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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Hoje o Javali Sentado retira-se

Deu-me muito gozo esta segunda passagem pela blogosfera. Só que há mais vida para além dela e está na hora de sair. Fiz isto com amigos que cultivo há mais de 40 anos e uma amiga mais recente, mas de quem gosto muito. Um muito obrigado também à Annie Coelho, ao João de Azevedo e ao Sérgio Santimano. Por razões pessoais perdi o prazer que tinha nisto.
Vou sentir saudades de ler os postes da Ana Cristina Leonardo, como o que aqui transcrevo e com o qual concordo integralmente:
Qual a diferença entre citar o "Protocolos dos Sábios de Sião" e "O Segredo"?
Bom, é que sendo ambos bullshit. o primeiro contribuiu para reduzir a cinzas uns quantos milhões de pessoas.
Alguém que explique isso ao Jorge Messias do PCP.
Messias?!

Dito isto ainda há tempo para publicar as 2 últimas fotos que tenho em carteira, do Jota Esse Erre e um texto do JSP.
E, para não me alongar muito, mais duas ou três coisas para terminar. Não gosto que me pressionem com “Adeus e até ao meu regresso”. O PCP ensandeceu de vez, o BE é uma mistela de deolindos e amanhãs que nunca vão cantar e, a malta que foi ao pote não tem mundo, nem ideias para Portugal. Pois é, resta o PS. Que se transforme e ajude a refundar a democracia, como apela o companheiro Mário. Citando livremente Knopfli, gosto de minorias de um só se necessário for e estou-me a cagar para a juventude e para a contestação. Poder popular e braço no ar nunca mais. Gostava de ter visto, como o JSP, Sócrates a surfar nas ondas da crise (falo é claro do engº e não daquele que enclausurou a Filosofia).
Vou daqui formoso (a vossa companhia emprestou-me brilho) e não Seguro.

Um Imenso Adeus

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O orçamento e a democracia

É extraordinário como se possam fazer afirmações como esta. O orçamento é meu é como dizer: eu ponho as contas do país em dia, eu sei, eu posso porque quero e mando, como se a economia fosse uma aritmética de crianças, coisa de somar e diminuir, de resolver com soluções caseiras – como a mãe fazia, ou o pai, lá em casa, o amado pilim debaixo da almofada no tempo de Salazar, esse génio das finanças, ou de Caetano, esse autor de primaveras - numa operação que encontraria no deve e haver o seu território. Se não fosse de espantar pela ingenuidade e basismo voluntarista seria certamente de remeter para a bruxaria ou outra ordem de resposta do domínio surreal, oculto ou mesmo extraterrestre, na suposição de que o “é meu” teria dentro magicamente um segredo íntimo, a fórmula única, tal como a receita dos célebres pastéis de nata, ainda hoje no segredo não dos deuses mas do doceiro de Belém. O Primeiro-ministro, no caso, terá certamente uma fórmula incógnita, uma macumba específica, mais ou menos transe e suor empenhados na dança orçamental.
A propriedade do orçamento que o gesto indica, o “é meu”, finta ou tenta fintar uma realidade bem mais complexa do que a afirmação inclui. Não, o orçamento não só não é dele, Primeiro-ministro, mas nem sequer é de todos nós, o país. O orçamente é mesmo deles, dos que credores de voracidade lucrativa ilimitada, exigem que se lhes pague – as agências que para eles trabalham têm a claríssima missão da chantagem e da desestruturação da componente pública das economias – no tempo e nos prazos que a tal troika também sua representante exige e que o governo, mais que a troika, agrava do ponto de vista do que é, a cair na conta dos especuladores “amigos”, o resultado do aperto austero sobre o sector público e a população em geral através dos impostos extraordinários, directos e indirectos, para que estes capitalizem de novo o que “emprestaram” com juros assassinos e de novo “emprestem” a novos juros galopantes e condições ainda mais especulativos e que são, sem margem para dúvidas, de um ponto de vista ético – humano – usura mesmo criminosa, dados os efeitos destruidores à vista de todos, da democracia e das instituições. A metáfora do bebé que vai na água do banho não é demais e poderíamos juntar ao bebe a mãe e o pai, família jovem inteirinha.
Se esta golpada orçamental não é típica de uma espécie de jogada de poker em que o jogador governo aproveita o facto de o adversário, a população portuguesa, não ter trunfos, nem sequer as mesmas cartas para jogar o mesmo jogo, para lhe impor através da austeridade salvífica como se os portugueses fossem apenas uma variável orçamental, uma derrota em todo o terreno, não se percebe de facto o que é, tal é o afã destruidor que as medidas comportam – se é esta a forma de relançar a economia então é preferível decretar já a conversão do país a uma única e generalizada sopa dos pobres, assumindo-se também um novo hino nacional, qualquer coisa sobre a heroicidade das propriedades vitamínicas e proteicas do rabanete que nos alimentará a todos mais loas entoadas aos credores em refrãos de cumprimento da dívida ao preço da própria morte, com o Egas Moniz em fundo de corda no pescoço mas agora além da corda com o cinto tão apertado que a cintura se fosse.
É a economia de casino, é um ataque deliberado ao sector público e ao bem público, é um comportamento de governo testa de ferro desses sectores financeiros especulativos que vêm destruindo as democracias e as conquistas civilizacionais que a Revolução Francesa inaugurou e o mais recente pós guerra relançou. O governo é uma empresa de destruição da democracia, mais até do que uma empresa de cobrança de dívidas, pois cobra a quem não deve. Essa história de que teremos vivido todos, uma espécie de pecado comum português, acima das posses, é injusta e ignóbil, não é verdadeira e que todos paguem por alguns é roubar quem não pecou. Necessitamos de partidos Robin Hood, essa é que é a verdade, que construam mais nova vida real que oposição parlamentar e acções de rua previsíveis.
Não é esta a via porque esta não trará nenhum tipo de crescimento económico, nem nenhuma nova vida possível e pelo contrário trará uma nova e vergonhosa pobreza salazarenta, num tipo de evolução destrutiva da democracia, das liberdades e das condições mínimas de vida digna das populações. Cortar os salários dos funcionários com mais de mil euros mês – e mil euros é várias vezes menos que as mesmas profissões por essa Europa – é um roubo. Estes senhores não têm o direito de entrar assim na casa dos outros. Entrem na própria e naquela daqueles que representam e encontrarão soluções. O dinheiro existe e está aí, é uma questão de o ir buscar justamente ao que foi especulado, à riqueza privada que se encheu de dinheiros públicos, aos offshores e a toda essa economia corrupta e criminosa, ilegal. Não é por acaso que aqueles que investem nesses tais paraísos fiscais têm o nome resguardado pelo segredo conivente de uma legalidade lacaia que os protege. A democracia não pode conviver com aqueles que a destroem e isso não é apenas um problema de crime político, é também um problema de crime económico. Quando a legislação protege os bandidos desta forma isso significa que o legislador também é suspeito. É necessária urgentemente uma nova ordem mundial. Aqueles que supostamente estão legitimados pelo voto estão exactamente como outros a destruir aquilo que foi conquistado com essa legitimidade nascida em ABRIL, a democracia, agora realmente ameaçada de morte pelo capitalismo da especulação financeira.

fernando mora ramos

domingo, 2 de outubro de 2011

Os decanos do bloco central no poder: tudo boa gente!


Francisco Soares Mesquita Machado, membro do PS e presidente da Câmara de Braga há 35 anos.


Alberto João Jardim, membro do PSD e presidente do Governo Regional da Madeira há 33 anos.

sábado, 24 de setembro de 2011

A via única

Este é um país estranho, de posições definitivas um dia e matizadas no seguinte, de rigidismos inamovíveis à terça e de flutuações e ambivalências à sexta, de uns a dizer assim e outros da mesma laia partidária a dizer assado no mesmo telejornal, tudo sob a pressão constante do poder dos interesses em que os agentes dos interesses, empresas e governantes, estão directa e indirectamente envolvidos. A teia urdida de imbricações entre o privado e o público que alastrou com a “economia da democracia”, e que se materializou por esse ascender de uns tantos – as mesmas e novas famílias de poder ligadas a partidos – ao controle dos dinheiros, aos negócios europeus, às possibilidades negociais criadas pela globalização e pelos caminhos ilícitos dos offshores, detém o poder, isto é, detém o poder que sobra do nosso quadro de dependências em contexto europeu e global e jogam-nos de um modo que pouco atende às necessidades nacionais, entendidas estas numa lógica relacional, não fechada.
O caminho da decisão – declarada repetidamente como a mesma até à exaustão como no TGV - vai numa direcção única até que, no tempo do que a memória curta praticada e estimulada pela política do espectáculo motiva, e cento e oitenta graus posicionais depois, assumidos agora sem empolgamento definitivos, estamos no exacto oposto e a deslizar para o mesmo tipo de tensão autoritária na exposição da decisão contrária. É o que agora sucede com o TGV e a ver vamos como, pois rapidamente se instalará, com a clarividência que normalmente resulta do debate à moda portuguesa, a confusão necessária a que as coisas aconteçam num quadro em que a perda de contornos do que se diz vá engrossando uma amálgama ideológica de que resulta justamente a opacificação das realidades específicas, dos processos e das decisões – estas tomam-se à mesma no momento justamente em que a confusão atinge o auge.
Não acreditaria possível se a isto não assistisse: para salvar a face do Primeiro-Ministro e do partido de poder face à decisão europeia anterior subscrita empenhadamente pelo Engenheiro Sócrates, a negociação em torno do TGV ruma agora, em sentido contrário ao da promessa eleitoral, para a concretização de mais uma originalidade portuguesa, a de que vamos ter um TGV em via única, do Caia ao Poceirão e de via dupla, para cruzamentos, entre Évora e Vendas Novas.
Um TGV de via única é de facto uma ideia peregrina e permitirá que os nossos horários de ingresso na Europa via grande velocidade percam a velocidade que se perderá pelo facto de só haver cruzamento durante aquelas dezenas de quilómetros que vão de Évora a Vendas Novas – será a tal Europa a duas velocidades de que se fala literalmente realizada, a metáfora tornada corpo ( a duas?)
Um comboio de alta velocidade parte de Lisboa a contar cruzar-se com outro nesse troço da linha entre Évora e Vendas Novas e calculando tudo para que seja assim, impedindo um regime específico de horário livre caso fossem construídas, como será lógico, as duas linhas autónomas. Não é por acaso que nestas coisas, nos países da Europa, se pratica a política das duas linhas, uma ascendente e outra descendente. É elementar a compreensão desta necessidade e fica claro, com uma decisão deste tipo que o efeito específico da crise, a política da crise, é o aprofundamento do nosso afastamento da Europa no mesmo momento em que a Europa também se afasta do que era e foi – é como se neste processo de integração praticássemos uma política do afastamento constante das metas europeias para a nossa própria vida pela via da suposta integração e que, com isso, na realidade, materializássemos a desintegração europeia. O esboço de integração motivado apenas pelo euro, como agora todos dizem, está longe de uma livre, maturada e necessária integração política, outro patamar de compromissos entre nações democráticas e solidárias – como se isso contasse para o que quer que fosse mais do que para alardeá-lo numa afirmação dos princípios sempre quebrada pelos pragmatismos servis.
É de facto uma estranha metáfora, a via única e cola com a da dívida, também vítima, do lado da solução da sua superação, de um olhar governativo que a reduz a uma via única, a dos cortes que trarão a regressão económica e não o crescimento e o aprofundamento democrático. Tudo se faz e inventa para que a redução do défice aconteça em nome de uns números que são completamente artificiais e se relacionam com empréstimos, com juros e especuladores, como sabemos e não com a produção de riqueza que liberta o crescimento e a autonomia de decisão. Somos um país doente de dependência e de servilismo. Esta da via-férrea única para o nosso TGV como metáfora do nosso modo de entrar na Europa, saindo dela, cobre-nos de um ridículo incomparável.

fernando mora ramos

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Nomeações

Acabo de ler que este governo já fez mais de quinhentas nomeações. E porque é que não espanta o feito e a rapidez? Nada se esperava de diferente. A velocidade das nomeações é superior à de Sócrates, considerando o período de tempo homólogo de início da governação. E o que é que nos diz este dado? Que são forças políticas do mesmo tipo. Mal se instalam no poder fazem tudo para se eternizar nele e a pressa de tudo controlar passa a ser programa – fora dele fazem o mesmo, o carácter permanentemente eleitoral (directo, eleitoral e indirecto, sob escrutínio mediático diário) do exercício do poder e do exercício de oposição, de reconquista do poder no caso, fazem da democracia um simulacro com dois protagonistas em alternância sistémica, já que nada se decide fora da gestão diária da fabricação simulada de uma identificação com o interesse geral, tudo o que acontece cada vez mais medido em função de uma quantificação estatística constante dos humores avindos e desavindos dos eleitores como reacção aos casos efémeros do que, finalmente, constitui a governação na esfera pública enquanto imagem dos próprios poderes e líderes.
Na realidade o governo hoje é a maior ou menor capacidade de organizar junto dos que de algum modo escrutinam a governação, o eleitorado e os poderes com força mediática de facto, a aceitação pacificada da melhor mentira acerca de cada caso – as artes de relativizar a verdade nunca foram tão acrobáticas e nisso os média e a sua ambivalência de estatuto, vozes de poder e vozes críticas, vão realizando o seu jogo duplo, por vezes na defesa de verdades evidentes e escarrapachadas, outras vezes na sua ocultação manhosa - já que os casos, na irracionalidade do sistema e suas erupções de imprevistos e na impossibilidade de uma concertação estratégica da mentira, se sucedem uns aos outros “obrigando” quem governa, não a governar, mas a dar em espectáculo explicações e tomar medidas para uma reinterpretação dos casos como afinal sendo culpa de outros, sempre terceiros e estranhos, bodes expiatórios uns, novos inimigos outros, sacrificados consentidos se necessário. O culpado é sempre um caso excepcional, alguém que degenerou, porque os outros são criaturas éticas e nada têm a ver com empresas nem negócios menos visíveis, o que a justiça sempre tardia comprova sempre por ausência de concretização dos processos legais, ora prescrevem, ora são tão longos que apodrecem morrendo a culpa mesmo que não solteira pelo esmorecimento da memória. Onde andará Dias Loureiro, por exemplo? Não era próximo do Presidente Cavaco, membro do Conselho de Estado?
A maior parte do esforço de governação das forças ultra liberais é dedicarem-se à sua própria perpetuação no poder. E isso significa governar para o partido e neste caso para a coligação de poder. O que explica o número obsceno de nomeações em tão breve período. Será que quota do CDS respeita a sua percentagem e isso ajuda a explicar o número amplo? A coligação será essa? Tudo indica que quanto à aritmética dos proveitos clientelares são competentes. É a lei da proporção no usufruto do poder concreto, és mais pequeno comes na proporção do tamanho – qual o maior desejo de Portas? Crescer, e só o nariz lhe faz a vontade, como o do Engenheiro Pinóquio, como lhe chamou sempre a direita com inveja do seu talento de direita também.
Não é por acaso que os dois ministérios em que abundam as nomeações são o de Miguel Relvas e o de Assunção Cristas. No primeiro caso percebe-se que é o homem do aparelho no governo, o gestor directo dos interesses partidários na orgânica governativa. Os 65 nomeados até agora, outros virão, serão a rede, o grupo de controlo, a polícia política partidária. No caso de Assunção Cristas o pessoal nomeado garante certamente uma presença CDS suficientemente ampla para impedir que o parceiro de coligação fique proprietário das benesses económicas que cria o largo espectro de acção que é o território da economia pública e as suas fronteiras com as empresas privadas. É nas parcerias público privadas que está a virtude e no trânsito que permitem e sugerem. Neste aspecto a imaginação destes governantes é rigorosamente criativa pelo lado da quantidade possível de nomeações em “sede” de crise da dívida. Com tanta desestruturação dos aparelhos ministeriais em marcha, das suas orgânicas efectivas, este contingente de assessores cria uma espécie de poder paralelo possibilitando uma gestão dos actos de governo muitas vezes à margem das próprias legislações e orgânicas sectoriais. Enquanto o sistema de poderes não estiver garantido e seguro pelo lado do controlo vai ser assim. A tomada do poder é a tomada do poder pela via das fidelidades pagas. É assim.
E a crise? E os desempregados? E o corte na despesa pública? São tudo apenas variáveis da política como engenharia financeira, mesmo nesta crise. Se necessário for despedem-se mais funcionários públicos para contratar assessores, mesmo que com recibo verde. Ser recibo verde justifica até salários mais chorudos, dada a precariedade. Ele há recibos verdes dourados e precários de luxo, não duvidem.


Fernando Mora Ramos

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Santo Santana

Não será, numa inversão elementar, como uma freira à frente de um bordel? À primeira parece estranho, mas não houve Sporting para trás e não deu o corpo performativo a Primeiro-ministro, uns escassos meses? Não durou, sabemos, já que o género “andar por aí” não estabiliza e os sérios do capitalismo não querem, nunca, um imprevisível ao comando da nação que especula, criativo demais como o pensamento luso quotidiano mais desbocado.
Já não estranhamos a criatividade institucional, desde Sócrates que é aliás obrigatória, decretada, escolarizada como o inglês técnico, e conta com o que na dimensão massiva é a chama comunicativa imparável, dinâmica de consumo constante de casos como ondas de marés várias, enovelados narrativos de circo básico engodando o apetite da populaça pelo escândalo aliados a grandes piqueniques partidários preenchidos pela excelência de um programa pimba que, diga-se, não será da “estética” do artista convidado e da sua palavra subtilmente grossa, mas do gosto do “programador” que cumpre a política rasteira ao serviço do nível estatístico satisfatório – tirado como quem tira a febre a um corpo sempre à beira dela - do aplauso acéfalo induzido. É necessário manter o povo no medo e na unanimidade burra.
Desde que a oferta perdeu o tino multiplicando-se os pães pelas infinitas variedades a partir da mesma farinha, seja o que for é possível, não só por via da imitação chinesa, mas por superior criatividade lusa delirante, inexcedível como neste caso e renovável em banhos de tinto e branco – em boa verdade, para alimentar a novela e desde que nos jardins de Berlusconi na Sardenha se viu que se passeava, ilustre fauno entre ninfas erotizadas, um ministro checo de pau feito (valha-nos isso) mostra-se logo a casa, já nem a lingerie caindo vale pelo que se segue e tira-se partido do arrojo que é expor a intimidade desnuda aos sedentos voyeurs anónimos. Desde que não se exponham os circuitos do fluxo financeiro subterrâneo, vale tudo, aí o perigo é a voracidade invejosa e descabelada dos terceiros massivos e rios de dólares roubados legalmente podem dar até motim, como em Londres, motim do povo que sub-consome.
A profusão de possibilidades humanas perfilada para cargos institucionais só atesta que não há perfis pensados, ou melhor, que o perfil é a proximidade e as qualificações curriculares e operacionais para nada contam, tanto fazendo ter um construtor civil num laboratório científico como um matemático a falar das vantagens do esparguete se o tema for a tragédia da obesidade em meio escolar aliada à necessidade da dieta garantida por outsourcing a oferecer a empresa amiga. É o caso aqui talvez, mais um caso Santana, e é qualquer coisa que está do lado do êxito que a confusão garante assente na rápida a decisão impensada – importa a decisão apenas. Hoje a virtude está na velocidade e com telemóveis e internet surfamos sempre à frente da sombra, performance que deixou de ser paradoxo de talento pistoleiro.
Mas não será erro nosso esta perspectiva? E não será indicado que uma freira possa gerir um bordel? Com todas as questões de humanidade implícitas pelo lado dramático apensas, mais as de saúde e doença, mais as especificamente de fé, não seria estranho. Ou seria? Para a freira digo. É que o Dr. Pedro Santana Lopes que também foi Secretário de Estado da Cultura e se sentava no Conselho de Ministros, é certamente uma pessoa misericordiosa e tem uma costela de Madre Teresa – grande gestora – desconhecida, mas que é estruturante de todo o seu ser. E não se sabe porquê, andando ele por aí, tinham que lhe arranjar um cargo, um papel, um lugar de relevo – ELE estava disponível, o Sporting está desta vez no bom caminho e ser o vereador líder da oposição em Lisboa é coisa pouca para tanta capacidade múltipla.
Depois da Europa recusada - segundo se diz e apenas repito aqui – talvez porque já não seja assim tão jovem e há uma idade para isso e depois, mais tarde, há outra de novo, nada melhor que a Santa Casa. Que dirá o Patriarca? As Misericórdias são um universo desconhecido e até um pouco opaco, estranhos lugares onde há dinheiro e poderes instalados há muito. E têm qualquer coisa de Casa Pia – não falo de pedofilia, falo de hierarquia, de modelo organizativo, de pré modernidade misturada com avançada tecnologia, claro. É um mundo que a democracia, em extinção, não chegou a conhecer. Talvez o Dr. Pedro Santana Lopes, vindo-se a confirmar este seu destino, venha a ser o autor da sua passagem à modernidade aberta e até escancarada e isso fazia falta, pois Misericórdias não são espaços de intimidade como os jardins de Berlusconi, são espaços públicos e devem mostrar os interiores, são também nossos. Pois não haja dúvida quanto à relevância do caso: com a produção de pobres em aumento exponencial garantida como meta deste governo, as Misericórdias necessitam mesmo de alargar, misericordiosamente, as suas tarefas diárias, e criar mesmo um serviço 112 alimentar para moribundos. Ninguém mais apto que Santana Lopes para uma nova dinâmica, mesmo um novo e nervoso galope de solidariedades ágeis praticadas com fé.

fernando mora ramos

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O novo PREC

É ao que assistimos, uma catadupa de medidas empurrada por um falso horizonte. A fugir da dívida caminhamos para o abismo. E as medidas sucedem-se: aumentos impensados nos transportes a fazer o frete ao uso e abuso do carro privado, meio subsídio de natal calculado não a partir do subsídio de natal – há muita gente que não o tem, nem de natal, nem de férias –, mas a partir dos valores do IRS declarado dividido por catorze, duzentas e trinta nomeações com dupla transparência a multiplicar a transparência por dois (Internet e Diário da República) no espaço de um mês – excelente média e despesa, imagina-se -, liberalização do uso da gravata no MA, um Secretário de Estado sem assento no Conselho de Ministros, o da cultura, orçamentos rectificativos pré anunciados ao serviço das necessidades de crédito do sistema banqueiro, avaliação dos professores a manter-se para já, TGV para as urtigas, frente ribeirinha lisboeta logo se verá, e mais uma série de medidas na lógica do corte – nem todas péssimas claro, só está em causa é o seu recorte -, com o assunto das secretas a dar o toque República das Bananas, pois não nos podemos esquecer desse luxo de condição cómica que é ser periférico e há que praticá-lo lançando tragédias de irrelevância nas ondas de choque do real de modo a que este se note menos.
E convenhamos que há um real que está indexado, por assim dizer, ao balanço dos transportes públicos e um outro que se anuncia no ranking das 10 maiores fortunas portuguesas, com a cortiça a vir mais que ao de cima, a voar mesmo. É interessante conhecer este sistema de vasos comunicantes perfeito: o menos que tu tens é o mais que outro acumula e se apertas o cinto, tu e uns milhões, outros multiplicam os patrimónios e as rendas e o muito A mais que têm - não há aqui regulação alguma segundo lógicas de necessidade vindas de um centro de racionalidade humano e técnico chamado governo, nem princípios de solidariedade institucional, nem nada que o explique que não seja a força bruta do dinheiro a agir através dos seus mandantes e dos seus mandados. E nestas fortunas, lucros acumulados em espiral ilimitada, e não o tal dinheiro que regressaria à economia investido – o sentido de lucro não é esse – não se divisa a mínima crise, pelo contrário, a crise é o melhor que lhes pode suceder, comem do acrescento de miséria dos outros e comem dos lucros da especulação, comem por duas vias: pela austeridade que é mais capital para eles e dos capitais em bolsa, riscos geridos e protecção mais que acautelada contra estes, pois também mandam nos riscos.
É um novo PREC, o Processo de Regressão Em Curso, pois este grau de “austeritarismo” é de facto absolutamente radical na sua cegueira e não mede nem as necessidades de alargar as sopas dos pobres ao número do seu aumento exponencial. O que sentirá um democrata cristão? Não fundamentalista, claro. Sentirá pena, compaixão, rezará pelos desempregados que agora lança na miséria? Quantos Pais Nosso? O Senhor tem um plural minguado! Quantos céus necessitarão invocar perante tanta dor evitável?
Em boa verdade o capitalismo puro e duro que aí está não vai resolver nada, nem a crise, nem as mentiras da crise e são múltiplas e engordam os porcos – era assim que os desenhava Grosz.
Pois a crise não é a da dívida. Questões de dinheiro sabemos nós que se resolvem – há várias provas históricas de saídas de crises bem mais complicadas, esta tem interesses próprios, por assim dizer -, o que não se resolve é a sua distribuição errada, o enriquecimento ilícito de uma minoria que fabrica as suas próprias leis, sistemicamente instalada como proprietária do modelo de organização sócio económico, regime parlamentar representativo da liberdade específica de agir dos poderes financeiros dominantes, o reverso oculto da democracia, aquele que contra ela milita – entre o mercado e a democracia há interesses opostos: um visa a acumulação de lucros intransparente na mão de um menor número de competidores que vencem, a outra visa a igualdade de direitos, a transparência, a distribuição equilibrada dos meios de vida, a generalização da cultura artística e científica, finalidades humanas através da fruição quotidiana na cidade daquilo que são os ricos patrimónios vivenciáveis da cultura ocidental, desde a diversidade do legado grego aos avanços da tecnologia, isto sem endeusamentos burros (o que é tecnológico será sempre submetido a usos e não virtuoso em si como sonhará um tecnocrata cego pelos ecrãs).
O problema é a nova religião, o dogma, indiscutível, a dívida nova fé, um caminho a seguir cegamente na sua resolução: “eles é que sabem”, diz o analfabeto financeiro, nós, pensando nos tais economistas e gestores que finalmente a criaram, á dívida, com um carinho pseudo-científico – afinal são tudo narrativas e o futuro é uma incógnita. Sabem o quê? O dogma da economia do crédito mata a democracia. A “creditarização” da economia é em si uma velha fórmula e pela taxa alta matou a sua utilidade, transformando-a num garrote. Os usurários que habitavam no Século XVIII nas imediações da Ponte do Rialto já tiravam partido de uma aplicação extremista da usura para fazer crescer os patrimónios respectivos sem limite, principalmente o fundiário. Em Os Rústicos, do grande Goldoni, já um deles confessa: “quando me perguntavam se queria ver o mundo através da luneta ou amealhar as duas moedas eu preferia guardá-las”. Pois é, como dirá um imbecil, eram mais espertos e isso é o mérito. Falta saber onde é a vida. Há sempre, pelo menos, duas perspectivas antagónicas e depois há todas as outras.


fernando mora ramos

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Cultura, o sucesso da dívida e o escritor José Viegas

Não foi boa notícia passar a Secretaria de Estado mesmo que não seja uma tragédia. E até seria relevante que o Primeiro-Ministro fosse o Ministro do Secretário de Estado da Cultura, o que significaria, sendo o Primeiro-Ministro o Primeiro dos Ministros, que a Cultura passaria a uma primeira importância entre as hierarquizações a estabelecer nas opções de governação. Governar é optar. E em Portugal desvalorizar a Cultura será optar pelo mesmo, optar pela valorização do que a exclui. E excluir a Cultura de uma relevância da acção governativa é optar pela desqualificação, pelo retrocesso, pelo incumprimento da meta essencial do crescimento económico como verdadeiro caminho de nos libertarmos das imposições da dívida, um colete-de-forças que gerará, pelo menos nos próximos tempos, não só conflitualidade social com resultados económicos regressivos, mas também bloqueio e retrocesso das práticas e do perfil democráticos da nossa vida comum. A dívida gerará falta de democracia, não nos iludamos.
Optar pela irrelevância cultural significa optar pela incapacidade de estímulo à inovação. A cultura, todas as suas formas, patrimoniais e criativas, tradição e invenção, modernidade e criatividade, identidade plasmada em modos de agir, é essencial a uma visão do país e simultaneamente essencial a formas de substantivação das nossas actividades profissionais, do exercício competente e mentalmente aberto das profissões. O trabalho e a qualificação dos portugueses, a qualificação profissional e produtiva, é uma questão cultural, não é uma questão de violência imposta dos longos horários e da intensificação dos ritmos de trabalho, do estabelecimento de leis mais brutais de despedimento, de formas de organização laboral para as quais os trabalhadores são uma voz que não conta. Pelo contrário, todos sabemos aonde leva a baixa qualificação: não só leva a uma desqualificação das mercadorias em si, como leva a formas unilaterais de desenvolvimento que pedem trabalho menos qualificado, como são obviamente aquelas ligadas à política do betão e auto-estradas – um país não é um projecto de construção civil.
Não se fala de sectores mais avançados, de aplicação da tecnologia qualificada a sistemas de produção, de electrónica aplicada, de sofisticação técnico-profissional, sem falar de cultura. É como falar de desporto ignorando os sistemas de treino e organização da alta competição e da pintura sem conhecer Picasso nomeando a Guernica como uma tourada. Ler e ser capaz de ler não é uma distracção, é mais que isso um treino do mental e traduz-se em formas de desenvolvimento de capacidades de ficção que têm aplicações práticas nas actividades profissionais – imaginar não é inútil e não há inovação sem imaginação e a imaginação é cultural, mesmo que essa cultura não seja necessariamente a erudita, mas também, desde que não falemos apenas do Doutor da Commedia Dell’arte e respectivo latinório. As culturas populares são culturas - vejam-se os magníficos textos dos Bonecos de Santo Aleixo - já o que é massivo depende mais do que na publicidade é absolutamente venal.
Nada será assim tão mecânico mas sem ler, sem saber ler – não se trata de juntar palavras, nem é coisa exclusiva da escola que, neste momento, treslê e muitas vezes amplia tão só o que se poderá chamar de linguagem do mercado – nada se lê do futuro, nem há projectos para o país. A qualidade dos projectos governativos do país depende da qualidade cultural do governo. Um Ministro inculto nunca será um bom Ministro e quem disser o contrário está a disparatar ou a justificar o seu poder por razões de pura força e não por razões de razoabilidade e bom senso.
Mas mais que as funções cognitivas associadas à experiência das artes, como espectadores, cidadãos e criadores, pela via da escola e pela via da qualidade da nossa vida real instituída e a gerada pela sociedade civil, é necessário perceber que esse luxo que é uma vida cultural rica é em si um desígnio de modelo de sociedade: uma sociedade que eleja no lugar do consumo e do coleccionismo, da enumeração como uma tara, a fruição do que é específico do humano, a sua capacidade de inventar, de ser imaginando, que eleja a criação como caminho, caminha para um futuro, o que, o uso também todo do nosso património de clássicos e de clássicos contemporâneos, projectado no presente e nas obras do presente, pode ser justamente como identidade a fruir, vida cultural organicamente plasmada no corpo das nossas vivências diárias e futuro em acto. O clássico abre perspectivas, não fecha o leitor, o autor da leitura, no deslumbramento, nem apenas na interpretação, abre a modos de ler outras coisas, obras e realidades, abre a outros modos de competência e ser e inovar, imaginar, ficcionar só pode resultar da incorporação – in-corporar, interiorizar, o que em matéria de texto será decorar desde que se perceba que tem a ver com saber de coração, meter na respiração - da referência clássica e científica como uma visão prática. Ainda agora, na morte de Lucien Freud, se referem as suas relações com Cézanne, Watteau e Chardin.
Na realidade o que será um país sem bibliotecas, sem cinema, sem teatros, sem arquitectura, sem pintura, sem novas formas artísticas, sem a paisagem do Douro como algo nosso, sem o Tejo de Camões e sem a arquitectura contemporânea, a Malagueira ou o Estádio do Braga? Um arremedo de país, um simulacro, uma não nação. Há que entender que a “inutilidade” das formas culturais e artísticas, a inutilidade de Gil Vicente e Pessoa, de César Monteiro e Paula Rego, da Editora Cotovia e do Pedro Carneiro, da Maria João Pires e do Herberto Hélder, da criação teatral e do património museológico, é afinal o nosso tudo, não só o que somos mas o que viremos a ser. Tornar a cultura, como fez o governo do Engenheiro Sócrates – um Primeiro-Ministro que agora vai estudar Sócrates para Paris – uma irrelevância e um assunto táctico a espaços reactivos, é lançar o País na continuidade do mesmo impasse.
E nada disto tem a ver com a cereja no topo do bolo, vaidades cíclicas de megalomanias ligadas à bola ou a outras teorias de auto-estima, coisa um pouco burra, nem com destinos decorativos, performativos e plenos de ideologia creacionista ou a modos de fingir que se é muito up to dat, mais nova-iorquino que os nova-iorquinos. Isso é o que foi acontecendo do 25 de Abril para cá com o sucesso que a dívida acumulou.

fernando mora ramos

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Javalismo não é javardismo

Pois...devo complementar a sumária apresentação que o nosso webmaster fez do Javali Sentado. Os perspicazes e inenarravelmente poucos leitores que nos acompanharam na fase democrática do 2+2=5 penaram o suficiente com o desmoronamento das alas da liberdade. Não queremos que sofram mais com contendas espúrias, falsos debates, insularidades, demência continuada e puro e simples mau gosto.

Assim, engendrámos uma solução alegre. Fundamos ideologicamente o blogue na disciplina libertária do Javali, Javalismo, e acrescentamos um programa de acção. Ao Javali Sentado soma-se o subtitulado ‘espremendo laranjas’, junta-se gelo, agita-se, e aí vamos nós... SCREW DRIVER.

Queremos contribuir, ajudar, participar na resolução dos problemas de Portugal, qualquer que seja o espelho da governação: Bielorússia, Zimbabué, Madeira, Albânia, o Paraguai de tantos e tão bons exemplos, qualquer seja o ‘issue’: finanças, economia, grandes códigos, espaços verdes, relações internacionais, relações inter-freguesias, lazer, educação, cultura, saúde, obras públicas. O que for. Estamos sentados...mas muito empenhados.

Porque não iniciar a logosfera pelo Verbo. Passos Coelho- e ainda dizem que a providência foi para Paris estudar Filosofia- tem um assessor para assuntos económicos de seu nome Carlos Moedas. Ecco.
Uma de duas vias se abrem nesta pose muito sui generis de representação política pós-pós-pós moderna.
A primeira opção consiste em escolher pessoas cujos apelidos coincidam com as pastas. Admitimos que é difícil ou então o executivo seria quasi Alentejano. A segunda via, tradicionalista, radica na atribuição de cognomes. Por exemplo, D. Dinis, o Lavrador; D. Xico, o Torresmo.

Neste momento difícil da nossa vida colectiva e da nossa dívida particular, precisamos de uma gesta tipo 12 Indomáveis Patifes. Moedas...fica com os dinheiros. Francisco José Viegas- estoutro merecedor da minha particular admiração pela luta sem quartel contra a peçonha da esquerda anti-semita- não levará a mal se o designarmos por Francisco Letras ou Francisco Pincel.
E que tal uma Assunção Arado na Agricultura? Miguel Mete Medo na Administração Interna? Gaspar Default nas Finanças? Paulo Desfibrilador na Saúde? Enfim, é uma sugestão, um contributo.

Uma outra ideia vem do Oriente. Para assinalar o nonagésimo aniversário do estabelecimento do PCC, corre uma campanha de recuperação das ditas “Red Songs”. O principal promotor desta moda é o mais bem sucedido dos princelings do partido-estado, Bo Xilai, patron do mega-município (30 milhões) de Chongqing. Bo é filho de um dos Imortais da Longa Marcha, Bo Yibo.

Segundo a colorida Imprensa chinesa, a menos colorida desdenha a iniciativa, há resultados espectaculares no recurso às velhas canções maoistas. Um sujeito atormentado por gota, e entrevado, desatou a andar mal entoou as primeiras notas do East is Red; um restaurateur à beira da falência viu sua loja de Sopa de Fita encher-se de glutões. Já se percebeu a ideia. Em Portugal, como seria? O Zé, lugar geométrico do Português Suave, enfrenta os cobradores com ou sem fraque de manguito na mão e Grândola na garganta. NÃO PAGO. IDE PEDIR ao JAVALI SENTADO.
Enfim, é uma sugestão, um contributo.

JSP aka xiconhoca.come