Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio de Andrade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénio de Andrade. Mostrar todas as mensagens

Rio

Image Hosted by ImageShack.us






Impetuoso, o teu corpo é como um rio

onde o meu se perde.

Se escuto, só oiço o teu rumor.

De mim nem o sinal mais breve.



Imagem dos gestos que tracei,

irrompe puro e completo.

Por isso, rio foi o nome que lhe dei.

E nele o céu fica mais perto.



Eugénio de Andrade

Corpo Habitado

Image Hosted by ImageShack.us

Eugénio Andrade (1923 - 2005)


Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.

Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumo das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.

Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.
Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.

Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.

Eugénio Andrade