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17 março 2009

Au Bonheur des Dames 176


O dia está magnífico, sobretudo para quem, como eu, se pode dar ao pequeno grande luxo de vir ler os jornais (o de hoje e os suplementos literários atrasados de uma série de jornais espanhóis e franceses) nesta esplanada frente ao jardim. O diligente Senhor Américo ja me trouxe a bica em chávena fria, o copo de água e o troco, que eu pago sempre adiantado.
Vem-me de longe, de muito longe, esta mania de pagar logo no momento da entrega do meu pedido. Foi o João Quintela, querido e desaparecido amigo, quem me meteu esta mania no coco. O João pretendia que, assim, se podia fugir mais depressa da policia que eventualmente entrasse no café onde estávamos. Se juntarmos a essa ideia, um tanto ou quanto fixa, estoutra que era a de ficar sempre de costas para a parede como se, em vez de inofensivos estudantes a fazer tirocínio para conspiradores, fôssemos pistoleiros de um imaginário far-west lusitano está feito um retrato a la minuta do que éramos ou do que julgávamos ser. Hábitos da clandestinidade diria alguém mais propenso a tirar-nos a bissectriz com dados de há quarenta e tal anos como, por exemplo, o Jorge Conceição emergido de um longínquo ano de 64, no Mandarim, sob a égide de Orlando de Carvalho, homem de muitos saberes que a azia ou outra maleita canalha haveria de converter estranhíssimamente em ogre e carrasco de gerações de estudantes de Direito! (Olá Jorge, a malta tem se encontrar um dia destes, manda-me o teu mail para ver numa das próximas descidas á capital te ponho a vista em cima: havemos de ter muita conversa atrasada…).
Mas eu estava na esplanada, sob um sol madrugador mas quente, a ver passar uma avó de muito bom ver maila filha e a neta bebé… Até isso alegrava o dia. Ou melhor: isso alegrava definitivamente o dia! Eu sei, leitoras, eu sei, que não devia olhar com concupiscência as avós engraçadonas que me passam á distancia de tiro, mas que querem? Deus, ou a mãe natureza, deu-me um par de lúzios que se comprazem em provocar o chamado pecado menor, que é aquele só de pensamentos (se é que esta distinção útil e desculpabilizante, tem valor canónico e/ou teológico). Portanto passava a avó, acenava um fugaz cumprimento, passavam dois cães alucinados pela manhã e pela pequena liberdade que os donos lhes tinham concedido ao retirar-lhes as coleiras, passavam apressados para os escritórios dois ou três que ainda têm muito que penar até poderem refastelar-se como eu numa esplanada a ler os jornais da manhã.
Estava a metade do jornal quando me apercebi que uma coisinha vermelha e redonda trepava animosamente o copo de água. Era uma joaninha, a primeira do ano… De súbito apercebi-me que a primavera estava a rondar. Uma joaninha! E o sol. E mulheres bonitas. E cães estonteados numa corrida sem sentido, só felicidade pura, pelo jardim. E a bebé a ensaiar inseguros mas determinados passos.

Joaninha “avoa”, “avoa”
Que o teu pai está em Lisboa
Com um saco de broa…

N
um repente é toda a minha infância que regressa a galope, o avô comigo pela mão, o meu irmão ao colo dele, um rancho de tias e tios muito novos, a minha mãe, lindíssima!, a minha avó gordinha (gordinha é favor, goooorda!) a contar histórias mirabolantes, a avó Aldina, a Velha Senhora, o meu pai, jovem médico a regressar dos Açores para onde fora mobilizado: um estranho para nós, meninos a espreitar aquele homem que beijava e abraçava a Mãe. Felizmente a “guerra” dos Açores ensinara-o: ao ver que o mirávamos desconfiados, tirou sei lá de onde dois brinquedos, julgo que eram duas camionetas de madeira, enormes, e aí quebrou-se o gelo todo e só se viu dois meninos a deixar-se abraçar por um pai desconhecido ou esquecido enquanto abraçavam duas camionetas de madeira quase do tamanho deles…
O pai, os avós, alguns tios já não estão entre nós. Permanece deles, como um velho aroma entre roupas guardadas numa arca, uma memoria fanada uma dor mansa, um aviso da morte que nos há-de irmanar. Mas eles é que não estão. Mas a joaninha, essa, está. E continua a subir no seu passo miudinho o copo. Quererá beber-me a água? Ou, mensageira alada e vermelha, veio tão só lembrar a primavera que está a chegar, mensageira benévola que vem cumprir a tarefa de comer umas bichezas que estragam as plantas. A esta joaninha entregaram-lhe este jardim, o Jardim Machado de Assis, homenagem simpática a um dos maiores escritores da nossa língua. Sozinha? Espero bem que lhe mandem umas colegas que o jardim é apesar de tudo grande e a joaninha demasiado pequena para tanto trabalho.
Ai amigas e leitoras, isto hoje saiu ainda pior do que o costume. É este vício de escrever de carreirinha, quem vier atrás que feche a porta... Ai mcr, mcr… É a primavera que me está a perturbar o juízo e a escrita. A primavera, o calor anormal para a época, os fantasmas familiares, as mulheres que passam e um ror de memórias que me assolam desde Moçambique até Coimbra, viajem sem regresso, no regresso desta viajem pela solidão amável da lembrança.





15 março 2009

Au Bonheur des Dames 175

O passado a bater à porta com fragor.

Sou um mau leitor de blogs. Por junto vou a três ou quatro no máximo e nem sempre diariamente. Todavia, é raro deixar escapar o agualisa do João Tunes por várias razões que não vem ao caso. E hoje, a propósito de um texto sobre as elites e o maoísmo dos anos 60 e 70 aparece uma fotografia da crise académica de Coimbra de 1969. Trata-se de uma fotografia da ocupação da sala 17 de Abril no edifício das Matemáticas nesse dia inaugurado com escândalo e desordem notórios por um presidente da república enxovalhado pela estudantada. A fotografia retrata um momento já posterior à saída precipitada das autoridades. Ora descubro, quarenta anos depois, com a nostalgia que calculam, o meu rosto sorridente. Confesso que não conhecia esta fotografia (ou não me lembrava dela) que, mais tarde, foi-me dito pela policia, era uma das provas que a policia encarregada dos processos de 69 contra os “agitadores” estudantis.
Quarenta anos depois, convém explicar que sou o rapazola que está á direita do estudante cuja cabeça parece aguentar o pau direito do cartaz “reintegração dos professores e alunos expulsos”.Se repararem bem eu ostento barba e bigode e sorrio. E não era para menos que aquele dia foi glorioso. Depois, as coisas complicaram-se um bocado, sobretudo a partir de Junho e da greve vitoriosa aos exames. Mas isso é outra história que alguma vez será eventualmente contada.
Mas esta fotografia ressuscitada, sei lá donde, por um blogger com quem me dou bem mas não conheço (!!!) pessoalmente perturba-me e comove-me. Quarenta anos! Foi mesmo há quarenta anos?

.

13 março 2009

Au Bonheur des Dames 174


Emigrante da terceira idade

Ai leitorinhas, isto está que ferve! Então não querem lá ver que deu a louca nas nossas comandantes e vai daí parece que vamos todos para o Sapo. Eu não tenho nada contra estes amáveis anfíbios terrestres. Mesmo quando eles se transformam em príncipes por via de um beijo de uma princesa. Há-de ter sido um beijo e peras! Se é que foi só um beijo e não algo mais íntimo: é sabido que nas histórias infantis o beijo substitui outras actividades libidinosas de maior vulto e condenação garantida pelas igrejas.
Mas a verdade é que estamos de malas aviadas para o Sapo. Porquê?, perguntarão as mais atrevidas de vocês. Pois, se querem que vos diga a verdade, não sei. Coisas de mulheres, em especial de “o meu olhar” que agora é a almirante em chefe, visto a Kami ser a almirante resignatária e a Sílvia a nossa almirante in partibus. O pessoal masculino ouviu as ordens, bradou presente!, bateu tacões, pôs-se em sentido e depois de ouvir a arenga da comandante em chefe, voltou a bater tacões, fez a continência e destroçou. Se perceberam ou não, desconheço. Obedeceram como é devido e pronto. Às ordens, minha comandante!, foi o brado uníssono. “E que Deus nos ajude!”, terá sussurrado in imo pectoris o nosso Mocho Atento.
E por aí vamos. Ou iremos. Enfim, está para breve.
Claro que vocês já terão adivinhado o drama que isso representa para um analfabeto informático como este que estas vai dedilhando. Felizmente, o Sapo delegou num amabilíssimo Pedro a tarefa mil vezes ingrata, de conduzir esta ovelha tresmalhada ao bom caminho. O desinfeliz deve já rogar pragas quando recebe um mail meu a perguntar o que devo fazer a cada passo do processo de transferência. Ganhará o céu só com o que tem penado, e vai penar ainda, com este filho pródigo da internet.
Estou a até a pensar se não valeria a pena criar um novo tipo de castigo (divino ou humano) para quem se portar mal: vais aturar o mcr e outros da mesma laia em questões de internet! Vai uma apostinha em que os pobres além de pedirem misericórdia, ainda propõem uma pena de substituição, estilo prisão efectiva ou coisa idêntica ? só para se safarem de um brutinho coriáceo que não sabe o que é uma “URL”?
Voltando à vaca fria: vamos embora. De todo o modo isto, este incursões do google fica aqui parado no tempo, como uma mosca varejeira dentro do âmbar: e com uma nota, suponho, a dizer onde é que doravante (daqui a uns dias…) nos encontram.
Confesso que vou ter saudades. De quê?, não sei bem ao certo. Mas uma mudança é sempre uma mudança et quand on a soixante sept berges partir c’est finir un peu. Ou beaucoup! On va voir ce qu’on va voir. Isto em franciú tem outra pinta. E com argot pelo meio, ainda mais.
Vamos embora. Espero que em boa hora. Como dantes se dizia às parturientes: tenha uma boa hora. Que Nª Sr.ª do Ó nos acompanhe e proteja. E, claro que a Sr.ª da Encarnação, tão de Buarcos, nos deite uma mãozinha. E, já agora, que nunca é demais, que Santa Rita de Cássia, padroeira das mulheres vítimas de maus tratos e dos impossíveis vele por nós, ou por mim, que durante anos fui seu especial romeiro em Moledo (ou melhor em Caminha) assistindo com devoção e alguma surpresa à procissão desta santa.
E aqui um desvio: a procissão de Santa Rita era um prodígio. Já não falo do grupo final de mulheres amortalhadas em trajes sombrios e descalças que eram, ao que sei, as mal tratadas já referidas e que desfilavam ali não sei se para implorar as graças da santa ou simplesmente para acusar maridos e familiares mal tratadores, mas apenas dos restantes figurantes onde não faltava a “Rainha do Mar”, a “Rainha das Sardinhas” e, espantem-se, o “Marquês de Pombal”!!! O marquês desfilava acompanhado, ou precedido de um pagem. E havia também um grupo de soldados romanos a quem o Joãozinho Simas chamava “os homens da luta” exigindo em alta grita ao pai, o nosso confrade Simas Santos um fato igual. Nunca o teve, ficou-se por uma farda de “Homem Aranha”, horrenda e comprada no Corte Inglês de Vigo que causou grande sensação entre os meninos banhistas de Moledo. Foram dias de glória para o minorca do Joãozinho que, ainda por cima – luxo dos luxos! – tinha uma verdadeira cabana construída com todo o esmero pelo escultor marceneiro Manuel Sousa Pereira . Uma cabana, com porta e janela! Ai a criançada moledense morria de inveja… (aqui muito à puridade, a cabana serviu para muita coisa, coisas de adultos está bem de ver coisas que o João ainda não percebia…).
Mas vamos emigrar. Para o Sapo. Esperando que desta vez seja ele a parir uma montanha chamada incursões, melhor e mais participada do que esta que ora vai esmorecendo nas vascas da agonia da partida.
Celebremos pois a viagem, ò “amigas soo aquestas avelaneiras frolidas” e imaginemo-nos por uma vez na bela praia da Polana, num Maputo que se chamava Lourenço Marques em anos que não voltam. E, nostalgia exceptuada, ainda bem! Aí fica a imagem, outra imagem dessa praia de prodígios e primeiros amores. Passem um bom fim de semana.

* praia da Polana e rampa da Polana. em primeiro plano o Pavilhão de Chá e, mais ao fundo, as instalações do Club Naval. E a baía. A imensa baía que os ingleses chamaram "Delagoa Bay". quem primeiro nela teria navegado seria um certo Lourenço Marques, marinheiro e comerciante estabelecido em Sofala e que, uma vez por ano, aqui vinha "ao resgate". Trocava panos por presas de elefante e rodelas de cobre. Eventualmente também compraria escravos aos régulos Maputo e Catembe (estes régulos são epónimos respectivamente de um rio e de uma vila ou cidade).

11 março 2009

Au Bonheur des Dames 173








mcr
em Lisboa bavardando e cervejando com jcp e jvc

Dizem por aí que, quando não há onde meter o dente, se inventa um bey de Tunes a quem ferrar na canela. Não, leitorinhas, nada disso, desta vez a crónica tem substância, quanto mais não seja porque permite explicar o “bavardando” e o resto. Comecemos por esse gerúndio esdrúxulo. Ouvi-o com estas que a terra há-de comer, em Paris, num hotelzinho da Rue de Saint Sulpice onde em tempos me instalava. Certo dia, esperava pela CG :os homens, e este em particular, tem este fado mofino: esperam – e desesperam – pelas mulheres. Preferivelmente pelas próprias mas conheço muito marau que acumula com as alheias como um certo cavalheiro que em tempos não demasiadamente longínquos subia o Chiado sussurrando às cidadãs desprevenidas, e sós!, duas simples palavrinhas: “tenho vícios!”. Ao que me consta a coisa não era tão descabida como à simples escrita parece, porquanto testemunhas idóneas garantem que aquele investimento rendia mais do que no BPP ou no BPN... e mais duradouramente.
Mas voltemos, ó amáveis criaturinhas, à vaca fria: estava eu como dizia, a ler um jornal de véspera enquanto esperava que a CG se decidisse a dar um ar de sua graça, descendo para a portaria do hotel quando vejo o meu vizinho, cavalheiro de bom ar levantar-se e dirigir-se a duas senhoras que surdiam do elevador: “com que então bavardando, bavardando, disse o meu companheiro de espera às damas que vinham embrenhadas numa conversa desatada, parando a cada passo, sorrindo e acotovelando-se. Só um brasileiro seria capaz desse prodígio de nacionalizar o francesíssimo “bavarder” que, se não estou em erro, vem do argot, e significa falar de coisas sem importância, preguiçosamente e sem intenção especial.
Pois foi exactamente, ou quase, o que aconteceu ontem num antro simpático, velhacouto do João Vasconcelos Costa. Depois de saber que eu viria a ares à capital, marcou reunião urgente no “beer’hunter” e convocou para o efeito o José Correia Pinto, um velho colega e amigo meu, animador dessa coisa excelente que se chama Politeia e que é um dos blogs fundamentais para quem pretende perceber o que se passa. Já não nos víamos desde os “Estados Gerais” essa gorada tentativa de Guterres para animar, com independentes, o P.S. Razões várias e vícios antigos daquele aparelho que não gosta de novidade fizeram com que o espírito “estados gerais” soçobrasse em pouco tempo.
Foi pois uma reunião de “antigos combatentes” (que não depuseram as armas...) e que ainda se conseguem surpreender e indignar com o espectáculo de “la misére en milieu politique” se me permitem citar e “desviar” um texto famoso de 68. Ou por outras palavras, como se verá, lá fomos conversando com o fito de “tornar a vergonha ainda mais vergonhosa expondo-a à luz do dia” (cito de memória). De facto, enquanto íamos aviando umas “boémias” fomos relembrando este presente hostil (tout en bavardant), passámos em revista o estado da nação e dos seus rastaquouères, dos seus “chiens de garde” (ah que falta faz o Nizan!) e demais ouropéis com que a república se vai alegremente afundando. En passant, relembrámos um rapaz do nosso tempo que aportou à Coimbra de lavados ares enroupado na direita preguiçosa e que quase no fim do curso deu um pinote para a esquerda moderada e cautelosa. Depois do 25 A alistou-se no “partido” e foi em breves anos uma vedeta parlamentar. Por fas ou por nefas saiu com estrondo e foi cortejando o P.S. até, prodígio maravilhoso, este o recompensar com um cargo sem importância mas muito bem pago. Tem graça: vinha da direita, deu a volta dos tristes ao bilhar grande, e ei-lo quase igual ao que era nos primeiros sessenta mas mais velho, mais “ajuizado, e notoriamente mais rico ou em vias de o ser. Que lhe preste!
Somos gente de uma geração que passou a inteira juventude e uma parte não negligenciável dos seus vinte anos sob o capote caserneiro do salazarismo, lutando abertamente contra isso, contra esse vício do pensamento e contra outros mais subtis e porventura mais profundos e que eram/são os preconceitos e as taras da obediência sacralizada, do escândalo privado, do soalheiro político e ético para não falar de alguns vícios menores propostos à beatificação. Por outras palavras, vivemos e continuamos a viver num mundo a que se aplica (e cito outra vez de memória) o verso de Nietzsche: “não o teres derrubado ídolos/ mas tê-los derrubado dentro de ti/eis a tua maior vitória”. De facto, estávamos, e estamos, cercados de “revolucionários” sem revolução (e sem revolta) que pensam que a simples substituição dos santos nos altares muda o estado da igreja.
Estávamos, e estamos, cercados de pequenos merceeiros que encaram a vida como deve-haver e que solicitam as atenções da clientela potencial como as “meninas” da Rue de Saint Denis solicitavam os peregrinos de Santiago.
Estávamos e estamos rodeados de velhos jovens cheios de empáfia que se tomam por monumentos mesmo quando à primeira vista ninguém os leve mais a sério do que um desses antigos, úteis e esquecidos urinóis públicos. E de jovens velhos (nasceram assim) que fazem tábua rasa de tudo, porque não viveram, não aprenderam, não erraram nem criaram. Uns e outros mandaram a política às malvas e pensam que os partidos mais não são do que máquinas distribuidoras de empregos, sinecuras, aposentadorias e caixas de esmolas. Não deixa de ter graça (duvidosa graça) verificar que para isso precisam de tornar os pobres ajuntamentos partidários em organizações monolíticas onde não se tolera a critica e muito menos o debate de ideias.
E disso falámos, melhor dizendo bavardámos, porque sabemos que não vale a pena levar muito a sério estas aves de arribação. De galinhas que querem ser águias mas que não passam de urubus. É pr’ó que estamos....
Quando nos despedimos, achei que lhes poderia dizer em guisa de consolo: malta ainda estamos vivos.

* este texto foi escrito no dia 4, pp, mas o autor esqueceu-se de o postar. A coisa explica-se: tinha acabado de adquirir num alfarrabista um exemplar do Tôkaidô de Hiroshige e uma edição facsimilada do Linschotten, editada pela Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. A beleza das ilustrações de ambos pregaram-me a um maple até altas horas. Esqueci-me do pobre prato que tinha no forno e o post ficou em águas de bacalhau. Segue agora, com um abraço para os dois amigos citados. E para os leitores que me aturam ficam as duas belas gravuras. Numa delas, a da fusta, vão dois portugas em busca da árvore das patacas...
** Itinerário, Viagem ou Navegação de Jan Huygen van Linschoten para as Índias Orientais ou Portuguesas, Lisboa 1987
Tôkaidô, Hiroshige, ed. sp. pour le Cercle des Amis du Crédit Lyonais, Paris, ed. du Chéne, 1960

28 fevereiro 2009

Au Bonheur des Dames 172


Eiswein ou Jeropiga,
that's the question

Tenho um amigo de há mais de quarenta anos que é a coisa mais parecida com um original que conheço: desistiu de guiar há cerca de vinte anos e portanto usa transportes públicos e táxis de noite ou quando não consegue fazer os seus percursos a pé. Abandonou o velho casarão familiar, logo que se divorciou, comprou um T1 espaçoso que lhe funciona de biblioteca. Vive num hotel onde além de lhe fazerem preços escandalosamente baixos ainda lhe tratam da roupa. Também lhe fazem óptimos descontos ao jantar visto que almoça sempre fora. Contas feitas, garantiu-me que nunca viveu tão bem e com tanto dinheiro disponível. “E também tenho desconto no bar”, acrescentou num sorriso malicioso.
Nada predispunha este abencerragem a tão extraordinária vida. Nem a família, classe média abastada, moderadamente conservadora, nem o seu percurso que foi aliás o percurso de quase toda a geração ainda que em allegro moderato. Fez as greves da praxe enquanto estudante, ajudou alguns amigos mais conspirativos, trocou o Direito pela consultadoria (o que lhe permitiu viajar bem mais do que a maioria dos amigos), casou e descasou duas vezes, tem um filho gerado em terras estranhas que é actor mimo, músico ambulante e veterinário (!!!) ou seja, é mesmo mimo, toca em pequenos grupos de jazz e ostenta um título de veterinário que lhe permite dar consulta aos cães e gatos das numerosas amigas. Pai e filho reúnem-se duas vezes por ano, na Primavera (lá) e no Outono (cá). Cumpre acrescentar que o filho vive numa roulotte nos terrenos de uma quinta da mãe.
Tudo isto para situar a carta que há dias recebi (eu já disse que K. é um original, não disse?, pois ainda escreve cartas num papel espesso e creme, num elegante cursivo que a caneta Aurora -sempre canetas Aurora, italianas e caras, vício que me transmitiu – acentua numa tinta entre o castanho e o azul que ele jura ser também italiana de uma pequena loja de Milão) onde ele me perguntava pelo P.S.
Depois de referir os nomes de vários contemporâneos nossos (cumpre dizer que ele fez grande parte do curso em Lisboa com um intervalo de dois anos estroinas em Coimbra), diz-me “... e esses gajos eram tão, tão esquerdistas, tão dogmáticos, tão cheios de nove horas e agora estão às palmadinhas ao José Sócrates? Então, naquele tempo, diziam-me as últimas por eu achar o sistema sueco uma coisa maravilhosa com a sua social-democracia, o seu Ingmar Bergman e o rei a passear de bicicleta entre o povo e agora essa social democracia, o rei, a princesa que vai casar com um plebeu e o fantasma do Ingmar estão a milhas à esquerda deles?
... Lembras-te que me quiseram forçar a ler o George Politzer, “O Materialismo e o empirocriticismo” e uns romances horrendos do Amado (os subterrâneos da liberdade, a seara vermelha e o cavaleiro da esperança!!!, credo que atentado ao pudor!,) e que me chateavam por eu usar umas gravatas herdadas do meu tio e que além de inglesas eram lindíssimas? E o que me criticavam por eu usar blaser azul escuro, pago e oferecido, de resto pela minha mãe quando descobriu que eu desviava o dinheiro para comprar roupa em livros, copos e cinema usando e abusando de uma coisa informe que em tempos teria sido casaco mas que até puído na bainha das mangas estava?
Estás a vê-los agora, no parlamento, todos enfatiotados, engravatados (convenhamos que com escasso gosto, escassíssimo até...) a trocarem banalidades com a oposição ou em infindáveis e insubstanciais berreiros que soam a falsete? E foram eles quem me exprobaram o facto de logo depois do 25 A eu votar socialista? Votar, nota bem, que não caí na asneira de me filiar... Para esta gentinha eu estava à direita, quase mancumonado com o Freitas do Amaral (que agora é um dos compagnons de route deles!..., ministro e tudo!) e com o ELP...
Quando apoiei (foste tu que me meteste nessa) o Bochecha Mimosa para Belém andavam eles todos enfrascados no pintasilguismo. Ouvi poucas mas boas, como tu também terás ouvido. E por aí fora. Agora estão unha com carne – ou isso parece – com a moção vitoriosa do querido líder proto-coreano que exerce de secretario geral do P.S.. Eu poderia pensar que neles a ideologia se transmutou na palha da mangedoura política. Quem quer bolota “atrepa” e quem quer benesses e vida parlamentar, mete a viola no saco e canta missa com os outros. Se calhar com mais força para que se veja bem a profundidade da conversão.
...Custa-me isso, apesar de tudo. E sinto-me incómodo nesta posição de crítico. É que tenho medo de ser confundido com o bloco de esquerda ou até, sabe-se lá, com o partidão. Logo eu que nunca dei para tais peditórios! E agora, em quem voto? Já sei que me vais falar do papelinho branco mas eu, caríssimo M., tenho uma certa fobia ao vazio. E branco só em paredes. Para poder pendurar quadros ou rechear de estantes com livros. Ou em certos vinhos, de preferência do Reno para não falar de um certo Eiswein que recordarás o velho Prum JJWehler que agora deve andar pelos 900 eurinhos a garrafa, se os preços que tenho ainda são os mesmos.
...Os rapazes da esquerda do nosso tempo meteram a viola no saco e politicamente em vez de vinho branco inclinam-se para a jeropiga. Lá terão as suas (deles) razões. Que lhes aproveite.

De vez em quando um blogger tem de descansar. Sobretudo se, de entre um vasto leque de amigos, puder pescar algo que lhe aproveite. O que é o caso. Resta-me apenas situar o "Eiswein" citado, um JJ Prum que bebemos num dia memorável na Alemanha, à conta de uma namorada dele e de uma garrafa de Porto (Alcino Corrêa Ribeiro, 1946, uma pomada de que o Fernando Assis Pacheco dizia valer um inteiro livro de poemas) por mim trazida para um tio de um amigo nosso que, além de Junker era um notabilissimo vinicultor. Os vinhos de gelo são colheitas ultra-tardias estilo Sauternes que valem o que pesam em metais raros e nobres. São feitos com uvas colhidas á mão, antes do sol raiar, uma a uma, ou quase e o deus que rege estas coisa do vinho dá-lhes um toque, uma cor, um perfume que trinta anos depois ainda recordo com intensa emoção. Como K que obviamente não se chama K. mas que é, garanto, um gajo porreiro. Saravah, mano!

07 fevereiro 2009

Au Bonheur des Dames 171

Malhar, diz ele

Abram alas! Passa o Malho!
Chapeau bas! Viva o pimpolho!
E é tratar de abrir o olho,
Porque ele vem de chanfalho.

Lembram-se do Joãozinho das Perdizes? Se calhar não... já ninguém lê Júlio Dinis, escritor malogrado, morto demasiado cedo para poder ser conhecido por mais alguma coisa do que “A morgadinha dos canaviais”, “Uma família inglesa” ou as eternas pupilas.
Se as leitoras se derem ao trabalho verificarão, contudo, que JD pintou como nenhum outro a mudança social e política. Foi um cronista do fontismo ou pelo menos da vontade de mudar o país. E em “Os fidalgos da casa mourisca” mostra como a decadente aristocracia rural começa a ser substituída pelos empresários agrícolas que em breve os substituirão.
O Joãozinho, pitoresca criação sua, era um reaccionário de bom coração que varria feiras a varapau. Malhava forte e feio nos adversários, fiado na sua força, na sua classe e no punhado de apaniguados que lhe deviam obediência. E gabava-se disso.
Do que ele gostava era de malhar na esquerda, se por isso pudermos significar os arautos de um Portugal que tentava emergir do espesso mundo rural nortenho.
Deixou, como parece agora comprovar-se, discípulos. Que gostam de “malhar”. Malhar nos adversários mesmo que estejam no mesmo partido ou, no que se convencionou chamar “esquerda”. Podia dar-lhes para “malhar” na Direita, ainda que isso pareça um problema porquanto, e aos olhos de muito boa gente, o partido dos malhadores, ou caceteiros costume ancorar por essas bandas. Como é o caso, diga-se de passagem, quando um partido socialista resolve pôr princípios na naftalina e fazer mal o que a direita costuma fazer bem.
Parece que esta fúria de varapau atacou agora o dr. Santos Silva. Endoidou-o a pontos de o fazer confessar essa pulsão pauliteira à boca de um microfone, perante um auditório regougante. A ocasião presta-se a estas bravatas à velha moda de Fafe: o líder é atacado e a melhor defesa é varapau nos que aparecem. Enquanto o marmeleiro vai e vem, folgam os fripóres...
Não deixa de ter graça, o dr. Santos Silva apontar o trabuco à “esquerda chique” presumindo-se que isso significará o Bloco onde, como ele estará lembrado, ainda há um par de antigos trotskistas, com quem fez nos anos de juventude algum caminho.
Nestas coisas de gente que vê a luz e se converte, raras vezes se falha um velho rancor contra os antigos camaradas. Santos Silva elegeu essa rapaziada “gauchiste” como alvo. E o PC, claro. O PC é o punching ball das impotências socialistas ou que se afirmam como tal. À falta de um bey de Tunes para chibatar (como mandava Eça) serve o PC. E agora não só serve como convém: está em crescimento, ameaça com a sua candidatura autónoma retirar o tapete na Câmara de Lisboa, é vigoroso nas ruas sobretudo porque com a sua experiencia e com a sua capacidade polariza os descontentamentos sociais.
S.S., com o seu tom de Vichinsky, com um toque de Jdanov, mete tudo no mesmo saco, oposições e críticos internos, e afinfa tonitruante com a promessa de “malha” em que se opuser. Nem nisto é original. Já o camarada Coelho, agora travestido em empresário, ameaçava nos bons tempos que “quem se mete com o P.S. apanha”. Não parece que essa premonição de Coelho tenha tido ganho de causa mas já ninguém se lembra dessa fanfarronada. Nem de Coelho, acolhido agora ao eremitério de uma sinecura aprazível e bem paga. Não é único ex-dirigente do P.S. a poder gozar os benefícios de uma “retraite dorée”, que os exemplos abundam. Chega-se a pensar que há quem só queira chegar a altos cargos partidários, políticos e governamentais para rapidamente “passar à peluda” no seio de uma empresa generosa e grata. E que pague bem, convém acrescentar. Que pague muito bem, que ainda há.
O Joãozinho das Perdizes, no romance daquele que poderia eventualmente ter sido uma espécie de Balzac português, acabou por se retirar das lides façanhudas e acatar a nova ordem. Já não recordo como se converteu à nova economia e que destino lhe dá Júlio Dinis. Nem isso interessa. Este joãozinho é apenas lembrado por um velho e inútil cronista, perdido num blog entre tantos outros para provação de escassas mas gentis leitoras que lhe aturam os humores bilioso e colérico. Ou, por outras palavras, não ficou na história. E os seus modernos clones deste século XXI e português também não.

* a quadra inicial veio publicada dentro de um soneto no nº 1 de O Malho em 20 de Setembro de 1902 e era assinada por Lingua de Mel como informa o blog brasileiro memoriaviva

04 fevereiro 2009

Au Bonheur des Dames 170


Em anterior post comentava eu algumas subtilezas da nossa exuberante vida autárquica que alguém, sem dúvida apressadamente, crismava de manancial da democracia. Será. Todavia, isto há-de ter algumas fronteiras que vão desde a risonha Felgueiras até uma terra de que me escapa o nome mas que será apontada.
Comecemos por Felgueiras cuja padroeira também se chama Fátima embora em tom (e carne) mais terrenal e com botox e muita tinta no cabelo. A actual heroína do folhetim felgueirense, de sua graça Fátima, anda pelos tribunais acusada de um par de irregularidades mais comprido do que a légua da Póvoa. Em anterior julgamento foi condenada a uma pena relativamente benigna. Mas foi condenada. Agora arrosta com mais outra se se provarem os factos de que vem acusada. Entretanto sabe-se que a simpática e munificente Câmara a que preside entendeu num gesto largo e moscovita pagar todas as despesas com os processos que sucessivamente lhe vão caindo em cima. Diz-se mesmo que nessa generosa doação cabem os gastos com uma precipitada fuga para o Brasil e, espera-se, com a estadia no mesmo país, operações plásticas ou similares (se as houve) a que se submeteu para reparar a cútis cansada das vicissitudes do tempo, da política e da idade. Ora toma!
A Procuradoria da República já produziu um douto parecer em que se consideram ilegais tais pagamentos mas o advogado da ré replicou que um parecer da PR é tão só um parecer e que outros há, pedidos (e pagos) pela Câmara (a que a ré preside, lembremos) e que se louvam em doutrina contrária. Como se vê, no mercado há pareceres de todas as cores e feitios. À cautela já corre no Tribunal Administrativo competente uma acção tendente a pedir a reposição do cacau abonado para a gratificante tarefa de defender Fátima dos seus ímpios perseguidores.

Noutra localidade, li com estes que a terra há-de comer, o P.S. escolheu um candidato à Câmara que no seu currículo tem um ligeiro senão. Foi, até ao momento da proclamação como candidato, militante conhecido e importante, do PPD local. Vamos que pelo menos já pediu a sua desinscrição, o que só lhe fica bem. Estamos a vê-lo, ao candidato, ainda na sua veste de social-democrata (Que querem? É assim que chamam aos do PPD!...) a cavalo pela estrada de Damasco, digo de Lisboa, subitamente varado por um raio de luz. E uma voz longínqua a dizer-lhe: porque me persegues? E ele, apeando-se a ajoelhando: engenheiro, engenheiro quem és tu? E numa nuvem cor de rosa, uma multidão da distrital socialista a acenar-lhe com palmas e a a investi-lo na missão altamente apostólica de candidato à municipalidade. É bonito!

Neste comedia de enganos eis-nos de novo frente ao arcanjo Narciso Miranda. Diz o ex-autarca matosinhense que nada, sequer um lugar de deputado europeu, o demove de concorrer à Câmara de Matosinhos. A isto chama-se amor. E desprezo pelo dinheiro. Será Narciso rico? Será apenas um sonhador, mas pobre?
Conta Narciso que lhe ofereceram a candidatura socialista à Câmara de Gaia. Que o autor de tal pirueta foi o senhor Sampaio, actual manda-chuva distrital socialista. Entretanto o dito cujo senhor Sampaio está calado e não corrobora nem desmente Narciso. Mas convinha que dissesse algo sobre o assunto. Porque se é verdade o que diz Narciso, ficamos sem perceber bem o que é que o P.S. quer. Ora vejamos.
Oferece Gaia para ganhar? E nesse caso porque não aceitar o pedido de Narciso para Matosinhos?
Ou pensarão que Gaia está perdida e que nem Narciso apesar de todos os encantos com que os deuses o dotaram a ganha? E nesse caso, Sampaio, o melífluo, terá tentado armadilhar Narciso.
Sampaio conhece mal (se sequer conhece) a mitologia grega: para abater Narciso bastará um espelho, nem que seja o das eleições. Némesis não costuma perdoar.
Alguém desse distinto grupo de leitoras dirá que estou a atirar com pérolas (a mitologia) a filisteus (para não dizer outra coisa mais adequada à verdadeira fábula). É possível mas convém tratar estas minudências pestilenciais com um pouco de dignidade para não soçobramos na mesma feia e triste realidade.
Dirão que daqui até às eleições muita tinta ainda há-de correr. Acredito. Espero, até, começar a perceber o que Elisa Ferreira tem para dizer sobre o Porto. Convenhamos que já o deveria ter dito. Até à data, murmurou qualquer coisa que se resume a ser diferente de Rui Rio. Claro que é. Ela é mulher e ele não. Fora isso, que é de somenos, nada mais sabemos. Não parece extraordinário?

28 janeiro 2009

Au Bonheur des Dames, 169


Mais, sempre mais,
da política a todo o custo
e a todo o vapor
.

Em Viana do Castelo, cidade que há anos anda a gastar energias e dinheiro para desalojar à viva força os habitantes de um mamarracho que, apesar de mamarracho se fez com toda a legalidade e todas as licenças (aliás o prédio só é mamarracho pela altura, porque sobressai entre um núcleo de casa muitas vezes bem piores e mais problemáticas), houve um referendo.
Sobre uma questão que dizia pouco ou muito pouco aos habitantes que não só não a percebiam mas também se estavam nas tintas para a perceber. Assim sendo apenas uns escassos trinta por cento se deram ao trabalho de ir votar. Desse exíguo grupo saiu maioritária uma posição de negação à “comunidade intermunicipal do Minho” ou outra balivérnia do mesmo teor.
O senhor Defensor de Moura, presidente da Câmara local, rejubilou. E não era para menos: Se os escassos interessados tivessem dito sim à CIM ele demitir-se-ia. Ou, pelo menos, foi isso que ameaçou. Perante tão consternante alternativa o povo, que é quem mais ordena, disse não à “cim”. Para desgosto de outro prócere socialista, o senhor presidente da Câmara de Melgaço. Que já ameaçou não sei bem o quê. Nem importa. “Isto” são guerras “deles”, marcação de território de caça (ao voto e aos patos).
Consta que o P.S. pode querer tirar o tapete a Defensor de Moura e não o recandidatar em Viana. Corre, igualmente, que, nesse caso dramático, Defensor se defenderá correndo como independente. Deve estar convencido que o povo vianense, as noivas, as meninas da procissão da Senhora da Agonia e as restantes forças vivas estarão do seu lado. Não sei nem me importa porque, graças a Deus (ou ao deus dos ateus), não sou munícipe vianense.
Tenho quase como certo que nesse hipotético caso, o P.S. bem pode dizer adeus à risonha capital do Alto Minho. Mas isso não deve ser coisa que preocupe os dois por ora desavindos autarcas.

A propósito de autarcas, a concelhia portuense pôs a votos a candidatura de Elisa Ferreira à Câmara do Porto. Houve uma fortíssima maioria de votos a favor desta senhora. Mas houve também uns votos contra o que é natural neste género de conclaves, sobretudo se secretos. Uma vez apurados os resultados, uma luminária presente entendeu que já que a drª Elisa Ferreira tinha sido altamente votada se poderia, como cereja no bolo, propor a “aclamação”. O que imediatamente se fez entre um fartote de aplausos. Nos meus tempos de assembleia, a aclamação só ocorria no caso de haver unanimidade mas é possível que agora as coisas sejam vistas com mais liberalidade. O que me surpreende não é tanto a “aclamação” mas a súbita conversão dos oponentes à vontade da maioria. Note-se que o jornal refere expressamente “votos contra” e não abstenções. Das duas uma, ou esses votos foram (apesar de secretos) um mero engano dos votantes ou, perante a iminência de se verem reconhecidos os adversários da desejada Elisa entenderam mais prudente associar-se às festividades em curso. Chama-se a isto flexibilidade política e sentido de Estado.

Um cavalheiro apropriadamente chamado Bota entendeu propor o nome austero de Gonçalo Amaral à Câmara de Olhão. O referido cavalheiro ilustrou-se fartamente na condução do inquérito ao desaparecimento de uma criança inglesa, como todos sabem. Saiu do inquérito sem louros de qualquer espécie e sem que o público saiba o que aconteceu à desventurada criaturinha. Publicou um livro sobre o assunto com o sugestivo nome de “A verdade da mentira”. Ou vice-versa. O livro, já que livro é todo o conjunto de folhas impressas, coladas e encapadas e oferecido à leitura, cuja leitura se recomenda a quem queira obter o perdão de muitos e graves, gravíssimos, pecados capitais, já vai não sei em quantas edições e corre mundo ou, pelo menos, a Espanha e a Inglaterra em apropriadas versões vernáculas. Lá, como cá, devem habitar legiões de pecadores...
A comissão política do PSD, uma vez sem exemplo, opôs-se a tal candidatura. Pelos vistos, acreditam que os habitantes de Olhão, vila da Restauração, merecem outra sorte mesmo uma câmara socialista. O referido Bota terá dito que GA também era cidadão e por isso tinha direito a presidir a uma Câmara. Haja quem lhe explique que ser só cidadão não chega. Convém ter um projecto político, meia dúzia de ideias para a cidade, ter um passado, já agora, e um futuro se possível.

Aguardam-se ansiosamente notícias sobre Felgueiras, Gondomar (o major, claro, sempre ele...) Oeiras (Isaltino, pois claro) e mais um par de terras onde alguns pterodáctilos governam em nome sabe-se lá bem de quê. E estamos em boa altura, agora que o Carnaval se aproxima.

25 janeiro 2009

Au Bonheur des Dames 168


Sera la logique une pomme de terre?*


O cidadão Mário Lino será engenheiro, será ministro mas decerto não é alguém que usa a lógica. Usará a boa fé?
Interrogado sobre o caso “Freeport” afirmou que não tem dúvidas que o processo agora em foco tem motivações políticas.
Perguntado quem estaria por trás dessas motivações, o cidadão Mário Lino disse que não sabia.
Trata-se, pois, de uma questão de fé.
(Quem fez o mundo? - Deus. - Como? – Não sei. Porquê? –Também não.)
Quanto ao problema de identificar a vítima, o cidadão Mário Lino, volta a não ter dúvidas: trata-se de, assegura, atingir o Primeiro Ministro.
Se assim é, e será assim na óptica do intrépido descobridor do deserto do sul (onde o Freeport será um oásis...), temos que novamente o fulgor da fé ilumina o espírito poderoso de Mário Lino. Há uma cabala para atingir o Primeiro Ministro orquestrada por não se sabe quem mas com claras motivações políticas. Percebe-se?
Eu, se estivesse na pele do cidadão Mário Lino, tentaria primeiro identificar a vil origem deste mal moderno que é a cicuta noticiosa que tenta envenenar o cidadão José Sócrates. Ficaria bem a um engenheiro, pessoa decerto habituada à fria crueza da realidade, tentar encontrar argumentos que excedam a fé pura e simples. Não que esta não arraste montanhas mas no caso apenas se gostaria que trouxesse no aluvião de notícias a verdade.
Bem sei que estes novos ventos inquisitoriais sopram de Inglaterra donde, durante anos, e quase duzentos volumes!!!, nem uma brisa se sentiu. Temos pois, não uma fé mas uma suspeita de que é lá que está a central de boato e escândalo que tenta enxovalhar o bom nome das autoridades portuguesas. Se for assim, quem é que lucra com o ataque? Sª Majestade, a Rainha Isabel? O fantasma de Lady D? O Manchester United?
Ou, para tentar alcançar as perplexidades do cidadão Lino, será que estamos perante uma versão post-moderna da velha aliança luso-britânica de que fomos sempre vítimas propiciatórias? Não lhes bastou o Tratado de Meetween ou o esbulho de bens portugueses durante a guerra peninsular? Estamos perante uma segunda volta do mapa cor de rosa?
Se eu fosse uma pessoa mais impiedosa teria escrito outro texto: por exemplo, algo onde se dissesse ao enfatuado cidadão Mário Lino que a palavra pode ser de prata (e a dele, está visto que não é) mas o silêncio é de oiro. E aqui, neste tema, a prudência torna-o de diamante. Nem José Sócrates precisa de amigos desastrados, nem os portugueses devem ser confrontados com estes argumentos de uma penosa e tíbia lógica.
O cidadão Lino tem o condão do toque de Midas ao contrario: onde mexe, estraga.

* o título em francês (enfim em franciú) é obviamente “un hommage a Mariô Linô”
** entendeu-se usar o nobre termo de cidadão porque se espera que os cavalheiros citados sejam julgados pela opinião pública como tal e não com a muleta político-partidária. O que, no caso, de Mário Lino, não parece evidente.

19 janeiro 2009

Au Bonheur des Dames 165


A bandeira vermelha ou
Haja quem me explique



" ...E leveremo
La bandiera rossa, oooh!"
Canto dei battipali (Veneto)


Há três ou quatro meses o P.S. armou-a bem armada ao recusar votar o casamento dos homossexuais. Uma parte da bem-pensância crocitou destemperos e o resto da malta que ainda se interessa por política manifestou o seu pasmo.
Pessoalmente, a questão não me aquenta nem arrefenta. Nada tenho contra o casamento, com flor de laranjeira e tudo, apenas acho que se a palavra causa engulhos que se arranje outra desde que as consequências jurídicas do pacto entre os contraentes sejam mais ou menos idênticas à do casamento. E, também, sempre pensei que quem não tem cão caça com furão. Ou, por outras palavras: trata de estabelecer com o/a companheiro/a sentimental um contrato que ressalve os direitos que a convivência produz entre heterossexuais.
A oposição do P.S. à iniciativa do Bloco de Esquerda só teria explicação se o P.S. quisesse, naquele momento, manter a maioria absoluta piscando o olho a uma direita pudibunda. Não me passa pela cabecinha pensadora a ideia de que se tratou de uma birra... Tratou-se?...
Agora, que o P.S. percebeu que a direita não está para lhe fazer o frete mesmo se os socialistas se aplicaram diligentemente a levar a cabo um claro programa de direita (trapalhão, claro, mas de direita e daí os trabalhos da pobre dr.ª Manuela Ferreira Leite) e que a esquerda (dentro dele e fora) organizada ou não lhe está a jurar pela pele, eis que, num pinote acrobático põe o “engenheiro” Sócrates a defender temas eventualmente esquerdistas. E digo eventualmente porque tudo depende do modus operandi e, sobretudo, desse comezinho facto que é cumprir as promessas contidas num programa. Pessoalmente não confio no senhor “engenheiro” mesmo que o visse com uma corda ao pescoço. Cesteiro que faz um cesto, faz um cento.
Também não confio nas senhoras e senhores que em tempos andavam babadas/os com o Manuel Alegre e, agora, que se está nas vésperas da escolha de deputados, se juntam num carnaval frenético à volta do secretário geral. Este género de derivas não são novidade em Portugal e, muito menos, no P.S.. Também não me apoquenta ver “ex-sampaístas” (se é que alguma vez o foram...) no mesmo carro alegórico.
O “sampaísmo” (de que tantas vezes me acusaram apenas por ser amigo do Jorge e almoçar com o grupo no snack-bar do hotel Florida) era algo mais sério, mais limpo e mais duradouro do que o súbito enlevo por Sampaio quando este vestiu a camisola de Presidente da República. Era, insisto, uma partilha de ideais, de preocupações muito mais do que uma ante-câmara do poder e de mordomias. Eu, que não era do P.S., e que o fui um escasso ano, via, e vejo, nesse grupo amável e rigoroso um amor pela política e pela cidadania que nada tem a ver com esta turbamulta ávida que se vira para o poder como o girassol para o astro-rei. E há ainda uma outra diferença: os sampaístas, Sampaio incluído, tinham profissões, ganhavam a vida fora da política, do parlamento e das empresas públicas. Em certos casos a assumpção de cargos políticos significou até um abaixamento de rendimento. Mostrem-me um destes neo-“ex-sampaístas” a quem tenha acontecido o mesmo. Um só!
Voltemos, porém, à vaca fria: esta esperada reviravolta do senhor “engenheiro” para a esquerda ocorre no momento em que todos os indicadores estão no vermelho, em que o movimento dos professores começa a não ser o único de contestação a uma política governativa hesitante, esdrúxula e conservadora. A maioria absoluta é já uma miragem num deserto que começa a mostrar-se bem pior do que aquele outro que o senhor ministro das finanças via em Alcochete. A crise chegou, as expectativas dos portugueses são escassas e as eleições, essa enorme maçada, estão à porta. De repente soou a trombeta do primeiro julgamento. Os cidadãos, que, nestes anos de maioria absoluta, o P.S. tratou como súbditos mal educados, têm uma palavrinha a dizer e três papelinhos a pôr na urna. Para as Europeias, para as Locais e para as Legislativas.
(Chegado a este ponto, eu até me atreveria a confidenciar que dentro de dias pode ocorrer um facto político importante. Não o faço mas peço às minhas curiosas e escassas leitoras e aos leitores que me aturam que guardem esta: o P.S. estuda, prepara um salto mortal. Depois falamos).
Portanto, toca de tentar reunir à esquerda. O Alegre? Mas ele é a alma do P.S.!!! Os críticos internos (?) e externos, como um tal mcr: é tudo boa gente, da família, na hora da verdade estarão connosco (O Tanhäuser e o Badanäuser, resmunga o mcr que à falta de ser rico já não é lorpa). A ver vamos, como dizia o cego. Eu não me fiaria assim tanto. E por isso vejo a maioria absoluta agora pedida muito tremida. Melhor: não a desejo. Não é a maioria absoluta que torna um governo melhor, sobretudo quando, como no caso em apreço, não passa de um grupo de farfalhudas luminárias que obedecem automaticamente a his master’s voice. E nem falemos do parlamento ou da sua maioria: aquilo parece de saldo. É duvidoso que por essa Europa fora se encontre um grupo assim tão cinzento, tristonho e incapaz: “Apparent rari nantes in gurgite vasto”..., cantava Virgílio, o latino, numa obra cujo simples nome deve ser um enigma para 90% dos parlamentares.
Vamos, pois, ter um Congresso do P.S. igual a tantos outros desde que se instalou a ideia de que aquilo menos do que um partido é um ajuntamento político “com sentido de Estado”, o mesmo é dizer, uma coisa que existe se há poder, pelo poder e para o poder. O devaneio esquerdista de agora, o casamento dos homossexuais nem a estes deve convencer tanto mais que ninguém percebe as causas da recusa de há meses. Aliás, como alguém hoje dizia, uma coisa é o congresso decidir outra o agendamento da proposta, o conteúdo dela e a sua votação em sede parlamentar.
Os partidos deveriam perceber, uma vez por todas, que os votantes os julgam eleitoralmente mais pela sua prática política quotidiana do que pela ideologia de que vagamente se reclamam. Então no caso do chamado “bloco central” isto é uma verdade absoluta, que diabo. Só assim os conseguimos, quando conseguimos, distinguir. Ou pensarão eles, os deputados que trinam maviosamente em São Bento, que as pessoas ao som da sua voz os seguem como os pássaros e as árvores a Orfeu? (esta também deve passar bem alto, demasiado..., por S Bento... Paciência e que siga a rusga, a leitora MJ Carvalho e o José M perceberão, com o que já me dou por satisfeito. E seguramente terei sido percebido pelo meu pequeno público que é para ele que escrevo).
A pergunta que cabe é pois a seguinte: a prática política destes quatro anos que agora se cumprem penosamente foi de esquerda? Teve êxito?
Da resposta dos (e)leitores sairá a sorte do P.S.

* a gravura da crónica poderá parecer estranha mas, de facto, a legenda diz o seguinte: "aqui tinha bandeira vermelha mas..." achei-a apropriada tanto mais que talvez obtenha mais leitores com o truque...

10 janeiro 2009

Au Bonheur des Dames 164


Chiça que faz frio! Olha esta lembrou-me o nome de um restaurante ali para os lados da velha Escola Politécnica, em Lisboa. “Faz frio” chamava-se o estaminé. Dei por ele, se não erro, num dia longínquo (“dia do estudante”, ou coisa do género) nos anos sessenta, em que apanhámos um arraial da polícia de choque. A polícia, batia na rapaziada porque estava frio. Aquecia-nos os lombos juvenis e contestatários. Era para nosso bem, diziam. E mais uma chanfalhada! Nessas correrias terei procurado refúgio no dito cujo “FAZ FRIO”. E comia-se bem. Bem e à fartazana, como Deus manda e os dias frios exigem. É que o inverno pede sustância, comida que se veja, pratos da velha e tradicional cozinha portuguesa, cozidos, feijoadas, bacalhau com todos (e mais alguns como diria o famoso escultor Sousa Pereira, Manuel de seu nome, que exige prato de arroz seja com o que for um! Com o bacalhau, Manel? Com o bacalhau, pois claro! E fica muito bem. Este Pereira é tão arrozeiro que uma vez lhe fizeram um jantar de arroz com arroz! E ele comeu-o com um à vontade que espantaria o mais pintado. Aliás em matéria de jantares, o homem está por tudo. Ainda recordo o dias, aliás noite, em que ele, impenitente sedutor, decidiu correr uma lebre no seu próprio terreno. Para o efeito precisava de dar de jantar à potencial seduzida. Só que, no capítulo cozinha & assimilados, o Manel vale zero. Aliás, menos do que zero. Como o frio, hoje. O homem nem uma mesa sabe pôr. Claro que lá foram uns amigos sigilosamente, pela porta de serviço, cozinhar o que havia de ser cozinhado, tenho ideia que fazia parte desse imortal grupo de “chefs” humanitários e protectores de amores clandestinos. O jantar foi um êxito e o MSP averbou uma vitória clamorosa no seu próprio campo. Desconheço o resto desse romance tão auspiciosamente começado mas a verdade é que os amigos são para isso mesmo, para dar uma mãozinha aos incapazes, no caso, como é sabido, incapazes apenas culinariamente que o homem no resto dava cartas...
Mas eu falava do frio, do taró, do grisu, ou griso, enfim destas temperaturas indecentes que só têm uma fraca virtude: nisto estamos como o resto da Europa: a bater o dente enquanto os noticiários televisivos se excedem em reportagens sobre umas neves que caem aqui e ali. Eu mesmo, hoje, pelas dez e pouco, onze da matina, vi claramente visto uns vagos flocos de neve em plena avenida da Boavista.
Pessoalmente, a neve diz-me pouco. Apanhei fartas doses dela nas alemanhas, sobretudo na Baviera vai para mais de vinte anos. Detestei. Eu conto: cheguei a Munique num domingo duplamente festivo porque além deste vosso criado, chegava aquelas terras ardentemente católicas, apostólicas romanas e bávaras, o Papa. Por razões que não vêm ao caso não nos pudemos encontrar sequer para beber uma cervejola na Schwemme. Meti-me num comboio para Murnau e a meio da viajem apesar de não serem mais do que três da tarde, e estarmos em fins de Abril, o céu enegreceu e caiu um nevão que nem vos digo, nem vos conto. Eu de casaquinho leve, enregelado num comboio fantasma que parou numa estação fantasma onde se não via vivalma. Tiritando, desgraçado turista em terra germânica, ali fiquei até que surgiu um táxi salvador. Para o hotel bradei. Qual?, perguntou-me o teutão. O que estiver mais perto desde que no centro de Murnau. E assim cheguei, miserável e mais frio do que a múmia de Tutankamon, a um hotelzinho que me acolheu. Tomei um banho quentíssimo para ver se recuperava algum do muito calor perdido e depois arrastei-me até ao salão. Um afável empregado perguntou-me se queria jantar. Às cinco da tarde?, perguntei. Tem alguma alternativa melhor?, retorquiu-me o bávaro que falava uma espécie de brasileiro. Não tinha. E lá veio um “Eisbein” gigantesco com puré. Comi meio prato e, é com vergonha que o confesso, fui-me deitar. Às seis e pouco já dormia o sono dos justos ou pelo menos dos resfriados.
E durante os meses que se seguiram apanhei um forte par de nevões que me deixaram vacinado contra os prazeres da neve. Vacinado e constipado.
Por isso, não me comovi com esta chuva fria com vagos flocos à mistura. Pata que a pôs! Ainda por cima, a novidade da neve, atirou o resto das notícias, mesmo as mais graves, como a do desastre do futebolista que desfez cento e sessenta mil euros de automóvel, ou a prestação do engenheiro Sócrates todo amante das artes. Nem sequer essa miudeza que é a guerra no médio oriente teve honras de primeira página. Também não valia a pena. Nenhum dos contendores quer parar. É o Far-East em todo o seu esplendor. Nem durante o período (escasso) de tréguas os alucinados do Hamas pararam. Depois, gritam que os estão a massacrar. Claro que estas abébias que Hamas dá a Israel, são fartamente aproveitadas por este. Ai queres música? Toma que já bebes.
Voltemos ao frio que é mais saudável. Querem combatê-lo com eficácia? Aqui vai uma receita fácil e teutónica: comprem um pernil de porco. Cozam-no. Juntem-lhe umas salsichas alemãs. Variadas. Há algumas que se grelham e são óptimas. Chamam-se “Bratwurst”. Ao lado cozam batatas. E juntem-lhe uma lata de Sauerkraut, ou seja de choucroute. Vem feita, basta aquecer. Com uma bela mostarda de Dijon, faz-se a festa. Para beber: fartas doses de “boémia” ou qualquer cerveja do mesmo tipo. Um tinto decente também serve. Se convidarem o MSP não se esqueçam de acrescentar o arroz. E passem um bom fim de semana. No quentinho, como Deus e a prudência mandam. E neste quentinho cabe tudo, mesmo isso, leitorinhas, em que estão a pensar. A lascívia no inverno não é pecado. E mesmo que fosse...
Schuss! Alles gut. Viel spass!

*na gravura: "casas em Murnau", Kandinsky

03 janeiro 2009

Au Bonheur des Dames 163


No creo en brujas
pero que las hay, las hay.......

Ai leitorinhas, 2009 entrou a pontapé. Nem vos digo onde me acertou porque estas croniquetas são para toda a família, gatos incluídos, se é que eles se não ofendem.
Então não é que o meu amado computador de mesa, um Imac G4 700Mhz resolveu entrou de chancas crise adentro? Pifou! No sábio dizer de um técnico da MacZone “a unidade de alimentação ( Imaginem que à primeira saiu cão”entação"!!! Alguém me pode dizer o que é isto? Então o sacana do MacBook Pro resolve agora escrever como certos exemplos da nossa nacional inducação? Haja uma alma que me explique as taras deste maquinismo, por Júpiter!) foi dar uma volta ao bilhar grande. Mudou de bairro, como dizem os espanhóis! Estrampalhou-se como se dizia saudosamente na minha Buarcos da infância feliz e descuidada.
O pior é que já se não fabricam tais unidades da puta que as pariu. Há que andar por aí atrás de duvidosos negócios de sucata ou coisa parecida. Será que algum(a) das/dos leitoras/es sabe de uma unidade de alimentação de Imac, G4 700 negociável?
É que eu tenho estima por este computador, apesar de ter dois portáteis... Convenhamos que é um belo objecto. Nada dessas coisas todas iguais que são os pc. Mas também não me apetece ter um Imac G4 numa redoma. As coisas devem ter uma utilidade, para inutilidades já bastam estes escritos vagabundos com que vou entretendo o dedinho: antes isso do que ser banqueiro...
Enfim, eu gostava de ser banqueiro, melhor gostava de ter o cacau que qualquer banqueiro tem. Viver à grande e à francesa (sobretudo à francesa, se é que isso significa ter um “pied-a-terre” na Rue de Medicis mesmo em frente ao Luxemburgo, poder flanar pelos bouquinistes, comer de quando em quando “moules mariniére” mandar fazer as camisas na Rue de St Sulpice. Estão a ver-me encomendar meia dúzia de belas camisas por medida e de seguida ir ler o jornal na praça do mesmo nome que agora já só tem um café que o outro houve uma dessas marcas prestigiosas e caríssimas que lhe chamou um figo. Devia ser proibido fechar cafés em Paris. E livrarias! Sobretudo aqui neste “quartier” entre o boulevard de S.Germain, e as ruas de Rennes, Vaugirard e de l’Odéon. Os mosqueteiros, os verdadeiros, os de Dumas viveram aqui, ouvi-o eu da boca profética de Umberto Eco. Enfim viveram aqui o d’Artagnan, o Athos e o Porthos. Aramis, o aspirante à glória eclesiástica vivia em parte incerta como convém a um misterioso falso abade.
O meu leitor José, que me julga com singular e bondosa parcialidade, há-de gostar desta minha veia “Dumas”, um dos melhores habitantes do “Panthéon”. E dos mais meritórios. Dumas que além do mais era um cozinheiro de mão cheia, imbatível a par de Jules Verne na omeleta à moda de Nantes, não salvou pátria nenhuma, massacrando uns milhões de inocentes. Os seus excessos sanguinários guardou-os para os romances que me habitaram o fim da infância, na Biblioteca Municipal Fernandes Tomás para onde gostaria de enviar os meus mais de dezassete mil livros. Juntei-os com tanto amor e gozo que me repugna a ideia de um herdeiro iletrado os vender ao desbarato.
Mas voltemos à vaca fria: as bondades do leitor (e amigo) que volta e meia me põe as “pequenas células cinzentas (Poirot dixit) a borbulhar. Escreve em comentário a uma prosa recente que eu “me não levo a sério”. Tem carradas de razão. De facto, pensando bem, eu escrevo dividido entre um vago estoicismo e outro não menos vago epicurismo. Traduzindo: descreio da minha escrita, conheço-lhe os escassos limites, sei bem que não ficarei na história da literatura. Também sei que isto de dar ao dedo sustenta muito ego inflacionado mas só isso. Não pululam por aí os escritores a sério. Por outro lado, escrevo porque me divirto. Não ando em missão em terra de infiéis, não acredito que a escrita salve o mundo (antes fosse, antes fosse...), gosto de meter umas piscadelas de olho a autores amados, quase sempre a mesma dúzia, vá lá o mesmo quarteirão, nunca me cansei de ler, mas só leio o que gosto. Livro que até à pagina vinte não mostra que vale a pena, é livro que vai para o lote. Acabou-se. Sacrifícios nunca. Não leio porque está na moda, porque fica mal desconhecer, porque o autor é nosso, vosso ou deles. Não leio porque é útil, era o que faltava!, e espero que as minhas leitoras me leiam com o mesmo sentimento. Isto é uma conversa de bica aberta, sem arcas encoiradas, sem fantasmas, sem traumas de infância, sem receitas. E isso, esse pequeno grupo de leitoras e leitores, é tudo o que me interessa. É como se estivéssemos à mesa da esplanada, ali ao fundo, num preguiçoso dia de sol: ou para citar, outra vez!!!, Shakespeare: now we are coming to the winter of our discontent made glorious summer by the (son?) sun of York...
Ou mais prosaicamente eis que chegámos ao inverno do nosso descontentamento transformado em verão glorioso pelo sol dos amigos.
E é com eles, os amigos, os leitores, os cidadãos que dão a cara, e com Shakespeare and company (a verdadeira não essa ridícula livraria que tomou o nome de uma outra também parisiense que em seu tempo foi um glorious sun da melhor literatura contemporânea) que entro o ano. Com o carro na oficina, procurando esperançadamente uma fonte de alimentação para o Imac G4, desejando a glória simples de ser lido com um sorriso. É tão reconfortante...

PS: o pedido da fonte de alimentação é para levar a sério. Quand-même...

* na gravura: o fabuloso Imac!!!

01 janeiro 2009

Au Bonheur des Dames 162


Ano que sai, ano que entra…

Uf! Sair saí mas cheira-me que ainda as vou amargar. Eu explico: em vésperas de fim de ano nem eu nem a CG estávamos com disposição para almoçar em casa. A quarta-feira é o único dia em que a nossa empregada sai ao meio-dia certo e por isso raras vezes há tempo para preparar qualquer coisa. De modo que resolvemos ir por um peixinho grelhado num dos inúmeros restaurantes de Matosinhos.
Estávamos mesmo a entrar na rua do Sul para nos enfiramos na Casa de Pasto Teresa (que entre os seus fieis tem o casal Zé M. Zé A. a quem se manda a respectiva conta de beijos e abraços) quando o honrado Bora deu o bafo. Nem para tras nem para a frente. Estacou e, záz, apagou-se. Honra lhe seja que cumprira 98 ou 99% do percurso que lhe competia.
A CG, que se tem por entendida em automóveis, mania mansa que não se pega – pelo menos a este vosso criado – crocitou qualquer coisa que tresandava a perigo extremo ou avaria terrífica. Eu, mais ignorante e por isso mais feliz, declarei que ia telefonar para o ACP e para o senhor Monteiro, mecânico que me atura, e que, portanto o melhor era almoçar na paz do Senhor (eu sei, eu sei que sou pouco de igrejas e similares mas que querem: antes a paz do Senhor que a de Bush ou outra do mesmo teor…). A CG olhou-me com o ar do professor bondoso que vê o aluno mentecapto a escorregar na asneira que dá chumbo certo (com ou sem dona Lurdes…), encolheu os ombros, sacudiu metafóricamente o pó das botas, rapou de um cigarro e acendeu-o.
Eu fiz os telefonemas acima anunciados e dediquei-me á árdua tarefa de almoçar.
Intervalemos para exclarecer o alcance dos conhecimentos automobilísticos da CG. Ela conta que sempre teve muito ouvido para motores, que sempre trazia o carro na ponta da unha, pneus á pressão certa, macaco e demais pertences bem arrumados, cinzeiros vazios, enfim uma espécie de santa Rita de Cássia na vertente padroeira dos impossíveis (que a santinha também protege as mulheres que apanham do marido…). Eu quando oiço esta malta que vê rallies e corridas de fórmula 1 (só as partidas resmunga a CG, as partidas é que é. E há sempre uns desastres…, rematou) fico logo de pé atrás. Regra geral são eles quem tem os desastres porque, obviamente há uma besta que ultrapassou, não quis ser ultrapassado, desviou, não desviou, enfim há sempre alguém que fez com que o acidente ocorresse e atingisse estes “fangios” de bairro. Aliás fazem-me lembrar o meu sobrinho Manuel, quando era pequeno. O malandrim teria dois anos e meio, três no máximo e era vê-lo cercado de dezenas de carrinhos a brincar aos desastres. Atingiu o seu record absoluto numa vez em que encenou um mega desastre com todos os carrinhos, duas panelas, um barco à vela e a locomotiva de um comboio eléctrico que lhe tínhamos dado nesse Natal. E pedia por favor à parva da empregada um frasco de sumo de tomate para o sangue!!! Claro que agora estuda ciencias humanas!… Estão a ver o género?
Voltando à vaca fria: o pronto do socorro do ACP lá apareceu e depois de um breve exame que metia uma maquineta estilo computador de bolso, o mecânico perguntou-se me eu tinha metido combustível. Estão a ver o tipo, não?
Claro que meti, respondi. Atestei o depósito.
Continuou: e meteu mesmo gasóleo? Nova e imperiosa (e ofendida) afirmativa. O homem, pelo sim, pelo não resolveu cheirar o depósito. É gasóleo, anunciou-me pesaroso.
Naquela altura do campionato eu já tinha percebido que me tinha na conta de um nabo absoluto com carta comprada ou falsificada capaz de tudo para arruinar a fama de uma marca de automóveis e, paralelamente ser a vergonha dos sócios do ACP.
Encurtando razões, descontando as restantes e desconfiadas perguntas a que respondi com candura, verdade e concisão (¡!!?*#%&), lá consegui provar a minha inocência graças aliás a ter-se verificado que era a bomba do combustível que “não puxava”.
Resumindo: carro na oficina, mcr apeado e conta gorda a anunciar-se para a próxima semana deste já novo e desastrado ano.
Valeu-me a estrela dos condutores obrigados (como eu, que sempre sonhei ter motorista particular. E governanta! ): o nosso fantasmático camarada incursionista Simas Santos num gesto moscovitamente generoso nos convidou para passar o ano em casa dele. Ai que bem que se comeu. E que se conversou. E que saudades de um queijo de Nisa que obviamente já não cabia nos buchos repletos dos convivas.
Queridas leitoras que me aturam, severos cavalheiros que me julgam, meninas e meninos, público em geral e povo: que este ano de 2009 desminta a maioria das previsões pessimistas que eu mesmo (até eu, mihi quoque…) aquí sinistramente fiz.
Que os deuses vos sejam propícios e vos cubram com os seus favores. E com queijo de Nisa, se não puder ser o de Serpa, o melhor de Portugal. E desculpem qualquer coisinha…


a ilustração de hoje ( que nos faz sonhar com um verão ainda longínquo...) vem da Bélgica, de Liége, se não erro, e trazia o misterioso título: meister werk of alinewa (sic). Por trás de tão extravagante designação adivinha-se a mão matreira de um oblíquo individuo que no século dava por Alexandre FS. Será? Bom ano também para ele para a Constanze e demais pessoal.

23 dezembro 2008

Au Bonheur des Dames 161


Eu sei, eu sei que disse o que disse sobre o Natal. Melhor: sobre a aberrante interpretação que se faz duma festa que deveria ser recatadamente familiar e que agora entrou no consumo desbragado.
Eu sei, e de há muito tempo que o sei, que qualquer comentário sobre a quadra soa a caturrice ou, pior ainda, a snobismo. Todavia, não retiro nem uma palavra embora acrescente outra que não é minha, é bem mais antiga e reflecte um pouco o que algum leitor terá percebido sob a farpa. Parece que numa certa altura, num outro país, numa outra realidade, ou na realidade a que aspiramos, um anjo apareceu e disse Gloria a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade.
Deixo a glória a quem pertence mas desejo muito vivamente a todos os que me aturam e à tripulação desta “barquinha que vai para Belém”, paz e alegria, paz e serenidade, paz e paciência, paz e um mundo melhor. Desculparão a insistência na palavra paz mas olhando em volta desde Bilbau a Bogotá, do Kivu a Caxemira, das terras antiquíssimas entre Tigre e Eufrates até à miserável faixa de Gaza, paz, paz verdadeira vale mais do que pão, do que oiro, do que saúde. Vale tanto quanto a liberdade. E a dignidade. E o amor, porque sem ele a vida não tem sentido.
Se isso puder traduzir-se por Feliz Natal que assim seja, senão voltem ao princípio destas mal traçadas regras e pensem alto na palavra paz. E na palavra amor. E na palavra liberdade.

* a gravura roubei-a a um mail do Fernando António Almeida, poeta, ficcionista, historiador, amigo antiquíssimo e leal que me mandou a ilustração com o subtítulo de Éluard La terre est bleue comme une orange.

** os que não desertaram completamente do território da infância reconhecerão a toada da linda barquinha que lá lá vem... E o Natal, o verdadeiro, mora muito por aí

22 dezembro 2008

Au Bonheur des Dames 160


Ai leitoras, o Nataaaal……., o Natal com sininhos a tocarem músicas que se tornam horrendas de tanto as ouvirmos. O Natal e o seu cortejo de bondade e aletria (para citar O’Neil), com jornais e revistas à compita na parvoeira, sempre com as eternas receitas, com a melhor maneira de pôr a mesa, com os mesmíssimos presentes inúteis, com a lenga-lenga da pobre história bíblica que o não é (Ora vão aos Evangelhos e vejam se há mangedoura, Belém, burrinho e vaquinha, reis magos e tudo o resto. Vá lá, leitorinhas preguiçosas, um esforço, a Bíblia e os Evangelhos são uma leitura agradável (e sou eu ateu!)…
Bom, deixemos a cristologia para quem a quiser estudar e voltemos a este baixo mundo. O Natal e o circo que se monta. Este ano a coisa até parece pior porque ninguém se esquece da crise que paira, do ano que aí vem. Os comerciantes deitam mãos à cabeça, adiantam ilegalmente os saldos, o público balda-se, substitui a prenda cara por uma barata ou nem isso. Cá em casa, enfim, na casa onde me reúno com familiares, alguém teve a abençoada ideia de propor a eliminação de prendas entre adultos. Ficam para prendar apenas os desprovidos de rendimentos. Claro que não vou ser assim tão radical mas deitei abaixo um par de presentes que me davam cabo da cabeça e que provavelmente não melhoravam a vida dos prendados.
Não deixa de ser curioso como a festa que celebra o nascimento de um pobre, entre os mais pobres, dê ocasião a tanto gasto. Eu que nunca fui de pouco pedir (pedir não custa) apenas queria o dinheiro que se gasta em papel de embrulho, fitinhas e lacinhos. Só.

Uma coisa que não pedi foi que o engenheiro Sócrates (esperavam que me esquecesse?) e os seus rapazes me viessem acenas com uns empréstimos para tratar dos dentes ou do meu enterro. Esta deliberação governamental (que aliás pouco mais é do que juntar uns serviços sociais que já existiam) apenas vem dar razão à exigencia sindical de salários acima da tabela proposta.
Sempre achei que o ordenado havia de ser anual (e dividido em doze partes), sem subsídios avulsos como a miséria do almoço. Ao empregador de grandes massas de individuos caberia garantir cantinas normais e decentes. Isso sim, seria o ideal. Agora fingir que se come com o que dão pomposamente como subsídio de refeição é ridiculo e tem servido (e bem!) de engodo. Dirão que a culpa é dos sindicatos que aceitam toda e qualquer migalha. É verdade. Mas como nos casos de corrupção há sempre um corruptor activo e um passivo, pelo que o Estado também não se salva enquanto empregador. Alguém dirá igualmente que os subsídios de Natal e de de Férias dão muito jeito. Eu não proponho a sua eliminação mas apenas que se dividam em doze prestações mensais que acrescem ao ordenado. Quem quer fazer férias que vá poupando. Quem quer pôr prendas no sapatinho que vá comprando durante o ano…
Eu sei que alguém virá mansamente repreender-me, dizendo que esta simplificação remuneratória poderia ter mau resultado: em chegando as férias pode não haver dinheiro para a praia e no fim do ano o dinheiro das prendas não aparece. É verdade. Mas o Estado não deve, nem pode, ser o tutor dos cidadãos. É por estas e por outras (muitas) que não chegamos à maioridade cidadã. Como também não chegamos com esta política de empréstimos que o Governo tirou da cartola. Que, ainda por cima, ninguém lhe agradece!
Quem também não agradece é um dos figurões da Educação que, referindo-se a um abaixo-assinado com sesenta e tal mil assinaturas, sempre foi dizendo que “isso não são métodos”. Como, acrescentou “ a ameaça de greve não é método”. O homem é totó ou simplesmente fascistoide? Então agora o levantar a hipótese de fazer greve é um insuperável obstáculo à negociação? Então, quando num país civilizado, que manifestamente a criatura não conhece, como, v.g., nos Estados Unidos, ainda há bem pouco, os guionistas de Hollywood aguentaram uma greve de meses enquanto negociavam melhores condições salariais com as majors, estávamos perante um atropelo bolchevista e gulaguiano?
Diz-se que o poder corrompe. Eu acrescentaria que o poder esparvoa…
Deixemos, todavia, estas deprimentes criaturas. Para chatear o indígena já basta a fúria compulsiva da quadra. Demasiada comida, os eternos mesmíssimos filmes na televisão, o trânsito e, sobretudo, desculpem-me leitorinhas gentis, a longa fila de ausências na mesa de consoada. Que Deus proteja os presentes e lhes dê um bom ano mas nada apaga os meus amados fantasmas, um pai, uma avó, tios, um sogro e uma sogra e tantos mais. Raios partam o Natal que mos torna tão tragicamente presentes e me faz sentir (mais do que nunca!) que se nascemos e morremos sós, também a vida nos vai tornando cada vez mais sós.

* A estampa: Nazareth de Rouault, um pintor fauviste e profundamente religioso que admiro desde uma longínqua exposição no Ateneu do Porto vai para mais de quarenta anos. quem tiver dinheiro e o bom gosto de ir até Paris poderá ver uma boa exposição dele na Pinacothéque de Paris.

16 dezembro 2008

Au Bonheur des Dames, 159


Pois é, leitorinhas gentis: vocês não sabem, não vão acreditar, eu mesmo ainda duvido, até me belisco, e já estou a ver a cara da minha administradora (e amiga) deste blog, a almirante Kamikazi, agora livreira aplicada em Faro ( e vende belas coisas, olá se vende!…) e das restantes mulheres da tripulação que sabem dos meus infortúnios de canhoto (de pata e de coração) com a internet, com as máquinas em geral e com os computadores em particular.
A propósito do Natal, este incréu, ofereceu-se a si mesmo um IPod! Um IPod a sério, nada dessas mariquices de meia duzia de gigabites. Aliás, o último IPod de 160 giga!!! Ora tomem lá, que é serviço! Ainda por cima, por ser o último estava em “saldo”, enfim, com um preço enternecedor. Traduzindo: com um preço menos abusivo do que é costume.
Eu devo, todavia, explicar esta aventura. A CG andou durante mais de uma semana, murcha: uma constipação pertinaz (mas não o suficiente para a impedir de fumar uns cigarros que ela agora faz com o auxílio de uma maquineta …) deitou-a por terra. Aliás, na cama. Dores, tosse, olho pingão, enfim o trivial para a época. Ainda tentou acusar-me de lha ter pegado, por via de dois espirros que dei mas não teve êxito: precavido, avinhei-me, abifei-me (por acaso apeixei-me…) e abafei-me e sobrevivi, glorioso e resplandecente, aos miasmas com que ela empestava a casa. As gatas também sobreviveram, vê-se que são bichos com muita capacidade. E com um sólido apetite…
Chegou, porém, o dia abençoado em que a maleita retirou zangada provavelmente com os antibióticos e demais mezinhas com que a CG se enfrascava. Foi no passado sábado. Com a notória má fé das convalescentes, a CG anunciou-me, em tom imperrial e imperativo que “isto não é vida” que estava farta de estar em casa (como se eu fosse o responsável…) e que tinha de ir urgentemente às compras. Ao sábado?, murmurei, lembrado das multidões ululantes que atragantam centros comerciais e drivados. Hoje, repontou a ex-doente, sábado ou não sábado é hoje, e pronto.
Leitoras, desculpem-me, mas uma mulher que sai duma gripe e entra numa de compras é como um tsunami. Não dá hipótese. Consegui evitar várias hipóteses tenebrosas mas do “corte inglês” é que não me salvei. Do mal o menos, pensei. Sempre se almoçam umas tapas e há vários recantos para tomar o café e ler os jornais.
Uma vez dentro daquele bazar, consegui carta de alforria e, no caminho para o café passei pelo balcão dos computadores & restante parafernália. Convém dizer que a aparelhagem do meu carro dera o triste pio e um pesaroso electricista anunciara-me que não me convinha comprar um novo leitor de cd com caixa para dez discos. Porque se estragam com facilidade, porque já não fabricam, porque sei lá que mais. E que o que estava a dar era aparelhagens preparadas para mp3. Com a vantagem de poder caber muito mais música (óperas, disse-me ele como se adivinhasse esta minha debilidade por Rossini, seja ele musical ou em mero tournedó). E há aparelhos com entrada para IPod?, claro, respondeu-me e logo ali se consertou a compra de um desses maquinismos.
Mas o IPod será para mais tarde, preveni-me a mim mesmo. A época é de crise, a malta tem de ajudar uns bancos, coitados, que andam por aí a gemer, e umas seguradoras, e mais não sei quantas empresas, senão o país cai de cú.
Mas o homem põe e o Deus dos mercadores dispõe. Estava eu a olhar para a maquinaria exposta e alguém solta: olha um IPod dos de 160E a preço de saldo, interveio o vendedor melífluo. Se eu não tivesse já um até comprava, retorquiu o primeiro. Compro-o eu, e é para já!, disse uma parte de mim suficientemente alto para o vendedor se dirigir a este vosso criado com um sorriso de predador que vê uma presa inocente e nédia (o que aliás também é verdade…)
Foi assim que em meia hora fiquei proprietário orgulhoso de um IPod, da respectiva “dock”, que também estava com “preço especial”. E o vendedor blandicioso sussurrava: compre em doze meses que não paga juros…
Um homem não é de pau, como decerto saberão. E os tais doze meses davam, de facto uma mensalidade aprazivel (menos de quarenta euros!) que, enganando-me a mim próprio, traduzi logo: são dois livros que não compro…
E regressei a casa, carregado de novidades tecnológicas, receando a leitura informe de tremendos livros de instruções que sempre me pareceram escritos em serbo-croata antigo e na voz perifrástica, seja isso o que for.
Ora, é aquí, leitoras subtis, que o milagre das rosas ocorreu. À uma consegui logo transferir do computador 3697 horas de música, traduzidas em óperas, concertos de jazz, enfim um escândalo de música que já começou a ser ouvido na aparelhagem do carro! Consegui montar a “dock” que neste momento já mostra garbosa, as horas, toca tudo e até já pré-programei estações, enfim uma estação, a antena 2.
Mas há mais: embriagado por estes triunfos, descobri que uma simples pen também se pode carregar com música (o que já fiz depois de brevíssima explicação) e ser ouvida no aparelho maravilhoso do carro que também funciona perfeitamente.
Em suma, as coisas têm corrido de tal maneira que talvez me resolva a estudar este fim de semana toda a teoria quântica. Quem consegue mexer no IPod, na dock e no resto não deve ter receio de afrontar essas minúcias. E depois do Natal entro na topologia. A menos que o frio me impeça.

* alguém dirá que a ilustração não tem nada a ver com o texto. Homessa! E por que raio havia de ter? E para já até tem. E eu gosto do Tati