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27 de mar. de 2011 0 Declarações de outras almas

De novo, da Vida



que eu não sei te dizer com clareza o que se passa (eu ao menos sinto com clareza, e sentir é uma forma de entender em si mesmo o sentido das coisas).o que me é claro, quase resplandecente, é esse medo - um medo do não saber, um medo da falta de certezas, um medo de tanta imprevisibilidade.
um medo de que essa minha vontade de acertar seja sobrepujada pelos (des)caminhos do Acaso, pelos caprichos dessa Vida que, às vezes, me parece uma menina mimada que, dias depois, não faz questão daquilo que esperneou tanto para ter.
um medo do que o Tempo, senhor, resolva fazer com os desejos e sonhos que tenho, arduamente, trazido nas mãos.
e não sei se esse medo é resultado de uma intuição com ares de presságio ou se não passa de uma tentativa maldosa e covarde do próprio medo de me paralisar - e não me deixar dar a cara à tapa à Vida, que é o que de mais sensato e corajoso se pode fazer.
(sei que não estou sendo clara, mas eu não quero clareza, eu não preciso de clareza; o que eu quero é diminuir essa dor...)
ah!, como eu preferia uma postura de expectativa neutra diante da vida.
preferia abster-me dos discursos otimistas tanto quanto dos lamentos niilistas, sempre tão enviesados e baseados em meras constatações pessoais.
preferia render-me à força do imprevisível e admitir: não sei absolutamente nada sobre o que está por vir.
porque tudo não passa de especulação, torcida e fé nos próprios anseios - sempre um salto no escuro, sem garantia de nada. E isso eu vislumbro sem pessimismo, apenas com resignação. E resignação não é fraqueza - é apenas a confissão de que a vida sempre nos ultrapassa nos seus mistérios.


t. prates


Imagem: green and yellow
3 de jul. de 2010 34 Declarações de outras almas

Dos contos-micros


i. Aadúltera
Ela tinha um marido e um amante. Para facilitar as coisas, ambos eram o mesmo homem.

ii. Moça na igreja
A moça na igreja só tinha olhos para o Santo Antônio: pedia um marido. Não reparou no moço que sentara ao seu lado, interessado.

iii. Antipoemapsicótico
Foi-se embora pra Pasárgada num surto. Voltou, num susto, com uma dose de haldol.

iv. Postagenzinha qualquer
Uma frase para tuitar. Uma foto para editar. Um mp3 para baixar. Devagar... as janelas travam. Eta vida besta, meu Deus.

v. Ingredientes
Aprendeu a ser pela dor. O prazer ainda lhe causava certo estranhamento.

vi. Pretexto
Referiu-se à relação deles como "atípica". Podia até ser, mas o coração dela é tipicamente humano, e não se contenta com reles classificações.

vii. Símbolo vazio
Enfiou uma aliança no dedo. De que valia o símbolo, se não sabia sinalizar os pactos por dentro?

viii. Happy end
Ela pediu o divórcio. Ele aceitou. E foram felizes para sempre.

t. prates

Imagem: Ciuri
22 de jun. de 2010 29 Declarações de outras almas

Da felicidade possível


Ela desejava a vida para além do quase.
Ruminava as lembranças agridoces das vivências que construíram seu caminho até o ponto em que havia chegado. Sabia serem essas vivências que haviam delineado a essência do que ela era até ali. "O que eu sou para além da memória de mim?", se perguntava.
O que encontrava na gaveta da memória lhe dava a impressão de que antes (ou depois?) do êxtase (esse instante fugaz e ilusório em que se julga ter encontrado o pote de ouro) alguma coisa se rompia e lhe roubava a promessa da permanência de suas conquistas.
"Felicidade são pontos tremulantes de luz na noite escura", deduzia.
Porque ela tem aprendido que o mais importante passo da vida é o recomeço.
O esforço do recomeço para além da dor da queda. A possibilidade do recomeço para além do medo da dor.
E tem aprendido que ela também é o que pode vir a ser.

t. prates


Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente.
Não ousar é perder-se.

***

A vida só se compreende mediante um retorno ao passado,
mas só se vive para diante.
(S. Kierkegaard)

Imagem: Bella
26 de abr. de 2010 22 Declarações de outras almas

Da reta intenção


Ela queria a inteireza dos que se buscam com intenção reta, ainda que tropecem. Queria um olhar puro e perspicaz que reconhecesse a (im)pureza do olhar alheio.

"Decepcionar-se é surpreender-se às avessas", deduzia.
Porque ela é daquelas que, imprudentemente, procura acreditar com toda a sua vontade na bondade do Outro.
Pensava que só o encontro de duas verdades que aspiram a serem inteiras e autênticas (nunca perfeitas e prontas) possibilita o Encontro real de duas almas.
Acreditava na construção dessa realidade em comum, desde que os alicerces não fossem feitos de areia. E que a intenção fosse seja sempre reta. Sempre.
Paredes tortas arruinam a casa.

t. prates
6 de abr. de 2010 25 Declarações de outras almas

Da canção do fim para o começo possível

Imagem de Chiara Fersini
Ouve, meu amor

: eis que a Vida quis inaugurar em mim uma nova vida – e eu me assustei com a novidade. Preciso do tempo para fazer com que esse novo fique conhecido e um pouco gasto e eu possa olhá-lo com menos estranheza, e para isso é imprescindível certa dose de solidão.

: nessa busca pungente e vital que tenho empreendido pela minha verdade, descobri que padeço do desconhecido do amor – só sei dele o que minha fantasia foi capaz de inventar. No mais, só tive pistas. E descobrir que até hoje eu só havia inventado o amor me desesperou – é como ter vertido dor em vão, ter saudade do que nunca foi - um desperdício da vida (que é o grande pecado).

Mas agora houve a mudança, meu amor (?), e ela veio de onde eu menos esperava – de dentro do mim (no mim existem coisas que o eu desconhece).
Eu, até aí tão inflexível na estrutura, ousei desconstruir tanta coisa, ousei colocar a casa abaixo e visitar o vazio da ausência dos pontos de apoio. Questionei os dogmas que embalavam minha bonança e minha vida segura. Para que?, você se pergunta... Para poder me reerguer sozinha e nova e sã e livre. Li-vre.
E te confesso (como é bom te confessar o que está além da minha nudez óbvia!) que tais descobertas me foram possíveis graças ao desnudamento da própria realidade (a alétheia tão desejada?): os sonhos estão acordando, as expectativas vestem trajes mais transparentes e a fantasia tem se me apresentado como exceção, não mais a regra.

O que eu quero? Eu desejo que o nosso amor (e a própria Vida) seja possível e tangível, sem fábula ou expectativas de perfeição. Não faço questão de alardes, mas de clareza. É esse o meu desejo. Ainda que para isso a gente tenha que inventar o fim: para que o começo seja real.
É preciso reinaugurar a nossa história.

(Não sei se o que vou te dizer é invenção, mas: eu te amo. Se o amor for uma escolha, eu escolheria te amar.)

t. prates



PS: Esse texto foi originalmente escrito para esse blog, mas acabou indo parar na Confraria dos Trouxas essa semana. Resolvi republicá-lo aqui, por fazer parte de um capítulo essencial na história da minha alma.
24 de fev. de 2010 34 Declarações de outras almas

Dos achados

Ela queria contemplar toda a largueza alaranjada do horizonte distante. (Achava um dos momentos mais sensuais da natureza esse encontro mentido entre céu e terra ao entardecer.)
Não queria ser dessas pessoas que decidem o que querem encontrar antes mesmo de sair à procura.
"Felicidade é desfocar", deduzia.
E isso nada tinha a ver com a questão toda e depreciada e combatida de falta de metas e objetivos e sonhos.
É que assim os achados se tornam sempre surpreendentes, à revelia da dor ou prazer que possam causar.

t. prates




"Dá-me luz, ó Deus do tempo!
Nesse momento menor
pr'eu saber seu redor.
A gente quer ver
horizonte distante."
(Marcelo Camelo,
Los Hermanos)
Imagem daqui.
13 de jan. de 2010 39 Declarações de outras almas

Dos quereres


Ela entendia não poder todo querer.
Já quis poder acender a luz para ver do que era feito o escuro. Quis poder tocar nuvem para sentir água em forma de algodão. Quis que a madureza do presente já estivesse presente em longínquo passado.
"Querer não é poder", deduzia.
Porque ela é daquelas que começa a entender que há coisas que existem apenas pela sub-existência de outras; que o desejo, para continuar sendo, nunca pode ser satisfeito por completo.
Por isso a aprendizagem: vê que o prazer da vida só é possível pela falta que constrói o anseio.
Ela se alegra em poder aprender.

"Continuação" das postagens Das reincidências e Das passagens.


A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores
e até infinitos.
(Manoel de Barros)
 
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