinalada pela criação de um «Pop-Off Twin Peaks», para o qual os textos de Jorge Pires foram reescritos com as sílabas em ordem inversa, para que Sofia Morais os lesse nessas condições. A gravação video de Sofia Morais foi depois lida em retrocesso e copiada para um segundo gravador video, de modo a que o estranho resultado final da apresentação se assemelhasse à fala do anão na popular série televisiva realizada por David Lynch. O assistente de realização Jesus Roque, que viria mais tarde a gozar de grande destaque como «o figurante desconhecido», foi também contratado nesta época, bem como Maria João Wolmar, que veio substituir Teresa Albuquerque na assistência de produção.
No início de Setembro, por consulta ocasional de uma revista que continha a programação da RTP-Internacional (que estreara as suas emissões no início de Agosto desse ano), a equipa descobriu que o programa estava a ser emitido semanalmente via satélite, embora num horário diferente (aos domingos à tarde, de acordo com o tempo médio de Greenwich, e era actualmente visto na Madeira e nos Açores.
Faltavam duas semanas para o início das emissões regulares da estação privada SIC quando o «Pop-Off» celebrou a sua centésima emissão, com um programa dos mais arrojados, que incluía uma extensa entrevista com o vocalista dos Ena Pá 2000, Manuel João Vieira. O delírio valeu à equipa uma reportagem do «Diário de Notícias», porque uma jornalista vira a emissão às 2 e meia da manhã (o horário para que a RTP remetera o programa) e ficara curiosa, porque pensava tratar-se de uma estação de televisão pirata. Quando publicada, a reportagem acabaria porém por divulgar diversa informação truncada. Na noite anterior à estreia da SIC, o «Pop-Off» teve uma das suas mais radicais emissões, iniciada com uma mira técnica igual à daquela estação, mas alterada de forma a ler-se «BIC», e dedicada a Nossa Senhora de Fátima: Sofia Morais, nesse papel, voava como o Super-Homem, calçava uns ténis com meias às riscas (como as da Pippi das Meias Altas) e dava conselhos a dois pastorinhos que nunca se fartavam de ver televisão debaixo de uma azinheira, interpretados por João Pedro Gomes e Jesus Roque.
Estimulado pelo facto de estar a ser difundido por satélite, foi neste período que o «Pop-Off» se tornou mais declaradamente semiótico e experimentalista, manipulando e subvertendo os códigos normais de significado, e procurando levar ao ridículo a ideia de que a comunicação televisiva atinge as pessoas no seu último reduto - o lar - e, graças a alguns processos que não cabe aqui enumerar, em regra provoca nelas um efeito perverso: o de ser sucessivamente interpretada como "verdadeira". Se alguma coisa aparece na televisão, não pode ser mentira - e assim, a par de videoclips, reportagens e entrevistas no mais puro estilo realista (todas as entrevistas e reportagens do programa sempre foram feitas «live on tape» e ao primeiro take) e elementos declaradamente falsos e erróneos. Um dos momentos mais apreciados pela equipa foi a produção de um videoclip dos "Fake No More" (com letra de Jorge Pires, música de Tiago Lopes e vocalização de João Pedro Gomes), uma banda inexistente que reunia quase todos os pequenos defeitos e «clichés» das bandas portuguesas. Outro momento célebre aconteceu no programa 110 (emitido a 25.11.92), concebido como um filme mudo e antigo, com intertítulos, saltos e riscos na película.
Quando, em Novembro de 1992, a RTP difundiu, num noticiário da hora de almoço, as primeiras imagens do massacre no cemitério de Santa Cruz, em Dili, a equipa do programa reuniu-se de emergência e concebeu uma resposta imediata, que surgiu na forma de videoclip, com música de Tiago Lopes e letra do rapper General D, naquela que foi a sua segunda intervenção televisiva (a primeira ocorreca exactamente durante uma reportagem do programa com os «rappers» de Miraflores. Oferecido ao noticiário da RTP, o clip seria recusado com uma desculpa fraca, de que o jornalista João Dias Miguel deu conta em notícia publicada no matutino «Público».
Num texto escrito por Jorge Pires e divulgado pela equipa por altura da sua centésima edição, proclamava-se que «Quantos aos lançamentos editoriais das grandes editoras, habituámo-nos a falar com os músicos antes e durante o seu trabalho. Não depois. O princípio do realismo fez-nos preferir que as pessoas falem francamente daquilo que tentam construir, e dos problemas que defrontam para o fazer. Existem outros programas de televisão onde se pode fazer melhor figura e vender mais discos. É possível manter e amplificar a ficção de que existe um país cheio de músicos, que estão cheios de ideias novas. É possível oferecer liberdade de expressão aos músicos portugueses; o Pop-Off nunca se limitou a ser um programa "de rock"; é um programa de música. É possível oferecer aos espectadores a visão do que acontece nas grandes noites dos pequenos concertos, e descobrir o que é que anima toda esta gente que deseja ser músico e ter uma banda. Se tudo isto está a acontecer na televisão, é porque é verdade». Todo este jogo com o sentido e o significado de um programa sobre música moderna portuguesa ajudou a criar códigos e uma identidade própria, bem como um público de culto, que anos depois ainda recordava os melhores momentos. Para isso também contribuiu o lado "verdadeiro" do programa: em 1992/1993 o POP-OFF acompanhou várias histórias com meses de antecedência em relação à imprensa (casos dos álbuns dos Xutos e Pontapés e dos Zero), efectuou várias incursões em reportagem no «país real» (Açores, Porto, Vila do Conde, Ovar, Braga, Évora e Viseu), e conseguiu garantir um razoável equilíbrio na informação sobre as chamadas "bandas de primeira linha" e sobre os grupos completamente desconhecidos do grande público. Ao mesmo tempo, a temática nem sempre se concentrou exclusivamente na música: entrevistaram-se escritores, autores de banda desenhada, editores, radialistas, engenheiros de som, produtores de espectáculos, "roadies", "managers" e, por diversas vezes, público anónimo. Foram várias as bandas reveladas pelo programa, e que graças a ele conseguiram contratos para edição discográfica, quando as editoras perceberam que determinadas canções já tinham um público conhecedor, que as entoava durante os concertos de bandas que não haviam gravado ainda nenhum disco - citem-se os casos dos Ramp, dos LX-90 e dos Braindead.
No seu último ano, e apesar de seleccionado para a RTP-Internacional, o «Pop-Off» não voltou a beneficiar de um contrato de produção anual; em vez disso, teve contratos de 13 episódios, que foram sucessivamente renovados até findarem em Agosto de 1993. Ao longo dos seus três anos de emissão, o «Pop-Off» coleccionou um bonito livro de recortes, repleto de críticas e referências elogiosas na imprensa mas que, na maior parte das vezes, eram completamente alheios ao contexto e aos objectivos da equipa do programa. Melhores momentos: as referências elogiosas feitas pela revista alemã "Metronom", e a reportagem feita em Fevereiro de 1992 pelo programa "Boomerang" da FR3 (Marselha), cuja equipa se deslocou ao estúdio da Latina-Europa e acompanhou um dia na vida do programa.
O programa 133, e último, foi emitido em Agosto de 1993. Era construído como uma ‘blague’ em torno do filme «Terminator 2», com Arnold Schwarzenegger, e, no termo de uma aventura de acção com a esfuziante Sofia Morais e os diversos elementos da equipa do programa (alguns disfarçados de Ninjas para um breve apontamento de «filme kung-fu» - uma das ideias, neste caso de Tiago Lopes, que nunca se concretizaram), o andróide maligno era derrotado. As suas últimas palavras: «I’ll be back». Desde então, a equipa do programa não voltou a reunir-se.
José Pinheiro - seguramente o maior autor português de videoclips, e responsável por boa parte da imagem da música popular portuguesa na entrada dos anos 90 - prosseguiu a sua carreira como realizador video, bem como Bruno Niel e António Forte, tendo estes últimos, em épocas diferentes, adaptado a linguagem visual ensaiada no «Pop-Off» ao magazine televisivo de moda «86-60-86». Sofia Morais prosseguiu carreira como locutora da estação de rádio XFM, tendo feito aparições esporádicas em programas da RTP. Gimba tornou-se posteriormente um dos fundadores dos Irmãos Catita, e em 1997 publicou o seu primeiro trabalho em nome próprio, após duas décadas de colaboração com os mais diversos grupos e projectos musicais.
quarta-feira, 10 de setembro de 2003
Regresso ao passado #2.1 (correcção)
Recebi, entretanto, um email do Rui Ramos, guitarrista dos Crise Total, que passo a transcrever:
Oi pessoal, eu sou o Rui Ramos (guit. de crise total). Em primeiro lugar gostava de agradecer o espaço dedicado a Crise Total no vosso site. É bom saber que ainda não fomos esquecidos.
Em segundo lugar gostaria de corrigir o seguinte: o primeiro vocalista de Crise Total foi o Manolo e o Ampola na altura tocava baixo; mais tarde o Ampola sai da banda e aí é que entra o Pêjó para o baixo.
Já agora aproveito para dizer que o 2º disco de Crise Total acabou de ser editado pela zero work recs e dá pelo nome de Suicídio Involuntário e tem como vocalista o Miguel (voc. dos MAD).
Já agora aproveito para vos dizer que no principio de Outubro vai haver um concerto de Crise Total + Bandas convidadas na zona de Lisboa para o lançamento deste disco.
Se precisarem de mais alguma informação podem-me contactar pelo mail:rollshome@msn.com.
ELES PODEM MANDAR-NOS CALAR , MAS NUNCA CALAR-NOS
Oi pessoal, eu sou o Rui Ramos (guit. de crise total). Em primeiro lugar gostava de agradecer o espaço dedicado a Crise Total no vosso site. É bom saber que ainda não fomos esquecidos.
Em segundo lugar gostaria de corrigir o seguinte: o primeiro vocalista de Crise Total foi o Manolo e o Ampola na altura tocava baixo; mais tarde o Ampola sai da banda e aí é que entra o Pêjó para o baixo.
Já agora aproveito para dizer que o 2º disco de Crise Total acabou de ser editado pela zero work recs e dá pelo nome de Suicídio Involuntário e tem como vocalista o Miguel (voc. dos MAD).
Já agora aproveito para vos dizer que no principio de Outubro vai haver um concerto de Crise Total + Bandas convidadas na zona de Lisboa para o lançamento deste disco.
Se precisarem de mais alguma informação podem-me contactar pelo mail:rollshome@msn.com.
ELES PODEM MANDAR-NOS CALAR , MAS NUNCA CALAR-NOS
segunda-feira, 8 de setembro de 2003
Regresso ao passado #2: Crise Total
Conforme prometido, regresso a esta rubrica, não com a periodicidade inicialmente desejada mas antes a um ritmo quinzenal (assim espero). Para hoje escolhi uma das mais míticas bandas punk portuguesas de sempre, os Crise Total.
A informação acerca do grupo não é propriamente abundante nos dias de hoje (*), mas em meados dos anos 80, os Crise Total, juntamente com outras bandas, como os Ku de Judas ou os Grito Final, dominavam a cena lisboeta (e não só) do punk/hardcore. Vinham do Algueirão e, fazendo parte, se assim se puder dizer, de uma segunda vaga de punk na capital, depois do boom no final dos anos 70 com os Faíscas, os UHF ou os Xutos & Pontapés, eram, no entanto, dos primeiros a trazer o hardcore da costa Oeste norte-americana para salas de concertos nacionais como o Rock Rendez-Vous.
A formação inicial contava com Ampola, na voz, João Filipe, na bateria, Rui Ramos, na guitarra, e Pejó, no baixo. Tirando algumas participações em compilações, como uma do Rock Rendez-Vous onde entravam com o tema "Assassinos no Poder", nunca chegaram a editar um álbum nesta primeira fase de vida. Anos depois, já em meados da década de 90, alguns dos elementos regressaram com a banda e aí, então, gravaram o único álbum, "A Crise Continua" (a somlivre.pt ainda o tem à venda, na secção de hip hop... :>), integrando músicos dos Subcaos, que hoje estão noutros projectos como os The Mayhem Doctrine of the No Counts. O guitarrista da formação original dos Crise Total tem actualmente outro projecto, os Rolls Rockers, depois de ter passado pelos Profilaxia e pelos Feijão Freud (juntamente com Pejó).
Deixo-vos um mp3 de um tema ao vivo, gravado em 1984 no Rock Rendez-Vous. Esta foi uma das gravações piratas dos Crise Total com maior circulação. O tema chama-se "Autista" e, apesar de não ser um dos mais representativos do som da banda, era, creio, um dos mais requisitados. Lembrem-se, vai estar apenas disponível até ao próximo "Regresso ao passado" (o espaço não dá para mais).
(*) Valeu a preciosa ajuda do meu amigo João Rolo, que foi manager do grupo na sua "ressureição" nos anos 90.
A formação inicial contava com Ampola, na voz, João Filipe, na bateria, Rui Ramos, na guitarra, e Pejó, no baixo. Tirando algumas participações em compilações, como uma do Rock Rendez-Vous onde entravam com o tema "Assassinos no Poder", nunca chegaram a editar um álbum nesta primeira fase de vida. Anos depois, já em meados da década de 90, alguns dos elementos regressaram com a banda e aí, então, gravaram o único álbum, "A Crise Continua" (a somlivre.pt ainda o tem à venda, na secção de hip hop... :>), integrando músicos dos Subcaos, que hoje estão noutros projectos como os The Mayhem Doctrine of the No Counts. O guitarrista da formação original dos Crise Total tem actualmente outro projecto, os Rolls Rockers, depois de ter passado pelos Profilaxia e pelos Feijão Freud (juntamente com Pejó).
Deixo-vos um mp3 de um tema ao vivo, gravado em 1984 no Rock Rendez-Vous. Esta foi uma das gravações piratas dos Crise Total com maior circulação. O tema chama-se "Autista" e, apesar de não ser um dos mais representativos do som da banda, era, creio, um dos mais requisitados. Lembrem-se, vai estar apenas disponível até ao próximo "Regresso ao passado" (o espaço não dá para mais).
(*) Valeu a preciosa ajuda do meu amigo João Rolo, que foi manager do grupo na sua "ressureição" nos anos 90.
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