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sexta-feira, 24 de julho de 2020

Conto raso

Uma noite que sentia como aqueles adesivos incómodos que se punha antigamente, antes de se ir para a praia. O sol ia descansar no horizonte, e a pele estava normal.
 Os primeiros urros de coruja, as que são meio de cidade meio de campo descrito num conto atravessado de alentejano, com a planura do escuro a assentar, e a pele já tapada com aquele picotado. Diziam que era para que respirasse, mas sentia-se sempre um sufoco a vestir-se por nós dentro, quase como se de um casaco dos nossos velhos estivéssemos a falar.
E os olhos semi cerravam. Como se fosse o convite que recusava. Como se a minha mãe ainda chamasse para ir tomar banho, e eu a começar a pensar que gostava de poder sair ainda mais sujo do que estava. E ouvi-la, ainda tão presente, a dizer-me para despachar. Porque havia pessoas à espera, porque o meu pai devia estar a chegar do trabalho, e havia um jantar para comer. E sentir-se a mais, com uma pele a começar a borbulhar. O passado pesa tanto nestas ocasiões. Pesa o que se espera dele, e o que haverá de crescer por entre os espaços que ele deixa.


sábado, 11 de maio de 2019

Não nos tomem como a razão

Era a nós, reserva moral daquele grupo de homens, que nos vinham fazer sempre as mesmas perguntas. Se as caras dos políticos mudassem, nós tínhamos de considerar se naquele local esquecido, onde até à luz entrava à vez porque se perdia nas contracurvas das ruas sem nome, ainda poderiam nascer mais crianças. Todos se achavam esquecidos. As mulheres, em grupo, resolviam ir embora de tempos a tempos porque fartavam-se, simplesmente, da incapacidade dos homens em tomar iniciativa. Havia o camponês que só plantava tomates, porque achava que uma estufa preservava melhor a essência dos pais que tinham morrido havia anos num choque de carro ali mesmo ao lado e, segundo ele, se tinham evaporado pelos poros daquela terra barrenta e com cheiro de dia de primavera.  Havia o professor sem crianças para ensinar, e que passava os dias a contar os poucos tostões que lhe restavam e assim conseguir comprar pão ao padeiro. Esse trabalhava de preto pois achava que a mulher, que se tinha ido embora com o filho de pouco juízo que ambos tinham gerado, nunca mais ia voltar.


domingo, 5 de maio de 2019

O 'Marquês' morreu em Pombal (Parte II)

Umas horas antes do último suspiro, chegara a casa trôpego, com dificuldade em andar. Arrastava dois sacos grandes de serrapilheira, carregados de pinha para acender o lume. Pela noite já refrescava. O vizinho, Manuel de Távora, que nunca tinha morrido de amores pela pessoa, estranhava-lhe a dificuldade em respirar. A mão no peito, quase como se o coração pudesse saltar da boca, e estatelar-se no meio do chão, a saltar até se ficar. Os dois viviam, cara com cara, quase peito com peito, há mais de não sei quantos anos. Um dizia que o outro vivia à conta da paróquia. O outro recusava-se a olhar para cara do vizinho. Sebastião guardava mais fel pelo vizinho. Não sabia explicar porquê. Aquele nome soava-lhe a rico, pessoa que tinha tudo de mão beijada, e não precisava de lutar por nada para que o tempo corresse de feição. E além disso, insistia em chamar-lhe Marquês. Sem que ele nunca tivesse percebido porquê. Um dia, quase chegaram a vias de facto. O Távora pisou-lhe o pé no mercado das hortaliças, mesmo no centro do Pombal, Sebastião olhou-o nos olhos, e rosnou. Távora riu-se, e chamou-lhe baixinho qualquer coisa que não deu para perceber, mas que espalhou veneno pelo chão. A partir daí não houve mais fala possível.
Só que naquele dia tudo parecia diferente....(Continua)

sábado, 4 de maio de 2019

O 'Marquês' morreu em Pombal

Sebastião José de Carvalho e Mellos morrera como tinha nascido. Sozinho. O corpo tinha acabado de ser encontrado estendido num terreiro, salpicado de sal. A melena encaracolada, grisalha, penteada sem enlevo, encontrava-se espalhada pelo chão. Parecia sem tom. A pele ficava baça, como os jornais velhos que se guardam em casa. Junto aos olhos ganhava um tom de amora, que se acentuava à medida que o tempo passava, e as pessoas do bairro se entrecostavam em redor do corpo, lamentando o passamento de uma pessoa tão boa, que até tinha ganho fama durante anos como a alma mais caridosa para os animaizinhos do concelho.
Sebastião morrera de morte ainda não explicada. Não chegara a velho. Tinha feito planos para se mudar, quando percebeu que ia acabar os dias sozinho. A coisa tardou, porque no banco atrasavam-se a desbloquear as poupanças que a mãe lhe tinha deixado, antes de partir. Era coisa pouca. Uns cinco mil contos, ainda pela moeda antiga, e dois documentos de posse de terrenos por limpar, nos limites do concelho.....(Continua)

Imagem relacionada


Tirado daqui



sábado, 20 de abril de 2019

Amor alagado em ódio (Parte final)


Perdoou-lhe. Não tinha muitas amigas, mas dedicava-se a ouvir as conversas das mulheres mais velhas. E uma coisa fixou. Em casa, a submissão ajuda a passar o tempo. A educar os filhos. Dedicou-se a tentar ajudar mais o seu homem. Esmerava-se no vinco das calças, aos domingos, para irem todos à missa ouvir a homilia do senhor Prior. A marmita do trabalho era arrumada com enlevo. Só com coisas que sabia que Afonso gostava. Um dia até lhe fez uma sanduiche com mortadela italiana. Uma coisa cara. Afonso só lhe deu um sorriso desmaiado, quando lhe perguntou se tinha gostado. Mas o mal não parou. Vinha sempre depois de noites na taberna. Os miúdos dormiam no quarto, e Amélia aguentava os gritos. Arrastava o homem, com os copos, para o alpendre do quintal. Ele não era de muitas palavras. Só lhe dava murro, após murro, após murro. Amélia aguentava tudo, a chorar baixinho. Pensou em fugir. Levar as crianças para fora da aldeia. Esconder-se num sítio tão longe, que ele nunca mais a iria encontrar. Depois falou, ao de leve, aos pais o que se passava. Os dois ficaram tão assustados, que rezaram com a filha, e nem sequer tocaram mais no assunto.
Amélia voltava a casa sem forças. Perdeu peso, não comia. As pessoas da aldeia perguntavam-lhe o que tinha. Apontavam, sem usar as mãos, para o nariz partido de uma jovem que se desvanecia, depois de suspirar beleza durante anos a fio. E tinha os braços pintados de roxo, sem que uma palavra o pudesse justificar.
Afonso andava embeiçado por uma cigana dos arredores. Sabia que a vida poderia esvair-se, um dia qualquer, no cano de um revólver dos irmãos da moça. Mas era mais forte do que ele. Todos os colegas tinham arranjos por fora. E ele não podia ser diferente. Prometeu à rapariga que fugia com ela, mas nunca arranjou coragem. Chegou a casa todas as noites, com um peso na consciência tão grande, que a única coisa que sabia fazer era faltar ao respeito à mãe dos seus filhos.
Comprou uma arma, um dia, sem saber porquê. Levou-a para casa, escondeu-a debaixo de duas pedras, ao pé do canteiro das flores. Estava tão bem embrulhada em panos, que nunca ninguém iria perceber o que ali estava. Os dias passavam, e sabia que queria parar com o que estava a fazer. Ia, de vez em quando, normalmente aos finais de tarde, à Igreja. O mesmo padre que o tinha batizado, que o tinha casado, continuava ali. Envelhecido, doente, capaz de andar agarrado titanicamente a um andarilho. Mas sabia que só sairia dali, um dia, num caixão. Afonso sentiu confiança para falar com o prior. Mas ouviu mais do que disse. O funcionário de Deus, como gostava de se chamar, percebeu que estava prestes a perder um matrimónio na Paróquia. Mas só se podia socorrer das palavras, e dos conselhos que o Evangelho dá. Nada mais.
Um dia, à saída da paróquia, Afonso teve um acidente grave. A mota com que andava há muito tempo foi abalroada por um carro, e deixou-o com um corpo desfeito. Sem uso.
Recuperou, Amélia esteve sempre lá. Adorou-o como sempre tinha feito. Descreveu todos os passos do amor que ainda a unia a ele, como sempre tinha feito. Afonso acalmou, até que um dia, só de humedecer os lábios numa cerveja na taberna da aldeia, no primeiro dia em que conseguiu sair após o acidente que quase o matou, os demónios voltaram.
Mandou Amélia sentar-se na mesa da sala. Foi ao quintal, desenterrou a argamassa de panos que só ele sabia onde estava, e que só ele sabia o que continha, e pegou no que lá estava dentro. Pousou aquele bocado de metal na mesa, e sentia que tinha a mulher que lhe suportara grande parte da sua vida adulta, nas mãos. Os miúdos estavam com os avós. Pensou em acabar com tudo. Pegou naquilo, Amélia sentia o frio do aço encostado à cabeça. Afonso tinha perdido o pai há pouco tempo. Já nada o prendia à razão do passar dos dias. Apertou o gatilho. Amélia estava tranquila, tombada sobre a mesa. O rosto, que um dia lhe prendera a razão e os olhos, repousava no meio de tanto vermelho vivo. Afonso parecia não perceber o que tinha feito. Tremia, com aquele pedaço de metal nas mãos. Sentou-se na cama, a olhar para o chão. Pensou no primeiro beijo. No dia do casamento. Na alegria, minguante, quando conheceu o primeiro, o segundo, e o último filho. Nas andanças porque passou para conseguir ser homem, e responder às exigências de ser chefe de família, e pôr comida na mesa, e ser respeitado por o fazer.
Foi ao quarto dos filhos, que nem ouviram nada. Olhou para a cara de cada um deles, e acariciou as crianças que tinham acabado de perder a mãe, por sua culpa. Encostou a arma à têmpora, e carregou. Nada aconteceu. Tinham-se acabado as balas. Percebeu que não tinha de morrer. Tinha de assumir o que acabara de fazer.
Nos tempos que se seguiram, a aldeia que fora a mesma de tantas outras, esvaziava-se de sentido. De alegria. De vontade de prosseguir a rotina de sempre. Nunca tinha acontecido nada ali, assim, tão sem explicação. Os filhos de Afonso e Emília ficaram com os avós. Tornaram-se os meninos da má sorte. O assassino da mulher ainda está na cadeia, enquanto se escrevem estas palavras tão ficcionais, como o que a realidade permite. E a vida continua…

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Amor alagado em ódio (parte II)


Foram os dois, lado a lado, com vontade domada de dar as mãos, a contornar as poças de água que empapavam o caminho para fora daquele terreiro. Ele acompanhou-a a casa na primeira noite. Prometeram voltar a ver-se. Seis meses depois estavam noivos. Ela tinha dezasseis anos, com os dezassete prometidos para um trabalho no Lar de velhotes da freguesia. Não quis estudar, porque dizia que não tinha cabeça. Ele ajudava o pai numa loja de ferragens, mas queria ser músico. Foi o padre que os tinha batizado a ambos, quando o destino parecia que nada ia fazer para os juntar, que os uniu para todo o sempre. Não demorou para que Amélia cumprisse o destino das mulheres da terra. Ser mãe jovem. Um, dois, três meninos. Todos saudáveis, rosados. Os pais davam uma ajuda a criar. Ela não recusava a maternidade, mas preferia ouvir músicas de amor na rádio, todo o dia. Afonso trabalhava, e à noite cantava para Amélia. As músicas falavam de mundos sem cor. Onde as pessoas eram felizes, e não havia dinheiro. Tudo se pagava com amor, e caminhos mão na mão até à velhice, e ao que viesse depois.
Os meninos foram para a escola, e o dinheiro não esticava. Afonso ainda foi trabalhar para Espanha. Ajudava numa herdade, na apanha da azeitona e mais o que surgisse. Amélia cosia roupa, e tomava conta de velhotes. Sempre os velhotes. As coisas mudaram quando ele voltou. Não tinha o mesmo apego à casa, a deitar-se com ela de noite, e jurar-lhe coisas de amor bordadas a luz, que a deixavam tão feliz. Não explicava porque tinha mudado. Só passava menos e menos tempo em casa. Amélia não conseguia chorar em frente a ninguém. Só olhava para um gato velho que a ia visitar, de quando em vez, às portas da cozinha, e soltava lágrimas que a pareciam deixar pintada de noite, e com os olhos feitos lua em tempo de invernia.
A primeira falta de respeito, como lhe chamava de si para si, veio numa vinda da taberna. Afonso já devia ser um alcoólico, era o que pensava no meio da pouca cultura que ainda lhe restava. Na televisão diziam que tinha de se começar a usar uma nova moeda, que vinha lá da Europa. Ele perguntou-lhe porque é que ela o olhava assim. Ela baixou a guarda para o chão. Foi então que só se apercebeu de um vulto, que baixou sobre a sua cabeça. Doeu-lhe no corpo, e na alma. Caiu indefesa no chão. Não conhecia o homem que destilava fel contra ela. Os miúdos estavam com os avós. Afonso retirou-se, e voltou a chorar. Pediu desculpa. Disse que a amava, e iria amar para todo o sempre. Ajudou-a a levantar-se. Cheirava tanto a álcool, que Amélia quase conseguia contar as cervejas que tinham feito dela, umas horas antes. (segue)

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Amor alagado em ódio (parte I)

O barulho foi ao mesmo tempo assustador, e revelador. O metal da arma desenhou um som agudo, estridente mesmo, quando assentou no vidro do tampo da mesa. Afonso fechava o punho, os olhos estavam semicerrados,… Vestia a roupa com que normalmente sentia sair de si próprio. Um casaco preto, muito ruçado, logo assustadoramente velho. As calças que o pai lhe tinha deixado só há duas semanas, antes de dar o último suspiro, e lhe dizer para perder a ânsia de se deixar dominar por um génio que parecia viver dentro dele. Nos pés, umas botas novas. Castanhas claras, que lhe tapavam os tornozelos negros do trabalho no campo. Ao lado, sentada numa cadeira, de cabeça baixa, Amélia Cristina, menina prendada da aldeia onde os sonhos não entravam porque toda a gente os recusava, pedia que o tempo passasse depressa para que o pesadelo acabasse. O homem que ainda amava pedia-lhe uma razão para que a vida dos dois não acabasse, sorvida pela precipitação das decisões mal pensadas. Amélia chorava silenciosamente.
 Ainda se lembrava de quando o tinha conhecido. Fora na festa de uma aldeia, a meio caminho da casa de ambos,…há tanto tempo que já parecia pouco. Ele era assustadoramente bonito. Se por um lado achava que, um dia, iria dar-se mal por entregar-se nas mãos daquele homem, por outro não hesitou. Ele sorriu-lhe, de uma forma intermitente, tímida, ao longo do que parecia uma eternidade. Ela simplesmente não esboçou reação. Só olhava para o céu, à espera que nas estrelas se desenhasse qualquer coisa que a ensinasse a sair dali, e a voltar para uma existência anónima. A chuva pareceu precipitar tudo. Ela abrigou-se debaixo do telheiro da capela da aldeia. Ele seguiu-a e apresentou-se:
-Afonso, como o primeiro Rei de Portugal!!!
Arrancou-lhe o primeiro sorriso, envergonhado mas sincero. Parecia uma coisa em crescendo que ali se construía. Parou de chover. Veio a mão cavalheiresca para a ajudar a descer do estrado onde se abrigara. Perguntou-lhe o nome. Respondeu, baixinho, Amélia. Estava cheia de frio. Acreditou, ao sair de casa, que o final de Verão do interior ainda continua a ser Verão. Mas, naquela noite, já o Outono se aproximava para desmentir tudo. (segue)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

História de uma servidora

- O senhor engenheiro gosta dos fatos com goma nas golas da camisa, e as calças bem vincadas,..
Ouviu anos a fio a mesma recomendação. Era dada por um homem de meia idade, com uma apresentação desalinhadamente aprumado. Cabelo rapado, com a cabeça repleta de pequenos pontos pretos que, de tão minúsculos, davam ideia de que o homem tinha um formigueiro que se renovava a todas as semanas. O colarinho tão apertado, que deixava quase dois outros homens saltarem para fora, e deixavam-nos bastante encarniçados....


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Primeira de novembro (Diz que é um conto de Natal)

Disseram-lhe que ela iria desaparecer. Sem escrever qualquer carta. Nem sequer esvaziar as gavetas de casa, as tais, muitas que nem fechavam porque as combinações de seda emperravam as dobradiças, e sofriam com aquele um ou outro frasco de perfume caído da caixa de casquinha que estava em cima da cómoda. Só ia sair, para provavelmente nunca mais voltar. Há uns tempos, as velhotas do mercado ouviram-na a choramingar sozinha, quando entrava de cesto de verga na mão para as compras do sábado de manhã. Não é que a conhecessem muito. Mas mulher cansada de viver, gosta de dar com o olho em cabelos sedosos como ela tinha. E a pele branca, como se fosse o último copo de leite que Jesus bebeu no domingo de Ramos. Perguntaram-lhe o que tinha e ela, a princípio, nada disse. Apoiou-se na mármore da banca do peixe. Os dedos muito avermelhados por entre as cabeças dos pargos. Parecia que ia desmaiar. Até houve quem se oferecesse para chamar uma ambulância. Mas ela aguentou-se em pé, apesar das pernas tremerem por entre a saia de folhos, que dava aquele dia de verão um ar de primavera mal redigida pelas mãos de um poeta. Foi aí que alguém a ouviu dizer que se ia embora de casa. Porque sim. 
E foi. Naquele dia, quando o céu já marcava os restolhos de fogo próprios de um dia de estio, ele chegou a casa desanimado. Pressentindo o pior. Ela não estava. A casa estava arrumada como habitualmente. O quarto de porta fechada. A mesa da cozinha alinhava com as cadeiras de madeira clara. Na sala uma escuridão baça parecia conversar com os raios de sol que entravam pelas frestas dos estores da janela. Ela não estava em lado nenhum. Soube que a vida teria necessariamente de mudar. O que era a cola que lhe juntava a madeira da vida desaparecera.
As semanas foram passando, e ele fechava-se como um caranguejo que repousa na rebentação, apenas com a carapaça como proteção.
O Natal já lá vinha no calendário, e alguém lhe disse que ela tinha sido vista. Passeava no jardim da cidade vizinha. Cabisbaixa. Tinha cortado o cabelo, aquele que tinha sido o seu tesouro de seda, como gostava de lhe chamar. Carregava na mão uma pequena mala preta, e andava em ziguezagues, sem destino.
Na véspera de Natal ele chegou do trabalho para uma casa vazia. Sentou-se no sofá da sala, ouvindo a chuva e o vento que lá fora arranhavam as paredes do prédio, recusando-se a ceder ao silêncio da noite. Pensou que não se recordava de qualquer prenda que desejasse mais do que ela, a bater-lhe à porta, com o mesmo sorriso que anos antes lhe tinha servido de chave a um coração fechado. 
Adormeceu, e só acordou na manhã seguinte com a luz do sol a acariciar-lhe o rosto, quase como se quisesse secar-lhe as lágrimas que cosiam uma segunda pele em redor de uma triste redoma.
Saiu para a rua, pronto para qualquer coisa que a vida lhe trouxesse. Era manhã de Natal, e andou minutos a fio sem encontrar ninguém. Chegou junto a um parque que sempre tinha adorado. Foi ali que a tinha conhecido, há mais tempo do que aquele que agora conseguia conceber.
E foi então que, fitando o horizonte, viu algo a aproximar-se. A princípio era um ponto indefinível, ate que....
Parecia que a brisa lhe tocava a música sem nome que, não era só dele.
Primeiro os cabelos, agora curtos, depois a pele reluzente naquele sol de fim de ano, e depois um sorriso renascido. Sim, era ela. Olharam-se sem que a palavra fosse uma prioridade naquele momento. Ela pegou-lhe na mão direita, e colocou-a no coração. Sorriram um para o outro. Regressaram de mão dada a casa. Ele percebeu que tinha de ser ela a explicar. Mantiveram-se em silêncio, a olhar um para o outro, até que a ela lhe saiu dos lábios:
‘Percebi que quando morrer te vou perder para sempre. Não consegui suportar isso’
Ele pegou-lhe na mão, quase como se pedisse desculpa por ser um indutor de sofrimento, e continuou num silêncio cúmplice.
Lembrou para si mesmo que era Natal, e tinha uma prenda que nunca havia perdido...

sábado, 31 de dezembro de 2011

Último post de 2011 (O quarto esférico do fim)

Sentava-me muito quietinho em cima de uma cadeira mínima. Os pés daquele rebordo de boneca eram trémulos, e estavam assentes como que por incerteza no chão de azulejo na sala onde havia nascido, 40 e tal anos antes. Gostava de me apresentar, nestes preparos, como o anfitrião dos receios das pessoas. Não que o desejasse. Até me achava boa pessoa. Com desejos ocasionais por chocolate, e a incerteza que isso dá em termos de contacto produtivo com um semelhante. Mas atraía o receio...

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

...i don't hate myself and i can't write #2


Gostava de se esparramar pelo chão encardido daquela pequena divisão da casa. Lá fora era tudo quadriculado. Os azulejos da frontaria da vivenda pareciam a batalha naval. As pessoas, de tão tristes, tinham caras esquálidas, quadradas mesmo. E até as árvores mortificavam tudo com a morte que já lhes tinha sido diagnosticada. Isto tudo, com um homem a espreguiçar-se, quase diariamente, assim despreocupado. Haveria qualquer coisa quando a tarde caía, e a noite se aproximava, pé ante pé, que o levava a soltar-se desta forma. Se calhar seriam auto-análises prontificadas por vontades, indefinidas, de se sentir acompanhado na maior das solidões que professava. Seria o senhor qualquer coisa, quando rebolava, quadruplicava quase a alegria de vida em largas e profundas risadas. E tudo sem música. E tudo sem assistência. Só pelo simples prazer de continuar com a vida para que a vida não acabasse num sopro de morte que ficaria irresolúvel nos contornos do tempo que um dia se acabará.
O ritual parecia precipitar-se para um fim, porque repetitivo, quando alguém o descobriu. Começou por ser um par de olhos amendoados, castanhos, vulgares, a espreitarem pelos rachas irregulares da portada da janela daquele pequeno teatro de emoções. Depois passou a cheiro. Um nariz deformado, mas curioso. E depois uma boca arfante, e que fumegava no vapor húmido das noites cada vez mais frias. E aquilo parecia combustível....

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Retalhar I


Destapada estava aquela pequena parte do coração que o vento trouxera ao entardecer. Era indecifrável a forma como as coisas se dispunham no chão, à beira de mais um passar de ano no bairro de todas as perdições. Havia um senhor esfericamente impreciso, que escrevia debruçado no degrau calcário da casa onde se aprestava a ganhar a eternidade. Adivinhavam-se grandes coisas de todo aquele silêncio que se permitia a si próprio, mas era o vento, o mesmo amparador da santidade indefinida daquela porção de coração, que o parecia desconcentrar. Mais à frente, um gato, ou o que parecia ser uma criatura carinhosa, acinzentada, e faminta, observava-o resfatelado silenciosamente em bocados de jornais das semanas que ali se foram desfazendo. Ali assim, perfeitamente balanceada no dispôr aparentamente caótico destas coisas, outra porção do passado de alguém pendia de um desnível na escadaria da igreja. Era uma carta, num papel amarelecido, só com um bocado de folha. Passando ao redor aparentava tranquilidade na forma como bailava à aragem, e nela o papel deixava entrever riscos certos e seguros de um punho que disse qualquer coisa, a qualquer pessoa. Afinal de contas, o sol já se pôs, e o homem continua a escrever. Quem observa podia fartar-se desta realidade. Mas narrar passa sempre por supôr. Encontrar pequenas concomitâncias na forma como o tempo corre devagar, para depois se lançar na montanha-russa das descrições sem sentido. Não parece ir a nenhum lado esta situação.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Canto aplicado ao escuro I

Nos olhos, naqueles afundados lagos negros de choro, estava o jeito para cantar. Viam-se pombas brancas a voar nos dias em que quase chovia, antes de fazer sol, e todas sorriam. Morava sozinho, naquele canto de rua suja que os escritores gostam de descrever indeterminadamente, sem nunca conseguir dizer nada que as pessoas percebam. Comia só o suficiente para o ar vencer a resistência dos pulmões mirrados, e o resto do tempo passava a sonhar. Influenciado até pelo palpitar do coração da terra, definia-se como o herdeiro solitário da escapatória que Deus deu ao canto do universo, quando criou este planeta. E, para tanto, cantava até um sangue esbranquiçado lhe sair da garganta. Cantava aos céus, aos lagos mortos pela perfídia do homem. Aos animais desaparecidos e infelizes que começavam a tornar o local onde morava insuportável, e até à sombra que amava como mulher. Guardava, para ela, um acinzentado caderno de apontamentos poéticos. Coisas sem importância, sem métrica, nem poeira que ensombre os olhos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Princípio de qualquer coisa....

O fumo saía da chaminé, lambendo o oxigénio ao ar taciturno daquele final de tarde. Desenhavam-se coisas a elas mesmas, quase que numa circunferência mutante, em abraços consequentes às paredes amareladas da casa. No centro, uma mesa espessa, de mogno tímido e já desgastado. Daqueles objectos defuntos, sem préstimo, mas que se imiscuem nas histórias sempre por este ou aquele motivo. O napron ratado, de renda de bilros, dava-lhe um ar corporativo. Soava a sociedades atrasadas e retrógradas, apenas na forma como o vento roçava-se nos pés nus e indefesos do objecto. Havia uma música. Tristezas decompostas, que se soltavam indistintamente em nuvens invisíveis, mas sólidas. Sentia-se mais qualquer coisa indefinida, e sem cheiro....

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

À espera de um bom título para o amor



Esperou pelo momento determinante naquela sonda de equívocos. O mesmo chegava quando o pêndulo do relógio da praça parava de bater e, sempre de seguida, abasteciam-se os ouvidos das pessoas de latidos dos cães vadios. Não se sentia uma pessoa normal. Só queria namoriscar conforme tinha aprendido com a pessoa que admirava por correspondência. Com um banquinho de madeira de pinho na mão.
Não precisava de mais.
O esqueleto deformado por causa das febres pesava-lhe só quando o álcool oleava as dobradiças, o que não era o caso naquela tarde. Escolheu a árvore que vira plantar por um génio inconformado da poesia abstracta. A mesma que, pela sua origem intelectual, repousava morta aos abanos do vento assuão das tardes daquele recanto de cidade-estado. Assentou a alma, depois o corpo, depois o espírito, depois a capacidade criativa, e só no fim o 'ai' com que brindava todos os momentos com que sonhava previamente.
Erecto, com a espinha hirta, ou pelo menos em vias disso, assentou o calcanhar direito na rótula esquerda. Ao longe, o luar. Sempre com vento. Esperou, adiantou-se por entre o que ansiava ser o final de tarde perfeito de espera pela pessoa certa, até que ela chegou.
Mas não parou.
Nem olhou.
Só chorou.
Ele escreveu.
Iria dizer adeus, a tudo o pouco que tinha comprado. Mas fá-lo-ia com um bilhete de despedida.
Tinha aprendido noções de sânscrito com o monhé do rés-do-chão entretanto regressado à pátria-natal, e por isso homenagearia as ansiedades que normalmente pintam a morte de escarlate.
A cor dos balanços cínicos.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Pintei uma colher

Estava escrito a acre. Com rebordos de dourado, mas já muito sumido. Era perceptível só a quem lesse de muito perto:
"Deus perdoa a quem se atreve. Os resignados, pintam"
A parede já escaliçava. Ao sol, parecia mesmo querer desabar. Naquela aldeia, o tempo acomodara-se a esperar que o tempo passasse, com efeitos visíveis ao dobrar da menor esquina. Sobrava inteiro um desdobrado de livre iniciativa. Arredondado no estilo. Pormenorizado na vontade de fazer sonhar. Chamava-se café da esquina. Ganhava suporte precisamente no que parecia emanar de positivo daquela inscrição acre e dourada. As pessoas, quando pisavam duas vezes para lá da porta azul do espaço, eram convidadas a sonhar. Receptoras de uma colher mágica, dedicavam-se a pensar que aquela colher era,...não normal. Sentiam-se bem a pensar em reinos de mel, com cheiro a cacimba. Comiam da malga menos pura dos arredores e, para eles, era como se a última ceia tivesse sido um deslindar de coisas banais. Suspiravam quando tudo terminava, e no dia seguinte regressavam para celebrarem a falta de mais um dia para a morte.
Chamou-se a tudo isto quadro impossível, com reticências postas pela inexistência de semelhante colher. Terei sido o pintor, mas já me esqueci.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Menina perfeita à chuva XI

Sentia-se a ficar sem pele, porque da pele sangrava sem sequer ver o que podendo ser sangue, era água tingida do vermelho das possibilidades infindas do armagedão com que o planeta parecia desdobrar-se. Deturpada na essência de ser de certezas feito, era hospedeira do cancro da dúvida. Sentia crescer por dentro o que a tomava por alvo de estupro. Entravam-lhe por si. Saíam-lhe pelo que queria deixar de ser. Entravam de novo por aquilo em que se estava a transformar, para no fim dizerem estar a vencer. Menina-Sol cessara de ser um processo de essências libidinosas em transformação, e só respirava. Azotos perfumados, com misturas do suave com que a água nos envolve, arremessavam-lhe as fossas nasais para o profundo do desconhecimento. Era portadora de hóspedes, que de hóspedes tinham o desejo de matar. Acabar com o previsto da respiração, e deixar em vez disso a plenitude do andar para sempre à espera que o ar encha de novo pulmões gastos pela indecência. Seria confusa toda a envolvência de morte, se a morte ela própria já não se tivesse tornado companheira desta viagem. Guia para um horizonte que restava-se a si mesmo para se manter lá onde sempre esteve. Menina-Sol já não chora. Tinha desaprendido de ser Ser.

#I, #II, #III, #IV, #V, #VI, #VII, #VIII, #IX, #X

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

No bar

Pediu para que não a deixassem com o encargo de ser a solução para todos os problemas daquele dia que teimava em espreguiçar-se por sobre o acosso da noite. Reflectia quando a espuma insolente daquela cerveja de últimos recursos já parecia conseguir desenhar corações no mármore do balcão de todos os dias. Soava mal. Soava-se mal ao lhe perguntarem as sombras menos insolentes que conhecera, se queria dançar. Era sensual estar ali à espera que o sol a beijasse da forma apaixonada, como sempre esperara que a beijassem. Seria interessante a perspectiva de um duelo de sintagmas nominais com aquele jazz meloso que lambusava de sal o doce da sua pele. Deixava-se sempre ficar há semanas naquele cantinho, do menor espaço de bem estar que conhecia. Apanhavam-lhe pequenas coisas de ansiedade, quando com os olhos rosados parecia pedir socorro. Queria ser resgatada do não ter nada que pedir. Do não ter sítio para onde ir. Das poucas coisas que lhe restavam para se sentir coisa do mundo das coisas. Daquelas gotas de chuva do último dia de felicidade que lhe pintou o céu de expectativas, restava pouco. Lembrava-se ainda menos de como era sorrir por se sentir bem tratada pelo mundo. Achava já escassa a ideia de que aquele canto, aquele redondel de monumentos mal desenhados em que se aconchegava, noite após noite, servia para a proteger.
Apetecia-lhe abusos. Queria que a tratassem mal, para depois saber a que sabe desnudar o bem. Nem pedia muito. Só noites em que falar mais alto, fosse igual a não conter suspiros de desejos incontidos. Ter a quem beijar, para depois desprezar o sentir que não se tem ninguém para desejar. E no fim, descrever tudo em redondos e planos sentidos de páginas escritas ao som do vento melodioso, e da chuva que se desfia em gemidos de dor.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Menina perfeita à chuva X

Já esperava que a terra a envolvesse como num pedido de socorro que estava escrito algures na plêiade do tempo que já se gastou, e adivinhado no que ainda falta até, um dia, o planeta dar o suspiro definitivo do adeus. Soaram tambores de descontentamento. Menina Sol tentava não romper o saco lacrimal do desespero que sempre se tinha habituado a carregar. O fogo levantava-se do chão, e lambia-lhe as gotas de medo que timidamente lhe rompiam na fonte. Os passos da timidez sufocante a que chamava companheira de vida, deixavam marca na terra que, a microns de segundo, derretia o caminho que já havia percorrido.
O horizonte já se fazia em uno com a 'careca' do planeta. O tempo parecia ser só um factor mais na confusão de sinais que ter medo, significava naquele instante do tempo que assustava. Era o vento quem o dizia. E do ar escuro, com cheiro a mortes consecutivas, começaram a surgir os seres da dúvida. Pequenos híbridos desconfiados, de cabelos cor de nada, e olhos que diziam tudo. Às dezenas, às centenas, desdiziam o amor. Deixavam-na sentir mal, para que do mal nascesse a certeza de que o bem não vale a pena. Chorou por fim. Mas era um choro-riso. O descontentamento dos risos contidos, porque não tinham lugar por onde sair.

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