sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Roberval Pereyr
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Lívia Natália
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Luís Antonio Cajazeira Ramos
Eu não amei meu pai como devia.
Houve o dia de amá-lo e não o amei.
Ele morreu, e não nasci ainda.
Amanhã levantei sem seu amor.
Nenhum conselho amigo soa seu.
Uma vida padrasta me acompanha.
Meu caminho não quis olhar pra trás.
Tão longe de meu pai me abandonei.
Nem meu, nem de ninguém, nunca fui seu.
Não me quis dar a quem eu estranhava.
Só teu colo, mamãe, era aconchego.
Do pai, resta-me um calo de silêncios.
Ai, arranco do peito o corpo estranho.
Coração, cava o chão, busca meu pai.
Os melhores cordeiros da fazenda
seguirão para o abate na cidade.
Os carneiros mais fracos do rebanho
serão sumariamente degolados.
O bode velho vai pro sacrifício,
por mais que seu olhar peça clemência.
Nem mesmo as cabritinhas inocentes
terão misericórdia ou esperança.
As carnes assarão ao sol: fogueira.
As peles secarão ao sol: curtume.
As vísceras suarão ao sol: carniça.
Os ossos sumirão ao sol: poeira.
Somente a ovelha negra fica impune,
enquanto o bom pastor toca sua flauta.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Martha Galrão
terça-feira, 10 de maio de 2011
João de Moraes Filho
Para Alexandre Gusmão
pois não queriam nem suportariam
entender a verdade do lugar nenhum.
José Inácio Vieira de Melo
Espia ...
A onda varre as sombras
dos coqueiros na beira
da Praia de Tatuapara.
Nada comparado
ao beija flor parado,
no centro de uma janela,
olhando, como nós,
as pegadas assanhadas
que passam por ali,
onde vão as estrelas
caídas do céu; ainda
plaina o beija flor,
livrando-se de liberdades
deixadas no rastro de algum outro
em permanente busca de si.
Seja qual for o certo,
Mesmo para com esses
Que cremos serem deuses, não sejamos
Inteiros numa fé talvez sem causa.
Ricardo Reis
Desponta na esquina
a imagem padecida
da Virgem do Rosário.
Vai carregando só,
seus milagres azuis
desejando os meus,
clamando pelo Deus
esquecido no eu
com coração em punho.
Mesmo assim, compassa
esse desejo fosco
espiando os teus
milagres aguardados,
andando pela rua
que vejo cá de perto.
Arrancando sorrisos,
profano e sagrado guardam,
divinamente vivos,
heranças esquecidas
nas ruas adormecidas
pelo tempo Heróico.
Segue na correnteza
o Rosário rezando
para os rios que partem:
Paraguaçu adentro.
Nos Portos ancorados
se resumem histórias
margeadas de Áfricas
em estado de aves
cantando nos jardins.
Nossa Senhora passa,
repassa lá na fé
arrancada de nós;
despelada, sem cor,
esquecida no eu
com coração em punho.
A Carlos Machado
Alguns preferem um
ou dois poemas de sentido oculto
e morte discreta. A Câmara
capta suas lições de incertezas,
enquanto dois poemas
escancaram percepções.
Distintos como os lados cerebrais,
enxergam
o osso do nada sem vexame,
como quem se vê na margem de cá
da página virtualizada.
Outros preferem um
ou dois poemas de sentido discreto
e morte oculta.
O rio, esse ponteiro louco
que avança para morte,
é uma estreita estrada que sobe o morro
de nosso peito pulsando
cada fase da lua. A vida,
um pavio riscado em nossas mãos.
terça-feira, 3 de maio de 2011
Elder Oliveira
sábado, 12 de março de 2011
Adelmo Oliveira
Foto/Divulgação: Ricardo Prado
Dever de Casa
Ao poeta José Inácio Vieira de Melo
Eu sou um velho ator sem palco e sem platéia
Que traz no cais do peito antigas ilusões
E do pouco que sabe interpreta lições
De palhaço que alegra os meninos da aldeia
Basta o dia raiar pelas bandas da aurora
– Levanta – bate a porta – e vai ganhar a rua
Tropeça no silêncio em que flutua a lua
Restos de solidão caminhando lá fora
Esqueço a dor – o espelho – as marcas do meu rosto
– Produtos do salário em que se paga imposto
Cobrado pelo tempo e pelas fantasias
Andarilho do vento atravessando o acaso
Deixo a tarde no céu – o meu relógio atraso
E assim faço de mim a profissão dos dias
Elegia do Largo dos Quinze Mistérios
Noite
Obliquamente a noite desce
– O infinito atira para dentro dos olhos
A maré das primeiras estrelas
– No outro lado da rua
Fica o muro da casa vazia
Onde atrás do silêncio
Oculta a voz
Pálida
– Um raio de lua
Faz da lágrima
Um espelho
Noite
A noite veste sua fantasia
– Carrega nas sombras
A volúpia da vida
Longe
Na cidade maldita
Os demônios dançam
Os espectros choram
As guitarras deliram
Do outro lado do tempo
A canção é vazia
– A paixão é morta
– A estrela é fria
A palavra
A palavra é só a solidão escrita
Bilhete a um Poeta
Olha, Capinam
Chegando a Nova Iorque
Não te esqueças
escreve um poema
e manda pelo correio
Vê se as tristezas de lá
São iguais ou mais ou mais fundas
Que as tristezas daqui
Sabe (e disto não de eludas)
– pelas notícias que tenho
de outro amigo que lá esteve –
Que há muito ladrão solto
Pelas ruas e avenidas
À espreita de fama
E de cenas tão vivas
Quanto às letras de sangue
Dos crimes de mistério da Rua Morgue
Leva contigo o telescópio?
Sei que montarás –
Como navegante de rotas aéreas
Um pequeno observatório
Para lua e para as estrelas
– Dizem até que o céu é de prata
Além e por cima dos arranha-céus de vidro
Tira o primeiro domingo
E vai a Washington
E vê quantas manchas de sangue
Salpicam os muros
As paredes
E os vitrais da Casa Branca
Escuta se chega
Através do vento
Do dia e da hora
O eco das vozes
Oprimidas do mundo!
(Onde se encontra
o radar eletrônico
da Agência de Informações?
– Um detector de mentiras
guardado em sete segredos
que capta a dor em alegria
o pranto em riso
a morte
a morte em vida?)
Ah Poeta andarilho
Não te canses agora
– Aperta a mão de cada astronauta
Ou procura nos parques
Ou na Quinta Avenida
Um jovem que tenha
No peito uma flor?
E os Guetos? E as Guerras?
E, a Bomba? E a Paz?
Nem te lembro
Mas te confesso
Que certo dia
Morri dez vezes
Quando William Calley
– o tal tenente Batman
Destruiu com a morte
A vida
E os brinquedos
Dos meninos de Mi Lay
E os mísseis?
Inverossímeis?
Não te perturbes, Amigo
A hora explode toda em chamas
De tanto espanto
Ódio – Conflito
As palavras se trituram
Em pó. Em grito
Depois
antes de teu regresso
(Máquina de filmar a tiracolo)
Quero fazer-te um pedido
– Dá um pulinho à ilha Manhattan
Para ver de perto
Se a Estátua da Liberdade
Continua de pé
ou caiu
Adelmo Oliveira
Itabuna – BA (1934)
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
José Inácio Vieira de Melo
Foto/Divulgação: Ricardo Prado
Paz
Eu,
que venho de tempestades,
anuncio a calmaria.
A violência
que existia em mim
rasguei na bala.
Toada da despedida
Para Antonia Torreão Herrera
Certo. Temos que ir.
E, quando damos o passo,
muito do que somos fica.
Muito mais seremos.
Inevitável a única certeza:
um dia a Derradeira vai lamber
a tua boca e já estarás
habitando noutras plagas.
Não te aperreies, é assim mesmo:
a despedida é a véspera do encontro
(e o mundo – que nem peão –
continua no arrodeio, na ladainha).
Amanhã, quiçá, estaremos juntos
nos favos de mel das europas
ou no estrume das vacas leiteiras.
Vamos cumprir as quadras da vida!
Cerca de Pedra
Aqui, na Cerca de Pedra,
nesta noite caatingueira,
estou em silêncio, ouvindo
o silêncio das estrelas.
José Inácio Vieira de Melo
Olho d'Água do Pai Mané - AL (1968)