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Teus olhos de dendém















Imagem de "Angola Minha Terra"





Para a M. J.


Naquela noite eu disse
lá em casa
que ia prò cinema.

Cruzei a Baixa toda
entrei numa boate
– a mais fina de Luanda –
e fui dançar com ela
apaixonadamente.

Ela era uma pequena
de Malange.

Tinha nos olhos
brilhantes como incêndios ao luar
o claro escuro
dos bagos
de um cacho de dendém.

Naquela noite
dançámos loucamente
apaixonadamente.

Tinha a pele clara
como qualquer daquelas
mulheres que eu conheci
nas longas noites invernais
da Europa.

Mas o olhar
ai
o olhar
trazia o sofrimento
das noites Africanas.

Nunca mais pude esquecer
aquela rapariga branca
de Malange
que tinha os olhos lindos
como as cores
dos bagos
de um cacho de dendém.

Nunca mais
ai, nunca mais
dancei assim
e nunca mais a vi
dançar assim
tão loucamente
alucinadamente
a rapariguinha branca de Malange
que tinha o corpo esguio
o ritmo no bailar
esse ritmo de uma qualquer mulata
das minhas longas noites Africanas.

Nunca mais dancei assim
tão desvairadamente
apaixonadamente
os lábios num murmúrio
a boca num perjúrio
seus seios no meu peito
amachucadamente
aqueles cabelos negros
roçando a minha face
os cílios desse olhar
com gotas de luar
que tinha as ambições
o claro escuro
dos bagos
de um cacho de dendém.

Nunca mais
ai, nunca mais
dancei assim
tão loucamente
apaixonadamente...



Ernesto Lara Filho

Infância perdida




















xxxxxxxxxxxxxxxxxxxpara o Miau


Nesse tempo, Edelfride,
com quatro macutas
a gente comprava
dois pacotes de ginguba
na loja do Guimarães.

Nesse tempo, Edelfride,
com meio angolar
a gente comprava
cinco mangas madurinhas
no Mercado de Benguela.

Nesse tempo, Edelfride,
montados em bicicletas
a gente fugia da cidade
e ia pràs pescarias
ver as traineiras chegar
ou então
à horta do Lima Gordo
no Cavaco
comer amoras fresquinhas.

Nesse tempo Miau,
(alcunha que mantiveste no futebol)
nós fazíamos gazeta
da escola coribeca
e íamos os quatro
jogar sueca
debaixo da mandioqueira.

Era no tempo
em que Saraiva Cambuta batia na mulher
e a gente gostava de ver a negra levar porrada.

Era no tempo
dos dongos da ponte
dos barcos da bimba
dos carrinhos de papelão.

Como tudo era bonito nesse tempo, Miau!

E havia tua Mãe, Dona Mafalda
trabalhava nos Correios
era prima do Saldanha Palhares
aquele mulato grande jogador de futebol
do Portugal
e empregado do Banco.

Era no tempo do visgo
que a gente punha na figueira brava
para apanhar bicos-de-lacre e seripipis
os passarinhos que bicavam as papaias do Ferreira Pires
que tinha aquele quintalão grande e gostava de meninos.

Era nos tempos dos doces de ginguba com açúcar.

Mais tarde
vieram os passeios nocturnos
a Massangarala
e ao Bairro Benfica

E o Bairro Benfica ao luar
o poeta Aires a cantar
(meu amor da rua onze o seu colar de missangas…)

Tudo era bonito nesse tempo
até o Salão Azul dos Cubanos
e a Lanterna Vermelha – o dancing do Quooche.

Foi então que a vida me levou para longe de ti:
parti para ir estudar na Europa
mas nunca mais lhe esqueci, Edelfride,
meu companheiro mulato dos bancos de escola
porque tu me ensinaste a fazer bola de meia
cheia do chipipa de mafumeira.

Tu me ensinaste a compreender e a amar
os negros velhos do Bairro Benfica
e as negras prostitutas da Massangarala
(lembras-te da Esperança? Oh, como era bonita essa
mulata…)

Tu me ensinaste onde havia a melhor quissângua
de Benguela:
era no Bairro por detrás do Caminho de Ferro
quando a gente vai na Escola da Liga.

Tu me ensinaste tudo quanto relembro agora

Infância Perdida
sonhos dos tempos de menino.

Tudo isso te devo
companheiro dos bancos de escola
isso
e o aprender a subir
aos tamarineiros
a caçar bituítes com fisga
aprender a cantar num kombaritòkué
o varrer das cinzas
do velho Camalundo.

Tudo isso perpassa
me enche de sofrimento.

Diz a tua Mãe
que o menino branco
um dia há-de voltar
cheio de pobreza e de saudade
cheio de sofrimento
quase destruído pela Europa.



Ele há-de voltar
para se sentar à tua mesa
e voltar a comer contigo e com teus irmãos
e meus irmãos
aquela moambada de domingo
com quiabos e gengibre
aquela moambada que nunca mais esqueci
nos longos domingos tristes e invernais da Europa
ou então
aquele calulu de Dona Ema.

Diz a tua Mãe, Edelfride,
que ela ainda me há-de beijar como fazia
quando eu era menino
branco
bem tratado
quando fugia da casa de meus Pais
para ir repartir a minha riqueza
com a vossa pobreza.

Diz tudo isso a toda a gente
que ainda se lembra de mim.

Diz-lhes, diz-lhes
grita-lhes
aos ouvidos
ao vento que passa
e sopra nas casuarinas da Praia Morena.

Diz aos mulatos e brancos e negros
que foram nossos companheiros de escola
que te escrevo este poema
chorando de saudade
as veias latejando
o coração batendo
de Esperança, de Esperança
porque ela
a Esperança
(como dizia aquele nosso poeta
que anda perdido nos longes da Europa)
está na Esperança, Amigo.

Edelfride, você não chore
saudades do Castimbala
nem lhe escreva
cartas como essa
que são de partir
meu pobre coração.

Nesse tempo, Edelfride,

Infância Perdida
era no tempo dos tamarineiros em flor...




Ernesto Lara Filho

Era no tempo dos tamarindos


















Era no tempo dos tamarindos
Meu pai sempre me acordava pela manhã
E ia cantando para o quintal
Enquanto fazia a barba
Debaixo do caramanchão
Da buganvília cor-de-violeta.

Era no tempo dos tamarindos
Zenza Niala vinha entrando na cancela
À cabeça a quinda carregadinha de fruta
Sempre cumprimentava minha mãe:
-“Sápêrê, Dona!”
Minha mãe respondia:
-“Olá”
Ela agachava no chão
Destapava a quinda
E por sob as folhas frescas de mamoeiro
Mostrava papaias e pitangas saborosas

Às vezes trazia fruta-pinha e sápe-sápe

Era sempre o mesmo diálogo
Minha mãe:”Chingamin?”
Zenza Niala no chão sorria
Mostrava os dentes de marfim
E respondia
-“Meia-cinco, sinhóra”

Era no tempo dos tamarindos.

E havia “bigodes” e “bicos-de-lacre”
Cantando nas acácias do quintal.

Depois Zenza Niala ia embora,
As ancas baloiçando
A quinda na cabeça

Era no tempo dos tamarindos



Ernesto Lara Filho








Fausto

Maracujá

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Flor de Maracujá, foto de Brigida Rocha Brito em Caminhadas e Descobertas em STP


Um dia
o pé de maracujá
que eu plantei no quintal
cresceu
e floriu

Eu nunca tinha visto
a flor do maracujá.

Juro por Deus nunca vi
coisa mais linda do mundo
do que a flor violeta
do pé de maracujá
que eu plantei
Na cerca do meu quintal

Um dia
o maracujá
que eu plantei no meu quintal
cresceu e floriu...

Ernesto Lara Filho