O jornal Britânico The Guardian teve acesso a um relatório confidencial do Banco Mundial que concluiu que os biocombustíveis foram responsáveis por uma subida de 75% dos preços globais de alimentos. Este número fica muito aquem da estimativa oficial do governo dos EUA que afirmam que os combustíveis derivados de plantas contribuiram menos de 3% para o aumento de preço dos alimentos. Esta revelação, dias antes da cimeira do G8 pode influenciar algum dos debate em torno da alternativa dos biocombustíveis.
Na União Europeia, o tema tem sido controverso. Durante a presidência portguesa da UE, apontou-se substituir 10% do petróleo e disel por biocombustíveis, mas esta meta foi entretanto suspensa devido a receios do impacto sobre o mercado alimentar. O governo Britânico estará prestes a divulgar um seu relatório, Gallagher Report, que aponta para um efeito significativo dos biocombustíveis no preço dos alimentos. Note-se que em 2007 o preço do trigo aumento 77%, o do arroz 20%. Só durante 2008, o preço do arroz no mercado mundial duplicou. Neste ano o preço do trigo aumento 25% num só dia, e deppois caiu abruptamente no início de Abril, estando ainda acima dos valores mais altos de 2007. O preço do milho duplicou nos últimos dois anos. (ver)
Segundo o relatório do Banco Mundial, o preço do "cesto de alimentos básicos" subiu 140% desde 2002 até Fevereiro deste ano. A subida do preço de energia e fertilizando terá contribuido para apenas um aumento de 15%, enquanto os biocombustíveis terão sido responsáveis por uma aumento de 75%. Este efeito tem-se manifestado por três mecanismos:
1) utilização de sementes (cereais e milho) para produção de combustível, em vez de produtos alimentares ou rações., com mais de um terço do milho nos EUA usado para produzir etanol, e cerca de metade dos óleos vegetais na UE destinados para a produção de biodiesel. Segundo o mesmo estudo, biocombustíveis derivados da cana de açucar, fonte principal no Brasil, não teve um impacto significativo.
2) os proprietários de terras têm sido encorajados a colocar terra de parte para a produção de biocombustíveis.
3) a especulação financeiro no mercado de futuros de cereais, levando á subida de preços. Tradicionalmente, as mercadoriais alimentares são vistas como investimentos seguros, em particular os alimentos mais básicos como o arroz e trigo. São mercadorias para as quais sempre haverá procura. A crise no mercado financeiro immobiliário gerou uma fuga de investimento nesse sector, que estará a convergir para o mercado "mais seguro" dos alimentos, havendo o incentivo adicional de estes poderem servir não só como alimento mas também para a formação de combustíveis.
O aumento do preço dos alimentos, com efeitos gravíssimos sobre os mais pobres do planeta, não é portanto fruto de maior procura ou menor produção, embora estes possam ter efeitos menores. Por exemplo, durante os últimos 20 anos, o consumo per capita de arroz na China tem sido mais ou menos estável, tendo até diminuido na Índia desde os anos 1980 (ver). Embora o aumento da qualidade de vida na China tenha implicado um aumento na procura (por exemplo, a procura doméstica de produtos lácteo aumento cinco vezes na última década), muita desta procura tem tido na resposta em aumentos de produção interna. A China neste respeito pode proclamar grande autonomia e soberania alimentar, o que já não sucede com muito dos países do mundo onde a produção agrícola se tem "globalizado", com países e regiões inteiras especializadas na produção de apenas alguns produtos alimentares.
Outros elementos da moderna agricultura também responsáveis pela subida de preços. A crescente dependência na mecanização agrícola, a exigência de fertilizantes (cuja produção também é energéticamente exigente), o uso sistemas de rega mecanizados, e o transporte a longa distãncia dos produtos (necessário no mundo globalizado, em que o concelho ou o país é capaz de se auto-sustentar do ponto de vista alimentar), fez da produção alimentar um sector muito sensível ao preço do petróleo. Assim, o aumento do preço do petróleo tem também alimentado o aumento do preço dos alimentos.
O sector alimentar sofreu também nas últimas décadas que o torna mais atraente para os espéculadores financeiros: a centralização global da produção de sementes, fertilizantes e pesticidas. Esta crescente monopolização tem conduzido a aumentos de preços, compensados em alguns países por subsídios agrícolos ou isenções. Mas a liberalização do mercado financeiro tem promovido o abandono de crédito directo para outras formas de crédito mais lucrativas para os bancos, mas menos sustentáveis para os pequenos e médios agricultores.
Assim, os aumentos do preços dos alimentos não se traduzem em mais dinheiro para os agricultores. O lucro tende a concentrar-se nas agências de crédito e nas poucas companhias agrículoas mundiais, em alguns casos têm estrturas verticialmente integradas responsáveis, pela venda de semestes e fertilizantes, recolha e transporte dos produtos, seu processamento, e sua distribuição e venda ao consumidor. Esta maior concentração e controlo do produto também favorece a especulação, em particular no mercado de futuros.
Uma outra forma dos estados controlarem o preço dos alimentos e salvaguardarem a disponibilidade de comida durante crises de produção é manterem stocks, em particular de sementes e cereais que podem ser preservados com relativo baixo custo. O neo-liberalismo, no seguimento do seu princípio de menos estado, tem incentivado os estados a desfazerem-se destes seus stocks. Em alguns casos, estas reduções resultam de coação do FMI e Banco Mundial. Escusado será dizer que esses stocks poderiam ter sido muito úteis em várias crises de fome que tornaram esses países dependentes da "ajuda humanitária". Noutros países, os governantes seguem a "política única" de menos estado, o que impede o estado de intervir quando a especulação domina este mercado. Como estes stocks demoram tempo a constituir-se, o mal feito terá consequências durante algum tempo. Nas palavras de José Graziano, represetanto da América Latina e Caríbe na FAO: "A crise [de preços dos alimentos] é um ataque especulativo e vai durar. Ataques especulativos tornam-se possíveis quando existem reservas baixas."
O aumento do preço dos alimentos é portanto o nexus de várias causas, mas pode afirmar-se com alguma certeza que não se trata de problemas de falta de produção ou excessiva procura (a lei da oferta e procura é aliás muito limitada no seu poder explicativo). É o coincidir de crises financeiras, do aumento do preço do petróleo, e dos efeitos de políticas neo-liberais nos mercados financeiros e agrícolas.
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domingo, julho 06, 2008
segunda-feira, abril 14, 2008
Crise no preço dos alimentos
O preço do arroz duplicou nos últimos três meses, e temendo escassez, vários dos grandes produtores mundiais de arroz —Vietname, India, Egipto e Cambodia— já limitaram as suas exportações de arroz para garantir a alimentação da sua população. (ver)
A inflação do preço de alimentos já está a gerar crises sérias em vários países, com mutins na Camarões, Costa do Marfim, Egipto, Etiópia, Guiné, Filipinas, Indonésia, Madagascar, Mauritânia, México, Marrocos, Senegal, Uzbequistão, Iémene. (ver) O primeiro ministro do Haiti foi deposto no passado sábado, após um voto de desconfiança, no seguimento de manifestações violentas causadas pelo aumento de preços de comida e combustível. (ver) No Paquistão e Tailândia, tropas foram destacadas para evitar o saque de lojas, armazéns e campos. Segundo a Organização da NU para a Agricultura e Alimentação (FAO), 36 países enfrentam presentemente uma crise alimentar.(ver)
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André Levy
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Alimentação
domingo, fevereiro 24, 2008
A indústria alimentar e a nossa alimentação
É certo que nos países desenvolvidos o excesso de peso vem assumindo proporções assinaláveis, e as doenças cardio-vasculares são das principais causas de mortalidade. Mas em geral as discussões sobre obesidade centram-se nos nossos hábitos alimentares, na nossa prática de exercício, responsabilizando o indivíduo pelo seu excesso de peso. Mas a qualidade dos alimentos que recheiam as lojas também têm vindo a evoluir e a indústria alimentar também deve ser responsabilizada.
Uma das principais tendências no mercado alimentar é a substituição de comida não processada (a posta de carne ou peixe, o ovo, a peça de fruta, a couve) por substâncias comestíveis altamente processadas disfarçadas de comida (o autor Michael Pollan refere-se a
highly processed edible food-like substances). Segundo este autor, esta tendência é impulsionada pelas pressões económicas que regem a indústria alimentar e, mais recentemente, tem a cobertura legitimadora do nutricionismo (uma ciência ainda em estado embrionário).
A industria alimentar não consegue obter lucro vendendo matérias primas alimentares não processadas (arroz, cevada, soja, milho, trigo). Mas ao transformar essas matérias primas, criando um produto diferente, pode reclamar propriedade intelectual e inflacionar o seu preço, por exemplo substituindo milho por Corn Flakes. Quando o mercado começa a produzir muitas versões de Corn Flakes, elabora-se mais um pouco e produz-se Special K, ou Corn Flakes com chocolate, e depois barras de cereais. Assim, esta indústria pega em matérias primas baratas e produz produtos alimentares complexos e lucrativos. Em vez de comer uma peça de fruta, beba um néctar de fruta.
A necessidade de prolongar a vida de prateleira dos produtos alimentares é também promotora de maior processamento. O pão é disso testemunha. Um pão integral, feito a partir de farinha que contém todas as componentes da semente de trigo, é mais nutritivo, por incluir o gérmen do grão de trigo (e as tais omega-3 e vitaminas B). Mas exactamente por ser mais nutritiva, a farinha integral é também mais susceptível de ser atacada por roedores ou fungos. Por outro lado, uma farinha altamente refinada, misturada com preservantes, pode ser processada para produzir, por exemplo, Panrico, já cortado às fatias, que fica na prateleira meses a fio sem nunca se estragar. Mas cabe perguntar, qual o valor nutritivo de um alimento se não há um fungo que se preste a comê-lo e dele possa sobreviver? O pão, tradicionalmente uma fonte nutritiva variada, tornou-se assim numa fonte rica de açucares e aditivos.
O nutricionismo vem gradualmente desviando a nossa atenção para a importância de nutrientes e outros compostos (como os anti-oxidantes), criando a ideia de que para nos alimentarmos devemos preocupar-nos com o conteúdo nutritivo da nossa comida. Um produto alimentar pode adquirir uma valor acrescentado se for publicitado como possuindo, por exemplo, omega-3, ou como tendo níveis baixos de colesterol. Ao reduzir o alimento às suas componentes, abre-se a porta para um processamento cada vez mais intenso.
Mas ainda entendemos muito pouco sobre o efeito dos compostos nos alimentos sobre a nossa saúde. O colesterol na nossa alimentação, por exemplo, tem apenas uma correlação tangencial com os níveis de colesterol no sangue. O nível de incerteza desta ciência (Pollan chama-lhe uma ideologia, e diz que enquanto ciência está ao nível da cirurgia no século XVII) é evidenciado pelas flutuações entre o que é bom e terrível para a saúde. A manteiga, em tempos, ficou mal conotada por ter colesterol e gorduras saturadas. Inventou-se então um processo de hidrogenação para transformar as gorduras poli-insaturadas numa forma dura à temperatura ambiente (margarina). Incentivou-se então a substituição de um alimento moderadamente prejudicial à saúde, por um outro que pode ter efeitos ainda mais prejudiciais, pois mais tarde descobriu-se que os óleos hidrogenados têm gorduras trans, implicadas em doenças cardíacas e cancro.
Temos então este combinação letal, uma indústria alimentar que processa cada vez mais intensamente os alimentos, eliminando nutrientes das materiais primas, e uma ideologia (nutricionismo) que chama a atenção para a importância de certos componentes, que a indústria alimentar se presta então a re-introduzir nos alimentos através de mais processamento. Não seria mais saudável simplesmente voltar a comer comida menos processada. Afinal a dieta mais associada à obesidade, diabetes e doenças cardiácas é precisamente a "dieta ocidental", caracterizada por farinhas refinadas, muita carne (também processada, e industrializada), pouca fruta e vegetais, muito açúcar (em particular sob a forma de xarope de milho rico em frutose, HFCS, mais barato de produzir e armazenar).
Há quem promova uma dieta mais próxima da dieta ancestral. Mas não será preciso recuar tanto no tempo. As chamadas dietas tradicionais são em geral todas mais saudáveis, e têm como denominador comum incluirem comidas menos processadas e combinações de alimentos aperfeiçoadas pela tempo e encapsuladas nas práticas culturais. Por exemplo, muito antes de se saber o que eram anti-oxidantes ou que poderiam ter um efeito retardador do envelhecimento, no Mediterrâneo já se temperava tomate com azeite. Resulta que os licopenos (um caroteno de elevado efeito anti-oxidante) do tomate tornam-se assimiláveis pelo organismo quando o tomate é ingerido com azeite.
Infelizmente, mesmo os alimentos menos processados estão a perder qualidade em virtude de uma agricultura mais intensa. Frutos que levam menos tempo a desenvolverem-se na árvore, para chegarem mais rapidamente ao mercado, são nutritivamente mais pobres. O mesmo sucede com as carnes. As vacas, por exemplo, são injectadas com hormonas de crescimento para se desenvolverem mais rapidamente. As condições de produção industrial de galinhas e porcos, em condições pouco higiénicas, força os produtores a administrarem grandes quantidades de antibióticos, fomentando a evolução de resistência a antibióticos entre bactérias infecciosas, com consequências sobre a incidências de infecções resistentes em humanos.
A indústria alimentar tem outras perversidades. A globalização deste sector tem conduzido vários países a concentrarem a sua agricultura num número reduzido de produtos, tornando esses países vulneráveis às oscilações de preços e não-autónomos do ponto de vista alimentar. A produção de comida tornou-se um sector que consome muitos hidratos de carbono, na produção de fertilizantes, de pesticidas, e no transporte de alimentos. Estima-se que custam 10 calorias em combustíveis fósseis para produzir 1 caloria de alimento. Uma balança muito desequilibrada, sobretudo quando pensamos que tradicionalmente a única energia necessária para produzir comida era a solar e o trabalho humano.
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André Levy
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12:09 PM
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