Estou de volta... como a primavera!

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa..."

Manuel Antonio Pina
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quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Limbo

 

 

Andrew Kudless Art

É o pranto
Que ninguém chora
Que eu agora
Canto.

E aquele amor constante,
Desenganado
Que nunca teve amante
Nem amado.

E o gesto cordial que se não fez,
Nem faz
E fica por detrás
Da timidez.

E o imortal poema
Por acontecer,
Irmão do vento, seu rival sem asas:
Lume a fugir das brasas
Antes de a lenha arder.


Miguel Torga
in Orpheu Rebelde

 

 

 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Prospecção

 

 "Pupila", desenho hiperrealista-surrealista de Jono Dry

 

 Não são pepitas de ouro que procuro.
Ouro dentro de mim, terra singela!
Busco apenas aquela
Universal riqueza
Do homem que revolve a solidão:
O tesouro sagrado
De nenhuma certeza,
Soterrado
Por mil certezas de aluvião.
Cavo,
Lavo,
Peneiro,
Mas só quero a fortuna
De me encontrar.
Poeta antes dos versos
E sede antes da fonte.
Puro como um deserto.
Inteiramente nu e descoberto. 

Miguel Torga 

 

 

terça-feira, 30 de junho de 2020

Quantos seremos?


Ann Margret e Elvis Presley no filme Viva Las Vegas,1963
Fotografia © Jazzinphoto

Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

Miguel Torga




segunda-feira, 15 de junho de 2020

Guerra civil


 Fotografia: Martin Waldbauer
 
É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso
O que sinto,
O que digo
E o que faço
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido,
Nem convencido.
E agrido em mim o homem e o menino.

Miguel Torga
in Orpheu Rebelde





terça-feira, 26 de maio de 2020

Limbo


Imagem da Web

É o pranto
Que ninguém chora
Que eu agora
Canto.

E aquele amor constante,
Desenganado
Que nunca teve amante
Nem amado.

E o gesto cordial que se não fez,
Nem faz
E fica por detrás
Da timidez.

E o imortal poema
Por acontecer,
Irmão do vento, seu rival sem asas:
Lume a fugir das brasas
Antes de a lenha arder.

Miguel Torga 
in Orpheu Rebelde




sábado, 29 de fevereiro de 2020

Lembrança

 
Arte: Rimel Neffati 

Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
dizes suavemente
que é um desgosto.

Depois,
não sei porquê nem porque não,
essa recordação
desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.

Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite,
na maior solidão,
sem a tua presença verdadeira,
eu vejo o teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!''

Miguel Torga
in "Diário I"





quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Magnificat


imagem: google

Ai, a vida!
Quanto mais me magoa, mais a canto.
Mais exalto este espanto
De viver.
Este absurdo humano,
Quotidiano,
Dum poeta cansado
De sofrer,
E a fazer versos como um namorado,
Sem namorada que lhos queira ler.
Cego de luz, e sempre a olhar o sol
Num aturdido
Deslumbramento.
Cada breve momento
Recebido
Como um dom concedido
Que se não merece.
Ai, a vida!
Como dói ser vivida,
E como a própria dor a quer e agradece.

Miguel Torga
em "Antologia Poética"





imagem: google

Não. Não tenho limites.
Quero de tudo.
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos os meus pecados são mortais.
Todos são naturais
À minha condição,
Que quando, por exceção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder.
Sou uma fome incontida
De viver.
E o que redime a vida
É ela não saber
Em nenhuma medida.

Miguel Torga
em "Diário XIII"


Segredo


imagem daqui

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar

Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar 

Miguel Torga



O adeus


imagem: google

É um adeus ... 
Não vale a pena sofismar a hora!
é tarde nos meus olhos e nos teus ...
Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.
De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,
Só o pode vencer a humanidade
Da nossa lucidez desencantada.
Antes da iniquidade
Consumada,
Um poema de líquido pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada.

Miguel Torga


Noivado


imagem: Anton Surkov

Dá-me outra vez as mãos, recomecemos
O nosso idílio
Continuemos
Enamorados no jardim despido.
Interromper o beijo conseguido
À floração que temos
Era ficar serenamente à espera
Que viesse de novo a primavera
E nós não renascemos

Miguel Torga
em "Diário IV"



Noite


imagem: facepage Fabrica de Escrita

Noite, manto do nada
Onde se acolhe tudo,
Melodia parada
Nos ouvidos de um mudo.

Mãe do regresso, paz
Da batalha perdida;
Seiva morta onde jaz
A renúncia da vida.

Pecado sem perdão.
Aceno sem ternura
Noite, o meu coração
Anda à tua procura.

Miguel Torga
em "Diário III"


sábado, 22 de setembro de 2018

História antiga



Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.
Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

"A Fuga para o Egito" de Eugène Alexis Girardet 


quinta-feira, 8 de maio de 2014

"Conquista"


 imagem: google

Livre não sou, que nem a própria vida 
Mo consente. 
Mas a minha aguerrida 
Teimosia 
É quebrar dia a dia 
Um grilhão da corrente. 
Livre não sou, mas quero a liberdade. 
Trago-a dentro de mim como um destino. 
E vão lá desdizer o sonho do menino 
Que se afogou e flutua 
Entre nenúfares de serenidade 
Depois de ter a lua!

Miguel Torga


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

"Platéia"



Fotografia de Raphael Zanetti

Não sei quantos seremos, mas que importa?!
Um só que fosse, e já valia a pena.
Aqui, no mundo, alguém que se condena
A não ser conivente
Na farsa do presente
Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,
Nem talvez a mais certa,
A da partida.
Mas podemos fazer a descoberta
Do que presta
E não presta
Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira
Quotidiana.
Esta comédia desumana
E triste,
Que cobre de soturna maldição
A própria indignação
Que lhe resiste.

Miguel Torga


segunda-feira, 12 de novembro de 2012




Gosto do mar desesperado
A bramir e a lutar
E gosto de um barco ainda mais ousado
Sobre esta rebeldia a navegar

Miguel Torga
in Diário


quinta-feira, 17 de maio de 2012

"Miradoiro"



Fotografia de Joson

Não sei se vês, como eu vejo,
Pacificado,
Cair a tarde
Serena
Sobre o vale,
Sobre o rio,
Sobre os montes
E sobre a quietação
Espraiada da cidade.
Nos teus olhos não há serenidade
Que o deixe entender.
Vibram na lassidão da claridade.
E o lírico poema que me acontecer
Virá toldado de melancolia, 
Porque daqui a pouco toda a poesia
Vai anoitecer.

Miguel Torga

sexta-feira, 4 de maio de 2012

"Para a Manhã"



Fotografia de Daniella Pagnoncelli

Rosa acordada, que sonhaste?
Nas pálpebras molhadas vê-se ainda
Que choraste... 

Foi algum pesadelo?
Algum presságio triste?
Ou disse-te algum deus que não existe
Eternidade? 

Acordaste e és bela:
Vive!
O sol enxugará esse teu pranto
Passado. 

Nega o presságio com perfume e encanto!
Faz o dia perfeito e acabado!

Miguel Torga


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

"Confiança"



Tela de Marc Chagall

O que é bonito neste mundo, e anima
É ver que na vindima 
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...    
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
muito mais pura
E muito mais nova...

Miguel Torga


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Lição"



Fotografia de Jorge Soares

Ouço todos os dias,
De manhãzinha,
Um bonito poema
Cantado por um melro
Madrugador.
Um poema de amor
Singelo e desprendido,
Que me deixa no ouvido
Envergonhado
A lição virginal
Do natural,
Que é sempre o mesmo, e sempre variado.

Miguel Torga


Interlúdio com ...

Will You Still Love Me Tomorrow - Norah Jones

Will You Still Love Me Tomorrow

Norah Jones

Tonight you're mine completely
You give your love so sweetly
Tonight the light of love is in your eyes
Will you still love me tomorrow?

Is this a lasting treasure
or just a moment pleasure?
Can I believe the magic of your sight?
Will you still love me tomorrow?

Tonight with words unspoken
You said that I'm the only one
But will my heart be broken
When the night meets the morning sun?

I like to know that your love
This know that I can be sure of
So tell me now cause I won't ask again
Will you still love me tomorrow?

Will you still love me tomorrow?
Will you still love me tomorrow?...

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