Mostrar mensagens com a etiqueta covers famosas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta covers famosas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

Covers famosas #5: All Along the Watchtower

Autor: Bob Dylan
Ano: 1967
Versão-chave: Jimi Hendrix

O senhor Zimmerman é um dos mais citados autores da música popular dos últimos quarenta anos. De "A Hard Rain's A-Gonna Fall" a "Maggie's Farm", de "Blowin' in the Wind" a "Knockin' on Heaven's Door", dezenas e dezenas de criações suas foram revisitadas nas mãos e vozes de outros. "All Along the Watchtower" é um desses exemplos, e carrega consigo uma curiosa história.

"All Along the Watchtower" era uma das melhores canções de "John Wesley Harding", o álbum que em 1968 marcou o regresso do cantautor, depois de uma ausência motivada em parte por um acidente de mota sofrido dois anos antes. A conversa entre dois prisioneiros, um bobo (joker) e um ladrão, que Dylan canta no tema, é interpretada por alguns como uma referência à indústria musical, meio em que o autor se sentiria cada vez mais asfixiado. É o próprio bobo que diz:

There's too much confusion, I can't get no relief.
Businessmen, they drink my wine, plowmen dig my earth,
None of them along the line know what any of it is worth.


O ladrão, por sua vez, riposta de forma curiosa:

«No reason to get excited, (...)
There are many here among us who feel that life is but a joke.»


Interpretações à parte, até porque a obra de Dylan se presta às mais diversas visões -- existem cursos académicos nos EUA a propósito das suas letras e o seu nome é todos os anos referido como canditado a Nobel da literatura -- a história curiosa que este tema encerra enquanto cover, a tal a que mais acima se aludia, tem como protagonista outro gigante da música popular norte-americana, o guitarrista Jimi Hendrix. Reza a lenda que Hendrix, poucas semanas após o lançamento de "John Wesley Harding", se terá encontrado numa festa com Dave Mason, dos Traffic, e lhe terá dito que queria gravar "All Along the Watchtower". Dito e feito: alguns dias depois, juntar-se-lhes-ia em Londres o baterista Mitch Mitchell, da Jimi Hendrix Experience e com ele fariam uma versão do tema. A citação de Hendrix acabou quase por se tornar a versão oficial, que tem levado ao longo dos anos a que seja pensada por muitos como a versão original. Mas mais interessante ainda é que o próprio Bob Dylan, que achava aquela versão melhor do que a original, alterou a sua maneira de tocar, aproximando-se muito perto da versão mais roqueira, mais selvagem de Hendrix...

Muitos outros artistas deram novas formas a "All Along the Watchtower" ao longo dos tempos. Richie Havens, XTC, U2, Neil Young, Grateful Dead, Saint Etienne, Dave Matthews Band, The Indigo Girls, Taj Mahal, e, mais recentemente, Paul Weller, foram alguns -- uma pequena escolha entre centenas e centenas de nomes -- dos que o fizeram.

segunda-feira, 25 de outubro de 2004

Covers famosas #4: Surfin' Bird

Autores: Al Frazier, Carl White, John "Sonny" Harris, and Turner "Rocky" Wilson Jr. (The Rivingtons, nos temas "The Bird's the Word" e "Pa Pa Ooh Mow Mow", posteriormente agregados pelos Trashmen)
Ano: 1962
Versões-chave: The Trashmen, The Cramps e The Ramones

Não é seguramente, ao contrário do que acontecia com os temas abordados nas edições anteriores desta rubrica, uma canção reinterpretada por uma imensa panóplia de grupos e artistas. Se aqui se fala dela é pela forma como foi "transformada" pelos Trashmen e, depois, adoptada como uma das mais carismáticas covers de sempre para duas das formações mais carismáticas de sempre que o rock'n'roll deu a nascer, os Cramps e os Ramones.
"Surfin' Bird", habitualmente creditada aos Trashmen, era, na verdade, uma versão criada a partir de dois hits de 1962 dos Rivingtons, "The Bird's the Word" e "Pa Pa Ooh Mow Mow" (os Beach Boys tinham também uma versão desta última). Steve Wahrer, baterista dos Trashmen, grupo de rock'n'rollers adolescentes de Minneapolis, juntaria no ano seguinte os dois temas, reduzindo-os ao mínimo denominador comum e reescrevendo a letra, dando assim forma a um novo sucesso.
Anos depois, dois outros grupos norte-americanos, os Ramones e os Cramps, adoptaram o tema ao ponto de o tornarem quase sempre obrigatório nos seus concertos. Os Ramones fizeram-no em 1977, naquele que será um dos seus melhores álbuns, "Rocket to Russia", ao passo que os Cramps incluiram-na, dois anos mais tarde, num dos seus primeiros discos, o EP "The Gravest Hits". Mas, porventura mais importante que a versão gravada em estúdio, é a maneira como o tema se colou ao reportório ao vivo de ambos os grupos, principalmente no caso do grupo de Lux Interior e Poison Ivy, que passados todos estes anos, continua a encerrar os seus concertos com longuíssimas versões de "Surfin' Bird", que oferecem o pano sonoro de fundo ideal para as derradeiras performances dementes em palco do vocalista. Quem os viu no Campo Pequeno, há anos, sabe bem do que se está a falar.

A-well-a everybody's heard about the bird
B-b-b-bird, bird, bird, b-bird's the word

quarta-feira, 6 de outubro de 2004

Covers famosas #3: The Ballad of Mack the Knife / Die Moritat von Mackie Messer

Autor: Kurt Weill / Berthold Brecht
Ano: 1928
Versões-chave: Louis Armstrong, Chico Buarque, Young Gods, ...

Um dos autores mais citados pelos músicos dos últimos cinquenta anos é o compositor alemão Kurt Weill. Diversas das suas obras, originalmente inseridas em óperas modernas como "Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny" ("Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny") ou "Die Dreigroschenoper" ("A Ópera dos Três Vinténs"), têm sido revistas frequentemente nas mais diversas áreas da música popular. É o caso dos temas "Alabama Song" (popularizado mais tarde pelos Doors), "Speak Low", "Surabaya-Johnny", "September Song" ou "The Ballad of Mack the Knife", que esta rubrica agora destaca.

"The Ballad of Mack the Knife" ou, melhor, "Die Moritat von Mackie Messer", foi composta para a obra mais famosa de Weill, "A Ópera dos Três Vinténs", estreada em Berlim, a 31 de Agosto de 1928. Com libretto de Berthold Brecht, a partir de "The Beggars Opera", de John Gay, "A Ópera dos Três Vinténs" vinha romper com a tradicional ópera wagneriana, recriando em palco histórias de pedintes, ladrões e prostitutas, que diziam mais ao povo comum do que as habituais peças para as elites burguesas. A canção dedicada ao protagonista, o infame bandido londrino Mackie Messer, iria transformar-se num ícone da peça.

A "Ópera dos Três Vinténs" chegaria, já depois da 2ª guerra, à Broadway. "Die Moritat von Mackie Messer" viria a ser adaptada, já na nova versão em inglês, para o jazz por Louis Armstrong e, para o rock, por Bobby Darin. Rapidamente se tornaria um "standard". Ella Fritzgerald apreentou-a uma vez ao vivo, esquecendo-se da letra que se seguia ao primeiro verso. Acabou por improvisar, numa prestação que lhe mereceu um Grammy. Chico Buarque, naquele que é o seu trabalho mais reconhecido, "A Ópera do Malandro" (clara inspiração na peça de Brecht e Weill), interpretou também uma curiosa versão do tema, aqui intitulado de "O Malandro". Os suíços Young Gods, que dedicaram um álbum inteiro, "...Play Kurt Weill", ao compositor alemão, deixaram também uma versão arrasadora. Muitos outros, ao longo dos anos, recuperaram a canção para os seus reportórios: Elvis Presley, Frank Sinatra, Nick Cave e até mesmo Robbie Williams, para citar apenas alguns.

Und die Haifisch, der hat Zähne,
Und die trägt er im Gesicht.
Und Macheath, der hat ein Messer,
Doch das Messer sieht man nicht.

quinta-feira, 30 de setembro de 2004

Covers famosas #2: (I Can't Get No) Satisfaction

Autores: Keith Richards e Mick Jagger (Rolling Stones)
Ano: 1965 (7")
Versões-chave: Devo, The Residents, Otis Redding, ...

Algumas centenas de grupos e artistas registaram, ao longo dos últimos quarenta anos, inúmeras versões daquele que foi o primeiro single dos Stones a chegar ao topo da tabela norte-americana de vendas. Dos Devo ao Residents, de Bruce Springsteen a José Feliciano, de Samantha Fox a Britney Spears, dos Beach Boys aos Television, meio mundo gravou ou tocou "Satisfaction" ao vivo. Curiosamente, tratava-se de um single -- incluído álbum "Out of Our Heads" (1965) -- em relação ao qual Keith Richards terá levantado obstáculos. Imaginava ele que toda a gente iria notar que aquele seu riff de abertura era copiado de "Dancing in the Street", de Martha & The Vandella, o que até nem é tanto o caso.

Provavelmente, a mais bem conseguida dessas versões coube aos Devo, que a apresentaram logo ao primeiro álbum, "Q: Are We Not Men? A: We Are Devo!" (1978). Aquela esquisita re-montagem da canção ficaria na história do grupo como mais um tema do reportório, algo que o álbum ao vivo "Now It Can Be Told" (1988) testemunharia dez anos depois.

terça-feira, 28 de setembro de 2004

Covers famosas #1: Louie Louie

Autor: Richard Berry (Pharoahs)
Ano: 1957 (primeira edição: lado B do single "You Are My Sunshine", Flip Records)
Versões-chave: Rockin' Robin Roberts & The Wailers, The Kingsmen, Black Flag.

Nada melhor para começar esta rubrica do que um tema -- "Louie Louie" (ler "loui luai") -- que ao longo dos últimos quarenta anos foi tocado por quase toda a gente, tornando-se, sem margem para grandes dúvidas, na maior cover de sempre da história do rock. Nem "Yesterday", dos Beatles, lá chegará. O All Music Guide indica perto de quinhentas versões gravadas, mas é sobretudo ao vivo, nomeadamente no encerramento dos espectáculos, que "Louie Louie" encontra o seu habitat.

Richard Berry escreve "Louie Louie" em 1956. Inicialmente, o tema tinha contornos latinos, especialmente influenciados pelo calypso que Berry ouvia de Rick Rillera & The Rhythm Rockers, outro dos grupos onde trabalhava. Seriam os Wailers de Rockin' Robin Roberts, tida hoje como a primeira banda americana de rock de garagem (não confundir com os Wailers jamaicanos), a dar o cunho rock'n'roll a "Louie Louie". Estavamos em 1961, e outras bandas, como os Sonics ou os Ventures, iam também passar a utilizá-la nos seus reportórios. Além de se tornar um hábito nos concertos das bandas californianas, há também quem as grave em estúdio. Uma dessas primeiras versões de estúdio, a dos Kingsmen, chegou ao segundo lugar do Billboard. Reza a lenda que as condições de gravação terão sido tão más que a voz ficou imperceptível, levando a que, nos meios juvenis, o tema fosse ganhando letras alternativas. Rapidamente a canção se tornou conhecida por toda a América. Por queixas dos pais, que achavam que a letra continha obscenidades, até o FBI de Edgar J. Hoover entrou em cena, investigando a gravação, para chegar à conclusão de que não se conseguia realmente entender nada do que era cantado. Veja-se a letra original de Berry e uma das versões alternativas, das que transmitidas de boca em boca pelos miúdos:

Louie, Louie,
me gotta go.
Louie, Louie,
me gotta go.
A fine little girl, she wait for me;
me catch a ship across the sea.
I sailed the ship all alone;
I never think I'll make it home

Three nights and days we sailed the sea;
me think of girl constantly.
On the ship, I dream she there;
I smell the rose in her hair.

Me see Jamaica moon above;
It won't be long me see me love.
Me take her in my arms and then
I tell her I never leave again.
Louie, Louie,
grab her way down low.
Louie, Louie,
grab her way down low.
A fine little bitch, she waits for me;
she gets her kicks on top of me.
Each night I take her out all alone;
she ain't the kind I lay at home

Each night at ten, I lay her again;
I fuck my girl all kinds of ways.
And on that chair, I lay her there;
I felt my boner in her hair.

If she's got a rag on, I'll move above;
It won't be long, she'll slip it off.
I'll take her in my arms again;
tell her I'd rather lay her again.


A história de "Louie Louie" prossegue com bandas de todo o mundo a elegerem-na para o encerramento dos seus espectáculos (haverá melhor maneira de uma banda despedir-se da sua audiência do que o verso histórico "Louie, Louie, me gotta go"?). Em 1983, a Rhino edita uma colectânea de versões da canção. Uma rádio americana dedica-lhe um programa com a duração de 63 horas, onde mais de 800 versões são escutadas. Richard Berry morreu em Janeiro de 1997, mas o seu legado mais importante continua bem vivo, nos palcos de todo o mundo.

Há muitos locais na web que se debruçam sobre o tema. Uma parte desta informação foi recolhida aqui. Espreitem a secção discografia.