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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Portugal em Greve Geral, 11-12-2025

 

                                                                           Tirado daqui

Para além de pai,
de mãe,
de alça de mala velha,
mais uns passos não hão de
contar,
quando sabemos que não
chegar lá,
é o que temos de certo,…

ficarmos aqui,
enlameados de pés e mãos,
arrependidos,
encardidos e sem trabalho,…

pedaços de pão duro,
numa mala velha,
e um caminho ratado,
e esburacado por fazer

domingo, 8 de setembro de 2024

As gaivotas do fado

 É minha a tortura,

Explico-a em poucas palavras,...


Há um passeio à beira tejo,

A avidez sádica da plebe rodeia os restos de um que desistiu de viver,...


Sigo com o arrulhar do rio,

As gaivotas do fado já se envelhecem a si próprias,...


Um cheiro a envelhecer acompanha-me,

Enquanto me assegura ser a sombra que me falta,.. 


Páro para pensar em tudo e em nada,

Enquanto o anoitecer caminha para mim,

Como a ameaça que sempre foi,...


Não me sinto Pessoa,

Até porque não me acho dono,

De nada disto 

                                                                              Tirado daqui

de: Tatyana Alanis

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

Escrevia fados

 


O meu tio fazia isso de escrever fados,

Era uma segurança e um escape para ele,

Um pequeno bloco servia,

Já envelhecido,...


Com uma caligrafia de esmero,

O homem refugiava-se em amores impossíveis,

Histórias de devoção com muito mar pelo meio,

Desenhava na frugalidade da imaginação homens de trabalho,

De espírito tosco mas respeito à tradição,...


O meu tio nunca me mostrou o seu bloco dos fados,

Agora já não o tenho para confirmar o que sempre supus 

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Carapauzinhos fritos

 


Deixem-me outra vez respirar a escrever,

Há um prato de carapauzinhos fritos sobre a mesa,

Dois copos bacilentos de vinho,

E um cheiro a nozes pulula no ar,

Rir é o que se quer quando se exercitam as falanges,

E com isso se descruzam as pernas vezes sem conta,...


Até que surge o dia,

E há vermes pela casa,

Minutos contados debaixo da pele,

Como se fossem cinzentismos esperados,

E lá vem a escrita,

Com berloques floridos,

Amores perfeitos em jarras,

Que murcham mas simulam a dopamina,

Que se precisa

sexta-feira, 9 de junho de 2023

folhear livro

tinha aprendido a folheá-la,
calmamente dizer não quando era preciso,
de uma lombada que se rasgava,
fazer a possibilidade de um estibordo impreciso
ao largo do mar,.....

a sua pele não eram páginas,
eram costas irregulares de beira-mar,
batidas pela fúria incomensurável de
um mar sem idade,...

e sabia tudo enquanto percorria páginas
de rotas sem sinal,
e de tempo sem destino,
que se fechava no baque poeirento,
da partida sem data de regresso



quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Contar algo

 


Contar esta decisão ao Dâmaso, não o da tragédia do Eça mas o que foi homem até um dia ter parado de vender as melhores cervejas da minha rua, para mínguar sem razão aparente, foi complicado.

Não havia possibilidade de retorno a uma história mal pensada, que se tivesse redigido em cima do joelho.

Ia dizer lhe que estava disposto a trair os meus princípios. Deixar de ser aquele a quem todos gostavam de dar palmadinhas nas costas, para ser o que se preferia ignorar, deixar isolado.

E ia fazê-lo de forma irreflectida, que deixasse marca....

sábado, 7 de agosto de 2021

Mijar amarelo




 


dionísio fazia questão 

em reduzir expectativas, 

ao ler o jornal de arredio, 

começava pelo tempo 

na última, 

depois vinham as palavras 

cruzadas, 

na necrologia havia sempre

 senhoras de óculos de massa, 

e depois na Bola, 

o golo era bastas vezes 

com a mão,...


 lá fora havia 

a rainha que ia aos cavalos, 

depois ficava economicamente 

inquieto com a inflação, 

e o Governo era sempre mau, 

até chegar ao homem que abriu 

as tripas à mulher, 

e depois justificou-se à Guarda,

 no fim vinha a capa, 

os jornais não tinham capa, 

tinham moedas contadas, 

para o dia seguinte 

ser tudo feito outra vez, 

assim se acordasse a mijar amarelo

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Dia da (Des)portugalidade


 

pedia-te, 

o teu corpo não pode 

pesar menos que o vento que nos separa,... 

a tudo, 

ou em  tudo, 

havia o teu sorriso 

de silêncio, 

o que dava olhos 

às nuvens por entre o amanhecer, 

e deixava o sol doer 

um bocadinho menos na pele,....


 só percebeste quando de 

um lamúrio, 

me mostraste a noite, 

já sem forças, 

renovada, 

que parecia querer espalhar-se 

em ti, 

como uma dança inconsequente,.... 


já é tarde, 

e o silêncio impede o 

fortuito de me querer atirar, 

na infinda 

e perpétua frase sem fim

sábado, 1 de maio de 2021

Maiando a 21 de fevereiro

 


Arrumou todas as coisas para partir. Nada mais a agarrava aquele lugar. As galinhas, como serões mal passados em família, pareciam querer indagar a razao, espreitando pelas redes amarelecidas das duas capoeiras.

Tinha duas vacas, e vinte ovelhas para entregar na aldeia, que era a umas boas duas léguas. Amanhou três pedaços de pão envelhecido num saco de pano, uma selha de água cheia até meio, para ficar fresca e deixar a voz pronta a disparar caso fosse necessária. Vestiu as calças que tinham sido do pai, os sapatos do irmão, cardados e russados, que ele lhe tinha deixado antes de ir para além mar. Pegou no apito de cana, que guardava na gaveta de cima do móvel da cozinha. Servia para impedir o tresmalhe de alguma ovelha, caso ele acontecesse. E saiu antes que do céu de zinco começasse a brotar a chuva que se esperava.Não sabia o que a podia esperar. Só tinha de sair dali... 

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Portugalidade Q.B.

 há café quente 

na mesa da cozinha, 

dois ou três pães 

envelhecidos, 

e um naco de chouriço, 

com uma lonjura 

daquele Campo de letra grande, 

que todos temos no sangue,.... 


sombra suficiente 

e ao mesmo tempo 

anuência para que continuemos, 

e eu nem sei a fazer o quê,...

 

há ali ao canto, 

escondido quem sabe, 

um bule de chá, 

penso que será o 

adequado para parar, 

e reflete-se sobre tanto 

nesta vida, 

talvez menos sobre 

a dor de refletir,.... 


se quiseres, 

enquanto o aconchego de 

ter estas peles existir, 

podemos fazê-lo




sexta-feira, 24 de julho de 2020

Conto raso

Uma noite que sentia como aqueles adesivos incómodos que se punha antigamente, antes de se ir para a praia. O sol ia descansar no horizonte, e a pele estava normal.
 Os primeiros urros de coruja, as que são meio de cidade meio de campo descrito num conto atravessado de alentejano, com a planura do escuro a assentar, e a pele já tapada com aquele picotado. Diziam que era para que respirasse, mas sentia-se sempre um sufoco a vestir-se por nós dentro, quase como se de um casaco dos nossos velhos estivéssemos a falar.
E os olhos semi cerravam. Como se fosse o convite que recusava. Como se a minha mãe ainda chamasse para ir tomar banho, e eu a começar a pensar que gostava de poder sair ainda mais sujo do que estava. E ouvi-la, ainda tão presente, a dizer-me para despachar. Porque havia pessoas à espera, porque o meu pai devia estar a chegar do trabalho, e havia um jantar para comer. E sentir-se a mais, com uma pele a começar a borbulhar. O passado pesa tanto nestas ocasiões. Pesa o que se espera dele, e o que haverá de crescer por entre os espaços que ele deixa.


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Quis ir mas não foi

ao jumento do
fim de tarde,
o homem atrelava-se,
temprano,
relinchava impropérios,
com a pinga doce
a pintar-lhe as veias
de arco íris,
subia as mesmas
ruas de sempre,
e em duas vezes
escorregava pelo vómito,
levantando-se sempre
antes de o corpo
apagar o suficiente,
para cair numa cama de hospital,....

 a todos lavava a
alma com desprezo,
fitava o pôr do sol,
esperando que fosse
o último,
mas havia sempre
mais um,
e outro,
e mais outro...

 tudo acabou com uma
decisão de dez réis,...

ia dar cabo da vida,
e fá-lo-ia acompanhado,
juntou o jumento,
e mais um cão,
e dois gatos velhos,
e todos os patos que alguma
vez quis matar e nunca teve coragem,....

e deitou-se no pelourinho
da aldeia num dia
de borrasca de neve,...

na manhã seguinte
 ainda lá estava,...

mas os bichos estavam
como haviam de ir,
congelados....

ninguém quis mais
pensar em maneira
de resolver este embrulho


segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Maio,...até morrer

como cantava Maio,
dizia de Zeca o que o povo
se esqueceu,
trazia o milho moído nas gargantas
secas da mães,
e fazia de um lagar de vinho,
o prazer acintoso das crianças
desviadas do amor,....

Maio cantava ao desbarato,
partia aos bocadinhos a sorte
invisível,
distribuía livros de páginas brancas,
recitava versos,
sem sentido e sem cor,...

como Maio cantou até morrer,
tudo acabou no arco íris
do estio,
com chuva


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Dizia-se escritor

Arranjava todas as desculpas para se dizer escritor,...

No meio das indecisões,
Após o amor e as despedidas sem cor,
No fim de um caminho sem pedras,
Dizia-se o Tolstoi suficiente,
A Marguerite que se escondia num par de calças,...

Tantas anotações que um dia frisou
a morte de cada personagem,
Alongando o anonimato de não querer viver para a posteridade

sábado, 11 de maio de 2019

Não nos tomem como a razão

Era a nós, reserva moral daquele grupo de homens, que nos vinham fazer sempre as mesmas perguntas. Se as caras dos políticos mudassem, nós tínhamos de considerar se naquele local esquecido, onde até à luz entrava à vez porque se perdia nas contracurvas das ruas sem nome, ainda poderiam nascer mais crianças. Todos se achavam esquecidos. As mulheres, em grupo, resolviam ir embora de tempos a tempos porque fartavam-se, simplesmente, da incapacidade dos homens em tomar iniciativa. Havia o camponês que só plantava tomates, porque achava que uma estufa preservava melhor a essência dos pais que tinham morrido havia anos num choque de carro ali mesmo ao lado e, segundo ele, se tinham evaporado pelos poros daquela terra barrenta e com cheiro de dia de primavera.  Havia o professor sem crianças para ensinar, e que passava os dias a contar os poucos tostões que lhe restavam e assim conseguir comprar pão ao padeiro. Esse trabalhava de preto pois achava que a mulher, que se tinha ido embora com o filho de pouco juízo que ambos tinham gerado, nunca mais ia voltar.


domingo, 5 de maio de 2019

O 'Marquês' morreu em Pombal (Parte II)

Umas horas antes do último suspiro, chegara a casa trôpego, com dificuldade em andar. Arrastava dois sacos grandes de serrapilheira, carregados de pinha para acender o lume. Pela noite já refrescava. O vizinho, Manuel de Távora, que nunca tinha morrido de amores pela pessoa, estranhava-lhe a dificuldade em respirar. A mão no peito, quase como se o coração pudesse saltar da boca, e estatelar-se no meio do chão, a saltar até se ficar. Os dois viviam, cara com cara, quase peito com peito, há mais de não sei quantos anos. Um dizia que o outro vivia à conta da paróquia. O outro recusava-se a olhar para cara do vizinho. Sebastião guardava mais fel pelo vizinho. Não sabia explicar porquê. Aquele nome soava-lhe a rico, pessoa que tinha tudo de mão beijada, e não precisava de lutar por nada para que o tempo corresse de feição. E além disso, insistia em chamar-lhe Marquês. Sem que ele nunca tivesse percebido porquê. Um dia, quase chegaram a vias de facto. O Távora pisou-lhe o pé no mercado das hortaliças, mesmo no centro do Pombal, Sebastião olhou-o nos olhos, e rosnou. Távora riu-se, e chamou-lhe baixinho qualquer coisa que não deu para perceber, mas que espalhou veneno pelo chão. A partir daí não houve mais fala possível.
Só que naquele dia tudo parecia diferente....(Continua)

sábado, 4 de maio de 2019

O 'Marquês' morreu em Pombal

Sebastião José de Carvalho e Mellos morrera como tinha nascido. Sozinho. O corpo tinha acabado de ser encontrado estendido num terreiro, salpicado de sal. A melena encaracolada, grisalha, penteada sem enlevo, encontrava-se espalhada pelo chão. Parecia sem tom. A pele ficava baça, como os jornais velhos que se guardam em casa. Junto aos olhos ganhava um tom de amora, que se acentuava à medida que o tempo passava, e as pessoas do bairro se entrecostavam em redor do corpo, lamentando o passamento de uma pessoa tão boa, que até tinha ganho fama durante anos como a alma mais caridosa para os animaizinhos do concelho.
Sebastião morrera de morte ainda não explicada. Não chegara a velho. Tinha feito planos para se mudar, quando percebeu que ia acabar os dias sozinho. A coisa tardou, porque no banco atrasavam-se a desbloquear as poupanças que a mãe lhe tinha deixado, antes de partir. Era coisa pouca. Uns cinco mil contos, ainda pela moeda antiga, e dois documentos de posse de terrenos por limpar, nos limites do concelho.....(Continua)

Imagem relacionada


Tirado daqui



domingo, 28 de abril de 2019

Abril dias depois

abril dias depois,
dois homens falam na mais
univoca rua da história,
e um choro constante devassa
as entranhas vindo da terra,
temperado a nuas promessas
de abundância,...

de cima não se luta pelo pão,
nem somente por duas indissociáveis
questões ideológicas,
só com o silêncio se percebe o futuro morto destas farsas 

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Portugal leitor

há uns anos o Portugal leitor deitava-se
angelical,
de resto nada sobrava para que o dia
corresse ignoto,
só as suficientes estradas que desabam
de pobreza,
alguns não sei quês de famílias falidas e
que deixaram de ler,
e no meio disto tudo havia escritores irrisórios,
que se esforçavam pelo realismo,
quando do realismo nada mais tiramos
que o espaço entre as metáforas,..

e só resta nada menos que o suficiente,
para que o Portugal leitor renasça
analfabeto