(continuação)
20. E em muitos casos certamente, a qualidade dos animadores vai fazer milagres, criar mesmo experiências de profundidade humana. Eu não me refiro aqui a muitos projectos que serão certamente bem pensados e com equipas capazes e sérias. Eu refiro o todo da iniciativa, o consórcio dirigente e o fundo negocial deste tipo de coisas e a sua falsa política de rastos úteis em prospectiva. Por detrás estarão muitos interesses empresariais, muita obra, muito mais determinantes do que quaisquer objectivos artísticos e culturais estruturantes, até agora não clarificados.
21. Uma análise profunda e detalhada das aritméticas dos montantes usados e em quê seria aliás de fazer, por razões de diagnóstico e de compreensão dos fenómenos. O que aliás rima agora com a moda única do corte, já que apenas podemos aprender, daqui para a frente, a fazer apenas contas de diminuir e somar é uma operação algo irreal, que não saberemos em breve o que é, em extinção como os pandas.
22. Só pela via de uma planificação integrada, local, nacional e internacionalizada e na perspectiva do enraizamento de uma nova vida cultural – e certamente de aspectos de economia pública e privada que lhe corresponda e não o contrário, se poderia caminhar numa direcção pressentida, absolutamente necessária – estas coisas têm de enunciar desígnios e metas. Assim, como é, à curtição seguir-se-á, como aliás é natural, a ressaca.
23. Para uma verdadeira mudança cultural europeia os prazos de realização de verdadeiros projectos de transformação nada têm a ver com eventos e pirotecnias, com falsas intensidades e fugas para a frente, zapping e fugacidade. Duração é a palavra, média e longa duração, os projectos europeus não podem coincidir com ciclos de poder assentes em dependências de lógicas eleitorais – dois anos para fingir que se faz qualquer coisa e outros dois para desfazer o que se fingiu organizando as baterias e a despesa para novo espectáculo eleitoral. Os ciclos de tempo das iniciativas estão de facto indexados por assim dizer a tempos de gestação sempre abortivos daquilo que se vende como sonho e isso deve-se de facto ao jogo da mobilidade das clientelas de poder nos poderes. Só o aprofundamento da democracia cultural trará lógicas democráticas de mobilidade social e novos poderes, poderes democráticos.
24. A transformação tem de ser inscrita num outro espaço e esse é o da memória, da memória cultural, artística e política, propulsora, futuro em acto. Nada se pode assentar sobre a inovação em abstracto, esse pseudoconceito que nada tem a ver com invenção e tudo com a superficialidade de uma lógica discursiva ecrã/maníaca, dependente do primado dos condicionamentos mediáticos. Com Sócrates inovava-se a torto e a direito, instante a instante, do Magalhães ao simplex e deste directamente para crise, como se vê e sente.
25. A Memória prospectiva, a tradição e a invenção numa dialéctica de contrastes positiva, pode abrir um caminho. Não nos faltam excelentes pensadores nem visionários esclarecidos do futuro, a Europa é rica dessa riqueza desprezada, o nosso problema é que estamos reféns da mediocridade instalada nos poderes, nos sistemas de poder, como mais uma vez agora constatamos, por via dessa classe média disposta a tudo, a todas as ginásticas e a pouca verticalidade. No pouco tempo de exercício do poder destes novos-ricos da política já lá vão quase oitocentos nomeados directos num total de cinco mil contratações. Imagino que sejam muitos e sei que são muitos considerando o afã desestruturador do aparelho de Estado, particularmente nas suas vertentes de assistência social, exactamente no mesmo momento dos contractos para a nova clientela.
26. Enfim, era importante que um projecto de reformulação deste tipo de supostos impulsos organizados, que dirão marcos de desenvolvimento cultural e aprofundamento democrático, considerassem ainda vários elementos decisivos de um qualquer entrosamento projectual com as realidades: a questão das linguagens e a alfabetização dos espectadores e as vias disso é essencial, não como técnicas, mas como formas vitais de compreensão, como capacidade de inventar o que se pensa e de agir com pensamento. Que isso pudesse acontecer não num quadro de nivelamento por baixo ou de generalização de vulgaridades, mas segundo um caminho que fosse elitista para todos, repito, elitista para todos, qualificado para todos, nivelado por cima para todos.
27. E não nos esqueçamos da língua, como húmus de tudo, riqueza feita de todas as diversidades, mas também e para mais com esta história do acordo ortográfico, como objecto de projectos, uns mais técnicos, mas muitos mais certamente de cultivo prático do literário.
28. Se assim fossem as coisas, a prazo longo, do Estado repressivo passaríamos à possibilidade generalizada dos estados estéticos e a GNR, Guarda Nacional Republicana, seria uma escola de artes.
(conclusão)
fernando mora ramos
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terça-feira, 13 de setembro de 2011
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Capitais, culturais e europeias (2)
(continuação)
10. Na realidade as indústrias criativas incorporam elementos artísticos na sua materialização e consumo, mas não são actividades artísticas, são formas de alargamento da economia a sectores e áreas da vida que surgiram em função de novas necessidades de consumo, de novas sensibilidades dos mercados, como dizem, fruto de diversas transformações, no plano das identidades e no plano da globalização e das suas fabulosas novas vias. Isso está estreitamente ligado ao que já chamaram capitalismo cultural, mas nada tem a ver com os discursos artísticos nem com a experiência artística, que não visa o lucro nem tem garantido por assim dizer um inevitável caminho de sucessos contabilizáveis. Sabemos aliás que a arte é composta das mais variadas tentativas de o ser, fracassadas muitas e muitas plenamente realizadas apenas na sua própria teimosa reincidência.
11. Eu nada tenho contra a Guimarães 2012, ou contra outra qualquer capital em si, tenho contra o modelo e o tempo, a forma e o que me parece é que estas realizações, com outros dirigentes Europeus que quisessem de facto outra Europa, uma Europa das culturas dos povos e das suas identidades complexas e diversas e não apenas da união monetária e da partilha do seu fracasso, seriam outras – infelizmente os povos não se batem por novas perspectivas neste tipo de realizações, estarão imersos na apatia, quando não no medo, ou porventura acumulam energias para explosões de violência social como as que têm estalado, e esperamos nós que em breve outras, de outros tipos, pois fazem falta.
12. Depois da ressaca do Porto 2001, amplamente reconhecida e em plena crise, é no mínimo estranho que não se pense o contexto desta capital, ou que se o fazem, nada digam, nada exponham, como se a iniciativa fosse da esfera privada de uma meia dúzia de pessoas, de empresas e de participantes. Onde está a dimensão cidadã do seu processo de concretização? Só assistimos aliás à exposição pública do que é pequeno e mesquinho.
13. Em boa verdade estas capitais teriam de ser amplamente repensadas em função dos problemas reais da falsa integração europeia. Se estamos a regredir a passos largos, não apenas na capacidade de consumir – é um aspecto entre outros - mas no tipo de vida, mesmo nos direitos elementares, a que propósito é que uma iniciativa de algum vulto económico, como é o caso, não é questionada do lado da realidade que se nos impõe como tragédia? Não percebo, parece-me mais do que a política da avestruz, parece-me uma política de pequenos e grandes interesses convergindo na partilha de um bolo em que outros, mais famintos, também querem entrar – é o regabofe previsível, o fartar vilanagem possível em tempo de migalhas. O retrato imaginável é de facto, de uma tristeza profunda.
14. Mas a curtição estará aí, em doses de fluxo significativo enquanto durar. E serão doses das mais variadas e diversas experimentações e iniciativas de rua – muitas certamente: a rua é aliás e cada vez mais espaço de iniciativas da sua própria privatização no quadro de entretenimentos expressivos – ela está marcada pelos tais sinais constantes das marcas que a usam quando a usamos como se fossem um cenário obrigatório – a rua, enquanto espaço público, tende a desaparecer e este exemplo da Estação do Chiado é bastante significativo. Por vezes uma busca irreflectida do que será eventualmente massivo, número, quantidade necessária, uma lógica que no fundo separa as elites dos outros, arrasta esta colaboração ingénua do artista com o manipulador “oculto”.
15. E isso é que é importante: que o fluxo e a velocidade das coisas não pare, que a capital não pare, que tudo o que seja reflectir sobre caminhos e possibilidades é outras coisa e é certamente reacção à excelência da curtição por vir. É o que dirão de quem criticar apelidando a crítica de criticismo, de velhos do Restelo, etc., e criando para a iniciativa uma espécie de estatuto de inimputabilidade, dada a marca Europa, de facto para nós associável a maná. Para nós? Para quem? E os êxitos somar-se-ão até que o balanço venha pôr as coisas no sítio, atrás, no antes que supostamente pedia o depois que veio e não foi e que, na realidade, nunca será enunciado com a clareza de um objectivo global, íntegro, vimaranense e nacional, europeu e lusófono, internacionalizado e local, glocal como alguém com imaginação inventou.
16. Mas não seria de reflectir sobre as contradições gritantes das nossas realidades, das nossas necessidades? Uma capital nada terá a ver com o desemprego que cresce, com a regressão das nossas capacidades de auto sustentação económica, com o aprofundamento das assimetrias entre o litoral e o interior, com a violência doméstica, com os problemas complexos do nosso universo escolar, com a precariedade dos artistas, com o asfixiamento das estruturas de criação? Passará ao lado disto tudo para se dirigir para onde?
17. O caminho de um entretenimento globalizado, uma industrialização do entretenimento, eis o que temos aí, no mundo inventado pelos poderes que nos governam, maioritariamente conservadores, mesmo reaccionários, que tem nos entretenimentos a chave do seu êxito governativo, novos ópios do povo.
18. Capital da crise, poderíamos dizer, certamente se a considerasse até como móbil, e o que vai ser? Vai ser a expressão da abundância da diversidade do mesmo: as máscaras do diverso, as embalagens e o mesmo ao serviço do mesmo, o imobilismo, o capitalismo selvagem na cultura – não singularizo projectos, tento imaginar o fluxo da contaminação de tudo e a velocidade imparável das realizações, como se sabe que é.
19. Assistiremos por certo a uma aliança alargada entre o kitsch, o mundo rápido dos workshops e as mais variadas estratégias de animação: animação para crianças, para adolescentes, para mulheres, para velhos e mesmo para desempregados, para marginais e para deprimidos, numa espécie de nova caridade assistencial criativa plena de interactividades.
(continua)
fernando mora ramos
10. Na realidade as indústrias criativas incorporam elementos artísticos na sua materialização e consumo, mas não são actividades artísticas, são formas de alargamento da economia a sectores e áreas da vida que surgiram em função de novas necessidades de consumo, de novas sensibilidades dos mercados, como dizem, fruto de diversas transformações, no plano das identidades e no plano da globalização e das suas fabulosas novas vias. Isso está estreitamente ligado ao que já chamaram capitalismo cultural, mas nada tem a ver com os discursos artísticos nem com a experiência artística, que não visa o lucro nem tem garantido por assim dizer um inevitável caminho de sucessos contabilizáveis. Sabemos aliás que a arte é composta das mais variadas tentativas de o ser, fracassadas muitas e muitas plenamente realizadas apenas na sua própria teimosa reincidência.
11. Eu nada tenho contra a Guimarães 2012, ou contra outra qualquer capital em si, tenho contra o modelo e o tempo, a forma e o que me parece é que estas realizações, com outros dirigentes Europeus que quisessem de facto outra Europa, uma Europa das culturas dos povos e das suas identidades complexas e diversas e não apenas da união monetária e da partilha do seu fracasso, seriam outras – infelizmente os povos não se batem por novas perspectivas neste tipo de realizações, estarão imersos na apatia, quando não no medo, ou porventura acumulam energias para explosões de violência social como as que têm estalado, e esperamos nós que em breve outras, de outros tipos, pois fazem falta.
12. Depois da ressaca do Porto 2001, amplamente reconhecida e em plena crise, é no mínimo estranho que não se pense o contexto desta capital, ou que se o fazem, nada digam, nada exponham, como se a iniciativa fosse da esfera privada de uma meia dúzia de pessoas, de empresas e de participantes. Onde está a dimensão cidadã do seu processo de concretização? Só assistimos aliás à exposição pública do que é pequeno e mesquinho.
13. Em boa verdade estas capitais teriam de ser amplamente repensadas em função dos problemas reais da falsa integração europeia. Se estamos a regredir a passos largos, não apenas na capacidade de consumir – é um aspecto entre outros - mas no tipo de vida, mesmo nos direitos elementares, a que propósito é que uma iniciativa de algum vulto económico, como é o caso, não é questionada do lado da realidade que se nos impõe como tragédia? Não percebo, parece-me mais do que a política da avestruz, parece-me uma política de pequenos e grandes interesses convergindo na partilha de um bolo em que outros, mais famintos, também querem entrar – é o regabofe previsível, o fartar vilanagem possível em tempo de migalhas. O retrato imaginável é de facto, de uma tristeza profunda.
14. Mas a curtição estará aí, em doses de fluxo significativo enquanto durar. E serão doses das mais variadas e diversas experimentações e iniciativas de rua – muitas certamente: a rua é aliás e cada vez mais espaço de iniciativas da sua própria privatização no quadro de entretenimentos expressivos – ela está marcada pelos tais sinais constantes das marcas que a usam quando a usamos como se fossem um cenário obrigatório – a rua, enquanto espaço público, tende a desaparecer e este exemplo da Estação do Chiado é bastante significativo. Por vezes uma busca irreflectida do que será eventualmente massivo, número, quantidade necessária, uma lógica que no fundo separa as elites dos outros, arrasta esta colaboração ingénua do artista com o manipulador “oculto”.
15. E isso é que é importante: que o fluxo e a velocidade das coisas não pare, que a capital não pare, que tudo o que seja reflectir sobre caminhos e possibilidades é outras coisa e é certamente reacção à excelência da curtição por vir. É o que dirão de quem criticar apelidando a crítica de criticismo, de velhos do Restelo, etc., e criando para a iniciativa uma espécie de estatuto de inimputabilidade, dada a marca Europa, de facto para nós associável a maná. Para nós? Para quem? E os êxitos somar-se-ão até que o balanço venha pôr as coisas no sítio, atrás, no antes que supostamente pedia o depois que veio e não foi e que, na realidade, nunca será enunciado com a clareza de um objectivo global, íntegro, vimaranense e nacional, europeu e lusófono, internacionalizado e local, glocal como alguém com imaginação inventou.
16. Mas não seria de reflectir sobre as contradições gritantes das nossas realidades, das nossas necessidades? Uma capital nada terá a ver com o desemprego que cresce, com a regressão das nossas capacidades de auto sustentação económica, com o aprofundamento das assimetrias entre o litoral e o interior, com a violência doméstica, com os problemas complexos do nosso universo escolar, com a precariedade dos artistas, com o asfixiamento das estruturas de criação? Passará ao lado disto tudo para se dirigir para onde?
17. O caminho de um entretenimento globalizado, uma industrialização do entretenimento, eis o que temos aí, no mundo inventado pelos poderes que nos governam, maioritariamente conservadores, mesmo reaccionários, que tem nos entretenimentos a chave do seu êxito governativo, novos ópios do povo.
18. Capital da crise, poderíamos dizer, certamente se a considerasse até como móbil, e o que vai ser? Vai ser a expressão da abundância da diversidade do mesmo: as máscaras do diverso, as embalagens e o mesmo ao serviço do mesmo, o imobilismo, o capitalismo selvagem na cultura – não singularizo projectos, tento imaginar o fluxo da contaminação de tudo e a velocidade imparável das realizações, como se sabe que é.
19. Assistiremos por certo a uma aliança alargada entre o kitsch, o mundo rápido dos workshops e as mais variadas estratégias de animação: animação para crianças, para adolescentes, para mulheres, para velhos e mesmo para desempregados, para marginais e para deprimidos, numa espécie de nova caridade assistencial criativa plena de interactividades.
(continua)
fernando mora ramos
domingo, 11 de setembro de 2011
Capitais, culturais e europeias (1)
1. O evento: a primeira circunstância será a da pertinência deste nome na análise, evento, grande evento, evento único e o que nos diz da coisa, da localização, do tempo e das amplitudes de sentido que partilhe e dissemine. Evento – palavra que se usa para tudo o que misture acontecimentos, aparentes intensificações de densidade de experiências sensíveis sob a forma de mediatizações e espectáculo, isto é, todas as coisas, tudo o que acontece, o que traduz logo o que na realidade é mais oculto no que transparece e transborda numa Capital Europeia da Cultura: a de que nada acontece de mudança, de transformação de horizontes concretos de vida com a alteração das condições de criação real que activassem o papel das artes e da cultura, a sua inscrição, o enraizamento diríamos melhor, das suas práticas na vida quotidiana da cidade – enraizamento significa o contrário de sobrevoar, de surfar, significa a incorporação de uma nova orgânica vital – é essa mudança que não chega, em que não se aposta, significaria outra forma de viver, outra estruturação da vida na cidade, outros modos de criar e fruir pertencentes ao corpo urbano. A que associamos evento? À rapidez, ao seu desaparecimento e à sua substituição por um novo evento portanto, entretenimento intenso de um ano, feira ou como lhe queiram chamar.
2. É claro que a primeira questão que surge é a da separação que é desde logo feita entre a crise e a curtição, festa seria ainda outra coisa e não artifício e as festas de tão fabricadas como espectáculo – uma forma de poder certamente – são um bem em extinção. As dificuldades da alegria comunitária são contraditadas pela atomização das relações, pelo isolamento, pelo anonimato, pela solidão no meio da massa e a festa massiva vive de muita energia irracional gasta como forma de consumo massivo. Como estamos hoje é como se a meio de uma guerra civil fosse possível sobre os corpos das vítimas transformar os rituais fúnebres e o luto em marcha pela via da crise em celebrações de futuro simulado, realizadas por manobras de marketing associadas às imagens de marca de empresas que as quisessem por assim dizer produzir, como agora sucedeu na estação da Baixa-Chiado a PT Bluestation, certamente ganhando pelo nome um estatuto globalizado e até nova-iorquino – os baptismos não são neutros e vendem imagens e na imagem supostamente habitamos, figurantes de uma realidade sempre virtualizada pela publicidade, consumidores da religião das marcas e da imagem das empresas.
3. Na realidade o que estamos a viver é um descaminho e não um caminho europeu, se com Europeu queremos dizer algo relacionado com as matrizes culturais da Europa, desde logo a cidade grega, o teatro e a política indissoluvelmente associados na mesma praça, as tradições positivas e potência de futuros possíveis da história da Europa, a Revolução Francesa e as tentativas populares de criar outro planeta nos inícios do século XX, a democracia reinventada no pós-guerra, o Estado Social, o melhor das sociais-democracias. Tivemos aliás sempre a capacidade de também sonhar com as experimentações sociais de outras áreas do planeta.
4. Se pensarmos, por outro lado, que Europa quer dizer, muito mais que os actuais epifenómenos de natureza criacionista de tipo para-artístico nos casos da arte e da cultura, desde logo viajamos nas narrativas fundadoras do humano no continente Homero e certamente em Gil Vicente, Shakespeare, Marivaux, Goldoni, Tcheckov, Beckett, Tabori, Pina Baush, e Barker – o grego vivo mais grego de todos nós - e no pós guerra, nas democracias reemergindo como políticas públicas artísticas com expressão orgânica institucional, e nestas os Berlineres e os Piccolos, os museus de todo o tipo, as escolas de artes, a arte no espaço público, a descentralização das estruturas de criação, a regionalização das condições de criação, etc., os novos programas de alfabetização artística e os novos equipamentos, uns e outros a par nesses tempos de projectos pensados em articulação e sinergias, ao contrário dos nossos em que para as arquitecturas novas não há programas culturais prévios, há dinheiro que se esvai nop meio de múltiplos discursos, constantes, sobre a rendibilização da cultura e das artes, veja-se o caso lamentável do CCB. Sempre que ouvirem esta palavra, rentabilização ouçam despesismo, o que eles acusam os outros de fazer.
5. O que poderemos constatar é que as políticas que se sucederam a estas do pós guerra e que dão corpo a este tipo de projectos como as capitais, do tipo festival e mais ou menos longos na sua lógica temporal sempre curta, são a favor do fenómeno, da excepção, da excelência fugaz, mas nada de excelente criam que crie excelência por assim dizer permanente, como um bom solo cria um bom vinho – nada se enraíza num ano e normalmente os programas destas capitais só fingem os antes e os depois como algo estruturante, porque depois já não há dinheiro, apenas houve para a obra, mas não haverá para a vida, para habitar o edifício, o edifício é aliás feito de simulacros.
6. A democracia não se aprofunda, as artes não se inscrevem, as cidades tornam-se montras de consumo para turistas rápidos que as coleccionam em fotografias intermináveis – ele há mesmo vilas que se convertem em cenários, são desabitadas e os poucos habitantes são como animais exóticos, figurantes empregados de um zoo patrimonial a que os outros trazem a moedinha. No zoo de Lisboa, na minha infância, depois da moeda, o elefante tocava o sino e estava sempre de uma pachorrenta tristeza, na realidade sonhava com a savana.
7. Estas capitais são justamente sistemas de ilusão na produção do novo, são formas de o mascarar. São máscaras do novo, dado que o novo pouco tem a ver com a constante inovação dos seus aspectos – o que o design, esse fiel servidor do marketing, cumpre – mas tem a ver justamente com o surgimento do que não está pré-definido como aquilo que é a formação do gosto, ou dos gostos e não a sua formatação. O novo não se anuncia, nem se autopromove em publicidade, muitas vezes leva décadas a ser parido com expressão social, assim aconteceu com livros determinantes ou com as publicações de Pessoa em vida – um novo certamente muito complexo e por muito que o queiram, dificilmente convertível numa qualquer moeda de troca como acontece a muito objecto que se assume artístico, particularmente na ordem do que é hiper-visível e pleno de pirotecnia fugaz: quando se vai por eles já lá não estão, como a maioria dos espectáculos do tipo performativo que justamente radicalizam a sua instantaneidade e a sua inutilidade expressiva, a sua fugacidade.
8. A tal sociedade do hiper-controlo de massas estará aí. Eu não percebo muito disso mas parece-me que esta caracterização tem tudo a ver com a esfera da recepção e com o sistema que a alimenta, com o consumo é claro e com as marcas a assumirem o jogo da diversidade e da pluralidade vestindo com esses fatos o que é negociado e mercadificável, fazendo-o manipulando tudo o que tem a ver com os nossos medos, convicções, fantasmas, diria, com os nossos eus, com os narcisismos e os desesperos. A publicidade não tem fronteiras, ao contrário da arte que persegue objectivos éticos nas práticas estéticas, ou deveria fazê-lo, tentá-lo, por vezes em ambiente de contradições que sangram.
9. Esta história agora recorrente das indústrias criativas, como uns dizem ou das indústrias culturais, como outros dizem, é uma coisa que me parece simples e que se relaciona, como foi sempre aliás, com a incorporação de elementos criativos nos objectos de consumo e digamos nas nossas experiências sensíveis presenciais mais ou menos massivas. A IKEA é uma indústria criativa, como será de uma outra forma a Colecção Berardo: o que significará a utilização de um espaço público sofisticado, único, pela colecção de artes visuais de um especulador privado? Eu não me refiro ao valor artístico das peças consideradas isoladamente e porventura imagináveis noutros contextos de fruição, refiro-me ao facto de a colecção estar exposta numa espécie de cofre visível estatal como um investimento de um banqueiro que dela se apropriou, e o que essa situação significa objectivamente: um aumento do seu próprio valor como valor dinheiro, como negócio futuro, já que a colecção, não está dito que se venha a converter num bem público. O CCB é a montra pública de um investimento privado cuja valorização se acentua por esse facto. É um negócio pois produz lucro a prazo e fá-lo num contexto em que é o Estado a promover e incentivar a prática especulativa. É, sendo uma colecção, uma forma de a fazer render num espaço que é nosso. O CCB será nosso?
(continua)
fernando mora ramos
2. É claro que a primeira questão que surge é a da separação que é desde logo feita entre a crise e a curtição, festa seria ainda outra coisa e não artifício e as festas de tão fabricadas como espectáculo – uma forma de poder certamente – são um bem em extinção. As dificuldades da alegria comunitária são contraditadas pela atomização das relações, pelo isolamento, pelo anonimato, pela solidão no meio da massa e a festa massiva vive de muita energia irracional gasta como forma de consumo massivo. Como estamos hoje é como se a meio de uma guerra civil fosse possível sobre os corpos das vítimas transformar os rituais fúnebres e o luto em marcha pela via da crise em celebrações de futuro simulado, realizadas por manobras de marketing associadas às imagens de marca de empresas que as quisessem por assim dizer produzir, como agora sucedeu na estação da Baixa-Chiado a PT Bluestation, certamente ganhando pelo nome um estatuto globalizado e até nova-iorquino – os baptismos não são neutros e vendem imagens e na imagem supostamente habitamos, figurantes de uma realidade sempre virtualizada pela publicidade, consumidores da religião das marcas e da imagem das empresas.
3. Na realidade o que estamos a viver é um descaminho e não um caminho europeu, se com Europeu queremos dizer algo relacionado com as matrizes culturais da Europa, desde logo a cidade grega, o teatro e a política indissoluvelmente associados na mesma praça, as tradições positivas e potência de futuros possíveis da história da Europa, a Revolução Francesa e as tentativas populares de criar outro planeta nos inícios do século XX, a democracia reinventada no pós-guerra, o Estado Social, o melhor das sociais-democracias. Tivemos aliás sempre a capacidade de também sonhar com as experimentações sociais de outras áreas do planeta.
4. Se pensarmos, por outro lado, que Europa quer dizer, muito mais que os actuais epifenómenos de natureza criacionista de tipo para-artístico nos casos da arte e da cultura, desde logo viajamos nas narrativas fundadoras do humano no continente Homero e certamente em Gil Vicente, Shakespeare, Marivaux, Goldoni, Tcheckov, Beckett, Tabori, Pina Baush, e Barker – o grego vivo mais grego de todos nós - e no pós guerra, nas democracias reemergindo como políticas públicas artísticas com expressão orgânica institucional, e nestas os Berlineres e os Piccolos, os museus de todo o tipo, as escolas de artes, a arte no espaço público, a descentralização das estruturas de criação, a regionalização das condições de criação, etc., os novos programas de alfabetização artística e os novos equipamentos, uns e outros a par nesses tempos de projectos pensados em articulação e sinergias, ao contrário dos nossos em que para as arquitecturas novas não há programas culturais prévios, há dinheiro que se esvai nop meio de múltiplos discursos, constantes, sobre a rendibilização da cultura e das artes, veja-se o caso lamentável do CCB. Sempre que ouvirem esta palavra, rentabilização ouçam despesismo, o que eles acusam os outros de fazer.
5. O que poderemos constatar é que as políticas que se sucederam a estas do pós guerra e que dão corpo a este tipo de projectos como as capitais, do tipo festival e mais ou menos longos na sua lógica temporal sempre curta, são a favor do fenómeno, da excepção, da excelência fugaz, mas nada de excelente criam que crie excelência por assim dizer permanente, como um bom solo cria um bom vinho – nada se enraíza num ano e normalmente os programas destas capitais só fingem os antes e os depois como algo estruturante, porque depois já não há dinheiro, apenas houve para a obra, mas não haverá para a vida, para habitar o edifício, o edifício é aliás feito de simulacros.
6. A democracia não se aprofunda, as artes não se inscrevem, as cidades tornam-se montras de consumo para turistas rápidos que as coleccionam em fotografias intermináveis – ele há mesmo vilas que se convertem em cenários, são desabitadas e os poucos habitantes são como animais exóticos, figurantes empregados de um zoo patrimonial a que os outros trazem a moedinha. No zoo de Lisboa, na minha infância, depois da moeda, o elefante tocava o sino e estava sempre de uma pachorrenta tristeza, na realidade sonhava com a savana.
7. Estas capitais são justamente sistemas de ilusão na produção do novo, são formas de o mascarar. São máscaras do novo, dado que o novo pouco tem a ver com a constante inovação dos seus aspectos – o que o design, esse fiel servidor do marketing, cumpre – mas tem a ver justamente com o surgimento do que não está pré-definido como aquilo que é a formação do gosto, ou dos gostos e não a sua formatação. O novo não se anuncia, nem se autopromove em publicidade, muitas vezes leva décadas a ser parido com expressão social, assim aconteceu com livros determinantes ou com as publicações de Pessoa em vida – um novo certamente muito complexo e por muito que o queiram, dificilmente convertível numa qualquer moeda de troca como acontece a muito objecto que se assume artístico, particularmente na ordem do que é hiper-visível e pleno de pirotecnia fugaz: quando se vai por eles já lá não estão, como a maioria dos espectáculos do tipo performativo que justamente radicalizam a sua instantaneidade e a sua inutilidade expressiva, a sua fugacidade.
8. A tal sociedade do hiper-controlo de massas estará aí. Eu não percebo muito disso mas parece-me que esta caracterização tem tudo a ver com a esfera da recepção e com o sistema que a alimenta, com o consumo é claro e com as marcas a assumirem o jogo da diversidade e da pluralidade vestindo com esses fatos o que é negociado e mercadificável, fazendo-o manipulando tudo o que tem a ver com os nossos medos, convicções, fantasmas, diria, com os nossos eus, com os narcisismos e os desesperos. A publicidade não tem fronteiras, ao contrário da arte que persegue objectivos éticos nas práticas estéticas, ou deveria fazê-lo, tentá-lo, por vezes em ambiente de contradições que sangram.
9. Esta história agora recorrente das indústrias criativas, como uns dizem ou das indústrias culturais, como outros dizem, é uma coisa que me parece simples e que se relaciona, como foi sempre aliás, com a incorporação de elementos criativos nos objectos de consumo e digamos nas nossas experiências sensíveis presenciais mais ou menos massivas. A IKEA é uma indústria criativa, como será de uma outra forma a Colecção Berardo: o que significará a utilização de um espaço público sofisticado, único, pela colecção de artes visuais de um especulador privado? Eu não me refiro ao valor artístico das peças consideradas isoladamente e porventura imagináveis noutros contextos de fruição, refiro-me ao facto de a colecção estar exposta numa espécie de cofre visível estatal como um investimento de um banqueiro que dela se apropriou, e o que essa situação significa objectivamente: um aumento do seu próprio valor como valor dinheiro, como negócio futuro, já que a colecção, não está dito que se venha a converter num bem público. O CCB é a montra pública de um investimento privado cuja valorização se acentua por esse facto. É um negócio pois produz lucro a prazo e fá-lo num contexto em que é o Estado a promover e incentivar a prática especulativa. É, sendo uma colecção, uma forma de a fazer render num espaço que é nosso. O CCB será nosso?
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fernando mora ramos
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