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1975























E quando te perguntarem
responderás que aqui nada aconteceu
senão na euforia do poema.

Diz que éramos jovens éramos sábios
E que em nós as palavras ressoavam
como barcos desmedidos

Diz que éramos inocentes, invencíveis
e adormecíamos sem remorsos sem presságios

Diz que engendramos coisas simples perigosas:
caroceiros em flor
uma mesa de pedra a cor azul
um cavalo alado de crinas furiosas

Oh, sim! Éramos jovens, terríveis
mas aqui - nunca o esqueças - tudo aconteceu
nos mastros do poema.



Conceição Lima
in "O Útero da Casa"

Fragmento poético






















Foto de Brigida Rocha Brito em Caminhadas e Descoberta em STP





Após o ardor da reconquista
não caíram manás sobre os nossos campos.
E na dura travessia do deserto
aprendemos que a terra prometida era aqui
Ainda aqui e sempre aqui,
Duas ilhas indómitas a desbravar
O padrão a ser erguido
pela nudez insepulta dos nossos punhos.
Emergiremos do canto
como do chão emerge o milho jovem
e nús, inteiros recuperaremos
a transparência do tempo inicial
Puros reabilitaremos o poema e a claridade
para que a palavra amanheça e o sonho não se perca.



Conceição Lima

Os rios da tribo




















Roça de Água Izé, foto de Brígida Rocha Brito em África de Todos os Sonhos



Que rios reverberam em nosso leito?
Quantas tribos injectadas em teu peito?
Nhá Maria de onde é?
Nhô Ambrósio nasceu em Água Izé?
E Katona, Aiúpa, Makolé?
Silva, Danquá, Cassandra, Camblé...
Padiçê, Mé Pó, Filingwé...
Quantos nomes fundam transmutam minha fronte?




Conceição Lima
in O Útero da Casa

Afroinsularidade





























Foto de Décio Lopes em Caminhadas e Descaberta em STP




Deixaram nas ilhas um legado
de híbridas palavras e tétricas plantações

engenhos enferrujados proas sem alento
nomes sonoros aristocráticos
e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

Aqui aportaram vindos do Norte
por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:
navegadores e piratas
negreiros ladrões contrabandistas
simples homens
rebeldes proscritos também
e infantes judeus
tão tenros que feneceram
como espigas queimadas

Nas naus trouxeram
bússolas quinquilharias sementes
plantas experimentais amarguras atrozes
um padrão de pedra pálido como o trigo
e outras cargas sem sonhos nem raízes
porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso
todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas

E nas roças ficaram pegadas vivas
como cicatrizes - cada cafeeiro respira agora um
escravo morto.

E nas ilhas ficaram
incisivas arrogantes estátuas nas esquinas
cento e tal igrejas e capelas
para mil quilómetros quadrados
e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.
E ficou a cadência palaciana da ússua
o aroma do alho e do zêtê d' óchi
no tempi e na ubaga téla
e no calulu o louro misturado ao óleo de palma
e o perfume do alecrim
e do mlajincon nos quintais dos luchans

E aos relógios insulares se fundiram
os espectros - ferramentas do império
numa estrutura de ambíguas claridades
e seculares condimentos
santos padroeiros e fortalezas derrubadas
vinhos baratos e auroras partilhadas

Às vezes penso em suas lívidas ossadas
seus cabelos podres na orla do mar
Aqui, neste fragmento de África
onde, virado para o Sul,
um verbo amanhece alto
como uma dolorosa bandeira.



Conceição Lima
in "O Útero da Casa"







Rui Mingas
Muimbo Ua Sabalu

Quando o luar caiu


.. Posted by Hello

Quando o luar caiu
Quando o luar caiu e
tingiu de escuro os verdes da ilha
cheguei, mas tu já não eras.

Cheguei quando as sombras revelavam
os murmúrios do teu corpo
e não eras.
Cheguei para despojar de limites o teu nome.
Não eras.

As nuvens estão densas de ti
sustentam a tua ausência
recusam o ocaso do teu corpo
mas não eras.

Conceição Lima