Mostrar mensagens com a etiqueta Fado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fado. Mostrar todas as mensagens

Não é um fado normal






Olhas p’ra mim com esse ar reservado
A estoirar pelas costuras
Nem sei se estou em Lisboa
Será que é Tóquio ou Berlim?
Tu não me olhes assim!
Porque o teu olhar tem ópio
Tem quebras nos equinócios
Pitadas de gergelim

Mas se isto é fado
Ponho o gergelim de lado
Vou buscar o alecrim
E tu sempre a olhar p’ra mim;
Como se alecrim aos molhos
Atraíssem os meus olhos
Não tenho nada com isso
Alguém que quebre este enguiço
Que eu não respondo por mim

E já estou, quase a trocar o mal pelo bem e o bem pelo mal
Se isto é fado, não é um fado normal
A trocar, o mal pelo bem e o bem pelo mal
Não é um fado normal

Vou por lugares nunca dantes visitados
E há que ter alguns cuidados
Porque bússola não há
E baralham-se os sentidos
Se andamos ao Deus-dará
Sem sentinelas nos olhos
Vou confiar no ouvido
E nada vai estar perdido

Mas se isto é fado
Vou entristecer o quadro
P’ra tom de cinza acordado
Que eu não quero exagerar;
No meio do nevoeiro
Teimo em ver o teu olhar
Que sei não ser derradeiro
Alguma coisa se solta
Que talvez não tenha volta



Amélia Muge

Poema da malta das naus





Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
Do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.


António Gedeão
In Teatro do Mundo, 1958