| "Sentinels" De: Anna Tuomisalo Tirado daqui |
A fronteira começou contigo. No dia em que partiste sozinha, ias construir uma cidade de aparentes sonhos,....
| "Sentinels" De: Anna Tuomisalo Tirado daqui |
Faz saber o azul do corpo,
O carmim dos lábios,
O desânimo da ausencia,....
Faz saber a distância de um passo a mais,
E como é bela a virtude de faltar,
Faz saber pela escrita,
Em versos assaz estranhos,
De pernas disformes e a presença da morte,....
Faz saber que sozinho,
Vales mais que a totalidade da escuridão,...
Faz saber,
E prega assim a ignorância
Tirado daquiEra o fim de um jogo,
O corpo a ser profanado sem regras nem medidas de educação,
A verdade dita sem licenças,
Como se se quisesse iniciar uma escola filosófica,...
Era tudo proveito de um só homem,
Vestido de pele,
Sim caminhava nu na praça principal daquela terra,
Acabavam-se conversas,
Discutiam-se pontos cardeais no céu,
E ele desfilava quase como o vento naquela tarde icónica de fim de Verão,...
Sentou-se lá longe,
Onde o horizonte acabava e a voz dos sem nome não conseguia chegar,
E pensou,
Pensou tanto que a cabeça esvaziou,
A ponto de só assim lhe provir a felicidade que procurava,...
Sim,
Queria ser um néscio,
Mas optou por sê-lo lá longe
Tirado daquiSala de computadores numa siderurgia em Freital, República Democrática Alemã
1981
Foto de Eugen Nosko.
queres gosto
mais sincero
que a boca desiludida,....
os olhos areiados,
um corpo aventado
como desejo,
um sexo que lateja,...
um livro por ler,
duas mãos desencontradas,
um verso volátil,...
o cão fiel,
que é o de hoje e o de sempre,....
e este gosto,
sim,
sincero,
real
De vez em quando alguém toca nas nuvens,
E devolve a razão à terra,
Passam-se horas,
O conceito de tempo desfaz-se como a pele morta de uma pessoa desiludida,...
E do outro lado do mundo,
Assumindo que se está onde já não há sol,
E nos antípodas de onde a neve cai para esconder o sangue,...
Há uma noite inteira de vozes arredondadas
Amedrontadas para defrontar,..
Reescrevo este que é um medo sem sentido,
Fecho o envelope com a ponta da lingua,
E segue como um rasgo de real,
Para que leias quando o acaso o permitir
Hoje esqueci-me do que dizer,
O corpo é uma caixa cheia de olhos,
Que me disseca,
Recalca,...
E a pensar que o mundo,
Começou de um útero,
Calo-me em adoração
Tirado daqui
Fez-me mal ler um livro de memórias,
Tão sangrento,
Visceral até,
Uma escrita da carne e para a carne,
Alongada no tempo mas recolhida no espaço,...
Foram de transpirar notivagas dissertações do autor sobre a luz,
A loucura coartada em raios esporadicos de vingança,
Que invadiam uma pequena casa,
Por todas as entradas possíveis,...
Um livro de memórias delicioso,
Mas nocivo
Uma mão lava a outra,
Soi bem dizerem-se palavras gastas pelo tempo,
Para ela já não,
Um suspiro lavava a angústia do desespero,
A finalidade de estar bela,
Desejável e desejada,
Naquele recanto de mundo de todos os dias,
Agora escapava-lhe,...
Assim como não entendia o som sincopante do mar,
Que parecia estar a vir pé ante pé,
Para a arrastar ao vazio,
Uma mão parecia só servir para acentuar o medo
| Oscar Niemeyer Sem Título, 1987 Grafite, caneta permanente e colagem s/ papel manteiga Tirado daqui |
no fundo as palavras
servem para doer no dedo,
que as aponta,
discrimina,
desmantela,....
são de deixar
apoucadas,
perdidas no caldo ralo
de uma sopa apodrecida,
para aí se desvanecerem,...
e em troca ficamos com o silêncio,
para que sejam horas de tudo
recomeçar,
sem linguagem
Tempestade,
Fazias perguntas estranhas e eu respondia com prosa oculta,
Poesia receosa como eu gostava de lhe chamar,...
Frases sem rumo,
Ideias estranhas e deformadas,
Confissões em cima da mesa,
E as janelas num baque constante,
A dançar ao compasso da fúria descompassada,
Do vento e da chuva,...
Lá mais longe,
O desanuviar caminhava tranquilo,
Sabendo que nos ia encontrar atenuados,
E expectantes de que o normal regressaria
Não sou da tua pele,
Do teu momento,
Nunca fui dois segundos seguidos de chuva no beiral,
E da forma linda como o sol nasce pintado nas paredes gastas do dia a dia,...
Nunca fui de mim mesmo,
De ti,
Das razões fúteis da solidão trespassadas numa simples mão que acena,...
Talvez,
A suposição sempre me definiu,
Seja agora do que o tempo deixa de normal no nosso caminho,
E se esbate nos passos da distância
As coisas estavam sempre dispostas da forma que achava melhor,
O coração longe da vista,
Os olhos ocultados por um cabelo disfarçado e mal composto,...
E o longe,
Um conceito que para ela tinha corpo,
E defeitos como qualquer das poucas pessoas que conhecia,
Isso insistia que estivesse sempre ao alcance dos seus impulsos,...
Era uma mulher desconstruida,
Outrora atraente,
Jamais incomportável para pessoas de fino trato,
E tudo isto não parecia excessivo quando procurava artigos,
Num corredor de supermercado,...
Estaria um pequeno passo adiante,
Dos olhos que insidiosamente a decompunham
a mágoa,
queixamo-nos de nós baixinho, ao volante das nossas pernas
enquanto guiamos pela água fora,
e há um transporte, um sítio onde chove miudinho,
e está uma senhora indefesa ao raiar da manhã,
à espera de qualquer coisa que nunca mais chega,....
refletimos, desnudamo-nos até ao âmago do fel que nos forra o avesso,
e sem que as palavras sejam âncora,
tudo se explica, há uma solidão que se tranveste de dor,
e aceitamos que seguir,
unirmo-nos na ausência,
é o melhor remédio,....
e a mágoa desaparece