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Natal: Festa Cristã ou Celebração Pagã?

Fui criado festejando o natal como uma das maiores celebrações do ano. Como a maioria das crianças eu a esperava pelos presentes que estariam debaixo da árvore. No entanto, sempre tínhamos o culto doméstico de natal e ao fazê-lo papai e mamãe lembravam que natal era Jesus e não os presentes ou a refeição especial. Com a idade aprendi a entender melhor o que natal realmente significava e tenho procurado fazer o mesmo com os meus filhos. Ultimamente temos visto uma campanha contra o natal crescendo no meio evangélico. Já são muitos os que o descartam de modo directo sob a alegação que se trata de uma festa totalmente pagã e que não pode ser festejada por cristãos biblicamente sãos. O debate pode parecer novo mas não é. Os puritanos na Inglaterra e no EUA rejeitaram a festa como pagã já no século XVII. Durante dois séculos lutaram contra ela até que se tornou feriado oficial nos EUA em 1870. Nesse período, congregacionais, quakers e anabatistas concordavam com os puritanos.


Não gosto de fugir dos debates. Creio que devemos examinar as evidências e julgar com discernimento. Entendo que os símbolos não são destituídos de significado ou função e que os devemos usar com critério seguro e consciência pura. Diante disso olhamos para o natal, sua origem, data e símbolos na procura de respostas as perguntas: O natal é cristão ou pagão? De onde vem sua data? É a data real do nascimento de Jesus? Os símbolos natalícios são de que origem? Quais os que podem ser usados por crentes em Cristo? Devemos rejeitar o natal ou há algo nele que o Cristão pode aproveitar?

Natal – A Festa
Não encontramos na Bíblia uma festa do nascimento de Jesus. Mas a verdade é que no Novo Testamento não encontramos propriamente celebrações cristãs a não ser a ceia do Senhor e os cultos dominicais. Os cristãos, pelo que lemos em Atos e pelo que encontramos nas cartas de Paulo, reuniam-se nos domingos e celebravam a ceia do Senhor. Isso não quer dizer que não celebravam festas. Os cristãos judeus continuavam provavelmente a celebrar as festas judaicas. Não temos relato bíblico mas a história nos diz que a morte de Jesus e sua ressurreição seriam celebrações bem antigas. Mas é de lembrar que cada domingo era no fundo uma celebração da ressurreição. Nos relatos históricos não encontramos a igreja festejando o natal de Jesus antes do 3º século. Os Pais da Igreja Irineu e Tertuliano omitiram essa celebração em suas listas de festas e Orígenes referia que na Bíblia apenas os pecadores celebravam seus aniversários. O mais comum era lembrar a data da morte de alguém importante como no caso de Jesus. As primeiras menções à celebração do natal de Jesus vêm de Alexandria, no Egipto por volta de 200 D.C, mas seriam feitas a meio do ano provavelmente em Maio. Nos séculos 3 e 4 a festa se tornou mais generalizada e em 385 temos um relato da mesma em Jerusalém havendo sua menção num almanaque da Igreja de Roma em 336. (ver notas na Enciclopédia Católica). Oficialmente ela teria sido instituída pelo papa Libério em 354. Oficialmente foi tornada feriado cívico pelo imperador Justiniano em 529 D.C. A partir de então a festa foi se generalizando havendo algum debate sobre sua data que persiste até os nossos dias já que nas igrejas de influência oriental ainda temos as maiores celebrações acontecendo em 6 de janeiro. O fato marcante é que a festa se tornou um marco do calendário Cristão. 

Natal – a data
Talvez a maior alegação de paganismo atribuído ao Natal tenha a ver com sua data em 25 de Dezembro. Afinal quando nasceu Jesus? Porque se festeja em 25 de Dezembro? É legítimo fazê-lo? Uma coisa é certa – não podemos saber com certeza a data do nascimento de Jesus. Para alguns isso já é prova de que não se deve festejar essa data, porque se Deus quisesse, ter-nos-ia dado a data exacta. Parece um argumento um pouco forçado mas é digno de menção. Será no entanto importante notar que com esse argumento seria necessário rejeitar quase que qualquer festa na era Cristã.

Já foram defendidas muitas datas para o nascimento de Jesus. Os únicos dados que nos permitem especular são os do evangelho Lucano. Baseados na data de serviço de Zacarias no templo os autores eruditos colocam o nascimento por volta de Outubro. Lemos em Lucas 2 que os pastores estavam nos campos com seus rebanhos. Isso exclui Dezembro porque seria inverno e os pastores seguiam para os campos no fim da primavera por volta de Maio retornando no começo das chuvas que apareciam em Outubro/Novembro. Isso nos dá uma margem muito grande. A festa inicial celebrada no Egito parece ter acontecido em 25 de maio. Se sabemos então que o nascimento não se deu em Dezembro ou Janeiro porque são essas as datas escolhidas pelas Igrejas?

Entre os dias 17 e 24 de Dezembro se festejava no Império romano as saturnálias, festas ligadas ao inverno e que envolviam muita bebida, comida e orgias. No dia 25 de dezembro se festejava o natalis invictus, ou festa do Deus sol. Tinha a ver com a passagem do dia mais curto do ano e a certeza de que o sol voltaria a brilhar trazendo a primavera. Era uma festa pagã, ligada aos conceitos de fertilidade e de origem muito antiga já que a adoração do sol e da lua é dos primórdios da humanidade. Nos tempos do NT essa festa tinha sido reivindicada pelos adoradores de Mitra, um deus mesopotâmico, deus do trovão, também chamado sol da justiça e cujo mistério agradava muito aos romanos sobretudo as tropas. Festejar mitra em 25 de Dezembro já era uma adaptação. Outras festividades do inicio de Janeiro também eram comuns. Era uma forma de o povo lidar com as agruras de um inverno rigoroso que trazia muito frio e neve e que impossibilitava os trabalhos agrícolas. Assim sabemos que os povos germânicos do norte da Europa e os celtas tinham também celebrações essa época ligada a festas, ornamentação das casas e troca de presentes.
Certamente tudo isso pesou para que a data da festa do nascimento de Jesus viesse a se fixar em 25 de Dezembro. Inicialmente os líderes cristãos tiveram que condenar os excessos de época e alertar os cristãos a que não cedessem a esses festivais pagãos. 

Com o tempo porém tomaram outra atitude e trataram de contextualizar as celebrações. Aparentemente a primeira menção a essa data como nascimento de Jesus vem do ano 221 num escrito de Sexto Juliano Africano. Lemos que Cipriano de Cartago (bispo em 249) via a data como uma providência Divina já que o verdadeiro Salvador nascesse bem no dia em que se celebrava o nascimento do sol. Crisóstomo (bispo por volta de 398 D.C) ia mais longe e citava a festa do nascimento do sol invencível da justiça como referência correta a Jesus já que “Quem era realmente invencível como Jesus, o verdadeiro sol da justiça” (ver Malaquias 4:2). Esses relatos vêm do 3º e 4º século e mostram que a contextualização foi feita com consciência clara e propositada. 

Será aqui interessante lembrar que as maiores celebrações cristãs, baptismo e ceia do Senhor, não são festas ou rituais originais mas contextualizados por Jesus. O baptismo era usado pelos judeus a séculos e os adoradores de Mitra também usavam uma forma de batismo e falavam de novo nascimento dos neófitos. A ceia com pão e vinho era usada entre os judeus no simbolismo rico da Páscoa mas também entre todos os cultos pagãos de então. Na história do Cristianismo e de Missões muitas são os relatos de festas locais que são adaptadas para servir a Igreja sem que isso as tornasse impuras ou malignas. Com o tempo, o simbolismo pagão acabava por se perder totalmente.

Natal – as celebrações, a árvore e o presépio
Os jantares de natal e as ornamentações das casas se mantiveram das festas de inverno pagãs. As bacanais pagãs incluíam bebedeiras e comida em abundância. A decoração das casas tinha muito a ver com a época. Se na primavera e verão havia cor e flores já no inverno ficava tudo escuro e sombrio. Decorar as casas com objetos coloridos e luminosos era uma forma de alegrar a mesma. Banquetes por seu lado são a forma de festejar mais antiga entre os homens e não surpreende que aqui fizessem parte essencial da festa.  
Elemento que veio a se tornar central na festa é a árvore enfeitada. Aqui também a origem pagã parece clara. 
Os vários povos euro-asiáticos adoravam árvores sagradas dando a elas poder de intervenção na vida humana e vendo-as como habitáculo dos deuses. Desde o simples shamanismo que via as árvores como fonte de poder animal a outras formas mais elaboradas de culto o homem sempre se encantou com a beleza e força de algumas árvores. Vários povos tinham diferentes árvores sagradas. Os egípcios adoravam as palmeiras, os druidas celtas os carvalhos, os germanos os pinheiros e os romanos adornavam abetos no culto a Baco. 

No AT lemos dos povos cananitas adorando em lugares altos e sob árvores frondosas. Uma tradição antiga dizia mesmo que ninrode, neto de Noé, seria o iniciador do paganismo e depois de sua morte teria revivido na forma de um pinheiro que era adorado por seus seguidores dando origem as religiões orientais persas. 

É possível que a árvore de natal tenha tido essa origem mas não temos um relato claro disso. É igualmente provável que tenha havido uma contextualização que via em Jesus a esperança sempre viva exemplificada pelo pinheiro sempre verde mesmo nos tempos frios e escuros do inverno. Uma tradição dá a introdução desse costume a Martinho Lutero (1483-1546), autor da Reforma Protestante do século XVI. Olhando para o céu através de uns pinheiros que cercavam uma trilha, Lutero viu-o intensamente estrelado parecendo-lhe um colar de diamantes encimando a copa das árvores. Tomado pela beleza daquilo, decidiu arrancar um galho para levar para casa. Lá chegando, entusiasmado, colocou o pequeno pinheiro num vaso com terra e, chamando a esposa e os filhos, decorou-o com pequenas velas acesas afincadas nas pontas dos ramos. Arrumou em seguida papéis coloridos para enfeitá-lo mais um tanto. Era o que ele vira lá fora. Afastando-se, todos ficaram pasmos ao verem aquela árvore iluminada a quem parecia terem dado vida. Teria nascido assim a árvore de Natal. Há quem negue essa tradição, mas é firmemente aceita por outros. 

Já o presépio é atribuído a Francisco de Assis. A tradição católica diz que o presépio (do lat. praesepio) surgiu em 1223, quando São Francisco de Assis quis celebrar o Natal de um modo o mais realista possível e, com a permissão do Papa, montou um presépio de palha, com uma imagem do Menino Jesus, da Virgem Maria e de José, juntamente com um boi e um jumento vivos e vários outros animais. Nesse cenário, foi celebrada a Missa de Natal. O sucesso dessa representação do Presépio foi tanta que rapidamente se estendeu por toda a Itália. Logo se introduziu nas casas nobres europeias e de lá foi descendo até as classes mais pobres. Na Espanha, a tradição chegou pela mão do Rei Carlos III, que a importou de Nápoles no século XVIII. Sua popularidade nos lares espanhóis e latino-americanos se estendeu ao longo do século XIX, e na França, não o fez até inícios do século XX. Em todas as religiões cristãs, é consensual que o Presépio é o único símbolo do Natal de Jesus verdadeiramente inspirado nos Evangelhos.

Natal – A Figura do Pai Natal (Papai Noel, Santa Klaus)
Outro símbolo máximo do natal atual é a do velhinho gordinho e bem-disposto vestido de vermelho que percorre a noite de natal levando presentes as crianças que se comportaram bem ao longo do ano. Em seu trenó mágico, puxado por renas voadoras ele entra pelas chaminés ou janelas e colocar misteriosamente as prendas por baixo da árvore. É um dos mitos infantis mais populares do ocidente.

A ideia parece provir do bispo São Nicolau de Mira que viveu no século 5 apesar de haver histórias parecidas sobre o santo bizantino Basilio de Cesaréia venerado pelos gregos. O dia de São Nicolau no leste é o dia 6 de Janeiro, igualmente dia em que os magos teriam trazido seus presentes. O dia de São Basilio é 1 de Janeiro e assim as tradições de ofertar prendas variam de dia conforme a cultura. 

Nicolau seria um homem bondoso que daria dinheiro escondido a famílias necessitadas. Há uma história de que certo homem empobrecera e não tinha dote para suas três filhas que seriam vendidas como escravas. De noite, sob o manto da escuridão, Nicolau teria colocado 3 bolsas com moedas de ouro na lareira do homem salvando assim suas filhas. Relatos como esse deram origem a lenda e no norte da Europa, Alemanha e países baixos, a figura se ligou ao natal e ao dar presentes.

A evolução da figura é bem mais recente. Nos EUA ele se torna popular a partir da guerra revolucionária. Os americanos libertos do jugo inglês estariam procurando figuras anteriores a dominação colonial. Em Nova Iorque havia forte tradição holandesa já que a cidade tinha sido fundada por estes com o nome de Nova Amsterdam. Daí teria vindo a ênfase na figura de Santa Nicolaus ou Santa Klaus. Já em 1822 Clemente Clark Moore, um professor de literatura grega em Nova Iorque, escreveu um conto poema para seus filhos chamado “Uma visita de São Nicolau”. É nesse conto que o pai natal passa a viajar com renas e a entrar nas chaminés com presentes. Lembrando que as chaminés eram limpas nessa época para facilitar o aquecimento das casas e deixar entrar bons ares (bênçãos). O poema popularizou essa imagem e em 1886 o cartonistaThomas Nast da revista Harper`s weekly desenha e pinta o velhinho com uma roupa castanha esverdeada típica de lenhadores e caçadores. 

Na Europa ele era apresentado com roupas eclesiásticas de bispo mas a imagem de Nast ganha popularidade. Por fim em 1931 a Coca-Cola precisou fazer uma campanha de inverno já que as vendas caíam nessa época e escolheu o Pai Natal dando-lhe no entanto as cores da empresa, vermelho e branco. Essa campanha de marketing foi tão bem sucedida que esse passou a ser o novo visual da figura.

Essa imagem é claramente alheia ao natal nada tendo a ver com Cristo ou o sentido de seu nascimento. Ainda acresce que leva a mentiras contadas a crianças o que é notadamente anti-bíblico. Muitas crianças ligam a figura do Pai Natal a Deus e quando se desiludem de um acabam transpondo esses sentimentos ao outro julgando tudo mito e farsa.

Conclusões – Em que ficamos?
Tentemos então chegar a algumas conclusões diante dos fatos expostos. Gostaria de realçar que minha interpretação é a visão de um missionário que entende a necessidade da contextualização. Em toda a Bíblia encontramos esse fato. O Senhor sempre permitiu e usou a contextualização para a transmissão de sua verdade. Essa contextualização tem que ser crítica, cuidadosa e consciente, mas pode e deve ser bênção para a igreja e a propagação da Glória de Deus. Terei isso em conta em minhas avaliações finais.

Faz sentido festejar o nascimento de Jesus? Creio que sim. Somos ensinados na Palavra a celebrar o Senhor (Salmo 100:1) e a anunciar as suas maravilhas (Salmo 98: 1, 2 e 4). Não teremos razão para celebrar o nascimento do Salvador? Trata-se de um milagre/mistério maravilhoso e que mostra o amor de Deus por nós. Celebrar o nascimento de Cristo é festejar a graça de Deus, o milagre da encarnação, a prova maior de seu amor por nós em vir viver entre os homens em forma humana. Os anjos vieram anunciar seu nascimento e louvar. Nós os salvos podemos faze-lo e usar esse momento para anunciar as boas novas da chegada do Messias salvador e que essa é nova de alegria para todo povo em todas as culturas.

Faz sentido celebrar o natal em 25 de Dezembro? Como não sabemos a data real do nascimento de Jesus, qualquer data seria possível. Uma deverá ser convencionada. Creio que os pais da igreja ao usarem uma data já festiva e adapta-la a realidade da mensagem cristã nos deram um bom exemplo de contextualização. Nada temos a ver com festas ao sol e a mitra. A esmagadora maioria dos cristãos nunca ouviram falar disso. Festejam nessa data porque foi a escolhida e não vejo que isso possa só por si nos afetar negativamente se nosso coração for puro e nossa festa genuína.

Podemos montar uma árvore de natal? A razão de ser da árvore e sua origem é na verdade bastante controversa. Dizer que não podemos usá-la porque há povos que adoram árvores é como dizer que não devemos cantar porque cantar faz parte de cultos pagãos, não devemos usar instrumentos de percussão na adoração porque são instrumentos da macumba e muito mais. Não creio que os cristãos adorem suas árvores de natal.

É apenas um adorno festivo que nos lembra a chegada de Jesus e serve para marcar uma ocasião diferente e especial para nós. O salmista diz que as árvores também louvam a Deus, inclusive os cedros (Salmo 148:9). No entanto se isso lhe faz confusão então festeje Jesus sem árvore ou adornos. 

Podemos montar presépios? Há quem os veja como idolatria. Certamente será se nos ajoelharmos a orar diante dessas figuras. Se por outro lado são decorativas e servem para nos lembrar dessa cena amada do nascimento do Salvador podem ter razão de ser e servir de motivo de gratidão a Deus. Lembro-me inclusive de participar de presépios vivos que davam ensejo a oportunidades de testemunho do Senhor.

Podemos fazer uma ceia de natal? Todas as festas têm refeições especiais. Porque o nascimento de Jesus seria diferente? Devemos no entanto lembrar de modo claro que natal não é comida ou bebida. Deveríamos fazer refeições especiais mas modestas e que não favoreçam nem glutonaria e nem bebedeiras que tirariam todo louvor da celebração. Nossas refeições todas e em especial a do natal devem ser feitas para a Glória de Deus (I Cor. 10:31). Deveríamos também lembrar dos menos favorecidos e nessa data oferecer a eles parte de nossa dispensa para que também festejem como a Bíblia claramente ensina (Neemias 8:10 a 12).

Podemos dar prendas no natal? Confesso que aqui tenho que concordar com os que combatem o costume. As prendas ofertadas no natal bíblico são dadas a Jesus. O costume de trocar prendas que foi adaptado do meio pagão tem tomado ao longo dos tempos o lugar central da festa. Não somente deixamos de presentear o aniversariante (Jesus) como nos concentramos em nós mesmos e em nossas prendas e contribuímos para o consumismo louco que domina nossa cultura atualmente. Creio que faríamos melhor se usássemos esse tempo para ofertar para a obra de Deus, para as missões (como uma bela tradição batista americana) e os mais desafortunados. Poderíamos dar algo a nossos filhos, principalmente coisas úteis e necessárias e aproveitar para lhes ensinar o verdadeiro sentido do natal. Aproveitaríamos também para combater esse consumismo que faz com que o natal seja tão desvirtuado mesmo no meio cristão. 

Podemos usar a figura do pai natal? Sinceramente, creio que não. Essa imagem é alheia ao natal, estranha ao festejo e produto do marketing desenfreado que acabamos de combater. Creio que como cristãos não podemos mentir a nossos filhos e nem ligar o natal ao exclusivo ganho de brinquedos. A figura actual do pai natal desvia a festa de Jesus que deve ser seu foco maior e único.

O Natal só fará sentido se o celebrarmos com o foco em Jesus. É tempo de alegria e louvor pelo nascimento do Salvador. É tempo de proclamação da salvação que veio para todos. É tempo de encarnação da Igreja que se aproxima dos mais necessitados aliviando a dor e o sofrimento. Esse será um natal digno de ser celebrado. Esse será um natal digno de Jesus. 




O ESPÍRITO DO NATAL!


Quando se aproxima o fim do ano e as luzes começam a ser instaladas, as noites se prolongam e o frio vai chegando, pensamos em noites junto à lareira (ou aquecedor), reuniões familiares, ceias especiais. O Espírito do Natal está no ar. Mesmo quem não é religioso e não liga ao Natal como celebração cristã, não consegue deixar de evitar essa sensação quase palpável de que esta é uma quadra diferente. Há um clima especial no ar. Mas qual é o verdadeiro espírito de natal?

Há muitas respostas para essa questão. O conto mais tradicional de Natal é exactamente “Um Conto de Natal” de Charles Dickens, mas nele o espírito de Natal é um fantasma pelo que será melhor descartá-lo. Para alguns o espírito de natal é sobretudo um espírito de festa que lembra comida, bebida, sabores especiais, chocolate, bacalhau… mas será esse o espírito certo?

Para outros o espírito de Natal será um de consumismo. As pessoas são literalmente atacadas com propagandas e descontos. As lojas trabalham em frenesim e o subsídio de natal (quando existe) alimenta essa noção: compre, gaste, aproveite os descontos, é natal. E Natal passou a ser conotado com comércio. Basta lembrar que hoje parece assente que o vermelho é cor natalina. Mas essa noção é recente, tem poucas décadas. Foi produto de uma campanha da Coca Cola que vestiu o Pai Natal de vermelho (anteriormente vestia-se de castanho) e com isso deu uma nova cor ao Natal. Mas será esse o espírito certo?

Para alguns, natal é um tempo triste de recordar os que se foram. A lembrança de natais mais cheios e abundantes ou com mais família pode trazer tristeza. A recordação de um filho que não pode presentear pode levar a melancolia. A falta de recursos para dar a um filho uma prenda desejada pode trazer angustia. Mas será esse o espírito de natal?

Provavelmente a maioria prefere entender que Natal é um tempo alegre e caracterizado por prendas e defenderia que o espírito de Natal é de altruísmo, de dádiva. E estarão certos em muitos sentidos. O que marca o Natal afinal de contas, são as prendas que damos aos nossos amados. O tempo que gastamos a pensar no que vamos dar, o cuidado em esconder o que vamos dar, o secretismo, o esforço para um, a prenda de maior valor… tudo indica uma dedicação ao outro que dá ao natal um clima especial. Dar faz bem a alma, alegra o coração, estreita ligações, fortalece amizades e proporciona momentos de intensa satisfação. Seria este o espírito de natal?

O que aconteceu no 1º natal? O que caracterizou o 1º natal e fez dele algo especial? O que podemos dizer biblicamente que é sua marca, seu espírito?

“Ora, havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho. E eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor, e tiveram grande temor. E o anjo lhes disse: Não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria, que será para todo o povo: Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: Achareis o menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura. E, no mesmo instante, apareceu com o anjo uma multidão dos exércitos celestiais, louvando a Deus, e dizendo: Glória a Deus nas alturas, Paz na terra, boa vontade para com os homens. E aconteceu que, ausentando-se deles os anjos para o céu, disseram os pastores uns aos outros: Vamos, pois, até Belém, e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos fez saber. E foram apressadamente, e acharam Maria, e José, e o menino deitado na manjedoura. E, vendo-o, divulgaram a palavra que acerca do menino lhes fora dita; E todos os que a ouviram se maravilharam do que os pastores lhes diziam” Lucas 2:8-18

O Espírito de natal, segundo as escrituras, é um espírito de adoração, de louvor. Note bem que os céus descem a terra em adoração. Os anjos vêm para louvar, para cantar, para adorar. Eles louvam a Deus com alegria e magnificência e no fim do texto os pastores também irão fazê-lo. Mas todo o natal será marcado por isso. Quando Isabel recebe a visita de sua prima Maria grávida ela louva a Deus. Quando Maria percebe o louvor de Isabel ela irrompe num salmo de adoração conhecido como o Magnificat que adora a Deus de modo maravilhoso. Quando o menino é levado ao templo os idosos Ana e Simeão louvam com alegria enorme. Quando os magos chegam do oriente eles se prostram diante do menino e o adoram. Louvor e Louvor é o que acontece centro – o espírito do natal. E Porque se louva no natal:

Louvor pela Presença de Deus
No Natal Deus está presente. Emanuel – Deus connosco. O Senhor Criador não ficou de longe indiferente a nossa dificuldade no mundo. Ele veio para estar entre nós, viver nossa vida, passar por nossa dor. Natal é a admissão extraordinária que o Deus Criador entrou em nossa realidade espaço temporal para habitar com a humanidade.

Louvor pela Salvação de Deus
E Deus veio para nos Salvar. Ele sabia que o homem não tinha como resolver seu maior problema – a separação do Senhor. Longe de Deus por conta de nosso pecado, não tínhamos como encontrar sentido na vida, razão de ser e propósito de viver. Só com Deus podemos redescobrir nossa vida em sentido real e caminhar para um futuro melhor. Só Deus poderia resolver esse dilema vindo para nos salvar e o fez em Jesus. Ele nasceu para morrer na cruz levando nossa culpa, nossa vergonha, nosso pecado e nos devolvendo a possibilidade de andar com Deus.

Louvor pela Graça de Deus

E Natal é Graça – Dádiva imerecida. O Senhor veio habitar entre nós (algo que certamente não merecíamos) para morrer por nós e assim nos dar a salvação (graça pura). Natal é presente de Deus, a salvação de graça; não porque não teve custo, porque o seu custo foi o maior possível, mas porque Deus a oferece a quem nunca poderia obtê-la. E este é o Espírito do Natal. Adoração pela prenda maior de Deus para cada homem e mulher do mundo. Já recebeu? Já recebeu a prenda de Deus? Não passe mais um Natal sem ela.

Natal – Adoração Genuína

Uma das figuras mais comuns no Natal é a dos anjos. Vemos anjos nas árvores, nos presépios, nos papéis de embrulho e cartões de boas festas. Os anjos verdadeiramente tiveram um papel importante no primeiro natal como mensageiros de Deus a Zacarias, Maria e José mas lembramos em especial do coro angelical que proclamou o nascimento aos pastores de Belém. Quando pensamos em anjos cantando pensamos em adoração pura. Quando dizemos de alguém que “cantou como um anjo” é um elogio enorme. Significa beleza e pureza de adoração. Eles representação a adoração genuína que o Senhor merece. Mas pensando nessa adoração sou levado a meditar em outras experiências de adoração do povo de Israel que se provaram erradas e nas lições que isso nos traz.

A primeira dessas experiências aparece em Êxodo 32 e é a do bezerro de ouro. Um povo liberto e que vira maravilhas não suportou nem 40 dias sem a liderança de Moisés e já estavam prontos a adorar imagens. Precisavam de algo visível. Depois de 400 anos vendo a idolatria egípcia diária foram tentados a ter eles também imagens. Acabam por optar por um boi ou bezerro, um dos símbolos do Osíris egípcio. É difícil crer que viam nesse bezerro em Deus. O que eles queriam era um culto à sua medida, do seu jeito. Arão, que segundo a tradição assistira ao apedrejamento de Hur por tentar impedir a idolatria, cede ao povo e decreta uma festa ao Senhor (32:5). “Transformaram a Glória de Deus na figura de um boi que come erva” Salmo 106:20. Chamam a sua bacanal de celebração ao Senhor. Adoração totalmente equivocada.

Esse episódio é símbolo máximo do culto humano, um culto feito para agradar o homem, voltado para os sentidos, para emoções fortes. Surge da falta de um líder verdadeiro e da direção fraca que vai onde o povo quiser ir. Um culto assim pode até agradar a multidão mas fica longe de louvar a Deus e é para Ele abominação que exige punição.

Pouco tempo depois vemos o povo murmurar novamente e ser punido com uma praga de serpentes mortíferas (Números 21). O Senhor providencia a cura por meio da fé que exigia a visualização de uma serpente de bronze que Moisés ergue no centro do acampamento. Muitos sãos salvos pela fé ao avista-la. Era um símbolo da graça e do perdão de Deus. Mas o povo facilmente cria superstições e passados séculos encontramos Israel adorando a serpente (II Reis 18:4) e o rei Ezequias em seu zelo destrói Neustã, o pedaço de bronze.

Este episódio nos ensina o risco de tomar algo bom de Deus e idolatrá-lo. Pode ser um programa, uma organização, um método, um templo, um local de culto. Algo que o Senhor inspira e abençoa mas que com o tempo é elevado a uma posição errada e ocupa o lugar que só o Senhor pode ter. Este é um erro comum no meio evangélico. Infelizmente tiramos os olhos de Deus muito facilmente e logo nos fixamos em coisas, em pedaços de bronze. Passamos a adorar os métodos, as formulas, os locais e as organizações e deixamos de servir ao Senhor. Nesses casos vai haver necessidade de alguém com zelo de Deus chamar o povo a verdade e mostrar que barro é barro, bronze é bronze e só o Senhor é Deus!

Já depois da entrada na terra prometida temos mais dois momentos de adoração equivocada. Um aparece após as vitórias de Gideão (Juízes 8). O servo de Deus tem uma vitória retumbante e histórica sobre os midianitas. Apazigua os efraimitas e recusa ser rei. Até aí tudo certo, tudo bem. Mas então pede ouro e faz um éfode sacerdotal que coloca em sua própria cidade de Ofra e isso foi por tropeço para Israel e para a casa de Gideão (8: 27). Gideão estivera tão bem mas falha exatamente no que viera combater. Toma uma posição que não é sua (ele é de manasses e não levita), faz uma vestimenta que não lhe cabia (ele é homem do campo e chefe militar e não sacerdote), cria um local de culto em sua cidade desviando o culto de seu lugar certo que seria em Siló (talvez porque na verdade não se entendera com os de Efraim em cujo território ficava Siló) e provavelmente usa esse éfode como oráculo quando o Senhor estabelecera Urim e Tumim como oráculos Divinos.

Aqui a adoração equívoca advém de um líder que perde a noção de seu lugar, usurpa um ministério que não é seu e estabelece uma primazia em sua cidade que não tem lugar.  Um líder equivocado pode facilmente levar a uma adoração espúria. Grande é a responsabilidade daqueles que o Senhor chama.

Por fim temos o estranho episódio de Mica, seus ídolos e seu levita em Juízes 17 e 18. Mica cria seu próprio santuário (capela privativa), constrói seus próprios deuses e consagra seus próprios sacerdotes, primeiro, seu filho e depois, um levita errante. O levita, foge da terra que lhe fora designada a procura de uma situação mais favorável. Primeiramente aceita ser sacerdote de Mica quando não podia ocupar tal posição e depois vai se vender aos Danitas por um salário melhor (18:19 e 20). Essa história é um exemplo refinado de culto conveniente.

Ministérios mercenários são hoje comuns. Não há paciência e nem perseverança na obra. Quando as coisas ficam difíceis e principalmente quando há uma melhor oferta algures o “servo” de Deus logo entende que “seu tempo naquele trabalho terminou”. Facilmente muda de visão e de função. Tudo que vá ao encontro de sua comodidade e sucesso. “É melhor ser sacerdote de uma tribo do que de um só homem e família...” E devemos notar que a história não acaba necessariamente mal para Jônatas, filho de Gérson. Ele e seus descendentes vão manter o cargo (18:30). Mas a custo de que? Que satisfação o Senhor teria com essa situação?

Neste Natal lembremos a adoração dos anjos. Feita na hora certa, do modo certo, sob a ordem específica de Deus, aqueles a quem Deus envia, com o intuito de proclamar a boa nova. Nós provavelmente preferiríamos usar um coro de anjos no palácio real ou na praça central de Jerusalém. Mas o Senhor os mandou aos pastores em Belém e lhes deu um repertório específico.
Adoração genuína terá que ser sempre feita para o
louvor da Glória Divina e dentro da sua vontade e da
sua revelação.

Bênção e Cia... Como avaliar o Natal?

No regresso ao trabalho e as atividades do cotidiano após as festas natalinas a pergunta mais comum é: Como foi o seu Natal? Respondemos, sem pensar, que foi bom. Mas, e se pararmos para refletir? O que diremos? Como iremos avaliar o nosso natal? Imagino que para a maioria, mesmo sem querer, a avaliação será bastante material. O natal foi bom se a mesa foi farta, se os presentes foram bons e ricos e de preferência os desejados. Se nosso sonho de consumo foi realizado então foi em excelente natal... e pela quantidade de gente nos centros comerciais apesar da crise, não há dúvida que a febre do consumo venceu o natal.

O mais difícil é verificar que uma parte significativa da população cristã evangélica tem se rendido a essa visão e até produzindo uma teologia que a defenda. Por todos os lados ouvimos pregadores anunciando bênçãos a granel como se fossem uma espécie de pai natal/papai noel do evangelho. Muitos crentes vão acreditando que realmente bênção material é sinônimo de comunhão com Deus e aprovação do céu. Revivemos toda a teologia dos fariseus que Jesus repudiou de modo tão claro. Pensando nisso olhemos meditemos em duas ocasiões de bênção na palavra para ver o que podemos aprender. Vejamos uma no Antigo e uma no novo testamento.

1) A nossa parte da bênção - II Reis 4:1 a 7
Nesta conhecida passagem a viúva de um profeta pede ajuda a Elias diante de uma situação financeira tão crítica que levaria seus filhos a escravidão. O Homem de Deus lhe pergunta então: O que tens em casa? Ou seja, o que tens a mão? Com o que podes contribuir? Que parte podes tomar na solução? E a resposta foi, apenas um vaso de azeite. Pois foi com esse azeite que se resolveu o problema. A mulher teve que crer e agir. Teve que trazer vasos da vizinhança, fechar-se em casa e encher cada um deles e depois sair a vende-los negociando o preço. Deus abençoou, mas ela teve que fazer a parte dela.

Sistematicamente a Palavra nos mostra que o Senhor não faz o que pode delegar. Para cuidar da criação Ele criou Adão, Para reiniciar a povoação da terra contou com Noé, para criar um povo escolhido separou Abraão, para livrar Israel do Egito chamou Moisés, para recuperar o culto verdadeiro convocou Elias, para governar Israel elegeu Davi, para firmar a Igreja escolheu os discípulos, para alcançar os gentios ungiu a Paulo.

Queremos que o Senhor haja de cima para baixo, de fora para dentro e nós fiquemos só como espectadores passivos cumprindo o papel de pedintes. Mas ELE age de dentro para fora, atua dentro de nós, exige nossa participação, mas isso incomoda, altera os planos, modifica as agendas. Mas é o modo do Senhor agir. A bênção veio, vem e virá, mas sempre exigirá a nossa participação.

2) A Tua vontade, não a minha - Mateus 8:1 a 4
Este é também um episódio conhecido. Um leproso arrisca tudo para chegar a Jesus e prostrado pedir-lhe misericórdia. Mas o que sobressai nas palavras do leproso é sua atitude. Ele não discute a necessidade (ele realmente precisava), ele não discute a falta de alternativas (Jesus era a única esperança), ele não debate o poder (sabia que Jesus podia cura-lo), ele não fala sobre a oportunidade (podia não haver outra), ele fala sobre a vontade soberana de Deus: Se quiseres...

O pedido do leproso não era baseado em sua necessidade ou outra qualquer coisa. Segundo as teologias modernas ele tinha "direito" a cura pois no seu coração cria. Mas ele não pensa assim. É mais sábio que isso. Sabe que além do poder, o Senhor tem todo o conhecimento e a sabedoria para fazer o melhor. Ele roga submisso. "Se quiseres. Sei que podes, mas não sei se queres, mas creio que a tua vontade é perfeita, baseada em teu entendimento, então seja feita a tua vontade. Se quiseres podes tornar-me limpo."

Ao orar desse modo o leproso se entrega nas mãos de Jesus. Reconhece não somente o poder, mas a soberania, o conhecimento, a sabedoria e o perfeito amor do Senhor. Precisamos urgentemente entender que para Deus o poder não implica obrigatoriamente na ação. ELE sabe o melhor! Entendemos isso no plano humano. Um cirurgião pode fazer certa cirurgia. Tem conhecimento e experiência para faze-la, mas isso não quer dizer que a fará a qualquer doente. Deverá estudar o caso, a situação e o doente e então decidir se vai ou não operar. Não esta em causa sua capacidade mas seu conhecimento. Ele pode, mas também deve decidir se é o melhor. Porque então não entendemos isso no plano divino?

O leproso orou como Jesus iria orar mais tarde, Seja feita a tua vontade. Quando oramos assim alguns nos acusam de falta de fé. Dizem que esse tipo de oração limita a petição e mostra fraqueza. Aprendi que orar assim não é uma questão de falta de fé, mas de falta de conhecimento. Sei que ELE pode, mas não sei se em seu conhecimento ELE vai decidir que é o melhor. Como servo não me cabe a mim mandar no Senhor mas confiar mesmo quando as coisas não são como eu gostaria.

Como vamos avaliar nosso natal? Pelas bênçãos materiais simples e puras? Será uma avaliação superficial certamente. Natal é Jesus. Logo, um bom natal é aquele em que Jesus for central, em que meu amor por ELE cresce, em que minha adoração é genuína, em que meu desejo de falar dEle aumenta. Natal é o cumprimento pleno da vontade de Deus apesar das dificuldades que isso traz a Maria, a José e ao próprio Jesus. Será natal em mim quando puder orar como o leproso, seja feita a tua vontade e viver de acordo com essa oração.

Meus Natais Inesquecíveis!

O mundo ocidental vive um momento de frenesi  na época de Natal.  Todos querem comprar presentes, roupas novas,  fazer uma ceia em grande estilo, reunir ao máximo os parentes e amigos, afinal, é festa! É Natal!

Sozinho com meus pensamentos procuro me lembrar dos natais passados e tenho que fazer grande esforço para recordar o que comi e o que vesti na ocasião.  Curioso, essas coisas não me marcaram a lembrança,  porque  isso realmente não é o mais importante!  No fundo, nós nos lembramos mais dos natais de quando éramos crianças, não é mesmo?  E nestas lembranças não entram as roupas e as comidas, mas as impressões, os sentimentos, a alegria e o espírito de natal que sentimos então.

Creio que muitos irmãos e amigos lembram-se de um natal que passamos nos Açores, quando meus pais foram missionários na ilha Terceira.  Estava com 12 anos, e minha irmã Lília tinha apenas 8. O salário estava muito atrasado, pois naquele tempo o correio para as ilhas era muito demorado.  Mamãe já havia nos prevenido:
_ Queridos, neste ano não vai  dar para presentes, vamos fazer uma ceia simples e talvez, quando o salário chegar, dê para comprar alguma coisa.  Tenham paciência!

Lembro-me bem que nós, crianças, não ficamos nada satisfeitas e logo fizemos uma reuniào para resolver o problema...mas o que fazer?  Lília, em sua simplicidade de criança apenas disse:
_Vamos orar e pedir pra Deus nos dar um bom natal ?  Eu não quero ficar sem presentes neste natal!
Ok! respondi, vamos orar e esperar o que Deus vai fazer...você ora primeiro e depois eu termino...
E assim cada um de nós orou e pediu a Deus que fosse possível ter um natal, não era preciso muitos presentes, mas em nossa visão infantil  isso era muito importante!    Bem, Deus não nos respondeu imediatamente...e a ceia do dia 24  foi sendo preparada com o frango e purê de batatas, sem refrigerante, apenas suco de laranja...
Próximo das 16 horas  um amigo  americano, que trabalhava na base aérea das Lajes, bateu à porta. Inicialmente, não conseguimos ver seu rosto, pois na frente, havia uma enorme caixa de papelão!
_ Ho, Ho, Ho...Merry Christmas!  Feliz Natal!  Isto é para vocês!  Deus abençoe a todos!
E saiu tão rápido quanto entrou.  Ficamos um tempo sem perceber o que havia acontecido, quando mamãe começou a abrir a caixa e a chorar de alegria.

Dentro havia um enorme peru de natal, com muitas guloseimas acompanhando: refrigerante, bolo instantâneo, cookies de chocolate, nozes, castanhas e caramelos. Havia também roupa de cama, toalhas, livros e para nós...brinquedos!
Bonecas para Lília e carrinhos de corrida espetaculares para mim,  canetas e cadernos, jogos e muito mais coisas maravilhosas!  O peru da ceia rendeu até ao ano novo, de tão grande que era!  Juntos, à volta daquela caixa ríamos e chorávamos ao mesmo tempo. Aprendi que nosso Deus se preocupa com a oração das crianças e para nós esse foi um natal inesquecível!

Muitos anos mais tarde lembro-me de um natal também inesquecível, mas bem diferente, pois foi dos primeiros que passamos em Bafatá, na Guiné Bissau.  Andávamos na rua, no mês de dezembro e ninguém se lembrava que dali a uma semana seria natal.  Numa cidade onde 98% da população é muçulmana não há natal.  Não víamos enfeites nas janelas, nem música natalina  no ar.  No dia de  natal as lojas estavam abertas normalmente, pois não fazem feriado...o que fazer?  Como comemorar o natal numa terra onde nem sabem o que é?

Fizemos de tudo para que em nossa casa tudo lembrasse de maneira marcante o natal.  Ida, Analita e Gabriel desenharam e fizeram enfeites para a sala e conseguimos um pinheiro de verdade no projeto agrícola chinês, próximo à cidade. Foi curioso, porque eles também não se lembravam que era natal, pois a china comunista também não comemorava.  Ida embrulhou várias caixinhas de fósforo e rolos de papel higiênico para compor a base da árvore, que Gabriel insistia em querer abrir, pensando que eram presentes de verdade!

Havia muito pouco o que comprar na feira, mas fizemos o melhor possível! Ida correu atrás e procurou artigos para festejar a ocasiào. A ceia constou de biscoitos, salada de atum e um pequenino frango!   Com o gravador à pilha, colocamos música de natal todo o tempo!  Analita, com sua bela voz cantava e ensaiava um lindo hino.

A noite do dia 24 transcorreu à luz de velas, pois nosso gerador estava danificado! Sentei-me no chão e Gabriel foi sentar-se no meu colo.  Abri um grande livro com figuras e comecei a contar-lhe a história do Natal.  Para nós, os adultos, fiz uma pequena meditação e oramos, rogando a Deus sabedoria para conquistar o povo Fula, que nem se lembrava da vinda do Salvador.

Louvamos a Deus cantando todos os hinos tradicionais que nos lembrávamos.  Eu e Ida chorávamos emocionados enquando Analita cantava "É meia noite...instante augusto é este", meu hino preferido!
Sabíamos que nossas vozes eram ouvidas por toda a rua, pois no silêncio de Bafatá qualquer som é percebido.  De nossa varanda o som repercutia por toda a vizinhança e logo vimos que muitos meninos estavam quietos, escutando as canções na nossa varanda.

É difícil explicar a sensação que sentíamos... sabíamos que éramos os únicos da cidade a comemorar o Natal de Jesus.  Orava e Clamava:
_ Senhor, que um dia muitos desta cidade possam entender o que é o verdadeiro Natal!

Hoje, passados 12 anos deste primeiro natal alegro-me em dizer que neste natal será feriado em Bafatá.  Na feira,  já encontramos árvores de natal e enfeites à venda.  Na rádio o chefe da mesquita local avisa a todos que se quiserem, podem fazer a festa de natal, desde que não tomem bebidas alcoólicas nem comam carne de porco.  Muitas famílias  já comemoram o natal com frango e suco de laranja!  E na Igreja Batista de Bafatá, hoje com 150 membros, as comemorações duram todo o mês, com peças natalinas, cantatas, mensagens especiais e  encontros festivos.

O Senhor é Bom, e  no Natal devemos recordar Sua bondade e Misericórdia!
Desejamos que este natal seja realmente inesquecível!
A todos os queridos amigos e irmãos, um FELIZ NATAL!
     
                                          Joed, Ida, Gabriel e Rebeca   
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