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18 de mai. de 2009 7 Declarações de outras almas

Da loucura

Hoje, dia 18 de maio, é o Dia Nacional da Luta Antimanicomial.
Foi em 18 de Maio de 1987, no Congresso de Trabalhadores de Saúde Mental, em Bauru (SP), que surgiu o Movimento Nacional da Luta Antimanicomial. Trata-se de uma ação social, que tem como princípio o fechamento dos manicômios do País, a promoção de um tratamento digno e territorial para todas as pessoas com experiência de sofrimento psíquico e de uma cultura de respeito às diversidades.


Ah, a loucura...
Por que tanto medo dela?
O que ela tem a dizer?
Não é ela mais "normal" do que se imagina?


Drummond diz:
Confronto

Bateu Amor à porta da Loucura.
"Deixa-me entrar - pediu - sou teu irmão.
Só tu me limparás da lama escura
a que me conduziu minha paixão."

A Loucura desdenha recebê-lo,
sabendo quanto Amor vive de engano,
mas estarrece de surpresa ao vê-lo,
de humano que era, assim tão inumano.

E exclama: "Entra correndo, o pouso é teu.
Mais que ninguém mereces habitar
minha casa infernal, feita de breu,

enquanto me retiro, sem destino,
pois não sei de mais triste desatino
que este mal sem perdão, o mal de amar."


Quero deixar aqui também o link de um post meu, antigo, que relata uma experiência de "poesia na loucura", maravilhosa e epifânica....
Poesia na loucura
Fica aqui também o link do
Museu de Imagens do Inconsciente, com o trabalho da genial Nise da Silveira e uma pequena coletânea com poemas de "pacientes".
6 de mar. de 2009 6 Declarações de outras almas

Poesia na Loucura


Mariazinha* é paciente do Ambulatório de Saúde Mental onde sou psicóloga.
Tenho aprendido com minha história e com a maturidade (espero que crescente, pois construída a custo de muita luta) a prestar atenção aos acontecimentos corriqueiros que, não se enganem!, são os que verdadeiramente dão o significado para a vida (já disse Guimarães Rosa que "felicidade se acha é em horinhas de descuido").
E Mariazinha proporcionou-me hoje um singelo e inesquecível instante de poesia + epifania (esses momentos raros em que a gente consegue ver a Vida e sua Beleza com uma claridade óbvia...).
Apesar de ser um centro ambulatorial, ao qual os pacientes comparecem normalmente em horários agendados, Mariazinha tem o costume de fazer-nos "visitas" frequentes e inesperadas. Aparece com seu vira-lata de olhar tristonho, os pés descalços e cheiro de banho "tomado há alguns dias".
Mesmo não sendo minha paciente direta, sua história e "figura" sempre me chamaram a atenção. Portadora de esquizofrenia, os limites entre realidade e fantasia são bastante tênues em Mariazinha.
No seu andar acelerado pelos corredores e salas do Ambulatório, Mariazinha se interte com alguma conversa (seja com outros pacientes, seja com os funcionários). Algumas vezes ela canta.
Algumas vezes ela CANTA!...
Hoje a ouvi cantando para uma das nossas secretárias, que estava recosta ao banco, se refrescando do calor insuportável.
Parei para prestar atenção naquela cena... e fui intensamente tocada.
Deitada no chão, junto com seu vira-lata de olhar tristonho, os pés descalços e cheiro de banho "tomado há alguns dias", Mariazinha cantava para alguém. Cantava com as feições meigas e compenetradas, como que querendo consolar.
Cantava uma canção piegas ("piegas" até então para mim, mas diferente a partir de agora...) que diz:

"Coração, diz pra mim por que é que eu fico sempre desse jeito? Coração, não faz assim... Você se apaixona e a dor é no meu peito... ... E agora o que é que eu faço pra esquecer tanta doçura? Isso ainda vai virar loucura! Não é justo entrar na minha vida. Não é certo não deixar saída. Não é, não..."

Mariazinha cantava, quase que profeticamente, que o amor "ainda vai virar loucura"...
Eu, sozinha, sorri profundamente. Na boca e coração. Enquanto ouvia a voz rouca e desafinada de Mariazinha se espalhar pelas salas frias e feias do ambulatório, eu fui feliz. Mariazinha fez felicidade.


* Nome fictício

T. Prates
22 de jan. de 2009 0 Declarações de outras almas

SIMULTANEIDADE


- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.
(Maria Quintana)
 
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