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Vi Luanda

As muralhas da Noite




A mão ía para as costas da madrugada

As mulheres estendiam as janelas da alegria

onde não se apagavem as alegrias

Entre os dentes do mar acendiam-se braços

Os dias namoravam sob a barca do espelho

Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia

E da chuva de barcos chegavam colchões,

camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas

onde cantavam soldados de capacetes

para pintar no coração da meia-noite

Eram os barcos que guardavam as muralhas

da noite que a mão ouvia nas costas

da madrugada entre os dentes do mar...




João Maimona

Namoro

Sinestesia

















À página «cento e vinte e sete» de Gedeão


A ti,
que eu não conheço e amo
com a intensidade das marés
em dia de calema na restinga do Lobito

A ti,
que eu não conheço e amo
com as cores das queimadas
que iluminam os planaltos do Huambo e do Bié
A ti,
que eu não conheço e amo
com o cheiro a mangas e maresia do Mussulo
A ti,
que eu não conheço e amo
no café torrado do Kwanza Sul e Kwanza Norte

A ti,
que eu não conheço e amo
com a doçura de itebe e saka-foya de Cabinda

A ti,
que eu não conheço e amo
e ainda degusto no veado e na pacaça da Quiçama

A ti, meu amor
eu ofereço toda a sinestesia
desta terra onde nasci
e onde espero um dia conhecer-te.



Anny Pereira

Amigo
















A vida tem destas coisas!!
Surpreendente.
Vale a pena, nas palavras mais simples contar esta pequena história.

1972, M'banza Congo, na altura São Salvador do Congo.

Frequento o 3º. ano dos Liceus no Liceu Salvador Correia de Sá.
Somos 13.
Eu, o Afonso Belarmino, o Quim, o Quim', a Francisca, a Ilda, a Bertina, o Jinho, a Catarina... e mais 4 colegas que não esqueci mas que o tempo apagou os seus nomes da minha memória.
No 4º. ano éramos apenas 9.
Bons colegas, bons amigos, bons alunos.
Estudei com muitos deles, jogámos, entreajudámo-nos... vivemos aventuras.
Entre todos, tornámo-nos grandes amigos eu e o Afonso!

1974, o 25 de Abril.

A debandada, a separação, a amargura de amigos perdidos e a dúvida permanente se terão ou não sido bafejados pela sorte no turbilhão de acontecimentos que se seguiram...
O receio pela eventual interrupção de vidas de amigos com grande valor, que seriam, não fosse a guerra, importantes para o seu país.

Tempo passa inexoravelmente, anos sobre anos...
Nunca perdi a esperança de saber por onde andava, o que tinha acontecido ao Afonso.
As guerras sucederam-se.
1996, voltei a Angola... e voltei a procurar pelo Afonso.
Nada!
Parecia ter sido engolido pelo tempo!

1997, tenho o meu primeiro computador... e, de tempos a tempos faço buscas.
Nada. Do Afonso, nem o rasto parece ter ficado!
Mas não desisto.
2009, o Quim'... por artes de magia encontra-me!
2010, uma busca no Facebook, pela enésima vez...
Aparece-me um Afonso Belarmino, não alimento muita esperança... nem fotografia tem.
Pode ser um qualquer.
Mas reparo numa outra pessoa com o mesmo apelido...e investigo.
Era filha de Afonso Bernardino...e a mãe dela tinha também facebook...
Por um "milagre" (podia estar bloqueado o acesso ás fotos) a ilustre senhora apresenta uma fotografia do seu jeitoso, como lhe chama...
Olho a foto... e dou um salto!
O jeitoso é, nada mais, nada menos que o Afonso Belarmino.
A foto "diz-me" ter sido tirada no metro de Lisboa (!!???) á aproximação da estação de Alameda!
Surpreendente!

Consigo com alguma rapidez estabelecer os contactos necessários para poder, finalmente, saber algo do meu amigo!
E consigo.
Está em Luanda, nesta altura... mas viveu quase três décadas em Lisboa!!
Já falámos, recordámos velhos tempos, grandes amigos... e aguardamos o momento do abraço!

Kandandu, amigo!

Celebremos a amizade, neste poema de O'Neill.


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!



Alexandre O'Neill




Ela carrega com tudo






























Ela carrega com tudo;
A criança e o medo da doença.
A roupa lavada com lágrimas
...Os restos para o jantar;
O que conseguiu encontrar.
A crueldade do seu homem,
Adormecido pelo maruco,
Perdido por outras mulheres.
Ela carrega com tudo;
A cubata que vai abaixo,
Engolida pelos "senhores",
As torres que vê ao longe,
Feitas de vidro e ganância
O futuro em que não acredita,
O passado que só cheira a morte.
Mas ela carrega com tudo.
E vai direita, elegante, no seu andar.
E, apesar do tudo que ela carrega,
Ainda tem força para sonhar.



Gonçalo Afonso Dias
In Forum Kandando Angola

Desenhar














Foto de Maria Branco



Desenhar
teu perfil com um dedo de criança
na areia de uma praia virgem

Andar
com pés calçados de esperança
caminhos de vertigem

Navegar
um barco de solidão
numa vaga dorida

Inventar
Versos para uma canção
De outra manhã florida.



Manuel Rui

Aspiração




















Quero chegar no raiar da manhã.
No afago fresco da madrugada.
No canto do galo e no pregão da quitandeira.
Na buzina do candongueiro
E no sotaque: madrinha quê manga?
Compra só então mãe, dou uma pra esquebra...

Quero chegar na aurora do dia.
Percorrer as ruas d'acácias em flor.
Ai as acácias da Vila Alice e do Maculusso, sorrindo coradas...à minha chegada!

Quero o aroma branco, doce, de frangipani sentir
Lá para as bandas de Sambizanga
Comprar miconde n'avozinha da igreja,
que me espera de promessa, juro por sangue de cristo.

Quero sorrir
Sempre a sorrir nesta chegada
Como se não soubesse fazer mais nada...

Quero subir a avenida, degrau a degrau no sonho
No de dormir ou naquele acordado
Exibindo meu orgulho de filha da rua, do asfalto e da terra, batida
Onde passou o carro da tifa
E os amantes cantaram prá lua
Olhar as mangas que o avó não colheu
E as goiabas que também não comeu

Quero pisar aquele chão e olhar o meu mar
E o horizonte estar dentro de mim
feito onda a me inundar de segredos que não guardei
Um deles, ser feliz, porque cheguei...



Maria Clara Santos

Sabores da Terra





Muxi, coracão ao meu berço M´Banza, M´Banza Congo,
à nossa rebita, a Bela vista, a Ilha dos Amores,
o nosso Carnaval, o lombi, a kibeba, a kifufutila,
o rio Zaire, o Kwanza, safú, cabita, catatu, muxiluxilu,
ai tambarino, o nosso mea cura, as nossas farras de quintal,
a palanca negra, jilojo, mengueleca, reco reco, o kissonde,
a Vila Flor,
ao Bagre, ao nosso bagre fumado, os nossos mirangolos, a
nossa Kissama, Ah! Muxima, a perfumada nocha, a
kissangua,
o marufu, o mona xibata o peixe espada, a nossa chiquanga
o nosso feijão, kandange, olha imbondeiro, olha múkua,
a saca folha, nosso cachuchu, a ilha do Luanda,a
welwitchia, a ginguba e o bombó, o nosso pirão, atenção, a
rebita, cavalheiros a gauche, damas a droite,
primeira forma, vamos embora,- está quase bom, atenção,
a rosa de porcelana, a nossa marimba, o nosso funge, o
nosso batuque, a nossa batucada, o kissange, a nossa
moamba, as missangas coloridas,
a canjica,as águas milagrosas do Huamba, as quedas do
Kalandula, Chinguar, ai a puíta, o maboque, a nossa
moamba,vila flor, o reco reco, loengos, o ungo, o sape sape


Waldemar Bastos

A minha casa
















A minha casa
...É fácil de localizar
É fácil de encontrar,
Basta ires sempre em frente
Para além da linha do horizonte
É fácil concerteza

Primeiro encontras lixo
Lixo e pessoas em convivência
E em harmonia,
Lixo na parte de baixo
E na parte de cima
Lixo e pessoas em convivência íntima

Mais adiante
E com o mau cheiro crescente
Encontras uma lagoa
E nela, crianças a banharem
Crianças a brincarem
Na maior, numa boa

Mais a frente
Entras em becos estreitos
Becos pequenos e apertaditos
É fácil, é só teres isto em mente
Becos e suas enxurradas
Becos e suas águas estagnadas

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a água corrente
Lá onde a água potável
Passa muito distante
E da cor do invisível!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Lá onde a luz eléctrica
Connosco brinca
Qual nuvem passageira
Que ora vai, ora vem zombateira!

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte
Cheiro de kaporroto no ar
Cheiro de kimbombo a vibrar
Nossas bebidas do dia-a-dia
Nossas bebidas nossa companhia

E no quintal da minha casa
Há jovens a falar alto bêbedos
Jovens cansados, frustrados e arrebentados
São os meus kambas
Kambas das bebedeiras e das malambas
É fácil de localizar concerteza,

Sempre em frente
Para além da linha do horizonte!



Décio Bettencourt Mateus
in "A Fúria do Mar"

saudades de um ex-amor















construo sólidos castelos d’areia
que se destroem
no contacto
com a ímpia suavidade da onda.

… aspiração frustrada.

amor na concha de vento
no êxtase poético
na ondulante curva
da nossa união. na areia.

… amor na interrogação da onda.

minha lágrima:
néctar salgado
pérola de esperança
no mar adocicado.

… para quando o reencontro?



Conceição Cristóvão

Há Momentos



















Há momentos na vida de um Homem
Em que sabe que acordou diferente
E que já não é o mesmo para ele,
Mesmo que o seja para toda a gente...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma Mulher
Aquela que lhe trouxer
A flor do sexo
Desenhada a vermelho no ventre
E nada lhe perguntar...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma mulher
Aquela que lhe trouxer,
Num abraço total,
A ilusão da vida inteira...
E, depois, partir
Com a esperança de vida que ele semeou...

Há momentos na vida de um Homem
Onde só pode entrar uma Mulher
Para todo o Mundo se resumir
À flor vermelha
Como um bocado de sol
Que desponta numa telha!


António Cardoso

Medo e cruz



















De medo e diabo trazes o corpo envenenado enquanto a
mente balbucia incoerências
Por trás do véu de instintos espicaças a carne
O desejo sob uma resma de salmos
Em nome de que virtude contra quem levantarás a cruz
Um púlpito
A carne
Uma cruz
Ao mistério da criação a humanidade


Amélia Dalomba

Meu amor da Rua Onze





Tantas juras nos trocamos,
Tantas promessas fizemos,
Tantos beijos roubamos,
Tantos abraços nos demos.

Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais mentir.

Meu amor da Rua Onze,
Meu amor da Rua Onze,
Já não quero
Mais fingir.

Era tão grande e tão belo
Nosso romance de amor
Que ainda sinto o calor
Das juras que nos trocamos.

Era tão bela, tão doce
Nossa maneira de amar
Que ainda pairam no ar
As promessas que fizemos.

Nossa maneira de amar
era tão doida, tão louca
Qu'inda me queimam a boca
Os beijos que nos roubamos.

Tanta loucura e doidice
Tinha o nosso amor desfeito
Que ainda sinto no peito
Os abraços que nos demos.

E agora
Tudo acabou.
Terminou
Nosso romance.

Quando te vejo passar
Com o teu andar
Senhoril,
Sinto nascer

E crescer
Uma saudade infinita
Do teu corpo gentil
De escultura
Cor de bronze,
Meu amor da Rua Onze.


Aires de Almeida Santos

Marginal do teu corpo (a confissão do outro)



















Foto de Alecu Grigore, via "O Jumento"


No teu corpo adormeço
Horas longas permaneço
No asfalto da noite…
Revejo cenas do dia


Repasso actos alheios
Extasiado!
Vejo-te…virgem… Beijo-te nua
Serena só para mim!

Viro-me todo… Abro tudo…
Cuidados me cercam
Tuas curvas lânguidas… imagino:
– invejo o prazer alheio:
– deixo fluir as mágoas
Beijam-me águas luandinas
Na curva da madrugada…

Sinto a maresia
A farfalhar-me o ouvido
Solto-me…Venho-me…
Esqueço-me de tudo!
Tudo esqueço
Até minha condição precária!



Isabel Ferreira

Sinfonia














A melodia crepitante das palmeiras
lambidas pelo furor duma queimada

Cor
estertor
angústia

E a música dos homens
lambidos pelo fogo das batalhas inglórias

Sorrisos
dor
angústia

E a luta gloriosa do povo

A música
que a minha alma sente



Agostinho Neto

Doçura



















Quando a fitei extasiado,
Suas mãos pálidas, mimosas,
Escolhiam frutas bem cheirosas
Num recanto calmo do mercado.

E por mero acaso, (eu sei!,
Senhora minha desconhecida,
Ai! só por mero acaso...)
Vossos olhos belos,
Plácidos e meigos,
Negros, fulgurantes,
Sobre mim poisaram,
– P’ra logo se afastarem
Indiferentes, distantes...

Ao compor na rede
A gostosa fruta,
Um pouco vos baixastes
E o decote largo
Do vestido azul
Afastou-se lento
Como onda branda
De cansado mar...


Maurício Gomes

Teus olhos de dendém















Imagem de "Angola Minha Terra"





Para a M. J.


Naquela noite eu disse
lá em casa
que ia prò cinema.

Cruzei a Baixa toda
entrei numa boate
– a mais fina de Luanda –
e fui dançar com ela
apaixonadamente.

Ela era uma pequena
de Malange.

Tinha nos olhos
brilhantes como incêndios ao luar
o claro escuro
dos bagos
de um cacho de dendém.

Naquela noite
dançámos loucamente
apaixonadamente.

Tinha a pele clara
como qualquer daquelas
mulheres que eu conheci
nas longas noites invernais
da Europa.

Mas o olhar
ai
o olhar
trazia o sofrimento
das noites Africanas.

Nunca mais pude esquecer
aquela rapariga branca
de Malange
que tinha os olhos lindos
como as cores
dos bagos
de um cacho de dendém.

Nunca mais
ai, nunca mais
dancei assim
e nunca mais a vi
dançar assim
tão loucamente
alucinadamente
a rapariguinha branca de Malange
que tinha o corpo esguio
o ritmo no bailar
esse ritmo de uma qualquer mulata
das minhas longas noites Africanas.

Nunca mais dancei assim
tão desvairadamente
apaixonadamente
os lábios num murmúrio
a boca num perjúrio
seus seios no meu peito
amachucadamente
aqueles cabelos negros
roçando a minha face
os cílios desse olhar
com gotas de luar
que tinha as ambições
o claro escuro
dos bagos
de um cacho de dendém.

Nunca mais
ai, nunca mais
dancei assim
tão loucamente
apaixonadamente...



Ernesto Lara Filho

Encontro de acaso



















Na tristeza de meus olhos
Pousaram suaves os teus.
Nos meus lábios secos de tabaco
Roçaram suaves os teus.
Mulher!
Nem sabes a força que deste
A este desespero calado
De rebentar as amarras
De um dongo numa praia de pesadelos
Varado.


António Cardoso

Fabuloso