Após o ardor da reconquista não caíram manás sobre os nossos campos. E na dura travessia do deserto aprendemos que a terra prometida era aqui Ainda aqui e sempre aqui, Duas ilhas indómitas a desbravar O padrão a ser erguido pela nudez insepulta dos nossos punhos. Emergiremos do canto como do chão emerge o milho jovem e nús, inteiros recuperaremos a transparência do tempo inicial Puros reabilitaremos o poema e a claridade para que a palavra amanheça e o sonho não se perca.
Que rios reverberam em nosso leito? Quantas tribos injectadas em teu peito? Nhá Maria de onde é? Nhô Ambrósio nasceu em Água Izé? E Katona, Aiúpa, Makolé? Silva, Danquá, Cassandra, Camblé... Padiçê, Mé Pó, Filingwé... Quantos nomes fundam transmutam minha fronte?
Deixaram nas ilhas um legado de híbridas palavras e tétricas plantações
engenhos enferrujados proas sem alento nomes sonoros aristocráticos e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras
Aqui aportaram vindos do Norte por mandato ou acaso ao serviço do seu rei: navegadores e piratas negreiros ladrões contrabandistas simples homens rebeldes proscritos também e infantes judeus tão tenros que feneceram como espigas queimadas
Nas naus trouxeram bússolas quinquilharias sementes plantas experimentais amarguras atrozes um padrão de pedra pálido como o trigo e outras cargas sem sonhos nem raízes porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas
E nas roças ficaram pegadas vivas como cicatrizes - cada cafeeiro respira agora um escravo morto.
E nas ilhas ficaram incisivas arrogantes estátuas nas esquinas cento e tal igrejas e capelas para mil quilómetros quadrados e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios. E ficou a cadência palaciana da ússua o aroma do alho e do zêtê d' óchi no tempi e na ubaga téla e no calulu o louro misturado ao óleo de palma e o perfume do alecrim e do mlajincon nos quintais dos luchans
E aos relógios insulares se fundiram os espectros - ferramentas do império numa estrutura de ambíguas claridades e seculares condimentos santos padroeiros e fortalezas derrubadas vinhos baratos e auroras partilhadas
Às vezes penso em suas lívidas ossadas seus cabelos podres na orla do mar Aqui, neste fragmento de África onde, virado para o Sul, um verbo amanhece alto como uma dolorosa bandeira.