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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Mao



Acabo de ler o calhamaço (954 páginas) que é a biografia de Mao Tse-tung, líder tirânico e assassino da China comunista desde 1949 quando, a custa de uma guerra fratricida que deixou mais de um milhão de mortos, conseguiu expulsar o general nacionalista Chiang Kai-shek da área continental chinesa para a província de Taiwan. Por quase trinta anos, até sua morte em 1976, Mao aboliu qualquer resquício de liberdade que pudesse haver no país e toda a estrutura social milenar existente, em nome do “maoísmo” que era sua maneira pessoal de interpretar a doutrina comunista.
Desde o primeiro momento, o que ressalta da vida dessa figura insólita é seu completo desprezo pelos seres humanos, sua completa indiferença a qualquer sentimento para com próximo e sua dedicação exclusiva e em tempo integral para a conquista e o exercício do poder a qualquer preço. E qualquer preço neste caso não era uma mera expressão linguística, significava morte por fome, execuções sumárias por fuzilamento e afogamento em rios e lagos com uma pedra amarrada no pescoço, tanto de seus acólitos que lhe impusessem obstáculos a seus objetivos, quanto de camponeses anônimos dos quais ele confiscava as produções de modo a deixá-los sem um mínimo de alimento para sobreviverem. Mao, como Stálin e Hitler, foi um monstro que alcançou o topo do poder subindo por uma longa rampa de cadáveres de cidadãos de seu próprio país.
O “Grande Timoneiro” era extremamente mordômico, egocêntrico, covarde e preguiçoso, durante a chamada “Longa Marcha”, na qual os comunistas percorreram centenas de quilômetros a pé pelo sudoeste do país, Mao era carregado de liteira apoiada sobre os ombros de soldados muitas vezes descalços e quase sempre famintos. Quando um dos soldados não tinha mais condições de carregar o infame ogro pelas sendas escorregadias e íngremes das montanhas, era deixado no caminho para morrer e substituído por outro que, mais tarde, teria o mesmo fim. Mao só pernoitava em residências luxuosas arrestadas de proprietários ricos, seus acompanhantes dormiam ao relento e muitos morriam de frio. Ele não andava armado e nunca participava de combates, mas se comprazia em assistir a torturas de seus adversários e inimigos, além de estimular mortes dolorosas e degradantes daqueles que considerava ameaças a seu poder.
Logo após a subida ao poder do PC chinês, Mao ligou-se politicamente a Stálin por que via nele seu potencial fornecedor de tecnologia militar, estava determinado a transformar a China numa potência bélica. Ele sabia que o status quase medieval da economia chinesa era um impedimento sólido para transformá-la numa nação industrializada, então, para surpresa até do próprio Stálin, propôs criar um incidente na Coréia que levaria os americanos à guerra. Entendia ele, sem dar conhecimento a Stálin naturalmente, que se os americanos ameaçassem o equilíbrio da Ásia, a Rússia seria obrigada a armar a China para se defender. Os cálculos dele estavam corretos, ele comprometeu suas tropas (três milhões de soldados) na guerra e obteve de Stálin a transferência de tecnologia de armamentos leves e pesados, aviões militares, tanques e mísseis.
Foi dito ao povo chinês, de forma vaga, que o equipamento soviético usado na industrialização do país era “doação”, ou seja, que se tratava de um presente. Nada mais longe da verdade. Tudo tinha que ser pago – e isso significava sobretudo pagar com alimentos, fato que foi rigorosamente escondido do povo chinês, como até hoje ainda se faz. Naquela época, ao contrário do que acontece hoje, a China tinha pouca coisa para vender.
As mercadorias que a China exportava para a Rússia e seus satélites eram, em sua esmagadora maioria, artigos essenciais a seu próprio povo; entre elas estavam todos os principais produtos que a população chinesa dependia para ingerir proteínas; centenas de milhares de camponeses morreram de fome apesar de suas colheitas terem sido boas naquele período; Mao, num cálculo frio, havia trocado a vida de cidadãos por tecnologia armamentista. Até alguns de seus seguidores se sentiam enojados, mas fazer declarações contra essa política de fome não era opção, o ditador era extremamente vingativo e não foram poucos comunistas fuzilados acusados de “direitistas” durante seus expurgos.
Além de ter de produzir alimentos para pagar pelas importações militares da Rússia e da Europa oriental, os camponeses tinham que entregar produtos preciosos para compor as doações imensas que Mao fazia a fim de promover suas aspirações territoriais. A China não somente fornecia alimentos para países pobres como a Coréia do Norte e Vietnã, como os dava de graça para regimes comunistas europeus muito mais ricos, especialmente depois da morte de Stálin, a qual deu a Mao a sensação que poderia liderar o mundo comunista.
Não satisfeito com as fábricas de armamentos que havia arrancado da Rússia em troca de proteínas tiradas da boca de seus concidadãos, a partir de 1956, Mao passou a desejar, com fúria alucinada, fazer da China uma potência nuclear com posse de bombas e submarinos atômicos. Mais uma vez ele usou a guerra fria para conseguir seus intentos. Passou a bombardear a ilha de Quemoy, pertencente a Taiwan, sabendo que os EUA tinham um pacto de defesa com Chiang Kai-shek e não deixariam barato tal agressão a seu aliado. Foi só o Pentágono ameaçar o lançamento de umas bombas atômicas na China e Mao conseguiu de Kruschev - que a essa altura tinha substituído Stálin no comando da Rússia - a construção de reatores nucleares em território chinês e transferência de submarinos atômicos para a marinha chinesa. Resultado: mais comida exportada e mais barrigas de camponeses roncando.
Como a cega obediência a seus ditames e os rumos implantados à economia e à política do país dependiam não de um entendimento ou de uma aceitação passiva das normas mutáveis a toda hora, mas simplesmente do terror, em 1966 Mao instituiu o movimento que passou a ser conhecido com Revolução Cultural. Esse movimento foi um período de terror político e social que agitou a China por dez anos. Quem o desencadeou foi Mao. Insatisfeito com os rumos do sistema que ele mesmo havia implantado, Mao queria a China de joelhos pronta para aceitar qualquer ordem sua, por estapafúrdia que fosse. Assim, numa reunião do Comitê Central do PC Chinês, em agosto de 1966, ele lançou formalmente a Revolução Cultural. Mao tinha como objetivo desmantelar qualquer traço de “burguesia” existente, bem como quebrar a espinha de possíveis setores de oposição. Para isso a ordem era estimular a juventude, chamada então “Guarda Vermelha” a atacar, e se preciso eliminar fisicamente, todos os indivíduos cultos ou que tivessem ideias próprias. O que se viu foi um banho de sangue que durante dez anos conduziu o país a uma regressão cultural, econômica e social rumo ao medievalismo. Até hoje, passados 35 anos, o país ainda se ressente dessa violência.
Para finalizar, engana-se quem pensa que a China, agora terceira potência econômica mundial, mudou muito depois da era Mao, até hoje seus camponeses são mantidos segregados, explorados, escravizados e impedidos de qualquer chance de ascensão social. Filhos, netos e todos os descendentes de camponeses serão camponeses, seus futuros estão traçados, da mesma maneira que os únicos que terão acesso às benesses das riquezas provenientes da industrialização do país serão os burocratas do partido e seus filhos. A China mudou para continuar a mesma, graças ao maoísmo. JAIR, Floripa, 26/08/11.