Mostrar mensagens com a etiqueta Grécia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Grécia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Posts sábios (VI)

(...) Espantoso é também que ninguém fale da Irlanda. Não falam em Bruxelas nem em Berlim os patrões do dinheiro, não falam os jornalistas nos jornais nem nas televisões, apesar de o défice da Irlanda ser o dobro do da Grécia - mais de 32%. E de a dívida ser também colossal para utilizar uma expressão tão cara aos nossos governantes.
A razão é muito simples: é que o défice da Irlanda foi contraído para salvar os bancos em consequência da “borbulha” imobiliária - uma constante da cultura neoliberal - que só se tornou um “pecado” porque rebentou. É essa sua génese que quase o torna virtuoso para a gente de Bruxelas e de Berlim, não obstante o seu extraordinário montante.
Verdadeiramente, o que eles reprovam, o que eles invejam, é o estilo de vida dos gregos. O sol, as praias, as esplanadas, as ilhas, aquela convivência serena com os deuses. O que eles não aceitam é que os próprios deuses tenham sido criados à imagem e semelhança dos homens. Sem imperativos categóricos nem máximas calvinistas. Sem verdades absolutas em nome das quais se combate a religião do outro, se discrimina, se extermina até, se necessário for. É isso que os bárbaros não aceitam. Viva a Grécia!
ICI

domingo, 11 de setembro de 2011

Posts sábios (III)

Os elementos ontem dados a público pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmam aquilo que já se sabia, mas que o Governo, ideologicamente dominado pelo neoliberalismo, teimava e teima em não ver: que a sua política económica não resolve, antes agrava, os males estruturais de que sofre a economia portuguesa.

O segundo trimestre do ano apresenta uma quebra do consumo privado como não há registo nas estatísticas nacionais, o mesmo se passando com o consumo público. Tendo, por outro lado, em conta que o investimento caiu igualmente (como não poderia deixar de ser), o destino da economia, no “bom estilo” da ortodoxia neoliberal, ficará exclusivamente entregue à sorte das exportações.

Como, porém, as exportações dependem mais da conjuntura económica internacional do que das “virtudes” de quem exporta, é de prever, face ao afrouxamento da economia dos Estados Unidos e da União Europeia, inclusive de uma provável recessão, o pior para os portugueses.

A brutal carga de impostos infligida aos contribuintes corre o risco de nem sequer, no plano puramente formal, cumprir o objectivo a que em teoria se destinava: reduzir o défice em 2011 para 5,9%, já a quebra das receitas será de tal ordem, por força da diminuição da procura interna (de certeza ainda mais acentuadas nos dois últimos trimestres), que inviabilizará aquele objectivo.

Aliás, os sinais de alarme estão por todo o lado. O BCE que ficará na história por ter subido a taxa de juros quando se desencadeou a maior crise económica depois de 1929, voltou, há pouco tempo, a incorrer no mesmo erro por temer uma pretensa subida dos preços numa conjuntura em que a situação dos países em crise da zona euro exigia uma política exactamente oposta. Ontem, Trichet já veio dizer que os juros não subiriam, decisão que mais não é do que a constatação de um falhanço: a incapacidade de as políticas de austeridade impostas na zona euro conduzirem ao crescimento. Claro que a decisão de BCE não foi tomada para não prejudicar ainda mais os países em crise, mas por nas grandes economias (a começar pela Alemanha) já haver também sinais muito evidentes de desaceleração económica.

Entretanto, a Grécia parece recusar-se a cumprir o estúpido programa de austeridade que a Troika lhe impôs…por já ter chegado à conclusão que ele apenas acrescenta recessão à recessão. As ameaças logo se fizeram sentir, por parte a Alemanha e da Holanda, a ponto de pela primeira vez se ter falado, oficialmente, na saída da Grécia do euro.

Espera-se que a Grécia resista, que não ceda, deixando levar as coisas à beira do precipício, por haver a antecipada certeza de que o “tombo” não será igual para todos: os mais fortes cairão de mais alto…

De facto, ninguém na UE pode impor a expulsão do euro. O que poderia acontecer, se à Grécia não for emprestado dinheiro, é que ela entre em bancarrota. Só que se tal acontecesse, o euro teria também os seus dias contados.

Oxalá a Grécia resista e dê uma lição aos lacaios da alta finança e aos servis “bons alunos” que já tudo perderam. Até o respeito por eles próprios…




domingo, 3 de julho de 2011

Grécias do mundo uni-vos

Nas Grécias os mitos vendem-se como ketchup

Desde que são decorativos

E não metem medo

Nem já rendem para a dívida cumprir

O transe agora é um dobrar a cerviz suado

Colorido pirotécnico

Os dentes na pose salarial

E os agiotas dormem menos

Desde que as greves se avizinham do parlamento

Têm medo das vozes do corpo


Já não se fala de Platão

Nem da caverna

Vêem tudo à primeira

Os filhos da crise

E não estão para essas ilusões

Sonhadas de sombras projectadas

Sombras chinesas sim

Pragmáticas mais do que qualquer confusão entre o real e um seu duplo

Enganador

Mundo de aparências quando o mundo real é clandestino

Um duplo como duplo mais que puro sósia

Duplos só uísques

O espectáculo apenas primeiro que a teta não confunde

É alimento desde que Hollywood é Olimpo

E telegenia demagógica


Nem estão eles

Nem estamos nós

Para suportar a poluição ideológica

Filoxera que corrói lá metida em pista falsa as colunas do Partenon

Pelo interior da sua lingerie de ligas ausentes

Pedra papiro pedaços da origem do que a poesia fundou

Em jogo voyeur e bicho do papel mil patas

A instaurar a catástrofe laboratorial


E nisso nos comprazermos

No jornal das nove

A inevitável queda diária

Nas quedas

Os juros não cantam doem



Na Grécia sempre se falou muito do pensamento

Mas agora fala-se a propósito

De vício de esplanadas

Como se os peripatéticos passeios

Não fossem esplanadas andantes

E fala-se de fora

De vocações de ócio sem redenção

De Retsinas de perdição

E que é necessário acabar com elas

Não produzem senão sol

E deslembrar de compromissos

Sorrir a quem quer comer mitos

E fritos

E mostra as coxas

Euro Americanas


Os gregos nisso são bestiais

Lojas de mitos recordações

Trouxas argilas corações

E as tropas do turismo

Nas suas sapatilhas cómodas

Para unhas encravadas e pé de atleta mental

Olham à hora

O à

La Minute que lhes fixa a eternidade

Num ápice

Um fundo calcário

No calendário

Com odor a Heraclito

Porque Heraclito nas suas contradições de fogo

Cheirava a pinhal e ao seu contrário

Mais que Sócrates cheirasse a respeito da lei

Quando para a cicuta o dispusessem

Eutanásia ética um pouco coxa dos tempos clássicos

Para educar efebos do regime dizem

E não sabemos se seria exactamente assim

Porque pintaram o Sócrates

Como quiseram com os pincéis da ordem

Conveniente e só nos resta gramar a verdade que os manuais foram Cobrindo do sarro que não sai


Zenão dobrava o joelho

Na mesma cena panorâmica

Em que Sócrates bebia a cicuta

E Platão olhava a projecção da cena da caverna no seu exterior

Primeiro cinema


Da metade de meio por meio

E a mio de outra metade interminável

Zenão fazia as contas

Ou qualquer porra no género

E era já um tecnocrata

Da geometria absurda

Infinidade da medida deslucro

Do fémur reincidente

E menina do olho desgastando-se

A palma da mão a metro esticada

De polegar a indicador

A dar a referência prática artesanal


Lentamente esculpida pela erosão

Que o vício transporta

Pelas noites inúteis fora

A nossa pachorra

Não se acomoda aos queixumes lacrimejantes

Da nova tragédia

Que todos os dias produz clímaxes

E faz cachas

E não há fígado que resista


Não se aguenta

Um quotidiano sempre de apocalipses

Para alka seltzer consumir

Como quem atura medíocres alcandorados na política a pessoas

E no parlamento a recém chegados à capital e ao capital


Um tornado é um tornado

E nos tornados

Os credores voam

Como qualquer outra merda

Papel por exemplo mesmo que carne

Ou ouro de lei

Esse que paga silêncios

Eis a natureza das coisas

Emílio Navarro Soler