quinta-feira, março 26, 2009
Cacusso
Foto de "Angola em fotos"amanheceu
quem diria
que inda agora hoje era ontem
e que cacos ao longe não iam ser olhos de bicho
quem diria
que patos-bravos mergulhando não eram jacarés
e que lagartos azuis iam a quatro patas
quem diria
que bosta de elefante não eram pedras
e que guerrilheiros antigos iam pisar a sua mina
quem diria
que o professor cismando não era surdo
e que os alunos não iam falar a sua língua
quem diria
que a moça do Muié
que inda agora era virgem logo já o não é
quem diria
que inda agora hoje era ontem
amanheceu
Arlindo BarbeitosIn “Angola Angolê Angolema”
segunda-feira, julho 30, 2007
Cacusso

por entre as margens da esperança e da morte
meteste a tua mão
e
eu vi alongados nas águas
os dedos que me agarram
em lagoa de um sonho
corpo de jacaré
é soturna jangada de palavras secas
por entre as margens da esperança e da morte
a sul do sonho
a norte da esperança
a minha pátria
é um órfão
baloiçando de muletas
ao tambor das bombas
a sul do sonho
a norte da esperança
Arlindo Barbeitos
sábado, junho 16, 2007
Cacusso

oh Angola
dor mansa e bruta
de menina
descuidada e contente
desandando
em gargalhada teimosa
e
pé de dança atrevido
para
loucura de abismo
a compasso
de marimbas guitarras eléctricas
e
minas
oh Angola
dor mansa e bruta
de menina
descuidada e contente
Arlindo Barbeitos
In “Na leveza do luar crescente”
domingo, junho 03, 2007
Cacusso

Em teus dentes
o sol
é diamante de fantasia
a lua
caco-de-garrafa
e
a mentira
verdade vagabunda
errando de cágado
em torno da lagoa dos olhos da noite
na treva aveludada
de tua pele
os dedos curiosos
são estrelas de marfim
à busca
de um dia caprichoso
despontando de miragem
por detrás das corcundas
de elefantes adormecidos
Arlindo Barbeitos
terça-feira, março 27, 2007
Cacusso

Oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde
teus olhos
não são estrelas
não são colibris
teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um passado se esconde
teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um futuro se forma
oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde
teus olhos
não são estrelas
não são colibris
Arlindo BarbeitosIn “Angola Angolê Angolema”
terça-feira, janeiro 16, 2007
Cacusso
Femme, Traoré Oumarou
a feiticeira de olhar de prata
cansada da tranquilidade de fronteiras e de acampamentos
largou
as pedrinhas que ficaram das pedras
e
se exilou para lá dos sonhos
aí
em sua libata de nuvens brancas
e
envolta em panos de bruma
enrola linhas de horizonte
em grossos novelos
que
por tardes de chuva desdobra
pelo céu alto
em longos arco-íris
a feiticeira de olhar de prata
me aguarda
encoberta em mosquiteiro de brisa
na sua funda alcova de luas e de estrelas
devagar
de lágrimas e sol
ela vai tecendo a renda de meus dias
Arlindo Barbeitos
terça-feira, março 21, 2006
Cacusso

o passado
é uma laranja amarga
a chuva
cai dos teus olhos
o vento
tem cabeça de galo
e
o jacaré
levou tua perna
pro palácio
de seu rei
*
por noites de outubro
almas de antepassados
acordam
lagartos adormecidos
riso
de menina só
quebra-se
nos cincos dedos da mão
que
almas de antepassados
por noites de outubro
não impedem de fechar
*
corvos de ronda
não sabem
quem matou o antílope
cor de vento listrado de chuva
e
pombos verdes
de vôo redondo
não sabem
por que o homem tatuado
caiu no feitiço das coisas de longe
*
por fendas
de máscara apodrecida
passam
tufos de capim de outubro
nos charcos
de teus olhos
pairam moribundos
espíritos de antepassados
e
pássaros d’água
fazem ninho
em cabeça de mologe
por fendas
de máscara apodrecida
passam
tufos de capim de outubro
*
a nuvem produziu um elefante
o elefante pariu o coelho
das orelhas do coelho saíram montanhas
as montanhas tornaram-se tetas duma cadela prenha
das tetas da cadela prenha caiu a chuva
Arlindo Barbeitosin "Nzoji" (Sonho)
terça-feira, novembro 15, 2005
Cacusso

saudade
é o tempo de pacassas pardas
e macacos sem rabo servindo de administradores
quando o calor ia derretendo o céu
e a chuva se vendia na farmácia
do comerciante de cabelos de fio
saudade
é o tempo de patos bravos
e macacos sem rabo servindo de padres
quando o medo ia gelando a terra
e o pranto se dava de beber aos porcos
do comerciante de cabelos de fio
Arlindo Barbeitosin "Angola Angolê Angolema"
terça-feira, fevereiro 08, 2005
Cacusso

..

casinhas pequenas
abrigando
histórias das histórias da história
se fazendo
e inda outras
casinhas pequenas
abrigando
famílias das famílias da família
se fazendo
e inda outras
histórias das histórias da história
e inda outras
famílias das famílias da família
e inda outras
se emaranhando
em um novelo
que
cresce cresce cresce
em casinhas pequenas
Arlindo Barbeitos
terça-feira, novembro 09, 2004
Cacusso
longe
muito longe
para além
da cinza destes dias
em terra de esquecimento
um jardim é órfão das suas flores
e
homens comem sombra
pela tua mão
pesado e lento
corre o sangue dos
deslembrados
roxo como rio
de pesadelo
por
planura de angústia
e capim seco
em terra de esquecimento
para além
da cinza destes dias
longe
muito longe
Arlindo Barbeitos