Milhares de anos
depois que o asteróide tiver atingido o Planeta, extinguido toda a humanidade e
destruído suas conquistas e realizações, é razoável supor que se astronautas de
civilização alienígena por aqui chegarem vão se deparar com muitos indícios dos
animais bípedes que dominaram a Terra por milhões de anos. Claro que seres que
se propõem viajar por distâncias astronômicas por longo tempo pelo espaço
ignoto, deverão ter aguçada curiosidade científica que os compulse a práticas
arqueológicas quando aqui chegarem. Um Planeta habitável destituído de vida
inteligente deverá ser um prato cheio para suas pesquisas.
Fazendo levantamentos
com equipamentos de avançadíssima tecnologia poderão inferir milhões de
informações sobre a nossa civilização extinta. Poderão verificar que se tratava
de uma raça única de primatas que desenvolveram a capacidade de se comunicar
oralmente, que inventaram a escrita e criaram tecnologias eletrônicas de certo
destaque, que possuíam também habilidades manuais desenvolvidas que os
distanciaram culturalmente de seus primos chimpanzés e gorilas. Deduziriam que
se tratava de bípedes dotados de inteligência apreciável, inquietos, nômades
que haviam se distribuído por todas as massas térreas do Planeta, até as mais
inóspitas como o Ártico e os desertos.
Por outro lado, ficaria evidente que esses primatas apresentariam
milhares de variações em suas conquistas, escolhas, invenções e modus vivendi, embora se tratasse de
animais da mesma raça que cruzavam entre si sem impedimentos genéticos.
Verificariam que haveria níveis de consumo (sinais de riqueza) muito variáveis
demonstrando que, embora fossem da mesma raça de certa espécie, alguns
prosperavam outros não, e isso seria muito estranho para os alienígenas que não
incluíam classes sociais em sua cultura.
Os visitantes
alimentariam seus supercomputadores com os dados coletados e ficariam surpresos
com a quantidade fantástica de artefatos, objetos e elementos criados para dar
suporte a essa civilização que havia sumido para sempre. Contudo, a maior
surpresa estaria reservada não à multiplicidade de coisas encontradas, mas sim
aquilo que era comum a quase todos os humanos, quer vivessem no Himalaia, nas
Ilhas Faroe, na Antártida, no Saara, na Amazônia ou em Tóquio; fossem homens,
mulheres ou jovens, todos usavam ou teriam usado um objeto simples durável em
forma de calças: jeans. Restos de
tecidos de brim com costuras duplas reforçadas, de certa espessura e cor,
fechos éclair e ilhoses de metal indicariam que, independente de classe social,
região na qual viviam, clima, altitude e grau de sofisticação de suas
existências, o uso de jeans era algo que poderia ser interpretado como praticamente
obrigatório.
Visto isso, os
antropólogos ao serem obrigados a classificar essas descobertas, teriam que
colocar a civilização Homo sapiens em
alguma ordem, família, tipagem ou espécie, com já faziam com suas descobertas
em outros planetas. Então, assim como os cientistas humanos fazem ao se deparar
com objetos ou costumes recidivos a uma etnia, um povo ou uma cultura
desconhecida, depois de analisar os dados, concluiriam que: haviam descoberto a
civilização dos jeans.
Nenhum item de
vestuário, talvez de qualquer outro uso, coletivo ou individual, é mais
universal, mais versátil ou mais aceito e disseminado do que os jeans, roupa
inventada em 1873 por Jacob Davis e Levi Strauss para uso de trabalhadores
braçais das minas de carvão. JAIR, Floripa, 20/06/12.