A ti, que eu não conheço e amo com a intensidade das marés em dia de calema na restinga do Lobito
A ti, que eu não conheço e amo com as cores das queimadas que iluminam os planaltos do Huambo e do Bié A ti, que eu não conheço e amo com o cheiro a mangas e maresia do Mussulo A ti, que eu não conheço e amo no café torrado do Kwanza Sul e Kwanza Norte
A ti, que eu não conheço e amo com a doçura de itebe e saka-foya de Cabinda
A ti, que eu não conheço e amo e ainda degusto no veado e na pacaça da Quiçama
A ti, meu amor eu ofereço toda a sinestesia desta terra onde nasci e onde espero um dia conhecer-te.
A vida tem destas coisas!! Surpreendente. Vale a pena, nas palavras mais simples contar esta pequena história.
1972, M'banza Congo, na altura São Salvador do Congo.
Frequento o 3º. ano dos Liceus no Liceu Salvador Correia de Sá. Somos 13. Eu, o Afonso Belarmino, o Quim, o Quim', a Francisca, a Ilda, a Bertina, o Jinho, a Catarina... e mais 4 colegas que não esqueci mas que o tempo apagou os seus nomes da minha memória. No 4º. ano éramos apenas 9. Bons colegas, bons amigos, bons alunos. Estudei com muitos deles, jogámos, entreajudámo-nos... vivemos aventuras. Entre todos, tornámo-nos grandes amigos eu e o Afonso!
1974, o 25 de Abril.
A debandada, a separação, a amargura de amigos perdidos e a dúvida permanente se terão ou não sido bafejados pela sorte no turbilhão de acontecimentos que se seguiram... O receio pela eventual interrupção de vidas de amigos com grande valor, que seriam, não fosse a guerra, importantes para o seu país.
Tempo passa inexoravelmente, anos sobre anos... Nunca perdi a esperança de saber por onde andava, o que tinha acontecido ao Afonso. As guerras sucederam-se. 1996, voltei a Angola... e voltei a procurar pelo Afonso. Nada! Parecia ter sido engolido pelo tempo!
1997, tenho o meu primeiro computador... e, de tempos a tempos faço buscas. Nada. Do Afonso, nem o rasto parece ter ficado! Mas não desisto. 2009, o Quim'... por artes de magia encontra-me! 2010, uma busca no Facebook, pela enésima vez... Aparece-me um Afonso Belarmino, não alimento muita esperança... nem fotografia tem. Pode ser um qualquer. Mas reparo numa outra pessoa com o mesmo apelido...e investigo. Era filha de Afonso Bernardino...e a mãe dela tinha também facebook... Por um "milagre" (podia estar bloqueado o acesso ás fotos) a ilustre senhora apresenta uma fotografia do seu jeitoso, como lhe chama... Olho a foto... e dou um salto! O jeitoso é, nada mais, nada menos que o Afonso Belarmino. A foto "diz-me" ter sido tirada no metro de Lisboa (!!???) á aproximação da estação de Alameda! Surpreendente!
Consigo com alguma rapidez estabelecer os contactos necessários para poder, finalmente, saber algo do meu amigo! E consigo. Está em Luanda, nesta altura... mas viveu quase três décadas em Lisboa!! Já falámos, recordámos velhos tempos, grandes amigos... e aguardamos o momento do abraço!
Kandandu, amigo!
Celebremos a amizade, neste poema de O'Neill.
Mal nos conhecemos Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um sorriso De boca em boca, Um olhar bem limpo, Uma casa, mesmo modesta, que se oferece, Um coração pronto a pulsar Na nossa mão!
«Amigo» (recordam-se, vocês aí, Escrupulosos detritos?) «Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido, Não o erro perseguido, explorado, É a verdade partilhada, praticada.
«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa, Um trabalho sem fim, Um espaço útil, um tempo fértil, «Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
Ela carrega com tudo; A criança e o medo da doença. A roupa lavada com lágrimas ...Os restos para o jantar; O que conseguiu encontrar. A crueldade do seu homem, Adormecido pelo maruco, Perdido por outras mulheres. Ela carrega com tudo; A cubata que vai abaixo, Engolida pelos "senhores", As torres que vê ao longe, Feitas de vidro e ganância O futuro em que não acredita, O passado que só cheira a morte. Mas ela carrega com tudo. E vai direita, elegante, no seu andar. E, apesar do tudo que ela carrega, Ainda tem força para sonhar.
Quero chegar no raiar da manhã. No afago fresco da madrugada. No canto do galo e no pregão da quitandeira. Na buzina do candongueiro E no sotaque: madrinha quê manga? Compra só então mãe, dou uma pra esquebra...
Quero chegar na aurora do dia. Percorrer as ruas d'acácias em flor. Ai as acácias da Vila Alice e do Maculusso, sorrindo coradas...à minha chegada!
Quero o aroma branco, doce, de frangipani sentir Lá para as bandas de Sambizanga Comprar miconde n'avozinha da igreja, que me espera de promessa, juro por sangue de cristo.
Quero sorrir Sempre a sorrir nesta chegada Como se não soubesse fazer mais nada...
Quero subir a avenida, degrau a degrau no sonho No de dormir ou naquele acordado Exibindo meu orgulho de filha da rua, do asfalto e da terra, batida Onde passou o carro da tifa E os amantes cantaram prá lua Olhar as mangas que o avó não colheu E as goiabas que também não comeu
Quero pisar aquele chão e olhar o meu mar E o horizonte estar dentro de mim feito onda a me inundar de segredos que não guardei Um deles, ser feliz, porque cheguei...
Muxi, coracão ao meu berço M´Banza, M´Banza Congo, à nossa rebita, a Bela vista, a Ilha dos Amores, o nosso Carnaval, o lombi, a kibeba, a kifufutila, o rio Zaire, o Kwanza, safú, cabita, catatu, muxiluxilu, ai tambarino, o nosso mea cura, as nossas farras de quintal, a palanca negra, jilojo, mengueleca, reco reco, o kissonde, a Vila Flor, ao Bagre, ao nosso bagre fumado, os nossos mirangolos, a nossa Kissama, Ah! Muxima, a perfumada nocha, a kissangua, o marufu, o mona xibata o peixe espada, a nossa chiquanga o nosso feijão, kandange, olha imbondeiro, olha múkua, a saca folha, nosso cachuchu, a ilha do Luanda,a welwitchia, a ginguba e o bombó, o nosso pirão, atenção, a rebita, cavalheiros a gauche, damas a droite, primeira forma, vamos embora,- está quase bom, atenção, a rosa de porcelana, a nossa marimba, o nosso funge, o nosso batuque, a nossa batucada, o kissange, a nossa moamba, as missangas coloridas, a canjica,as águas milagrosas do Huamba, as quedas do Kalandula, Chinguar, ai a puíta, o maboque, a nossa moamba,vila flor, o reco reco, loengos, o ungo, o sape sape
A minha casa ...É fácil de localizar É fácil de encontrar, Basta ires sempre em frente Para além da linha do horizonte É fácil concerteza
Primeiro encontras lixo Lixo e pessoas em convivência E em harmonia, Lixo na parte de baixo E na parte de cima Lixo e pessoas em convivência íntima
Mais adiante E com o mau cheiro crescente Encontras uma lagoa E nela, crianças a banharem Crianças a brincarem Na maior, numa boa
Mais a frente Entras em becos estreitos Becos pequenos e apertaditos É fácil, é só teres isto em mente Becos e suas enxurradas Becos e suas águas estagnadas
Sempre em frente Para além da linha do horizonte Lá onde a água corrente Lá onde a água potável Passa muito distante E da cor do invisível!
Sempre em frente Para além da linha do horizonte Lá onde a luz eléctrica Connosco brinca Qual nuvem passageira Que ora vai, ora vem zombateira!
Sempre em frente Para além da linha do horizonte Cheiro de kaporroto no ar Cheiro de kimbombo a vibrar Nossas bebidas do dia-a-dia Nossas bebidas nossa companhia
E no quintal da minha casa Há jovens a falar alto bêbedos Jovens cansados, frustrados e arrebentados São os meus kambas Kambas das bebedeiras e das malambas É fácil de localizar concerteza,
Há momentos na vida de um Homem Em que sabe que acordou diferente E que já não é o mesmo para ele, Mesmo que o seja para toda a gente...
Há momentos na vida de um Homem Onde só pode entrar uma Mulher Aquela que lhe trouxer A flor do sexo Desenhada a vermelho no ventre E nada lhe perguntar...
Há momentos na vida de um Homem Onde só pode entrar uma mulher Aquela que lhe trouxer, Num abraço total, A ilusão da vida inteira... E, depois, partir Com a esperança de vida que ele semeou...
Há momentos na vida de um Homem Onde só pode entrar uma Mulher Para todo o Mundo se resumir À flor vermelha Como um bocado de sol Que desponta numa telha!
De medo e diabo trazes o corpo envenenado enquanto a mente balbucia incoerências Por trás do véu de instintos espicaças a carne O desejo sob uma resma de salmos Em nome de que virtude contra quem levantarás a cruz Um púlpito A carne Uma cruz Ao mistério da criação a humanidade
Quando a fitei extasiado, Suas mãos pálidas, mimosas, Escolhiam frutas bem cheirosas Num recanto calmo do mercado.
E por mero acaso, (eu sei!, Senhora minha desconhecida, Ai! só por mero acaso...) Vossos olhos belos, Plácidos e meigos, Negros, fulgurantes, Sobre mim poisaram, – P’ra logo se afastarem Indiferentes, distantes...
Ao compor na rede A gostosa fruta, Um pouco vos baixastes E o decote largo Do vestido azul Afastou-se lento Como onda branda De cansado mar...
Tinha a pele clara como qualquer daquelas mulheres que eu conheci nas longas noites invernais da Europa.
Mas o olhar ai o olhar trazia o sofrimento das noites Africanas.
Nunca mais pude esquecer aquela rapariga branca de Malange que tinha os olhos lindos como as cores dos bagos de um cacho de dendém.
Nunca mais ai, nunca mais dancei assim e nunca mais a vi dançar assim tão loucamente alucinadamente a rapariguinha branca de Malange que tinha o corpo esguio o ritmo no bailar esse ritmo de uma qualquer mulata das minhas longas noites Africanas.
Nunca mais dancei assim tão desvairadamente apaixonadamente os lábios num murmúrio a boca num perjúrio seus seios no meu peito amachucadamente aqueles cabelos negros roçando a minha face os cílios desse olhar com gotas de luar que tinha as ambições o claro escuro dos bagos de um cacho de dendém.
Nunca mais ai, nunca mais dancei assim tão loucamente apaixonadamente...
Na tristeza de meus olhos Pousaram suaves os teus. Nos meus lábios secos de tabaco Roçaram suaves os teus. Mulher! Nem sabes a força que deste A este desespero calado De rebentar as amarras De um dongo numa praia de pesadelos Varado.