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Vozes

























Há dias em que me sinto
arrastado por um não sei quê
nostálgico que me constrange.

A infância:
Ontem, há muito tempo...
o meu fatinho de menino
já roto... tão roto!...
aquele fatinho que me cingiu
o corpo de menino pobre,
tão longe... tão distante...

Hoje recordo os amores antigos
dispersos no esquecimento
dos amores recentes.

Ela:
Era tão doce o seu canto.
tão belos os seus cabelos
que já não têm cor...
o seu andar vagueia perdido
no emaranhado de idéias
que me acometem dispersas;
dispersos os seus carinhos,
os seus beijos esquecidos
nos beijos de outras bocas
que não a dela.

As saudades:
Das quitandeiras gemendo reclamos,
os cestos em equilíbrio nas cabeças,
as cabaças frescas de quimbombo,
os meninos negros pendendo
as cabeças de alcatrão
nos sujos panos que os cingem...
Há dias... há muitos dias...
recordo e sinto
arrastado num não sei quê nostálgico
que me constrange...
Já ouço o dobre que me chama:
os lábios dela chamam
vinganças de saudade,
o fatinho já roto
aborta prantos,
as saudades... Ah! as saudades...
ficarão sempre clamando
sons arrastados do passado!...



Ruy Burity da Silva
(Cantiga de mama Zefa)

Saudação

Se não voltar,
não hesites: é distância.
se não sorrir,
não sofras: é lembrança.

alongo-mena música
das canções sem sons
dizendo em melodia
chorar alegria e dor.

se mundo sofrer
não lamentes: é alegria.
se só gritar e rir,
beija-me: é solidão.

isola-me o pensamento
no desencontro do quotidiano
apelo ancestral lançado
no despertar telúrico do lago

tão sempre só...
tão trágicamente só...


Ruy Burity da Silva
Foi assim - 1971





30 de Agosto de 1996, uma última olhadela sobre Luanda... um momento duro e doloroso! Intimamente repeti as mesmas palavras de 24 anos antes - voltaremos a encontar-nos!

Nesse longinquo dia 10 de Setembro, sob as asas do 747-B, começara já o destilar do ódio irracional que tantas vidas inocentes custou ao mártir povo angolano. Estava a 7 horas de voo de uma outra realidade... No aeroporto de Lisboa grita-se a plenos pulmões:

EL PUEBLO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO! CHILE VENCERÁ!

Fazia 1 ano que Salvador Allende havia sido assassinado... Entre a turba imensa, lembro sentimentos absolutamente contraditórios - revolucionários, e outros nem tanto, ululando pela Revolução Chilena, recebendo negros refugiados aturdidos e transidos de medo, colonos negreiros e gente sem rumo nem destino, procurando familiares que nunca viram... A alegria da revolução e o desespero da fuga ao inferno para os braços da mais completa incerteza!

24 anos depois, tudo mais burguês, mais civilizado... A família, sorrisos e abraços a acolher... e uma terrível sensação de mergulho na inutilidade, sabendo-se que para trás havia ficado um mundo onde me sentia útil.

Ao voltar a percorrer a 2ª. Circular, recordo, devem ter-me estranhado - havia emudecido, estava distante, muito distante... e, no entanto, larguei uma sonora gargalhada!! Estaria louco?? Defeito profissional, á medida que o carro deslizava sobre o asfalto procurava na coxia do passeio o lixo da Lisboa, suja, que os seus habitantes tanto gostam de afirmar sem saberem o que dizem... e sorri!!! Pelo lixo que não vi, pela inutilidade do que me esperava, pela fantasmagoria da teia burocrática que me iria envolver em breve sobre algo que.... não conseguia descortinar!! E, a 7 horas de voo, o lixo era tão penosamente comum como aqui me parecia a sua ausência... Sentia que era lá, por ser útil e pelo amor áquela terra, que deveria estar!

Que vontade tive de voltar para trás!! Largar tudo, pegar na família e zarpar!!!

Um dia acontecerá...

Não estou convencido da justeza da minha «condenação» a ficar por aqui a morrer aos poucos até à «libertação» dos 65 anos!

Veremos durante quanto tempo se manterá a resistência ao apelo de África!