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sábado, 22 de fevereiro de 2020
sábado, 6 de abril de 2019
A herança como 'gancho'
Tinha-me fartado de explicar as coisas como elas eram. As meninas de cabelos louros penteados, com as tranças assentes simetricamente nas golas de renda. Os meninos silenciosos, que esgrimiam a violência da revolta longe dos olhos triangulares dos tutores. Os idosos que esperavam a morte caminhando em círculos, ao sol, enquanto o Verão arrendondava a curva assimétrica do planeta. Naquele dia, sentei-me, com metade do corpo à chuva. Envolvi uma pequena sebenta num plástico, para não se molhar e, com dificuldade, com o bico da caneta quase a tocar de soslaio no papel, optei por uma escrita diferente.
O 'gancho' era a história de uma herança. Havia uma propriedade pequena, dava-se a volta aquilo depois de um almoço bem composto. À espera da sorte estavam dois irmãos. Não se falavam. Um chamava-se qualquer coisa, o outro assinava sempre com três nomes, e um sufixo com apóstrofo, porque achava que a vida não devia ser mais nada do que reverências e copos meio cheios de champanhe importado. O pai, o mesmo que lhes tinha ensinado que a vida é demasiadamente curta para ser vivida sem nunca se escrever sobre ela, tinha partido...
E ficara aquilo. Uma coisa cheia de silvas. Com um barraco deformado ao meio, onde os dois tinham-se feito homens com meninas de má vida que lhes tinham escapado por entre os dedos, talvez porque tem mesmo de ser assim. Não se falavam, mas respeitavam-se. Um deixava bilhetes em branco, só com pequenas cruzinhas escritas a preto à porta de casa do irmão. Era código para dizer que gostavam um do outro, e tinham vergonha de o admitir. O outro ia, ocasionalmente, mais nos dias em que o sol nascia tímido por entre as nuvens, passear à porta da casa do irmão, tão lentamente quanto pudesse, para que pudesse ser visto a reverenciar a vontade que tinha de reconciliação. Só que o orgulho estúpido, aquela coisa inútil que não tem braços, nem pernas, nem coração, mas tem um fel tão grande que é capaz de matar mais que a maldade, continuava a ser mais forte.
Veio um senhor da cidade grande. Engravatado, parecia que trabalhava com situações daquelas. O terreno estava registado nos calhamaços oleosos da cidade, e tinha de ter proprietário definido. O homem assentou uma pasta grande, preta, na secretária de casa do irmão mais novo. Pediu-lhe que reconsiderasse. Que tinha de haver acordo. Voltou a sair só com acenos de cabeça em troca. No mesmo dia foi à casa do outro irmão. Viu duas lágrimas furtivas, quase como pingas de chuva na terra mais sequiosa do planeta. Mas só isso...
Os anos passaram. O barraco desabou. O mundo continuava a rodar como sempre o tinha feito. O tempo levava vidas, trazia outras. Os animais serão sempre mais fiéis que as pessoas, e mostravam-no todos os dias. No dia em que a morte veio para o primeiro dos irmãos, o outro arrependeu-se. Sentou-se na cama onde jazia o corpo frio do outro, e não chorou. Pelo menos que se visse. Só se limitou a dar dois suspiros, abrir a janela do quarto onde se fechara sozinho com o amor da sua vida, e atirar-se....
Já não chove. A sebenta molhou-se, mas talvez valha a pena continuar a escrever desta forma
O 'gancho' era a história de uma herança. Havia uma propriedade pequena, dava-se a volta aquilo depois de um almoço bem composto. À espera da sorte estavam dois irmãos. Não se falavam. Um chamava-se qualquer coisa, o outro assinava sempre com três nomes, e um sufixo com apóstrofo, porque achava que a vida não devia ser mais nada do que reverências e copos meio cheios de champanhe importado. O pai, o mesmo que lhes tinha ensinado que a vida é demasiadamente curta para ser vivida sem nunca se escrever sobre ela, tinha partido...
E ficara aquilo. Uma coisa cheia de silvas. Com um barraco deformado ao meio, onde os dois tinham-se feito homens com meninas de má vida que lhes tinham escapado por entre os dedos, talvez porque tem mesmo de ser assim. Não se falavam, mas respeitavam-se. Um deixava bilhetes em branco, só com pequenas cruzinhas escritas a preto à porta de casa do irmão. Era código para dizer que gostavam um do outro, e tinham vergonha de o admitir. O outro ia, ocasionalmente, mais nos dias em que o sol nascia tímido por entre as nuvens, passear à porta da casa do irmão, tão lentamente quanto pudesse, para que pudesse ser visto a reverenciar a vontade que tinha de reconciliação. Só que o orgulho estúpido, aquela coisa inútil que não tem braços, nem pernas, nem coração, mas tem um fel tão grande que é capaz de matar mais que a maldade, continuava a ser mais forte.
Veio um senhor da cidade grande. Engravatado, parecia que trabalhava com situações daquelas. O terreno estava registado nos calhamaços oleosos da cidade, e tinha de ter proprietário definido. O homem assentou uma pasta grande, preta, na secretária de casa do irmão mais novo. Pediu-lhe que reconsiderasse. Que tinha de haver acordo. Voltou a sair só com acenos de cabeça em troca. No mesmo dia foi à casa do outro irmão. Viu duas lágrimas furtivas, quase como pingas de chuva na terra mais sequiosa do planeta. Mas só isso...
Os anos passaram. O barraco desabou. O mundo continuava a rodar como sempre o tinha feito. O tempo levava vidas, trazia outras. Os animais serão sempre mais fiéis que as pessoas, e mostravam-no todos os dias. No dia em que a morte veio para o primeiro dos irmãos, o outro arrependeu-se. Sentou-se na cama onde jazia o corpo frio do outro, e não chorou. Pelo menos que se visse. Só se limitou a dar dois suspiros, abrir a janela do quarto onde se fechara sozinho com o amor da sua vida, e atirar-se....
Já não chove. A sebenta molhou-se, mas talvez valha a pena continuar a escrever desta forma
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