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Finalmente a verdade



















Óleo de Gerhard Richter, aqui




Estava linda e purpurina
Saciando a fome e sede à solidão,
Quando de entre as mãos sujas,
Do Carteiro amarfanhado,
Estremeci ao tocar na mensagem
Vinda dos roseirais.

Mandaram-me os delírios da discórdia,
Os insultos de paixões sovinas egoístas.
Mandaram-me o corpo e
A mulher negra tão amada.
Mandaram-me o filho,
Por mim mal parido.

Lágrimas correram ao ter nas mãos
A mensagem que não tinha,
O cheiro doce dos roseirais,
Nem a cor mimosa das flores sensuais.

Continha, sim, finalmente a verdade;
Das epopeias de um amor repudiado.

Faltava pouco amor,
Para te encontrar então nas esquinas
Mais queridas das cidades,
Que em múltiplos orgasmos imorais,
Naufragávamos juntos para além,
Além dos roseirais!




Ana Maria Branco

Sei que aos 30...
















Sei que aos 30,
já a velhice me alcançou
e a vida me venceu.
E há muito tempo que caí de medo.
Há muito tempo que arde
na fogueira a chama da vida.
O fumo
que dela sai,
confunde-se com as nuvens no céu,
confunde-se comigo.



Ana Maria Branco
In “Antologia da poesia feminina dos PALOP”

Primeiro poema


















Senti entre o sono e a certeza uma ave desenxabida de cores
Lutando dentro de mim,
Esgrimindo com Deus e o Diabo…
Tentando esgueirar-se por algum orifício do ar que só ela sabia existir.

Estou com Deus dizia, estou com o Diabo sabia…

Não.
Estou com Deus menino
Neste largo desfiladeiro em que me encontro liso e escorregadio.
Escorregadio, tão desumanamente perdido no pólo Norte ou Sul,
Bêbedo do álcool que não mais importava,
Simplesmente sem que o vento soprasse,
Sentia essa ave lutando dentro de mim esquivando-se da vida…

Queria voar,
Mas tão longe estava o chão que de certeza me magoaria…
Queria gritar,
Mas a afonia ensurdecia os miseráveis e os distraídos,
Queria chorar,
Mas a gota húmida do choro, a lágrima,
Caía em desalinho no solo,
Nas calças em xadrez de Accra,
Nas escadas que levavam ao inferno delicioso
Que todos tentam esquecer (ignorar)
E assim, as gotas húmidas das lágrimas;
Caíam no remoto e imenso calcanhar
Que um dia a ave possuíra…

Queria pentear os cabelos…

Ah! Que engraçado…
Onde teriam eles os cabelos bonitos e os cachos ido parar?
Sabia a ave desenxabida de cores que nunca mais sentiria os cabelos…
Os anos passaram,

Os séculos despertaram
E finalmente chegaram os milénios
E a ave nunca mais sentiu os cabelos.

Sentiu sim,
As mãos.
Essas mãos lindas de Deus e desejadas pelo Diabo
Que em vida tão amargamente nos queimam beatas de cigarro nos
lábios.
Sentia tão perto de si a ave,
As mãos que puxando,
Puxando…
Iam torturando aquilo que outrora
Tinha sido a ave graciosa em cores e sabores…

Queria amar,
Mas não podia porque tristeza…
Diziam os reflexos de mim ao espelho que já tinha amado.
MEN-TI-RA..
Tinha sim a ave limitando-se à fêmea
Como o macho ao íman, nada mais, nada mais…

E lindos são eles os que ficaram
As duas estrelas cadentes
No céu que Deus e o Diabo
Lembraram-se de me presentear
No dia em que acordei com a certeza
Que tinha sido o sono e vi que não morri.



Ana Maria Branco

Décimo sétimo poema





















E,
O tempo que não passa para me trazer sorrisos,
Pois percorro-o à espera de chegue a hora
Em que possa apagar tudo para não sofrer mais...
Apagar o dia em que nasci em terras ciocas;
Apagar os primeiros anos;
Apagar as lembranças da infância perdida pelo capim,
Com os amigos das sanzalas vizinhas,
Apagar a primeira visita à cidade;
Apagar os sonhos sobre as pernas longas do Infante Henrique;
E os braços ondulantes do Príncipe Perfeito, tão lindo;
Apagar os anos na metrópole; o colégio de freiras;
As brincadeiras e risadas das crianças no pátio,
As missas de Domingo todas elas rezadas;
Os cânticos a que me forçava decorar,
As matinés do Sandokam e do Trinitá
A Cristina amiga de Santiago que nunca mais vi;
Apagar a perda de um lar;
Apagar a infância mal vivida,
O trabalho a que me obrigavam;
O sol que me queimava;
A enxada que me esfacelava as mãos;
As ervas daninhas e orvalhadas que cortava;
As vezes que meus pés as uvas frescas de Setembro esmagavam
As idas e vindas constantes ao alambique
As pedaladas a caminho da escola; tendo Zorba por companhia;
O peso que carregada às costas do burro humano a que me chamavam;
Apagar o quarto frio e feio onde cresci;
O medo de morrer gelada durante o Inverno;
Os poucos beijos que a meu Pai dei enquanto crescia;
Apagar as fugas para os milharais;
O livro lido às escondidas;
A madrasta que não me via;
O Pai que não me sentia;
A mãe que me esquecia;
As irmãs que de mim dependiam;
Apagar o tempo que fugiu;
A chegada ao outro lado do Atlântico;
O primeiro amor;
A grande paixão de 84
O casamento falhado com as culturas de sangue dos ilhéus;
Apagar o tempo;
Apagar as dores de parto que tive;
Apagar os filhos;
Apagar os anos em terras shonas; onde vi as ruas cobertas
de laranja, rosa, amarelo, violeta;
E senti o cheiro do belo da decência;
Apagar o tempo calmo em terras de Samora,
Onde falei o ronga e visitei os beira;
Apagar as alegrias, as tristezas, os sorrisos os choros e as gargalhadas;
Apagar as lágrimas;
As mentiras que contei e as que ouvi O esforço do sustento;
A fome; As Guerras, Os mares e os Oceanos;
A necessidade;
Apagar os amores;
Os sonhos; as vezes que amei e fui amada;
Apagar os amantes, os amigos, a família, os conhecidos;

Apagar os livros
As histórias;
A poesia;
Os poetas; Apagar as luzes ir embora...

Apagar tudo para não sofrer mais!



Ana Maria Branco

Chovia simplesmente

























Saí...
E meu corpo sacudiu estonteante
Ao embate do vento
E da chuva na pele
Sangrava violentamente o espírito desesperado
Que lutava pelo escasso espaço a circular pelas artérias,
Lutava para me manter à tona.
Os pulmões vomitavam os sons lindos da morte.

Estava a morrer
Enquanto o mundo fugia devagar
Por toda aquela maré.
Já todos tinham ido embora,
Tinham todos fugido da chuva
E do vento
Gritando os nomes sonantes dos parentes
Já falecidos lá longe pelas velhas matas do Maiombe.

Estava a morrer,
Mas ecoei os ecos dos mortos
Enquanto lutava para chegar ao único sítio
Onde seria feliz
à sombra da minha árvore.

Despertei,
Não choveu
Eram as lágrimas de uma criança que me molhavam.



Ana Maria Branco