terça-feira, fevereiro 24, 2026

Roteiro de quadrinhos: colocando texto nos balões

 

Há dois aspectos que se deve considerar ao escrever o texto numa história em quadrinhos. E, quando falo de texto, vale tanto para legendas quanto para diálogos.
O primeiro deles é que quadrinho não é literatura. O texto quadrinístico só existe em íntima coesão com a imagem. O roteirista deve pensar visualmente, imaginar como seu texto vai interagir com os desenhos e que tipo de impressão essa junção vai causar.
O segundo aspecto é que o roteirista deve saber quem são os personagens. O ideal é que até mesmo os personagens secundários tenham uma história. Quem são eles? Quais são suas motivações, quais são os seus medos, quais são suas esperanças? Há alguma história de vida que podemos contar sobre esse personagem e que ajudem a mostrar ao leitor quem é essa pessoa?
Essas duas preocupações sempre dominaram minha produção de roteiros. Exemplo disso é a história O farol, publicada pela editora Nova Sampa e, posteriormente, na editora norte-americana Phantagraphics, com o nome de Beach Baby.
Na história um casal está na praia quando vê surgir um farol. Eles entram no local para investigar e acabam se perdendo um do outro. A sequência que apresento abaixo mostra o momento em que o rapaz se perde da namorada, e se vê em local totalmente escuro, sendo dominado pelo medo. 
Eu e Joe Bennett trabalhávamos com o marvel way, um método que só funciona se o desenhista for um narrador nato, como é o caso do compadre. Nós discutíamos a história, ele ia para casa, fazia um rafe das páginas e me trazia. Era sempre um desafio escrever o texto, pois ele conseguia contar tudo só com imagens. Isso exigia o máximo do roteirista.
No caso dessa página, o que escrever? O desenho já explicava facilmente a situação: o rapaz estava perdido e entrando em desespero.
Não fazia sentido colocar o rapaz falando sozinho. Embora esse seja um recurso usando em algumas HQs, a verdade é que só malucos falam sozinhos.
Assim, preferi trabalhar os pensamentos do personagem, mas explicitados por um narrador em terceira pessoa, para conseguir o efeito desejado.
Reparem que o texto começa contando um detalhe sobre o personagem, uma pequena história da vida dele, mas segue num crescendo até a conclusão final. O texto do último parágrafo encaixa perfeitamente com a expressão do personagem, conseguindo um efeito tanto de impacto quanto de ironia.
 Reproduzo abaixo o texto:
“Fábio”
“Fábio”
“Fábio”
Ele repete o nome para si milhares de vezes.
Uma vez ele conheceu um ocultista, um homem  de óculos grosso e estante cheia de livros.
O homem disse que o nome de cada pessoa é um mantra para si mesmo.
Palavras sagradas que, repetidas várias vezes, trazem calma e paz de espírito.
Com Fábio isso não deu muito certo.

Com amor, Van Gogh

 

Vincent Van Gogh foi um dos mais importantes artistas de todos os tempos. Sua forma única de ver a natureza abriu caminho para o surgimento da arte moderna. É tão famoso que é muito raro alguém que nunca tenha visto uma pintura sua. No entanto, ele morreu pobre e em vida só conseguiu vender um único quadro. É essa trajetória que é contada no filme Com amor, Van Gogh, dirigido por Dorota Kobiela e Hugh Welchman.
A estratégia usada para colocar na tela a vida do pintor é absolutamente inovadora e deslumbrante: uma animação que emula o estilo de Van Gogh. É como se os quadros do mestre ganhassem vida, o que, aliás, acontece em diversas sequências, que começam com quadros famosos do pintor.
Mas esse deslumbre visual de nada valeria sem um bom roteiro. E o roteiro, de autoria dos diretores, é perfeito: o filho do carteiro que entregava as cartas de Van Gogh é incentivado pelo pai a entregar a última carta do pintor para seu irmão. Com isso, ele acaba se encontrando com as pessoas que conviveram com ele e reconstitui seus últimos dias.
A história é narrada assim, quase como se fosse uma investigação policial, o que certamente agradará até mesmo os expectadores menos interessados no aspecto artístico. Os diálogos são afinados, cirúrgicos e, ao mesmo tempo, reveladores. Eles conseguem contar muito sobre a vida e a personalidade do pintor sem serem didáticos.  
Com amor, Van Gogh é um filme obrigatório para amantes da arte.

Superdotados - Talentos desperdiçados

 


Um dos aspectos mais preocupantes a respeito dos superdotados é a percepção de que a maior parte dos indivíduos talentosos não são aproveitados positivamente pela sociedade.

Estudos demonstram que uma em cada 20 pessoas é superdotada. A maior parte dessas pessoas simplesmente não desenvolve seus talentos.
Em dos um dos cursos que realizei em Belém havia uma garoto de apenas doze anos que desenhava com incrível habilidade. Seu traço era caracteristicamente Disney, mas ao ser apresentado a outros desenhistas, ele desenvolveu um traço próprio, que misturava as características infantis de Disney com o expressionismo alemão da década de 20. quem conhece o assunto sabe que alguém conseguir revelar um traço próprio, individual com apenas 13 anos é coisa para gênios. Esse rapaz era tão pobre que não tinha dinheiro para comprar papel e usava o verso dos cartazes de cerveja que os donos de bares lhe davam. Um final feliz seria vê-lo desenhando e se tornando famoso com seu trabalho na área de quadrinhos, publicidade ou artes-plásticas. Mas não foi isso que aconteceu. O rapaz desapareceu e provavelmente seu talento se perdeu. É provável que ele tenha se tornado pedreiro, pintor de paredes ou algo similar.
Quando não ocorre do talento simplesmente se perder, há grande chance dele se voltar para atividades pouco positivas. Fernandinho Beira-mar é um ótimo caso de superdotado que usa suas habilidades da pior maneira possível. Exemplos semelhantes são muitos.
Fala-se muito do desperdício de comida, desperdício de água e similares. Mas pouco se fala no desperdício de talentos. Enquanto o Brasil não aproveitar seus indivíduos talentosos, seremos sempre um país periférico. Quantos grandes cientistas e artistas não se perdem por falta de oportunidades?
A única maneira de evitar que o talento de um superdotado simplesmente se perca ou seja usado para o mal é através da educação. A escola, ou instituições livres poderiam oferecer atividades extra-classe para alunos com altas habilidades. Além disso, os professores, que lidam continuamente com superdotados, precisam ser educados para trabalharem corretamente com esse tipo de aluno.

Perry Rhodan - sob as estrelas de Druufon

 

 

Uma das características que fazem da série Perry Rhodan admirável é o fato de a história ter sido planejada de forma que algo que acontecia em um volume muitas vezes tinha consequências muitos livros depois. Exemplo disso acontece no primeiro ciclo, quando um sargento, tentando se esconder dos saltadores, pousa em uma lua e encontra o que parece ser uma bola inteligente capaz de mostrar fatos que estariam acontecendo em qualquer outro local do universo. 

Esse personagem misterioso vai reaparecer no número 76 da série. Rhodan percebe que na guerra contra os druufs precisa de um aliado capaz de descobrir o que acontece na dimensão deles e manda um dos seus oficiais procurar o mistério ser esférico. Esse ser passa a ser chamado de Harno, em homenagem ao sargento que o descobriu, Harnahan. 

A capa alemã mostra Harno. 

Uma curiosidade é que esse ser diz conhecer Rhodan, mas não lembra de onde, o que joga um mistério para ser resolvido lá na frente, deixando o leitor em suspense, como fazem os bons autores.

Esse livro, aliás, é escrito pelo ótimo Clark darlton, que consegue dar verossimilhança para um plano Maluco de Rhodan: aliarse aos druufs.

Para isso ele ataca naves arconidas, salvando uma nave dos seres da outra dimensão temporal e seguindo os até aquela dimensão. 

Parece um plano destinado ao fracasso desde o primeiro minuto, mas acaba se revelando uma jogada acertada no xadrez cósmico.

Alexandre – o nascimento de um deus

 


Alexandre Magno foi uma das figuras mais intrigantes da antiguidade. Guerreiro, filósofo, estrategista, divindade... são muitas as suas facetas... e todas elas são exploradas na série docudrama Alexandre – o nascimento de um Deus, criada por Tony Mitchell e disponível na Netflix.

A série inicia com a chegada de Alexandre ao poder, logo após a morte de seu pai Felipe II, rei da Macedônia (um assassinato arquitetado, provavelmente, pela mãe de Alexandre, que via sua influência na corte decair quando o soberano escolheu uma nova predileta) e vai até a conquista do império Persa, deixando em aberto a possibilidade de uma segunda temporada.

O que faz desse documentário uma atração viciante é a forma como essa jornada é contada, misturando encenações, depoimentos de pesquisadores e trechos com escavações na cidade de Alexandria. Outra estratégia acertada foi o uso de gráficos, que mostram a movimentação das tropas durante os combates, o que nos ajuda a entender as batalhas. Alexandre era, antes de tudo, um estrategista habilidoso, que sabia explorar qualquer mínimo ponto fraco no exército inimigo, fazendo com que a vantagem numérica se tornasse irrelevante (em todas as batalhas contra Dario, rei da Pérsia, ele sempre tinha um exército muito menor) e isso fica muito visível nos gráficos.

Alexandre era também um grande estrategista político e um marqueteiro, que sabia usar propaganda pessoal como arma e sempre surpreendia por não fazer o que se esperava dele. Assim, por exemplo, após a batalha de Isso, ao invés de aproveitar a vitória para atacar a Babilônia, ele vai para o Egito, onde é coroado Faraó. Depois disso, ao invés de aproveitar para atacar Dario usando o exército egípcio aliado ao seu, ele investe em uma jornada pelo deserto, rumo a um templo onde os advinhos revelam que ele é filho do deus Amom e passa a ser adorado pela população local, garantindo a fidelidade das tropas egípcias. Sem falar do impacto que “lutar contra um deus” deve ter provocado nas tropas inimigas.

Ao assistir ao seriado, percebemos também que Alexandre não era só um conquistador. Educado por Aristóteles ele tinha uma preocupação que poucos guerreiros já tiveram. Exemplo disso é a construção da cidade de Alexandria, que se tornaria o centro científico e filosófico da antiguidade, incluindo a maior biblioteca do mundo.

A série tem apenas seis episódios e deixa um gostinho de quero mais. Espero que tenhamos uma segunda temporada.

O incrível Hulk contra Talos, o skrull

 


A fase de Peter David no incrível Hulk pode não ter sido genial, mas sempre gerou boas histórias, que escapavam do senso comum mesmo no período mais sombrio dos quadrinhos (os anos Image). A história publicada no número 419 do título, desenhada pelo brasileiro Roger Cruz, exemplifica bem isso.

Na história, Rick Jones acabou de se casar e o Hulk (nessa época ele se tornara inteligente) valsa com sua amada Betty Ross.

É quando surge, para estragar a festa, um Skrull, Talos. Até aí tudo dentro do esperado. O diferencial aí é que o vilão quer... ser morto pelo Hulk! A razão é que ele nasceu “defeituoso”, ou seja, sem a capacidade de se transformar. Ao invés disso, é extremamente forte: “Se não pertencesse à família real, teria sido morto ao nascer! Eu supri essa deficiência com força bruta! Conquistei! Chacinei! Ninguém era mais temido e respeitado do que eu! Então veio o dia e que caí numa covarde armadilha Kree! Eu poderia ter mordido a cápsula letal em minha boca... ter sido um cadáver em vez de um prisioneiro! Seria honroso! Mas, pela primeira vez em minha vida... eu tive medo”.

A motivação do antagonista: ser morto pelo Hulk. 


Incapaz de se matar, o srkrull decide provocar o Hulk para que este o mate. Só por essa premissa a história já valeria a pena. Mas, usando e seu pendão natural para o humor, Peter David ainda acresenta um final totalmente irônico.

Os desenhos de Roger Cruz não decepcionam, mas infelizmente naquela época todo mundo era orientado a copiar os desenhistas da Image, inclusive na diagramação. Para um bom desenhista era como piorar seu desenho para acompanhar uma moda.

No Brasil essa história foi publicada em O incrível Hulk 163, da editora Abril.

O Último Azul: A Amazônia como Cenário, não Protagonista

 


Algo me incomodou desde os primeiros minutos de O Último Azul, de Gabriel Mascaro: embora a paisagem fosse nitidamente amazônida, as pessoas não falavam como nortistas. No Norte, o uso do "tu" é predominante e identitário, mas, no filme, o "você" domina os diálogos de forma artificial.

Conforme a trama confirmava que a história se passava, de fato, na Amazônia, esse estranhamento cresceu. O ponto crítico ocorre quando a protagonista, com fome, decide comprar um açaí. Apesar de estar em uma venda tipicamente nortista, o produto oferecido é o "açaí do Sul": uma mistura com granola, leite condensado e frutas — algo que simplesmente não faz parte do cotidiano tradicional da região. Fica a pergunta: não havia ninguém na produção para alertar que aquele não é o nosso jeito de falar, muito menos o nosso jeito de comer açaí?

A história, uma distopia, acompanha uma mulher prestes a ser internada em uma colônia para idosos. Em seus últimos dias de liberdade, ela deseja apenas voar. Impedida até de comprar uma passagem de ônibus sem a autorização da filha, ela recorre a um barco para chegar a um local que abriga um ultraleve.

A narrativa é poética e pungente, destacando-se por paisagens belíssimas. Entretanto, é uma pena que, nesta obra, a Amazônia seja tratada apenas como um pano de fundo estético, e não como a verdadeira protagonista que deveria ser.

Adam Strange – O segredo da cidade eterna

 

Na primeira aventura, Adam Strange ainda não usava seu icônico uniforme. 

Embora seja atualmente pouco conhecido, Adam Strange foi um dos personagens mais populares da era de prata da DC Comics.

Ele se tornou popular nas revistas Mystery in Space e Strange Adcventures, mas surgiu na revista Showcase 17, de 17 de dezembro de 1958.

Adam é um aventureiro em busca de tesouros... 


Na história, escrita por Gardner Fox e desenhada por Mike Sekowsky, Adam é um aventureiro que está na cordilheira dos Andes em busca do tesouro de Atahualpa. Como o próprio Fox explica no texto: “Quando o conquistador espanhol Pizarro matou Atahualpa, uma caravana trazendo esse tesouro com o resgate por sua vida se perdeu e escondeu os itens preciosos!”.

O aventureiro encontra de fato o tesouro, mas com isso também consegue despertar a ira dos incas, que passam a persegui-lo. Ele pula de um penhasco e ao invés de cair ou chegar ao outro lado, descobre que foi parar num local desconhecido habitado por feras pré-históricas. É salvo por uma linda garota chamada Alana, que, através de um aparelho chamado cerebrador, lhe ensina o idioma local. O pai da garota, o cientista Sardath, lhe explica que está na cidade de Ranagar, no planeta de Rann e que chegara ali através do raio zeta, enviado de Ran para a Terra.

... mas vai parar num planeta distante... 


Gardner Fox inclui na história de Rann um medo real da década de 1950: o planeta fora praticamente destruído por uma guerra nuclear.

Logo depois a garota o leva para conhecer o planeta, mas o passeio turístico é interrompido por uma invasão extraterrestre, que é debelada com uma ideia de Adam.

... e ajuda a debelar uma invasão alienígena. 


Nessa primeira história o personagem parecia muito calcado em Buck Rogers ou John  Carter de Marte: era um terrestre que de forma misteriosa chega em uma outra civilização e lá se torna herói com habilidades que parece muito superiores às pessoas comuns daquele local. As características mais específicas desse personagem, que o tornariam único, foram surgindo aos poucos. Nessa primeira história, por exemplo, ele nem mesmo usava seu icônico uniforme, que só apareceria na história seguinte da mesma edição. Curiosamente, ele aparece de uniforme na capa, de onde se deduz que a capa foi feita posteriormente.

O rei e a verdade

 

 



















Certa vez o Rei acordou tão ocupado com seus sonhos de onipotência que se esqueceu de vestir roupa. Foi assim mesmo, nu, para a reunião com os ministros. Quando chegou, os ministros se entreolharam, mas ninguém teve coragem de dizer nada.

- E então, como estão os preparativos para minha caminhada triunfal por entre o povo? – perguntou o Rei.
Nisso um ministro se levantou:
- Vossa Majestade me desculpe, mas o Vossa Excelência não pode comparecer assim, sem roupas, entre o povo. Todos irão rir!
O Rei, sem se dignar a olhar para baixo, ficou furioso com o ministro:
- Como assim, estou sem roupa? Estou com a minha melhor roupa, trazida para mim do além-mar.
- Mas majestade, o senhor está sem roupa... – tentou argumentar o ministro, mas foi cortado pelo rei, que perguntava para os outros ministros:
- Por acaso estou sem roupa?
- Claro que não, majestade. – respondeu um ministro.
- Linda roupa, majestade. – disse outro.
- Nunca vi roupa tão esplêndida em toda a minha vida. – garantiu outro.
O Rei, com um sorriso no rosto se virou para o ministro atônito:
- Está vendo? Se estou dizendo que estou vestido é porque estou vestido. E não admito que me contradigam. Considero isso uma ofensa! Exijo que se retrate imediatamente, ou corto sua cabeça.
Dizendo isso, o Rei chamou dois guardas, que se postaram ao lado do ministro, prontos para usar suas afiadas cimitarras. O pobre homem, sem opção, ficou de joelhos e, de cabeça baixa, negou tudo que dissera antes.
O Rei, aproveitando que ele já estava numa posição conveniente, ordenou que um dos guardas lhe cortasse a cabeça.

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Caligari: a história de uma adaptação

 



    O sucesso do filme Caligari fez com que ele fosse adaptado mais de uma vez para outras mídias. A obra já foi citada diversas vezes em gibis e ganhou uma adaptação em quadrinhos em 1992, pela editora Monster Comics, numa minissérie em três partes assinada por Ian Carney e Michael Hoffman. Em 1999, os roteiristas Randy e Jean-Marc Lofficer e o ilustrador Ted Mckeever juntaram elementos de Batman, Super-homem, Metrópolis e Caligari no especial Nosferatu. Quando Tim Burton lançou o segundo filme do Batman, em 1992, o visual do Pinguim era inspirado em Caligari, visual que depois foi aproveitado no desenhado animado dirigido por Bruce Tim.
    Curiosamente, embora os quadrinhos de terror sempre tenham feito muito sucesso no Brasil, em nosso país nunca o filme de Wiene havia sido adaptado para a nona arte.
    A idéia para isso surgiu em 1998. Nessa época estava sendo lançada a graphic novel Manticore, em duas partes, com roteiro meu, pela editora Monalisa. O sucesso de crítica (a revista ganhou o HQ Mix, o Angelo Agostini de melhor roteirista e o prêmio da Associação Brasileira de Arte Fantástica) fez crer que a revista teria uma continuidade. A idéia, então, era transformar a Manticore numa revista mix de terror e ficção-científica nos moldes da extinta Kripta. Uma das ideias era fazer histórias sobre mitos urbanos, como O bebê diabo e sobre clássicos de terror, como Caligari.
Uma série de decisões editoriais equivocadas fez com que a revista, apesar do sucesso, não tivesse continuidade, mas algumas dessas histórias seriam de fato produzidas. As duas citadas acima foram lançadas em 2008 pela editora HQM no especial Quadrinhofilia, que reúne trabalhos de José Aguiar.
O processo de adaptação começou com uma análise do filme. Eu e o desenhista assistimos ao Gabinete do Dr. Caligari juntos, fazendo anotações. A ideia era captar as principais características da história, afinal, o segredo de uma adaptação não é ser totalmente fiel à trama, mas ser fiel ao espírito da ideia original. Assim, a deformação dos cenários e a maquiagem exagerada foram os elementos mais facilmente percebidos. Como havia uma limitação de seis páginas, a história precisava ser condensada, mas ainda assim fazer sentido e ser fiel.
Uma das questões discutidas foi com relação ao uso de diálogos e legendas. Como o filme é mudo, o caminho mais fácil seria fazer uma HQ muda. Mas cinema e quadrinhos são mídias completamente diferentes e fazer isso seria um erro. Mesmo em seus primórdios, as HQs não eram mudas, pois não havia limitação técnica ao uso da linguagem falada. Assim, decidiu-se que se teria diálogos e legendas (representando a fala de Alan, em off).
    O passo seguinte, após a estruturação de um argumento-sinopse, foi a elaboração de um roteiro.  O roteiro das duas primeiras páginas é apresentado abaixo, para dar uma ideia dessa fase da adaptação:

Página 1
Q1 – Plano detalhe de folhas secas caídas no chão.
Velho (off): Os espíritos... eles estão em todos os lugares...
Q2 – Plano médio. Francis e o velho estão sentados, lado a lado, conversando.
Velho: Nos amedrontam... eles me afastaram de minha mulher e meus filhos.
Q3 – Os dois estão conversando, mas agora Francis olha para o lado, para Jane, que aparece vestida de branca, quase como um espírito.
Velho: Foi assim que aconteceu, meu rapaz...
Q4 – Jane passa pelos dois, sem notá-los. Quadro mudo. 
Q5 – Quadro horizontal. Créditos. Francis e o velho em primeiro plano, vistos de costas, enquanto Jane afasta-se, em último plano.
Velho: Conhece a jovem?
Francis: Aquela é minha noiva, Jane.
Q6 – Alan e o velho conversando, em plano médio.
Francis: A pobre jamais se recuperou do que nos aconteceu...
Q7 – Agora um plano fechado dos dois, conversando. Francis, agora em segundo plano, sendo observado, com olhar perdido, pelo velho.
Francis: Também tenho uma história...
Q8 – plano fechado de Francis, em gesto amplo, expressionista.
Francis: ... ainda mais extraordinária do que a sua...
Q9 – Close de Francis. Destaque para seu olhar melancólico, ampliado pela “maquiagem pesada”.
Francis: Tudo começou com a chegada da feira de variedades à nossa cidade.


Página 2 Nesta página teremos um quadro grande, o 4, ocupando boa parte da página, num tom expressionista.
Q1 – Quadro geral da feira, com Caligari aproximando-se do leitor.
Texto: E com a feira
Q2 – A continuação da mesma cena, mas agora Caligari já está mais próximo de nós.
Texto: veio
Q3 – Agora o quadro é tomado por Caligari.
Texto: O doutor Caligari.
Q4 – Chegamos ao quadro de impacto da página. Caligari espera o escrivão. Como combinamos, a mesa do escrivão é extraordinariamente alta e distorcida, simbolizando, como no filme, o monstro da burocracia. Caligari é visto como pequenino diante desse monstro.
Texto: Antes de instalar sua feira, o doutor foi pedir permissão ao escrivão. Ele foi duramente humilhado. Teve que esperar por horas para ser atendido.

O exemplo serve para demonstrar como foi o processo de adaptação nessa fase de estruturação do roteiro. Bom lembrar que tal roteiro foi construído a partir das conversas entre desenhista e escritor, e reflete essa conversa. Posto isso, passemos a analisar o texto. 
A fala de Francis, quebrada, nos três primeiros quadros da página 2, revela influência do quadrinho britânico do final dos anos 1980, em especial de autores como Neil Gaiman (Orquídea Negra) e Alan Moore (Monstro do Pântano).
A narrativa, em off, é intencionalmente coerente e racional, como forma de evitar que o leitor perceba que se trata de um conto de um louco, o que já é evidenciado pelo desenho, sendo uma pista de como a trama irá terminar. Assim, o roteiro procurou preservar o final surpresa.
Se o texto parece uma narrativa fantástica contada por um homem racional, o desenho distorce essa narrativa, demonstrando o real estado das coisas.
A segunda página, já descrita no roteiro acima, apresenta o quadro de impacto de Caligari pequeno, numa perspectiva distorcida, diante da enormidade da burocracia.

A página 3 é dominada pela figura esguia de Cesare. A magreza e altura atípica do personagem orientam a leitura, que ganha foco no rosto fantasmagórico do sonâmbulo. Os personagens normais são eclipsados por essa figura distorcida.

A página 4 é centralizada pela figura de Jane, como se os fatos refletissem dela. Ao fitar a página, o leitor tem seu olhar magnetizado pelo olhar assustado de Jane e sua figura, em sépia azul. A tendência do olhar é correr na direção do último quadro, em que Cesare agarra Jane, sequestrando-a.
Esse caos da diagramação reflete o caos interno dos personagens, suas angústias e inquietações, no que poderia ser considerado um equivalente quadrinístico da técnica expressionista.


Avançando, na página 6 temos a prisão de Caligari. Ele se contorce e grita, lutando com os médicos. Vista em oposição à página seguinte, vemos que ela se reflete no quadro 4 da página 7. Ali é o narrador que é preso e repete a mesma posição de Caligari, como se fossem duas faces da mesma moeda: num lado a racionalidade, no outro a loucura. Como o lado racional é na verdade uma narrativa distorcida, uma falsa racionalidade, esse contraste cria uma inquietação no leitor que nos lembra o conceito de obra aberta, de Umberto Eco, que pretende renovar nossa percepção e nosso modo de compreender as coisas.

    Na página 7 há um diálogo, não existente no filme, que pretende destacar exatamente a crítica ideológica do filme, pensada originalmente pelos roteiristas (Janowitz e Carl Mayer). Alan pula sobre Caligari e grita: “Tolos! Não percebem? Ele planeja nosso destino!”.
A fala é uma referência direta à interpretação de Kracauer, segundo o qual Caligari antecipa Hitler e o nazismo. Assim, se por um lado respeitamos a moldura introduzida por Fritz Lang, por outro destacamos a crítica social e política imaginada pelos roteiristas.

Batman vs Hulk

 

Depois do sucesso do encontro do Super-homem e Homem-aranha surgiu a ideia de realizar mais um crossover entre heróis da Marvel e da DC. Os escolhidos foram Batman e Hulk. Para realizar a história foi chamado o roteirista Len Wein (que já trabalhara na Marvel e estava na DC) e o desenhista José Luís Garcia-Lopez, o mais emblemático ilustrador da DC.
Um encontro entre o homem morcego e o gigante esmeralda é um desafio absoluto de roteiro. A diferença de poder entre os dois é tão gritante que torna qualquer trama difícil, ainda mais uma trama que deixasse os dois personagens com igual nível de protagonismo, como queria a direção das duas editoras.


Wein escolhe como vilões o Coringa e o Figurador, um personagem alienígena capaz de transformar sonhos em realidades, e usa esses dois personagens numa trama bem elaborada e muito mais complexa do que o crossover anterior das duas editoras.
Para começo de conversa, o Figurador não é retratado como um vilão clássico. Enquanto na DC a diferença entre heróis e vilões é uma linha muito clara, na Marvel essa diferença é muitas vezes é apenas de intenção – e outras vezes nem isso. Conhecendo bem a diferença entre as duas abordagens, Wein as explora corretamente. Assim, o Coringa quer transformar o mundo à sua semelhança (nessa época ele ainda não havia se transformado no psicopata que conhecemos atualmente), enquanto o Figurador só quer uma maneira de se salvar.


Na parte dos heróis, tirando um ou outro roteirismo (como Batman chutando a barriga do Hulk e fazendo-o aspirar um gás), temos uma boa dinâmica. Não fica óbvio que a coisa foi pensada milimetricamente para nenhum dos dois ter protagonismo.


Quanto aos desenhos... Garcia-Lopez conta que quando o convidaram para o projeto, mostraram o crossover anterior, desenhado por Ross Andru e ele duvidou que pudesse fazer algo tão bom. Não só fez, como superou o mestre Ross. Com arte final de Dick Giordano, o artista argentino faz com que cada página seja um deleite de dinamismo e perspectiva. Pena que o formatinho da Abril não favoreça a apreciação da arte.

O crítico (ou meu conto de Lobato)

 



Sérgio tinha um sonho: ser ator. Passava os dias modorrentamente numa repartição pública, remoendo essa frustração.

Já não bastasse o sonho não realizado, Sérgio ainda tinha de agüentar chacota dos colegas de repartição. A verdade é que era quase impossível ver aqueles homenzinho de testa larga, cabeça calva, sem esboçar um sorriso. Duas lentes garrafais pendiam de sua protuberância nazal, ocupando a maior parte do rosto, que por sinal afinava no queixo, dando impressão de que faltara massa ao conjunto. A barriga, enorme, era uma exibida e teimava em pular para fora da camisa. Seu andar tinha o rigor quacquacqueano dos patinhos na lagoa: barriga inclinada para a baixo e a região glútea inclinada para cima, com os pezinhos de menina se movimentando lá embaixo.

Já que não tinha coragem de realizar seu sonho, contentava-se em estragar os dos outros. Costumava dizer que era um crítico e estava ali para criticar.

- E criticava?

Desbundava. Nos debates, após as apresentações, bastava que ele abrisse a boca a pronunciasse o fatídico “Eu vejo erros!” para que os atores estremecessem.

Seu olhar de rancor conseguia encontrar erros mínimos, que passavam despercebidos para todos os outros. Sérgio eram também um profundo pensador e havia criado para si uma teoria de teatro tão flexível e ao mesmo tempo tão ortodoxa que lhe permitia criticar qualquer um, dos pobres atores de periferia aos grandes astros nacionais.

Ignora-lo era pior. Quando percebia que não estavam levando a sério suas críticas, entrava em pânico. Não era justo. Aquela era o único momento em que ele brilhava e não podiam, de forma alguma, tirar-lhe essa glória! Recomposto da mágoa, ele se levantava, deslizava seus pezinhos pelo salão, cortava a palavra dos outros, apontava nervosamente o dedo e gritava sua máxima:

_ Isso não é teatro! Vocês estão brincando de fazer teatro! Isso não é teatro!

Pronto! Estava feito. Agora era a Ursa Maior, brilhando intensamente por todo o teatro e cegando com sua luz todos os hereges que ousavam discordar dele. Para melhor efeito, ele se sentava de quando em quando, para, de repente, estourar no meio da frase de alguém:

- Isso não é teatro!

Tumultuar era-lhe uma delícia!

Um dia leu uma frase de Augusto Boal que o deixou particularmente preocupado: “Qualquer um pode fazer teatro, até mesmo os atores”.

Ora, se qualquer um podia fazer teatro, por que ele – justo ele! – não podia? Isso era especialmente irritante.

Nesse dia, Sérgio deslizou seus pezinhos pela repartição, coçando a cabeça e fazendo retângulos imaginários no chão. Pensou primeiro em diminuir a importância de Boal. Bastava para isso recorrer à sua infalível máxima: “Isso não é teatro!” e tudo estaria resolvido. Boal não fazia teatro, não sabia o que era teatro e, portanto, não podia ensinar nada a ele... bom... muito bom... mas nem tanto. Se Augusto Boal não fazia teatro, que fazia? Não, não convinha discordar dele... era famoso demais, respeitado demais... e, quem sabe, talvez Boal tivesse razão e qualquer um podia fazer teatro... até... ele!

Era isso! Ia tomar coragem e realizar seu sonho. Imaginou-se fulgurante no palco, olhando de cima os pobres espectadores, a quem só restaria assistir boquiabertos. Não havia dúvidas: seria um sucesso! Anos e anos de crítica teatral tinham lhe dado experiência o bastante para fazer o melhor espetáculo possível.

O problema era encontrar um grupo. Sérgio dizia que os que os que existiam estavam por demais viciados “pelos erros que se espalhavam como uma peste pelos espaços cênicos”. Não. Ele cortaria o mal pela raiz. Descobriria uma terra ainda virgem para plantar nela os frutos do que considerava o verdadeiro teatro.

A notícia se espalhou. Sérgio, o crítico, estava montando uma peça e a apresentaria à cidade para mostrar a todos o que era um teatro sério. Quanto ao elenco, alguém indicou-lhe um grupinho de colégio, repleto de fedelhos em fraudas.

Convence-los a se deixar dirigir foi moleza. Bastou alguns termos técnicos e uma conversa fiada sobre marcação e expressão corporal para que os pobres coitados tivessem que recolher o queixo do chão.

De posse da trupe, o grande dilema foi escolher a peça a ser encenada. Passou nisso um mês, matutando. Não descobriu, por fim, nenhum autor nacional que estivesse à sua altura. Não montaria nada menor que Shakespeare. Decidiu, então, montar Sonhos de uma noite de verão.

Sérgio nunca pensou que fosse tão difícil e desgastante montar uma peça. Os vinte uma atores dificilmente podiam ser reunidos num só dia; o dinheiro saía aos borbotões de seus bolsos para gastos que iam da passagem dos atores ao lanche que os miseráveis exigiam quando o ensaio se alongava.

O cenário, mandou-o fazer por um cenógrafo paulista de passagem pela terra. Mas acabou não gostando. Foi obrigado a pagar, entre ameaças de prisão e troca de gentilezas de ambas as partes. Jogou tudo fora e se concentrou na tarefa de produzir, ele mesmo, com ajuda de alguns carpinteiros, o cenário. Como não queria cair no mesmo erro da cenografia, desenhou pessoalmente a roupa de cada personagem, acompanhando passo a passo sua confecção.

Mais alguns gastos com pequenos detalhes, e secou a mina. Teve de pedir emprestado a amigos para cobrir a sonoplastia, a iluminação, o frete do caminhão que traria a cenografia... Para pagar a chamada na TV, foi obrigado a recorrer a uma agiota com jeito vampiresco que fazia antever um futuro preocupante.

Finalmente chegou o dia da estréia. Após um ano de árduos ensaios, de noites sem sono, de aborrecimentos sem fim, havia afinal chegado o grande dia.

O teatro lotou. Todos estavam curiosos para ver como seria a grande obra do crítico. Tratava-se de um momento histórico.

Tocaram as três sinetas e Sérgio, que tinha reservado para si o papel de Auberon, entrou. Parou no foco e olhou para a platéia. Então uma revolução começou a acontecer dentro dele, a começar pelas pernas, que bambearam de todo. Ele abriu a boca, gaguejou as primeiras palavras do texto, piscou seis vezes e caiu para trás, completamente fulminado de medo.

Virou mártir. Os amigos inventaram a história de que ele havia tido um ataque cardíaco durante o espetáculo e escreveram nos jornais, louvando a bravura daquele grande herói cênico, e explicando sua contribuição para o teatro regional, nacional e (quem sabe?) internacional. Seu nome foi cantando como de um campeão de Olimpíada, analisaram as possíveis contribuições de seu legado, o apnhado kitch da cenografia, o surrealismo do figurino...

Sérgio, curiosamente, nunca mais pisou num palco. O mais perto que chegava deles era nos debates, aos quais voltou com fúria redobrada:

- Isso não é teatro!